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Papelaria.

por FJV, em 26.08.10

O encerramento da Papelaria Fernandes estava decretado há muito, não sei se por má gestão, se por exorbitância do crescimento — ou se pelo «depressa dos tempos». Eu visitava a PF para comprar tinta, lápis, papéis e blocos. Já não havia a colecção de canetas de tinta permanente a preço médio; os blocos eram maus e pouco originais; às vezes não havia os marcadores que eu queria. Mas era outro tempo, esse, quando vim de uma cidade de província e descobri «os materiais para escrever» de uma grande papelaria. Lápis, aparos, canetas, tintas, blocos, cadernos, papéis soltos de qualidades muito diversas. A minha mochila de inter-rail vinha carregada de cadernos suecos, alemães e holandeses (os meus colegas mais «franceses» usavam os sucedâneos Gilbert Le Jeune), de capas grossas e papéis densos. Na falta destes, e muito antes de Luis Sepúlveda me ter oferecido o primeiro Moleskine (a revista LER, há muito tempo, antes do sucesso de Sepúlveda, já publicava textos do chileno), os cadernos da Emílio Braga serviam perfeitamente, com as suas capas negras e lombadas vermelhas, até ter descoberto — em Guimarães — a maravilhosa Livraria & Papelaria Lemos, com os seus blocos encadernados com guardas de couro e papel almaço de 90, 100 e 120 grs. Depois disso, encomendei cadernos na Livraria & Tipografia Beira-Douro, na Régua, onde se imprimia (a chumbo) o Notícias do Douro e onde se guardava uma cadeira para «o sr. dr.», e «o sr. dr.», que conheci, era um homem amável na relação com os outros e quezilento em matéria literária, João de Araújo Correia. Houve mais, mas antes: na Tipografia A Gutemberg, em Chaves (a mesma que vendeu a primeira máquina de escrever a Fernando Campos, uma Olivetti Lettera 25, com que mais tarde escreveu A Casa do Pó — tive uma, oferta do meu pai, anos depois, e verifiquei que Fernando Assis Pacheco matraqueava — com dois dedos apenas — numa idêntica, quer no Diário de Lisboa, quer no O Jornal), encomendavam-se blocos à medida, com encadernação à escolha. Um amigo, António Villanova, teve a sorte de o pai lhe juntar a colecção de cento e tal exemplares de O Falcão com as histórias do Major Alvega (Jaime Eduardo de Cook e Alvega, aviador luso-britânico) e de a mandar encadernar na A Gutemberg com uma correcção próxima da bibliofilia (à razão de dez números por volume, cartão marchetado de 300 grs., com lombada de linho e guardas de crepon de 120 grs. — uma preciosidade). A Tipografia Azevedo, nos arredores da cidade, também se encarregava de formar blocos com restos de papel, mas a escolha era mais criteriosa (o proprietário era um retornado de Luanda) e foi a primeira vez que passei os dedos em papel Conqueror. Mas, repito, nada como a Livraria & Papelaria Lemos, de Guimarães, onde o meu compadre Manuel Hermíno Monteiro e Miguel Bastos (o livreiro da Castil Alvalade) também se abasteciam, antes de dar uma volta pelos alfaiates do centro (de onde voltavam ora com suspensórios, ora com camisas encomendadas e desenhadas à medida). Isto até ter descoberto uma loja em Estocolmo, onde, de mochila às costas, à espera de um comboio nocturno, entrei para ver cadernos; escolhiam-se os papéis, o número de folhas de cada bloco, a encadernação — e estavam prontos no dia seguinte. Encomendei e voltei lá uma semana depois (vantagens do inter-rail da época), recolhi-os e ainda tenho um desses cadernos. Vinte anos depois regressei à mesma loja e fiz uma encomenda idêntica. Escrever em cadernos é um prazer cada vez maior. Muita gente descobriu-o ou redescobriu-o com o sucesso dos Moleskine (periodicamente vou a Leiria, à Livraria Arquivo, onde há todos os modelos, todos os formatos, e todas as possibilidades de encomenda) — e é uma forma de resistir ao teclado permanente que cerca as nossas vidas. Por isso, o encerramento da Papelaria Fernandes é também o fim de uma época. Durante anos, a Fernandes tratava mal os seus clientes e não percebeu que o mundo ia mudar. Nos últimos anos, não tinha um único bloco que apetecesse comprar. Mas enfim, é uma época.

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1 comentário

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De pessoana a 09.02.2011 às 14:08

Pergunta na minha cabeça há meses: Como se chama a tal loja em Estocolmo?

Será a bookbinder design? (Pesquisei no google)

Tinha acabado de passar um fim-de-semana em Estocolmo quando li esta crónica na revista Ler. A vida parecia-me então injusta, mas felizmente vou voltar a Estocolmo em Março.

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