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Gato escondido.

por FJV, em 17.06.10

Não me faz espécie que o movimento Mulheres Século XXI reabilite os grandes temas do frentismo católico. Basta ler um pouco da literatura vagamente ultramontana do século passado para compreender o dislate da coisa — salvemos a pátria da excomunhão, da imoralidade e do pecado; e pelo caminho, já agora, salvemos a nossa alma com acções que glorifiquem o papado e o altar. O regresso dessa tentação de unir o trono e o altar é aparentemente nova mas só agora, depois do 13 de Maio e de algumas derrotas recentes, tem condições reais de se exprimir.

Como é isto possível? Simples. Primeiro, com o entusiasmo em torno da visita do Papa, que mobilizou milhares nas ruas, na altura em que Roma estava debaixo de fogo. Tamanha mobilização deixou o frentismo católico com água na boca e o desejo de transformar em força eleitoral o que era uma «demonstração de fé». Para os mais distraídos, volto a insistir que se leia um pouco dessa «literatura vagamente ultramontana do século passado»; está lá tudo. Nada de novo quando se trata de trazer a religião para a rua e de a medir em projecções eleitorais. Claro que causa estranheza o facto de a campanha ultramontana contra o Presidente ter sido lançada no site da rádio católica — foi o início de um combate às claras por parte de uma Igreja tradicionalmente discreta e que normalmente «não se mete em política». Mas as multidões fazem milagres em tempo de «casamentos gay». Só assim se explica o discurso desastrado do próprio cardeal patriarca (há muito tempo que a Igreja não usava a qualidade de católico de um político para exigir dele um compromisso público e lançá-lo às feras). Segundo: é estranha a coincidência — e só isso bastaria. Mas o que leva o cardeal patriarca, geralmente tão cordato com José Sócrates e tão ausente do debate político, a ser tão ríspido em relação a Cavaco Silva, o homem que — convém relembrá-lo — convidou o Papa a visitar Portugal? Boas almas relembram a condição «de católico» do PR, o que o colocaria sob o pastoreio do cardeal («devendo-lhe obediência» — recordações ultramontanas, de novo); não basta. É preciso fazer as contas (coisa que a Igreja, num país católico mas com poucos praticantes e contribuintes, tem feito bastante nos últimos tempos).

A Igreja não se mete na política (embora tenha negócios com ela, à semelhança da «classe empresarial», também dependente do Estado), ou, como diz o cardeal patriarca, «abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito estritamente político» mas, naturalmente, incentiva os católicos a agir em seu nome («os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes, no seio da sociedade, dos autênticos valores cristãos») sem, naturalmente, prejudicar os negócios entre a Igreja e a política. Gato escondido.

 

Esta curiosa coincidência de pontos de vista e de interesses pode ler-se, página a página, nos jornais e blogs das últimas semanas: o ressentimento de Santana Lopes (o menor dos males), o desejo de um frentismo católico (à semelhança dos de antigamente, também este começou no Estoril) animado pelas senhoras do Século XXI, a vontade de deslocar o centro político para a direita católica, a repentina vontade de a Igreja verificar o seu peso eleitoral (transformando matérias morais em motores de mobilização política, no que demonstra um extraordinário erro de avaliação) e o apoio de José Sócrates à nova candidatura de Manuel Alegre. No meio de tudo isto, um fenómeno: a criação de uma nova classe de actores políticos — a de idiotas inúteis.

 

Aqui, sobre os guerreiros que vestem a pele de heróis de Canudos.

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