Sábado, 21.08.10

De facto, a prestação portuguesa no Mundial de futebol não foi — digamos — elegante. O resultado não é arrasador (uma derrota, uma vitória, dois empates; melhor do que a França, melhor do que a Itália, etc.), uma vez que, na «lógica dos números», a eliminação foi por 1-0 frente à Espanha que viria a ser campeã. Há melhores argumentos, mas os números são estes. Quanto à qualidade do futebol, estamos falados: a selecção fez-se passar por um grupo de medricas assustados de que se salvaram Eduardo (pela natureza do seu posto), Fábio Coentrão (o melhor em campo), Raul Meireles e poucos mais, que nem custaria alinhar. O problema é que foi Queiroz que os mandou jogar assustados. Estive do lado de Ronaldo quando ele se irritou com o treinador, porque era visível a sua indignação contra o «sistema de jogo» e a «medriquice» de Queiroz. «Assim não ganhamos», disse ele — e disse bem. «Perguntem ao Queiroz», disse ele, e disse bem. Mas, para o patriotismo de alforreca do dia seguinte, em conferência de imprensa armada na África do Sul e alimentada pelos fóruns das rádios, e como a maior parte dos jornalistas tinha medo de atacar Queiroz, Ronaldo era o vilão a abater; o vilão que não honrara a braçadeira de capitão, que não respeitara as hierarquias e que, no fundo, queria jogar mais e melhor numa equipa que foi mandada jogar menos e pior.

Havia aqui um problema: os objectivos definidos num hipotético contrato entre Queiroz e a FPF tinham sido cumpridos — ultrapassando a fase de grupos, lá está. Podia a FPF despedir Queiroz se «os objectivos» tinham sido cumpridos? Não. Os resultados eram moderados, mas decentes; só um analfabeto funcional podia querer que a selecção tivesse chegado muito mais longe (é outro assunto). Mas era preciso despedi-lo (para provar que temos condições para sermos «os maiores», «os melhores», etc., além de que a «luta pelo optimismo», um «desígnio nacional», não podia desculpar um homem como Queiroz) e contratar Aragonés, fosse quem fosse, e afastar da selecção a marca de pé frio que Queiroz (uma pessoa simpática, cordial, estudiosa & competente para lidar com futebol de qualidade, mas com uma grande capacidade para perder competições fatais) transporta consigo. O governo e a autoridade do anti-doping ajudaram: ai que Queiroz recebeu-os mal na Covilhã, em Maio. Se a selecção tivesse chegado um nadinha mais longe, quem não teria ido (a pé, em pagamento de promessas, arrastando-se pelo calor) à Covilhã para insultar a autoridade anti-doping? Se a selecção tivesse chegado às meias-finais, então — fuzilar-se-iam os cavalheiros do anti-doping, esses antipatriotas que tinham ousado visitar a nossa querida selecção no seu remanso de estágio e sestas com playstation. Se a selecção tivesse chegado à final, não só se fuzilariam os técnicos do anti-doping como, além disso, o seu presidente todo-protegido seria arrastado pela lama e entregue aos espanhóis para ser esquartejado, além de serem distribuídas vitaminas proibidas a todos os jogadores e às suas famílias — e Queiroz seria, mais uma vez, condecorado. Acontece que era preciso despedir Queiroz — provavelmente com a única justa causa que o futebol conhece: o futebol da selecção foi uma merda. Mas, tolhidas legalmente, as autoridades da bola alinharam no inquérito às caralhadas do seleccionador. Não se despedia por causa do futebol, mas despedia-se por causa do dicionário, dando uma lição de cavalheirismo e boa gramática (olha quem) ao país. Portanto, avisavam-se as famílias de que Queiroz, por detrás daquele discurso habitualmente com ditirambos, mas reunido à volta de sujeito, predicado & complemente directo, era (além de vilão) um perigo para a moral, para a etiqueta e para os seus filhos e filhas. Salvo erro, isto é uma canalhice das grandes. Um simples gravador (basta andar uns tempos, como eu andei, por motivos profissionais) a fazer reportagens de campo, de bastidores, a entrevistar canalhas e caras de pau da bola, para perceber que os eufemismos e disfemismos de Queiroz não só fazem parte dos hábitos (reprováveis) de balneário — e que as brigadas de anti-doping, pelo poder discricionário que detêm, pela ameaça invisível que constituem e, sobretudo, pela protecção de que dispõem, são tudo menos apreciadas (basta ver como detêm um poder que ultrapassa todas as leis comuns). Além do mais, está já praticamente esclarecido que a brigada anti-doping agiu com arrogância, desrespeito pela condição dos atletas e pelo papel do seleccionador.

A FPF (ou uma parte dela) queria despedir Queiroz. Devia, pois, tê-lo chamado a um canto do aeroporto de Joanesburgo, anunciado que ia pagar-lhe  a indemnização acordada e ter-lhe dito: «Professor Pardal, o senhor é óptimo a trabalhar o futebol no computador, a perorar sobre métodos de treino, sobre as mónadas de Leibniz ou as tartarugas das Galápagos, mas sobre bola-bola, estamos entendidos, e foi um equívoco». Entendia-se. Mal, mas entendia-se. Em vez disso, medricas, com os cofres controlados e a vontade de fazer asneira como é seu apanágio, cairam na cilada e contribuíram para armar uma sequência de processos, inquéritos, investigações, inquirições e trapalhadas sobre uns «nefandos acontecimentos» de Maio passado (tornados públicos através de uma «fuga de informação» desastradamente ensaiada por um membro do governo), que dão uma bela ideia desta gente que aprecia despudoradamente o poder. Além disso, ensaiam um castigo por delito de opinião, uma vergonha num país civilizado. Mesmo prejudicando (e grandemente) a selecção, ou lá o que é. Transformaram Queiroz no vilão que apetece defender para lá do razoável.



FJV
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