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O cantinho do hooligan. Um elogio a Quaresma.

por FJV, em 25.11.07












Devia existir uma espécie de guarda de honra em redor de Quaresma, para recuperar as bolas que ele perde e entregar-lhas outra vez, para que ele possa repetir a finta ou fazer de novo o que ele fez a Adalto, passando-lhe a bola por cima. Valdano, há tempos, escrevia sobre essa arte de fazer coisas estranhas, próximas do talento puro, situando Quaresma entre os grandes artistas. Mas Quaresma é solista de outra música. Há jogadores que tomam o seu lugar numa grande orquestra; há os que reconhecemos em música de câmara; há os solistas extravagantes, como Cristiano Ronaldo (que os scolarianos perseguiram à pedrada durante um ano inteiro) ou Messi, que não podemos perder de vista. E há os que saltam para o palco ora a solo, ora com o seu grupo, bailaores, cantaores e guitarristas. Sentem-se bem no tablao; não compreendem que interpretam um papel de tragédia, mas sabem passar do cante corto para o cante grande com um silêncio demolidor. A metáfora é propositadamente gitana. O cante p'alante deve ser escutado pelo público e a estrela é o cantaor; Quaresma interpreta-o algumas vezes, em trivelas fantásticas. Mas ele dá-se bem com o cante p'atrás, onde serve o conjunto de bailaores principais, e essa é uma virtude rara. O golo de hoje arrancou-lhe um sorriso aberto, largo, que o acompanhou até ao final como um jaleo cheio de brilhos adolescentes, tra tra tantan, trajili trajili traji, sons desconexos, mas sempre com voz afillá, rouca, de bandoleiro.
Sob a perseguição e pressão da inveja, Quaresma jogou os noventa minutos com a ameaça do cartão amarelo que o impediria de jogar na Luz no próximo sábado. Maturidade e aposta; Jesualdo compreendeu este desafio e deu-lhe a oportunidade de praticar a sua arte sobre o fio da navalha. Num jogo absolutamente mediano e calculado, Quaresma regressou aos golos e sorriu. Ele merece.


Outras notas sobre o jogo:

Carlos Xistra. O árbitro era medíocre. Reconhece-se um árbitro medricas quando ameaça os jogadores com aquele olhar de «não permito isso, eu tenho todo o poder». Xistra conseguiu mostrar o primeiro cartão amarelo a Raul Meireles ao fim de onze jornadas, essa foi a grande novidade.
Lucho. O primeiro golo foi Lucho, com dois fragmentos de passe interpretados como uma milonga, por entre as pernas de um central do Setúbal. Depois, Lisandro a servir. Daí a nada, com dois dribles na área, Lisandro falhou injustamente.
[FJV]

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4 comentários

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De mik a 26.11.2007 às 18:54

o cantinho do hooligan esquece olimpicamente a cacetada do Quaresma no Adalto.
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De Nuno M. S. Aleixo a 26.11.2007 às 14:09

A guarda de honra seria uma óptima idéia para proteger tanto "talento"! E proteger também os jogadores adversários do jogo de braços e das suas já famosas "rotações"... Vide Adalto que foi mais uma vez vitima do cigano e não estou a falar de fintas.
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De Milton a 26.11.2007 às 10:22

Nunca vi Quaresma acertar suas loucas tentativas, mas pouco o vi jogar. Acredito em ti.

Abraço.
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De Luis Eme a 26.11.2007 às 10:00

Bonita prosa...

Quaresma é de facto o grande artista da banda lusitana...

exigem-lhe "constância", mas os génios não funcionam desta maneira, precisam de espaço, de liberdade e de amor.

Se muitos treinadores não percebem isso, é perfeitamente natural que os adeptos também não o entendam...

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