Sábado, 09.01.10

Paulo Rangel fala — e bem — de uma revolução conservadora no ensino. Uma revolução «que substitua o facilitismo pela exigência». Anos de atraso nesta conversa. Duas décadas, pelo menos. Nesta matéria, é preciso ter alguma memória para não cair no espectáculo. Lembram-se quando um ministro (do PSD) tratou de substituir a designação «alunos» pela de «aprendentes»? Lembram-se como, que me lembre, todos os ministros que tentaram reformas curriculares e chamaram a atenção para o problema dos programas de ensino (como David Justino e Marçal Grilo, por exemplo) foram trucidados pelas máquinas partidárias?

O conceito (revolução conservadora) tinha graça há uma ou duas décadas. Nessa altura, muito antes de aparecerem «os números da Finlândia» (descansem, que não foi só com computadores na sala de aula que apareceram os bons resultados), já se falava de outros modelos, como os da Coreia do Sul (descansem, que não foi só com computadores na sala de aula que apareceram os bons resultados), «que não tinham a ver com a nossa cultura, pá». Pobre gente que nunca tinha lido David Landes. Agora, o próprio Paulo Rangel levanta a ponta do véu: associado ao lema «revolução conservadora» adianta logo o «estatuto do aluno». Já se vê. Uma piscadela de olho que não é nada conservadora, mas que apenas transporta o seu tique disciplinador e de «cada coisa no seu lugar». Infelizmente, o «estatuto do aluno» é o menor dos males — vai ser coisa para a fedelhagem tratar da «participação na escola», do «modelo de gestão», do «poder da escola» e dos vícios congéneres.

Não. O que é preciso discutir, realmente, é o que se vai ensinar na escola. E para isso é preciso questionar seriamente uma geração de burocratas das ciências pedagógicas que, durante os últimos trinta anos, torturaram professores e alunos com as suas ideias de «engenharia escolar e social», os seus manuais deficientes, as ideias feitas, as vulgaridades e erros nos manuais de Português, História ou — ah, sim — até Matemática. Não se trata, apenas de mudança de mentalidade; isso, como o país está, ligeirinho e moderno, é o menos. Portugal muda de mentalidade todos os anos, conforme as conveniências, as oportunidades, o «Prós e Contras», as «fracturas» e os «psis» chamados ao estrado do Ministério da Educação.

A «revolução conservadora» tinha graça há duas décadas quando valia a pena construir o edifício. Hoje, ele está deficiente. Em primeiro lugar, chamem os professores. Os professores-professores — não os técnicos em Ciências da Educação que não dão aulas há vinte anos. Chamem os professores que contactam com os alunos, que dão aulas, que passam pelos corredores e sabem do que se fala quando se fala de educação. A tentação da reforma a todo o custo cria vítima insuspeitas; para legislar sobre o «modelo de avaliação dos professores» a primeira coisa que fizeram foi afastar os professores. Não queiram fazer a reforma curricular afastando-os de novo. Basta ouvir, tomar notas, recolher histórias reais. Isto não são os cientistas da pedagogia que o podem fazer; eles não têm histórias reais para contar — aliás, lendo o que eles escrevem nas introduções aos programas escolares e nos materiais ideológicos produzidos pelo Ministério da Educação, até é legítimo supor que não falam Português.



FJV
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