Terça-feira, 07.09.10

A larguíssima maioria das minhas viagens de inter rail (muitas) foram nos países nórdicos, aos quais devo muito. Da ponte entre Puttgarden e Rødby (da Alemanha para a Dinamarca) até Svalbard, no mar de Barents, das ilhas Lofoten (em Stamsund, onde nasceu Liv Ullman) até à Karelia, suecos, noruegueses, dinamarqueses (e um pouco finlandeses) mostraram-me muito sobre várias coisas. Mas o que achava mais admirável era uma espécie de culto da frugalidade, que não (não, não) tinha apenas a ver com a tradição ou formação religiosa. Tinha a ver com a vida e a maneira de encará-la. Pensei nisso ao ver uma parte do jogo entre a Noruega e Portugal: as placas electrónicas ao longo das linhas laterais (as mais caras) passavam publicidade portuguesa. Havia umas excepções nas linhas finais, junto às balizas, e só de vez em quando. De repente pensei que estava a ver um jogo transmitido, imaginemos, da Albânia ou da Roménia (cujas empresas não têm dinheiro para comprar espaço em emissões internacionais). Não. Tratava-se da Noruega, onde as empresas são sólidas, onde os salários são altos e onde quase tudo «da indústria do lazer» é caro (restaurantes, bares, hotéis) e bom. Onde até a publicidade é cara. E boa.

Pensei também numa dessas viagens, a norte de Bergen (Ibsen, Peer Gynt, Grieg, etc.), junto dos lagos e fiordes. «Intocado», disse, olhando à volta. Nenhuma auto-estrada (além dos barcos, apenas uma pequena estrada – que aqui se chamaria «florestal» – e uma linha de caminho de ferro para um comboio lento e «turístico»). O meu companheiro de viagem, Jan, que era professor em Oslo (nascido em Bergen), explicou: «É. As pessoas gostam disto. É essa a razão.» Também me lembro da casa dos seus pais, do velho casaco de lã do pai, dos vasos com cidreira transplantada de Espanha, da sala de estar com uma maravilhosa biblioteca e viagens (o único lugar, digamos, exibicionista), do bolo feito em casa, da cerveja de Solvær, do carro com doze anos, da bicicleta enferrujada (o pai e a mãe ainda a usavam para irem até à beira do lago). Fiquei três dias, antes de subir para Bodo, Narvik, Trømso; não fomos jantar a restaurantes, não havia shoppings. Por isso pensei agora nas placas de publicidade. Não querem dizer nada, evidentemente, e talvez isso signifique que a nossa economia esteja a transbordar de energia, de bolsa farta para investimentos, mas, além de ser feia e chinfrim (aquelas cores, aqueles logos), pensei na sobriedade norueguesa, nas casas suecas, na ausência de placas de publicidade.



FJV
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