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por FJV, em 26.12.05
||| Balanço, 7.










Chomsky era profundamente odiado entre os futuros evangelistas. Eu gostava. Aquela tentação anti-historicista, o racionalismo total (as estruturas cognitivas inatas), a ideia de modelo em que tudo teria de se encaixar (o modelo de 1957, o modelo de 1965, etc., etc.), as sequências matemáticas, a ideia de maquina, e a irritação que causava a frase «The boy hit the ball» (os que passaram os tormentos da gramática generativa sabem ao que me refiro) -- tudo isso era agradável e lúdico. E chato, confesso. Os chomskyanos eram reaccionários. Quem lia The Logical Structure of Lingusitic Theory ou as Lectures on Government and Binding (acabadinho de sair, na altura, um chique), não podia confraternizar com Saussure, Piaget, Foucault, etc. O quadro, definido assim, é muito redutor. Mas não cabia na cabeça de ninguém que um racionalista tão radical como Chomsky, cujas investigações no MIT eram pagas pelos militares americanos, fosse outra coisa. Até que um dia alguém decidiu reunir os textos de Chomsky sobre o Vietname e as malvadezas da CIA. E acabou a nossa ignorância sobre o tema.

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por FJV, em 26.12.05
||| Constante.
Constança Cunha e Sá na blogosfera.

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por FJV, em 26.12.05
||| Balanço, 6.
Matéria de romance. Íamos os dois de comboio à quinta-feira para Madrid, de vez em quando. Mais tarde ele seria ministro (e bom), mas na altura bebíamos vodkas nos bares mais escuros de Espanha. Na sexta-feira, até ao crepúsculo, percorríamos as livrarias e jantávamos tarde, contabilizando bibliografias, rindo da universidade. Quando vinha a conta percebíamos que era necessário mudar de hotel, mudar de profissão ou mudar a tese. Mudámos. Já nessa altura éramos darwinianos.

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por FJV, em 26.12.05
||| Balanço, 5.
Quando pensei escrever a tese, esse momento lancinante e na altura dramático (jovens assistentes perdidas entre Xanax e cachecóis, embrulhadas em fichas, caminhando com solenidade entre aulas, ou mestrandos aplicados onde sempre havia os melhores -- os mais irónicos, os mais soezes, os mais verrinosos, os talentosos que sabiam que Camilo era melhor do que a discussão sobre a natureza do romance e que Machado era superior à lamechice sobre o realismo)*, escolhi uma coisa grandiloquente. Só podia ser assim. O meu orientador vivia em Madrid, respirava a noite de Madrid, conhecia as mais bonitas universitárias de Madrid, o seu carro desfazia-se aos pedaços subindo os passeios, tinha uma biblioteca espantosa sobre literaturas nórdicas -- e tinha escrito, entre outras, uma tese sobre o artigo definido em islandês antigo. Eu ia a Madrid, almoçávamos longamente, até tarde. Falávamos sobre política (ele era trotsquista, mas da facção gastronómica), futebol (ele era madridista) comíamos, eram lições comoventes sobre o Edda, o Havámal, os pequenos versos dos vikings, a geografia do Norte. Percebi que estava perdido.

* Sim, eu acho que os estudos de Abel Barros Baptista são do melhor que há sobre literatura.

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por FJV, em 26.12.05
||| Poesia & Lda.













Poesia ilimitada: João Luís Barreto Guimarães tem um blog sobre poesia. E arranca com uma surpresa para barrar preconceitos: Dan Brown (esse mesmo, o de O Código DaVinci) começou pela poesia; o seu primeiro livro levou o título Matter, e João Luís transcreve e traduz um dos poemas, «As Seen at the Uffizi» (Crosstown Books, 1995).

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por FJV, em 26.12.05
||| Balanço, 4.
Um dia apareceu sobre a mesa da biblioteca um livro de Charles du Bos. Um pré-histórico, para não dizer reaccionário. Antes o ensaio de Jean-Paul Sartre que levava o mesmo título. «O que é a literatura?» Ora, a pergunta não era essa, mas sim: «O que é um texto literário?» (a questão da literariedade era igualmente pré-histórica, valha a verdade, e ninguém se preocupava muito em estudar os textos originais, tanto mais que tínhamos descoberto, oh vaidade pós-adolescente!, que Jakobson se referia apenas à poesia modernista russa). As questões fundadoras eram mais importantes do que a literatura. Foram precisos anos de várias desilusões para perdermos o campeonato. Mesmo aí, a lição veio dos mestres. Em Portugal, Jacinto do Prado Coelho, por exemplo. Ele não era professor da minha faculdade, mas fui espreitá-lo. Aquela alegria era fatal para desmoralizar a nossa vontade de exaustão. Ser impressionista, esse pecado mortal, nem sequer se aprendeu nos livros -- mas na literatura ela-mesma. Ou seja, nos desencontros entre a nossa vida e as nossas leituras. Acho que foi por isso que nunca quis ser professor de literatura. Quando tive que ensinar (quis ensinar) dediquei-me a matérias pouco ou nada flutuantes. O claustro da universidade onde ensinei, em Évora, provou depois que essa intuição estava certa.

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por FJV, em 26.12.05
||| Balanço, 3.
Eu tomava o 18 ou o 42 para ir para a faculdade (na Av. de Berna, claro). À hora de ponta, encontro-o cheio de livros debaixo do braço, além da pasta; éramos de faculdades diferentes mas o «demónio» tomara conta de nós ao mesmo tempo, e às vezes trocávamos fotocópias. Naquela tarde de chuva ele entrou no autocarro, cheio, a transbordar, em plena Av. da República. Aceno-lhe (eu levava o Se7e na mão). Ele grita o meu nome e acrescenta, do fundo do corredor: «Estou a ler Greimas! Estou a ler Greimas!» Sorri, acho eu, corando. E murmurei para o Fernando, que ia comigo: «Pois, o jogo é domingo...»

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por FJV, em 26.12.05
||| Balanço, 2.










Um dos debates era sobre «a alma». Ora, «os estudos literários» não deviam ter nada a ver com «a alma»; a sua matéria eram os textos, as estruturas, as recorrências & repetições, as viagens alucinantes à «gramática profunda» do texto, as contribuições dos mestres (não, não Barthes, sobre quem havia desconfiança depois de S/Z)*. Interrogação pura, literatura transformada em «matéria fanérica». Lembro-me que, uma tarde, a meio de uma aula, Eduardo Prado Coelho mencionou «a alma». Fez-se um silêncio (nessa altura ele ainda não tinha começado o mestrado sobre «pós-estruturalismo»). Um de nós, que tinha devorado Les Mots et les Choses e um pacote que ia de Mukarovsky a Levin, de Lotman a Riffaterre, durante o primeiro semestre, deixou passar o momento de incómodo e perguntou: «Sim? E o que é a alma? Não tem nada a ver com a literatura.»

* - Sim: nessa altura Kristeva ainda não se tinha dedicado a profissões mais lucrativas e Todorov ainda era um mestre de régua & esquadro.

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por FJV, em 26.12.05
||| O balanço.
À medida que vou fazendo o balanço dos livros do ano e lendo os dos outros, aqui e ali, vou reparando como estavam certos os pessimistas das aulas de teoria da literatura durante os debates da faculdade. Alguns terminavam em insulto. Eu era contra «os impressionistas». Na verdade, o estruturalismo era a doença infantil dos estudos literários modernos: tudo a limpo, com aquela transição suave para a «desconstrução». Li muito Paul De Man. Quando encontrei o «pai do estruturalismo» pela frente, numa sala de aula, vi que ele já tinha feito outra transição, para a «hermenêutica», para os clássicos alemães; e que nós tínhamos sido ultrapassados «pela direita». Não me senti traído; senti-me um personagem das novelas de Tom Sharpe, quando Eva Wilt vai de fim-de-semana com um «casal moderno» e «sexualmente livre» para descobrir que era tudo fachada.

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por FJV, em 26.12.05
||| Apostas? Aposto que sim.
A polémica das apostas é ridícula. É ilegal? Parece que não. Que mal faz? Desconfio que me argumentarão com a honorabilidade das coisas presidenciais e com a altíssima carga política que a coisa transporta. Eu sei. Já fiz umas três apostas para estas presidenciais. Venham cá com ameaças da CNE.

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