Quando não havia mais nada à mão para atacar Cavaco — não era do grupo de herdeiros da República nem dos seus conglomerados — surgia Boliqueime, a bomba de gasolina, o Sr. Teodoro, os fatos fora de moda, o bolo-rei. Diante das câmaras de televisão, Soares comia o palmier de Campo de Ourique com a mesma desfaçatez com que Cavaco comia o bolo-rei à porta do apartamento, mas a Soares tudo se desculparia. Eu próprio lhe desculpo uma parte, em nome do gosto de viver e da disponibilidade para a malandrice. Cavaco não tinha, para evocar, uma nome de família ligado a um grande escritório de advogados nem aos resistentes ao salazarismo; era o homem de Boliqueime, o professor que bebia TriNaranjus, que comprou um Renault Dauphine com um empréstimo do Montepio, o pai de família tradicional, o contabilista, o homem que envergonharia os proprietários da República caso fosse eleito. Nisto, a direita e a esquerda alimentam os mesmos preconceitos. Tal como alimentam contra Passos Coelho, ou porque o pai era um médico de província (assistia os dispensários em Trás-os-Montes) ou porque vive em Massamá ou Odivelas, tanto me faz. O medo do subúrbio não é apenas classista, com os suplementos de despeito e de horror que os filhos dos antigos tiranos ou terratenentes guardavam para os momentos da verdade; hoje, é o retrato do medo, embora não deixe de ser o mesmo preconceito de classe, de família e de canalha.
.gif)

• Leituras frequentes
• Tikkun
• NextBook
• Média | Portugal
• Expresso
• I
• Público
• Sol
• SIC
• TSF
• Visão
• Média | Brasil
• Veja
• Ligações gerais
• A Peste
• Abrupto
• Arrastão
• Blógico
• Bússola
• Claro
• Cocanha
• Daedalus
• F World
• Faccioso
• Filisteu
• Fumaças
• Ilhas
• Manchas
• No Arame
• No Mundo
• Para Não Morrer de Sede no Inferno
• Retorta Blog / Rust Never Sleeps
• Rititi
• John Lee Hooker. Don‘t Lo...
• Amy.
• Erroll.