Sábado, 19.06.10

Lembro o cenário: uma casa tranquila onde os objectos essenciais eram a mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia — e uma janela voltada para o mar. Estávamos na Ericeira e eu tinha combinado entrevistá-lo antes da edição de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em 1991. José Saramago escrevera e reescrevera o livro num videowriter, moderno na época; nessa tarde fez a primeira impressão do texto em papel. Tinha exactamente 444 páginas. Saramago era cuidadoso com os seus livros — entregava os originais quase irrepreensíveis, sem rasuras. E falava sobre eles com uma notável clareza, muito rara. Recordo por isso quando me convidou para fazer a apresentação de Ensaio sobre a Cegueira, de 1995 — e como falava sobre o livro como se o tivesse escrito há muito tempo. Esta aparente «facilidade» contrastava, no entanto, com a forma disciplinada — e até austera — que rodeava o seu processo de escrita. Foi já depois da atribuição do Nobel, em Lanzarote (repetia-se o mesmo cenário: mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia - e uma janela voltada para o mar) que pude perceber o trabalho que acompanhou a escrita de O Ano da Morte de Ricardo Reis (que, juntamente com Memorial do ConventoEnsaio sobre a Cegueira constitui uma espécie de «trilogia do cânone»): uma agenda, dessas, antigas, domésticas, que Saramago tinha transformado num diário de Ricardo Reis escrito em Lisboa depois de regressar do Brasil, e que funcionaria como uma espécie de «segundo livro» que reuniria a parte estritamente documental do romance. Tudo tinha sido ali anotado, desde o preço do tabaco no Alentejo naquele ano, até à menção das crises diplomáticas que varriam a Europa e anunciavam o fascismo.
Esse trabalho oficinal sempre me apaixonou em José Saramago — e era justamente esse trabalho disciplinado que tornou possível uma obra monumental, escrita do ponto de vista da eternidade. Só um monumento pode fazê-lo.
A consagração de Saramago deve-se à literatura e à sua «intervenção cívica» — mas só a literatura, que está ligada à eternidade, o irá transcrever mais tarde nas palavras da terra, no gigantesco poema do mundo, onde entrará Manual de Pintura e Caligrafia, por exemplo, um livro injustamente esquecido, e essa «trilogia do cânone» onde estão inscritas as linhas de quase toda a sua obra: a atenção aos pequenos personagens (quase anónimos, quase insignificantes), o absurdo da História, a ideia de epopeia, a fragilidade do humano e do humanismo.
Tanto em Levantado do Chão como em Memorial do Convento ou em Todos os Nomes, os seus grandes personagens são essencialmente humildes, anónimos e colhidos (e escondidos) da massa da multidão. Baltazar e Blimunda em vez do rei que manda construir o convento de Mafra; os camponeses e o cão atravessando os campos do Alentejo e ressuscitando no final, em vez dos «exemplos de classe"; uma mulher anónima e discreta que enfrenta a cegueira do mundo e interpreta as suas metáforas. Mesmo o amor, mesmo o amor: é uma das suas mais belas histórias de amor, a de História do Cerco de Lisboa, a que é vivida pela editora e pelo revisor — ele, mais uma vez, o homem anónimo, humilde, modesto, que representa toda a modéstia e toda a humildade dos homens e mulheres sem história (à maneira de Gogol; ou encarando o absurdo, como Kafka).
Creio, acreditei sempre — e escrevi-o — que Saramago era um homem extremamente religioso. Só um homem religioso pode rondar a blasfémia e interrogar directamente a figura de um Deus «humanamente injusto». O resto é polémica, passagem, indignações. O que passará à eternidade é isso: talento, trabalho, dedicação.

[Publicado hoje no I]




Um homem nu na universidade

 

A morte é uma interrupção. Uma intermitência. O que pensei e penso sobre Saramago escrevi-o acima. Como jornalista acompanhei-o muitas vezes, aqui e ali; ouvi-o, li-o, conversei com ele. Afastámo-nos realmente depois de 2003, mas o respeito pelo seu trabalho manteve-se e permanece. E, com esse respeito, a admiração por esses livros «do cânone» que refiro no texto. Há duas ou três histórias que, para mim, ficarão a lembrá-lo. Quando o visitei em Lanzarote (eu estava a preparar um diaporama de apresentação de Saramago para Estocolmo, por ocasião do Nobel), vi um homem que precisava de refúgio. Encontrou-o entre os seus e com as suas ideias, que não partilho. Não concordo com as suas opiniões políticas (o debate «religioso» não é para aqui chamado, e sobre isso escrevi na altura), mas a morte é uma interrupção que decidimos, ou não, em função da nossa memória. Injustiças, erros, desatinos, crueldades. Uma pequena interrupção. Recordo de Saramago o meu essencial e esqueço o resto.

Um dia, na Alemanha (antes do Nobel), descobri que Saramago ia fazer uma conferência na Universidade de Frankfurt. Era um mês de Abril chuvoso e frio — e eu não tinha muito para fazer nessa tarde, de modo que fui esperá-lo à porta da universidade (a mesma de Goethe, de Marcuse, etc.). A meio da conferência (sobre autoria, autobiografia e ficção) entrou um homem nu. Verdade. Completamente nu. Saramago continuou a falar, ao fundo do anfiteatro. O homem, completamente nu, sentou-se na terceira ou quarta fila, e as pessoas sorriram, olharam, mas continuaram a ouvir Saramago. Eu estava sentado ao lado de Ray-Güde Mertin, a sua (e minha) agente, a sua tradutora e amiga de sempre. Ray sorriu também mas não disse nada. Ao fim de uns minutos, o homem nu levantou-se e desceu os cinco ou seis degraus do anfiteatro, curvou-se, numa vénia para Saramago — e saiu como entrou. Passou depois junto à janela, do lado de fora, no meio da chuva. «Coitado», disse então Saramago, finalmente, «é melhor dar-lhe um impermeável.» Só então a assistência (professores, estudantes, leitores anónimos) pôde rir à vontade, distendida e alegre. «Foi uma coisa no meio da literatura», disse ele. «Nada de mais.»

O que ficará depois de tudo é isso: literatura. Uma coisa literária. E esses livros de que gosto: Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Viagem a Portugal, Manual de Pintura e Caligrafia, História do Cerco de Lisboa ou Ensaio Sobre a Cegueira. O resto é como um homem nu que entra no meio da literatura, que se senta e sai da sala. Passa. Fica a literatura.

 

P.S. - Pedro Correia, que é um bom leitor, escreve hoje no seu blog que recordará sempre Viagem a Portugal. É outra história. Em 1979, Saramago estava arredado depois da revolução. Nessa altura, fazia traduções, revisões, etc. Manfred Grebe, que era administrador alemão do Círculo de Leitores, convidou-o então a regressar à literatura e ofereceu-lhe um contrato, com condições decentes e muito favoráveis, para escrever Viagem a Portugal — que sairia no Círculo em 1981, e seria o seu primeiro grande êxito — e o que ele depois quisesse. Saramago começou o livro entrando pelo Norte e descrevendo uma igreja românica que fica, curiosamente, a vinte metros do muro da casa dos meus pais. Seja como for, foi Manfred Grebe que o foi buscar e a quem Saramago por várias vezes manifestou a sua gratidão pelo convite, pelo gesto e pela oportunidade. Viagem a Portugal, como diz o Pedro, permanece como uma lembrança perene.



FJV
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