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por FJV, em 27.12.05
||| Queixinhas.
As rádios e as televisões encheram-se de declarações de protesto por causa de uma entrevista de Cavaco Silva ao Jornal de Notícias. Não me admira, porque os cavalheiros não têm assunto para mais. Esta «frente comum» aproveitou meio parágrafo para ressuscitar «a ameaça do monstro» e para demonstrar como estão unidos e combativos. Não estão. Não combateram nada. Não avançaram uma ideia, um protesto, uma frase adversativa (Gomes Canotilho, que poderia falar sobre o assunto, limitou-se a generalizar sobre «estilos presidenciais»). Limitaram-se a uma «aparição especial», denunciando «indícios», oh coisa vergonhosa, para aparecerem no meio de uma campanha eleitoral fastidiosa e longa demais, na ressaca do Pai Natal. Mas, em vez de discutirem, de debaterem, de desaprovarem, de contrapor -- queixaram-se aos eleitores. São queixinhas. Não são para levar a sério.

PS - Bastaria uma vista de olhos aos discursos de Soares enquanto foi presidente, a algumas aparições de Sampaio, ou às ameaças de Alegre sobre dissolução do Parlamento, para desvalorizar as queixinhas.

Adenda: completamente de acordo com João Gonçalves. Que ideia teria passado pela cabeça de Cavaco para vir meter-se em irrelevâncias?

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por FJV, em 27.12.05
||| Balanço, 8.
Eu gostava daquele ar. Na altura trabalhava num restaurante e, por isso, como tinha de ir preparar o dia bem cedo, chegava à faculdade antes da hora. Tinha uma Renault 4. Por volta das oito e meia da manhã sentava-me à espera dos frequentadores de Literatura Brasileira; éramos apenas seis ou sete, não sabíamos nada de Anchieta, do Boca do Inferno, de Gândavo, de Olavo Bilac, de Castro Alves, da abertura quase sinfónica de Os Sertões, com aquela descrição brutal da geografia brasileira. Nem de Aluísio de Azevedo ou dos mineiros obscuros, da galeria de gaúchos que falavam das neblinas do pampa e da convulsão farroupilha. Nem dos modernistas e antropófagos (Oswald de Andrade sim, que devorara Isadora Duncan -- o seu tio, trinta anos antes, tinha atirado ao chão de São Paulo a capa de estudante de Direito para que Sarah Bernhard passasse por cima, o que mereceu o escárnio de Eça). Tínhamos alguma aversão por Jorge Amado, certamente justificada mas injusta. O máximo que as meninas tinham lido era O Meu Pé de Laranja-Lima. Rubem Fonseca seria publicado em Portugal apenas dois anos depois (Feliz Ano Novo). Mário António, o poeta angolano que fora meteorologista, ensinava literatura brasileira com ironia: «Tenho uma má notícia», anunciou na primeira aula. «A literatura brasileira é muito melhor do que a portuguesa.» Houve algum escândalo nas cadeiras enquanto ele se voltava para o quadro, sorrindo e escrevendo quatro versos de Castro Alves. Mário António trabalhava também na Gulbenkian, a dois passos, e chegava antes. Um dia de Março, aquele sol a bater nas derradeiras buganvílias da faculdade (seriam arrancadas), emprestou-me o jornal e disse: «Parece de Bertioga, esta luz.» Só compreenderia isso dez anos depois, mais ou menos, quando cheguei a Bertioga ao princípio da manhã, vindo do outro lado, de Santos. E lembrei-me dos versos de Castro Alves, que, como acontece com quase todos os versos, não tinham nada a ver com isso.

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por FJV, em 27.12.05
||| Blake, eu imagino.
Miss Pearls balança e recorda o Pavilhão Velho da faculdade: «[...] Só muitos anos mais tarde percebi o motivo por que as colegas da sala ao lado nunca faltavam às aulas sobre o Blake e tinham aquilo tudo na ponta da língua. Desgraçadamente, do Blake só me recordo das ilustrações, mas em compensação, anos mais tarde tornei-me amiga do professor e elas não.»

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