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por FJV, em 09.02.06
||| Respeito & bom-senso.
Ouvi há pouco o Ministro Freitas do Amaral na SIC Notícias a tentar explicar melhor a sua reacção à questão dos cartoons. Continuei a não compreender. Como escrevi ontem e hoje repito, não está em causa a necessidade de o governo, através de um porta-voz, tentar apaziguar o ambiente de guerrilha. Continua a ser lamentável que o governo, mesmo que através de um porta-voz, não tenha manifestado a sua solidariedade à Dinamarca e a sua aversão às ameaças de morte, e outras formas de violência que foram agitadas nos últimos dias. Ao contrário do que pensa o comum dos disciplinadores da liberdade, os ocidentais não necessitam dos seus preciosos avisos para saber distinguir o Islão dos fundamentalistas islâmicos e da artilharia que lhes corresponde. Basta ver a reacção aos atentados de NY, de Madrid e de Londres para perceber que está clara essa separação e essa distinção. Tirando meia-dúzia identificada de trogloditas, ninguém de bom-senso fez essa associação. Leiam a imprensa da época.
Nunca precisei de mestres assim para compreender o Islão, para elogiar a sua importância e para ler os seus textos. Ninguém precisa de mestres assim para entender que há uma diferença; especialmente depois de, desde há quatro anos, se ter multiplicado a atenção ao Islão, à sua história e à sua importância.
O que incomoda, verdadeiramente, é a tentação da liçãozinha de moral, o apelo patético a que «ajoelhem, ajoelhem» ou a sugestão, como diz uma leitora nos comentários a este post, de estarmos todos caladinhos (que isso é o melhor, caladinhos -- respeitinho é que é preciso). Já escrevi, antes, que não interessa agora discutir questões de deontologia geral sobre a publicação ou não dos cartoons («eu não os publicaria por princípio, mas, se está em causa a liberdade de expressão, eu publicá-los-ia, sim, para que não julguem que podem demolir a minha liberdade como demoliram os Budas de Bamiyan»). O que está em causa é o ar patético do comunicado do MNE, que não se referiu à Dinamarca (preferindo deter-se a classificar de «lamentável» o que se passou «em alguns países europeus»), e o ar de patetas de algumas boas consciências que agora descobriram a «seriedade do jornalismo» e a necessidade de «bom-senso» e de «bom-gosto» quando se referem outras culturas e outras religiões. O discurso sobre religião está inquinado -- quer pelo espírito de cruzada, quer pelo proselitismo, quer pela confusão permanente entre o ruído de Deus e o barulho das suas multidões. Não entrarei nele. Mas o discurso sobre a liberdade ameaça estar também inquinado com essa patetice de dizer que «a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros»; claro que acaba nesse ponto; claro que a minha liberdade não pode pôr em causa a liberdade dos outros; claro que isso é uma banalidade. Claro que ninguém esteve na manifestação a defender que a nossa liberdade é mais importante do que a liberdade dos outros, ou que a nossa civilização é mais importante do que a dos outros.
Mas é confrangedor o medo que marca o debate, o medo que se confunde com respeito, o medo que entrou nas nossas discussões e na nossa pobre agenda política. Esta ideia de pedir desculpa é profundamente errada; hoje pede-se desculpa por causa de uns cartoons inocentes e naïves, amanhã pede-se desculpa por sermos contra a excisão feminina em países onde ela se pratica (porque estamos a ferir susceptibilidades culturais), por sermos pelo fim da discriminação das mulheres, por sermos pelo fim da discriminação de homossexuais e de asiáticos ou de pretos ou de brancos ou de leitores de Mark Twain ou de utilizadores de Macintosh.
Por isso continuo a não perceber o comunicado do MNE nem a reacção dos que acham que devíamos estar caladinhos e quietos enquanto em Londres pedem outro atentado e em Damasco pedem a morte dos infiéis. Porque o petróleo comanda as nossas vidas? Porque nos podem pôr uma bomba no aeroporto?
O senhor Ministro dos Estrangeiros diz que o Conselho da Europa e a União vão promover jornadas para «nos percebermos melhor», nós e os «do lado de lá». A formulação é errada, mas serve para o essencial. Eu acho que sim, que precisamos de ser entendidos; eu acho que o ministro Freitas do Amaral precisa de saber que «nós», nós, os que gostamos da liberdade, não erguemos nem o crucifixo nem a espada, nem o alfange, nem a palavra, para pedir o silêncio dos outros ou o seu sacrifício. Não queremos uma lei de esferovite para punir a falta de respeitinho. Não queremos ajoelhar para pedir desculpa pelo nosso riso, ou pelo nosso laicismo na política -- porque isso é uma conquista feita por gerações de homens dignos e ilustres e cultos e decentes.
Nós, os que não precisámos do 11 de Setembro para ler os autores do Islão e para sentir o fascínio pelo Islão (porque até isso nos querem tirar com as leis com que, de Bruxelas, nos ameaçam agora, para punir a blasfémia e o silêncio sobre as religiões), e para ler Al’Mutamid, nós conhecemos o respeito pelas outras religiões e até pela nossa, quando vem ao caso termos uma ou sentirmo-nos ligados a uma. Nós, os que nunca fomos os snobs do Ocidente e nos limitámos a ser ocidentais, não precisamos que nos ensinem a distinguir entre o «fundamentalismo islâmico» e o Islão e até os seus mestres. Mas nunca nos negámos a discutir, a pensar e, até, a guardar silêncio. E guardaremos silêncio, se for preciso. Mas nunca esperámos que um de nós agitasse o dedinho a ofender-nos e a chamar-nos irresponsáveis quando está em causa aquilo que nos permitiu, na verdade, que pudéssemos interessar-nos pelo Islão, pela cultura árabe, pelo Oriente, pelo deserto, pelas cidades de areia. Ou seja, a liberdade. Foi a liberdade que nos permitiu ler os primeiros textos de poesia árabe, interpretar as Cruzadas, discutir a «superioridade moral» da cultura ocidental e, até, no meu caso, ter entrado pela primeira vez numa mesquita. Nós fazemos um favor a Bin Laden, como disse Freitas do Amaral hoje? O remédio é não falar? O remédio, do ponto do vista de tantas pessoas que agora se descobriram sérias & respeitadoras & deontologicamente puras, é confundir tudo («deriva xenófoba», «ofensa religiosa», «licenciosidade», «estratégia para não melindrar os moderados», «respeito pela subjectividade», etc, etc) para que nada tenha sentido e para que os burocratas de Bruxelas (esses grandes especialistas em diálogo civilizacional que impõem subsídios europeus) elaborem uma lei anti-blasfémia? Belo serviço.
Porque essa meia-civilização, rendida às ameaças, ajoelhada diante de pressões, não nos serve para nada, de facto. É boa para censores e para mestres de deontologia pura, para autocratas de bairro e para administradores de consciência. Mas não é boa para quem sabe que não se pode voltar atrás.
Ajoelhem, ajoelhem. Comecem a ajoelhar por tudo e por nada.

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4 comentários

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De PSeven a 11.02.2006 às 23:49

Caro FJV,
Estou completamente em desacordo com este post.
Você não compreende o comunicado do MNE?! Mas, é muito simples. Trata-se de clarificar qual é a posição de Portugal relativamente à publicação das caricaturas insultuosas e xenófobas que estão na origem deste problema. Só isso e nada mais. Que é que não compreende?
Você acha que o MNE deveria ter manifestado solidariedade com a Dinamarca? Mas, não foi isso que ele fez, no dia 9, pouco antes deste post ter sido escrito ao condenar os actos de violência nos países muçulmanos? Além disso, deixe-me dizer que acho esse argumento muito curioso, vindo de si. Você não esteve naquela manifestação de 30 cidadãos, em que foi lido um comunicado solidariedade com a Dinamarca, que não condenava a publicação das caricaturas? Então, como é que acusa o MNE de cobardia por ter feito exactamente o mesmo que vocês?
Caindo a tese da cobardia, por arrasto cai toda a construção sobre o clima de medo e ataque à liberdade de expressão que sobre ela assenta. Honestamente, estou a ficar farto de escrever sobre este tema e nunca senti qualquer medo em condenar, quer a publicação das caricaturas quer os actos violentos em sua resposta! Onde está esse “medo que entrou nas nossas discussões”?
Não me vou deter nas suas considerações sobre a “liçãozinha de moral”, os “ajoelhem, ajoelhem” e outras. São daquelas coisas que só lá vê quem quiser mesmo ver. Eu, continuo a ver um comunicado a estabelecer uma posição correcta sobre as malfadadas caricaturas.
Agora o que é mesmo escandaloso é a sua classificação de “cartoons inocentes e naïves” para as caricaturas. INOCENTES?!!! Cartoons encomendados para um livro em que Maomé é retratado como pedófilo?!!! Publicados por um jornal conhecido pelas suas posições xenófobas?!!! Que contém aquilo que mais pode “tirar do sério” um muçulmano? Que você mesmo diz que, por princípio, não publicaria (porquê se são “inocentes e naïves”?). Para logo a seguir, noutra pirueta, dizer que já os publicaria para defender a liberdade de expressão. Desculpe, era mesmo liberdade de expressão que queria dizer ou liberdade de insulto?
Para terminar quero deixar claro que penso que estamos no meio de uma “guerra” entre extremistas: europeus aqui, e islâmicos lá. Eu recuso-me a alinhar com qualquer um deles.
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De Carlos José Teixeira a 11.02.2006 às 17:41

Do que se trata realmente é de bom senso. Bom senso em relação à matéria de que vamos falar.
A Liberdade aplicada a este assunto trata-se disso mesmo: Temos o direito de optar por expor ou não expor determinada opinião, julgamento, piada, acerca de um assunto, pessoa, grupo.

Há algum tempo tivemos por aqui algumas hostes agitadas por causa de uma camisa de vénus no nariz do papa.
É claro que o que se passou não tem a mínima comparação com a reacção que temos vindo a verificar em relação ao profeta cabeça-de-bomba.
Onde quero chegar é à conclusão de que a Liberdade, enquanto característica social, é uma atitude responsável e atenta a todas as facções, formas de pensamento, individualismos, e exerce-se de uma forma racional.
O mesmo não poderá ser dito da religião. A religião exerce uma "espécie" de liberdade autista. Não é livre embora pregue uma libertação.

Quanto ao assunto do profeta cabeça-de-bomba, em que difere ele do papa nariz-de-camisa-de-vénus?
A religião islâmica não consente em representações do profeta nem de deus, sejam elas de que carácter forem. Mesmo o corão não é lá muito pródigo em descrições físicas de maomé e muito menos de deus.
A religião cristã permite geralmente essa representação (exceptuando algumas secções evangelistas) e para a maioria dos cristãos, o papa é um símbolo político.

No entanto, naturalmente, em ambos os casos é legítimo o desconforto sentido. Afinal, mexemos no sagrado que, como sabemos, não é racional.

Mas em que colide isto com a liberdade de expressão?
Voltamos ao bom senso.
Tenho a firme opinião de que a liberdade de expressão é sagrada. Mas também sei que quem lê o que escrevo sente, talvez de forma diferente da minha, as minhas palavras. É essa a diferença entre escrevermos para nós próprios (o que para mim não faz lá muito sentido) e escrevermos para os outros.
Daí que o autor dos desenhos, por muito bons que eles sejam, o autor dos escritos, por muito espirituosos que estes possam ser, devem, antes de mais, avaliar as circunstâncias particularmente "quentes" do tempo em que os vão editar.

Se estes desenhos tivesem saído daqui a uns tempos, com as guerras acabadas, com os julgamentos feitos, com os povos em paz e democracia, cerio que todos havíamos de rir mais saudavelmente.

De qualquer forma, a violência que se tem verificado na contestação aos cartoons não é de forma alguma justificável. Pelo contrário.
Trata-se de uma barbárie completamente descontrolada, própria de gente que, à falta de outras formas de expressão, se agita ao mínimo panfleto gritado por um sacerdote qualquer.
Embora compreenda as motivações dessa gente, não posso aceitar de ânimo leve tais intervenções completamente descabidas e desproporcionais.

Mais uma vez, assiste-se à movimentação do ghetto mudo e revoltado (e sabemos que a revolta é filha da submissão) a ser inflamado por sacras escrituras com o auxílio da ainda mais sacra ignorância. Tudo isto despoletado pela falta de bom senso e responsabilidade.

Assunto delicado, este...
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De António Viriato a 11.02.2006 às 01:06

Felicito-o pela clareza e pela justeza deste seu texto. Há alturas em que devemos perder a prudente parcimónia com os elogios. Esta é uma delas. Quando tantos ajoelham, sem que seja para rezar, visto que muitos nem crentes são de nenhuma religião, cumpre saudar e estimular os que persistem em permanecer de pé. São já demasiados os que, no Ocidente, longe do braço fundamentalista islãmico, mostram firmeza de convicções. Compreende-se agora melhor como Hitler pôde, ao longo daquela década fatídica dos anos trinta do século passado, emergir lentamente do nada, até ficar quase Senhor do Mundo. Como vemos, a Humanidade aprende pouco com os erros do passado e parece cega, no caminho da sua repetição...
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De anarresti a 10.02.2006 às 14:13

Quando se fala de diálogo entre civilizações é nesta forma de levantar questões, de estabelecer pontes, de deixar pistas que verifico no seu texto que penso. A palavra diálogo e outras do mesmo campo semântico são usadas com tanta ligeireza, no meio deste tumulto, que acabam por perder o sentido. E sabemos que interpelações como a sua têm no mundo muçulmano interlocutores. Estas movimentações concertadas do fundamentalismo que usam este pretexto dos cartoons só ganham força com este "ajoelhar" sem sentido que nos faz recuar em relação quer aos nossos princípios quer à solidariedade com a coragem que esses interlocutores têm tido falando abertamente sobre a realidade dos seus países e sofrendo represálias. Abdicar da liberdade de expressão ou impôr-lhe limites além dos que estão previstos e que resultem de pressões como as que temos testemunhado não é aceitável. O diálogo, voltando a ele, é civilizacional, cultural. E é importante que seja feito por pessoas como o FJV, e desta forma que aprofunda fronteiras, que cruza experiências, curiosidades e assombros, que estende e quebra barreiras. A diplomacia tem a sua própria agenda e interesses. A humanidade é maior que os tratados diplomáticos e políticos. Somos pessoas. Não apenas elementos de uma qualquer conjuntura. Um abraço, nuno.

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