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por FJV, em 22.01.06
||| E pronto.









Verdes são os campos.

Tu tens, graças as Deus, dois bons pulmões.
Se fumas não te miam. E é catita
Também o coração. Quando te pões
Gingando ao querer valsar, não se agita.

Até tens bom nariz para o ar imundo,
Nas favas provas químicos valentes,
Pão sem farelo põe-te furibundo,
Por dia lavas seis vezes os dentes.

Mas uma voz te assusta noite fora,
Que diz: «Falhaste em todo o teu caminho.
Mais vale o pó do enxofre meia hora
Que dez anos de ar puro, mas tolinho.»

Gerrit Komrij
De Contrabando. Uma Antologia Poética (Assírio & Alvim)

Tradução de Fernando Venâncio.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 15.
Um sapo com óculos acaba de dizer, na televisão, que Cavaco ganhou com 0,6 % de vantagem. A diferença entre Cavaco e Manuel Alegre é a que vai de 50,59% para 20,72%. A menos que os quatro candidatos, afinal, sejam uma mesma coisa. E não são. Mas, enfim, é a diferença entre um sapo com óculos e uma pessoa honesta.

A Carla chama a atenção para o fenómeno.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 14.
É inexplicável que Manuel Alegre tenha dito que ficou a décimas dos seus objectivos, seguindo o raciocínio do Diário de Notícias de hoje, ou seja, reafirmando que o único objectivo era levar Cavaco Silva à segunda volta. Pobre esquerda que se contenta com a pequena «liga dos últimos» e não compreendeu, desde o princípio, o que estava em causa -- compreender um país que tinha mudado entretanto.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 13.
Os que durante um mês e meio anunciaram a tragédia, o desastre, a catástrofe, o golpe de estado, miséria no lar, sangue na estrada, reviravoltas e tristezas, vão agora tirar o cavalinho da chuva e fazer marcha-atrás, como se não tivesse acontecido nada. Como se esperava. Mas há uma vantagem no nosso tempo -- tudo isso está registado. Não conseguirão esconder que transformaram a campanha eleitoral numa guerra de carácter, pessoal, sem «fair-play democrático» (a expressão é de Soares ao reconhecer a derrota), tentando ganhar pelo medo, pela queixinha ignóbil e pela arrogância. Amanhã começará a tentativa de desvalorizar a vitória de Cavaco e de esquecer o que estava em causa nestas eleições: mudar o ciclo político, mostrar que a Presidência não é património de ninguém, permitir que os herdeiros do PREC façam parte da nossa história mas não a condicionem nem viciem o jogo ou o debate. Durante um mês anunciaram a tragédia e ameaçaram exilar-se caso Cavaco ganhasse. Cavaco ganhou, felizmente. A vida regressa e os combates são outros. Podem encolher o dedinho autoritário, reaccionário. Já ninguém tem medo deles.

Adenda: esta é uma reacção inesperada, de contabilista que tenta apenas justificar perdas e danos. Não esperava isso do A. B.

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por FJV, em 22.01.06
||| Habituem-se.
Bom discurso de Cavaco. Para já, fiquei a gostar do Presidente. Presidente da República.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 12.
Não vale a pena elogiar o passado de Mário Soares, como estão a fazer uns cavalheiros instrumentais nas rádios. Esse passado ninguém lho pode subtrair à biografia, ao contrário do que fariam os estalinistas novos e antigos (e estas eleições mostraram que alguns se refugiaram no PS). É bom que Soares, seriamente derrotado (pessoal e politicamente) agora que o país regressa à normalidade, regresse também à normalidade. Com o tempo esqueceremos isto. O soarismo acabou, ferido, envilecido e desnecessariamente crispado. E Mário Soares regressa ao pedestal da história. Onde fica razoavelmente.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 11.
Sócrates a interromper Alegre nas televisões. Não é falta trapalhona de timing. É uma declaração trapalhona e desnecessária de guerrilha, mais do que mau-perder.

Mas também não percebo porque é que, em noite de eleições presidenciais, as televisões mudaram as câmaras para o secretário-geral do PS, seriamente derrotado, debitar banalidades. Falta de critério.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 10.
Por pouco, temi pelos sonhos do José Mário. Infelizmente, os seus pesadelos não se confirmaram.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 9.
Uma pequena frase de Alegre, que vai ouvir-se no PS: «Ficou a lição.»

Adenda 1: Mas parece que Sócrates não a aprenderá.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 8.
Depois de mostrar a face de tolerância e de bonomia durante a campanha, Jerónimo de Sousa mostrou na sua declaração final que volta a ser Jerónimo. Ele -- também -- já aprendeu que a campanha é marketing puro. Não interessa o que se diz. Ele voltou para o seu século, reaccionário e Jerónimo.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 7.
«(...) O facto de a possível eleição de Cavaco Silva representar um alto risco para os portugueses.»

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 6.
«Ficou claro que Alegre não é o melhor candidato da esquerda.»

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por FJV, em 22.01.06
||| ||| Segunda-feira, 5.
Confirmando a sua campanha palavrosa de evangelizador e moralizador, a declaração final de Louçã foi sacerdotal e de marcha-atrás. Fala de derrota da esquerda mas de a esquerda não ter perdido (em Fevereiro, o Bloco teve 6,4%). Fala de vitória da direita (o que não é verdade) mas diz que a direita não venceu. Louçã, mesmo descontando a linguagem simbólica e sacerdotal, cheia de metáforas e lugares-comuns, não valoriza eleições. Eles nunca aprendem. E ele, especialmente, nunca perde.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 4.
Ao contrário da sua campanha, deplorável e mal feita, a declaração final de Mário Soares foi digna e clara.

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por FJV, em 22.01.06
||| Domingo.













Já está.

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por FJV, em 22.01.06
||| Terça-feira, já muito lá para a frente.
Miguel Portas declara que vivemos sob «um governo de direita, embora socialista». Já é terça-feira para o Miguel.

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por FJV, em 22.01.06
||| Domingo.
Se há coisa absolutamente incompreensível é o conjunto de razões desconhecidas que levaram o PSD a pôr-se em bicos de pés para vir falar quando não devia.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 3.
O porta-voz de Louçã, diz que os resultados penalizam o PS. Espero pela primeira declaração a dizer que o Bloco de Esquerda venceu estas eleições.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira, 2.
Acabo de ouvir Vítor Ramalho declarar que Soares não perdeu; apenas não venceu. Bem me parecia.

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por FJV, em 22.01.06
||| Segunda-feira.
A dois minutos das 20:00, uma coisa já se sabe: é quem perdeu pela arrogância. Fica mesmo em terceiro.

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por FJV, em 22.01.06
||| Vitória histórica.
A ideia, que vem hoje no Diário de Notícias, sobre a realização da segunda volta como «uma vitória histórica da esquerda», é uma derrota absoluta e histórica da esquerda. É uma menorização absurda da esquerda.

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por FJV, em 22.01.06
||| Síndrome de Schadenfreude.
Confirmado: os homens são muito piores. Mas não é bem isso.

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por FJV, em 22.01.06
||| Acabou a reflexão.






Já está, já foi.

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por FJV, em 22.01.06
||| Posta restante. (com actualizações)
Luciano: sempre que quiseres, é só pedir; as fotos andam por aí (Charlotte: o mesmo para ti.). Luís: já trato do estreito de Magalhães. LA: a presença (mas não abundância, que somos gente decente) de charutos e de bebidas destiladas, bem visível, diz bem da ponderação. Sim André: era ele -- e conspirou bastante; só acalmou na altura de acender o Montecristo. Quanto a ti, Gold Fisher, a descrição que vem no teu blog peca por defeito.

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por FJV, em 22.01.06
||| Poeira, 1.









Havia poeira, naqueles dias de Inverno e sol. Barraquinhas de churros, farturas, algodão doce e as primeiras pipocas que chegavam à cidade. A evocação é infantil, pré-adolescente, mas junta-se à das barraquinhas de matraquilhos, tiro ao alvo, ruído do poço da morte, carros-de-choque e várias juke-boxes instaladas ao longo da avenida. E soldados vestidos com farda completa, verde-azeitona, saídos do Batalhão de Caçadores 10, passeando de braço dado com vagas namoradas sazonais, promessas de Outono, de Inverno, da Primavera ameaçada. E havia poeira dançando entre os plátanos. E moedas de 1$00 trocadas para produzirem canções como aquelas, hinos luminosos e inesquecíveis, vozes de um portento chamado Nelson Ned. As juke-boxes competiam. Nelson Ned. Tudo passou, tudo passará. Nelson Ned (o de «Domingo à tarde») e Nilton César (o de «Espere um pouco, um pouquinho, mais»). E Lindomar Castilho. E Teixeirinha. Havia uma versão unplugged de «Sentado à beira do caminho» (mas nós não sabíamos o que era «unplugged» no país que cantava acompanhado à guitarra e à viola), que ele tinha composto para Roberto Carlos. Os meus ouvidos lembram-se ligeiramente de Bartó Galeno (que cantava «No toca fitas do meu carro») e de Marcos Roberto ou Dori Edson. As canções de Cauby Peixoto também ecoavam nesses recintos de feira. As raparigas passeavam com os militares do Batalhão de Caçadores 10, os que iriam depois para Bafatá ou para a Baixa do Cassanje; eram pobres, modestas, vestiam casacos de malha e saias de xadrez, quando nós recusávamos as calças à boca de sino. As moedas de 1$00 (um escudo) davam para uma canção apenas, mas havia o bónus de três canções por 2$50, com o prémio suplementar de uma partida de matraquilhos. Ao fim-de-semana, elas passeavam também com os empregados das lojas de fazenda, das mercearias e das repartições, e ouviam Gabriel Cardoso cantando «O autocarro do amor» quando nós fugíamos para casa a ouvir Songs from the Wood, os discos de Van Der Graaf, o que restava da guitarra de Deep Purple, os sintetizadores dos Emerson Lake & Palmer, dos Uriah Heep, a guitarra dos Slade (a de Dave Hill a acompanhar «I won't laugh at you when you boo-hoo-hoo coz I luv you, yeah, I can turn my back on the things you lack coz I luv you»). Eu lembro Songs from the Wood porque foi um disco que mudou uma das minhas primaveras, antes ou durante a revolução, não recordo. Flautas. Guitarras. Vozes vindas dos pântanos. Ofereceram-me o disco juntamente com duas cassetes dos Fairport Convention. Não tive culpa.









Mas eu não tinha culpa de haver canções de Nelson Ned a sair das juke-boxes da avenida. Na altura eu ouvia o disco que mudaria a minha vida, os Temptations cantando «Papa Was a Rolling Stone» («Papa was a rollin' stone, wherever he laid his hat was his home») e, depois, «Just my Imagination» («Each day through my window I watch her as she passes by, I say to myself you're such a lucky guy, to have a girl like her...»). Sim, eu depois falo-vos de Harold Melvin & The Bluenotes, de Gladys Knight & The Pips, de Barry White, de Marvin Gaye ou Tammi Terrell. Mas eu lembro-me é dessa poeira, dos casais atravessando a avenida ao som de António Teixeira cantando «Adeus Guiné, serás sempre Portugal» e de Nelson Ned cantando «Tudo Passará». E nunca pude, na verdade, rir-me de Nelson Ned nem de Nilton César ou Lindomar Castilho. Quando a bossa nova começava a chorar, do lado de lá do mar (e nós não sabíamos), nenenhén, nenenhén, os casais tristes ouviam com alegria aquela inocência malvada de «Dois num só coração» ou de «A namorada que sonhei».

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por FJV, em 22.01.06
||| Ainda Brasil. Dirceu e Paulo Coelho, ou a toca dos cangurus.









Já me esquecia. O ex-ministro Dirceu, o manipulador de Brasília e manobrista do mensalão, passou o reveillon em casa de Paulo Coelho, o mago. Do PT para realidades mais mediúnicas. Esta foto, que o Gonçalo Soares publicou, mostra Dirceu, Coelho e aquele apoderado chamado Fernando Morais (que é o biógrafo oficial do ex-ministro), numa cerimónia ritual. Acho que estavam a ouvir música de Raul Seixas.

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por FJV, em 22.01.06
||| Brasil: Lula na corrida dos cangurus.
Sim, ele vai acabar por ser reeleito. Nas sondagens recentemente publicadas no Brasil, Lula volta a subir e, finalmente, ultrapassa José Serra (e Alckmin, naturalmente) nas «intenções de voto». A Isto É, modelo de «informação independente», como se sabe, cedeu a sondagem ao Jornal Nacional da Globo: lá vai Lula. Ora, acontece que a pesquisa não informava sobre os resultados da segunda volta das eleições. Toda a gente pensava que esses dados não constavam do estudo. Mentira. A Isto É é que não os entregou: é que Lula ganharia no confronto com os outros candidatos «no segundo turno». Menos de Serra. A revelação foi feita pelo blog do Josias de Souza, da Folha, e pela Veja.

Entretanto, confirma-se a hipótese de o lugar de vice de Lula na sua recandidatura ser ocupado por aquele personagem pardacento e inchado chamado Nelson Jobim. (Rogério, temos de refazer as contas...)

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por FJV, em 22.01.06
||| Obrigado, Google. (Ou o que é um liberal à moda antiga.)





Ora aí está outro debate. Invocando a pornografia, raiz de todos os males (da imoralidade das ruas à decadência do romance), as autoridades americanas querem que a Google Inc. forneça «uma lista com todos os termos digitados na caixa de buscas durante uma semana específica». A intenção é declaradamente moral & higiénica, como geralmente acontece. Os responsáveis do Google não a forneceram, tal como não facilitaram o acesso a um banco de dados com mais de um milhão de endereços web. Claro que «os analistas» invocam também o «segredo comercial» -- ao fornecerem os dados pedidos pela administração americana, estes acabariam por chegar às mãos da AOL, da Microsoft ou da Yahoo. Ambas as razões me parecem decentes, além de legítimas: proteger a privacidade dos que usam o motor de busca e salvaguardar os seus interesses comerciais.
Na China, a Yahoo e a Msn não só fornecem ao governo chinês todos os dados sobre os utilizadores que digitam palavras proibidas (como democracy, freedom ou sex), como proibem os acesso dos utilizadores a sites onde essas palavras apareçam com frequência. São razões para não confiar. Prefiro quando os «interesses comerciais» se aliam aos interesses da liberdade.

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