Quinta-feira, 05.11.09

 

Conheci-o em Amesterdão e entrevistei-o no dia seguinte, quase sem preparação; o Fernando Venâncio tinha falado dele com admiração — a sua história, o seu feitio, a sua erudição, a sua escrita. Talvez por ser um português desses, como eu, do Douro transmontano, semita, apaixonado pelos caminhos das montanhas (e pelos nomes das terras, pelos muros das aldeias, pelas árvores dos vales, pelos cemitérios abandonados), nasceu entre nós uma cumplicidade que só eu senti e que só eu vivi. Naquela noite antes da entrevista, em Amesterdão, li Com os Holandeses, um livro magnífico, um roteiro de visita, uma torrente de embirração que só os grandes escritores podem manifestar sem mágoa, mas magoando onde fere mais a tinta. Estivemos anos sem nos vermos. Entretanto, li grande parte dos seus livros — e reconheci a minha terra das montanhas, o vento nos planaltos (esse de Felgar, Carviçais, por aí fora), a linguagem, as chuvas de Verão, as trovoadas, um Deus ocasional pendurado como um calendário numa parede envelhecida. E reconheci um daqueles portugueses que admirava noutras histórias, saído de Portugal, sem vontade de regressar, herói exilado, herói longe da Pátria que não o lê. José Rentes de Carvalho passou por Paris, e de lá foi para Amesterdão. Ao contrário de outros, nunca requisitou os serviços da Pátria para divulgar os seus escritores, para levar consigo os retratos de família. Trabalhou na imprensa (O Globo, O Estado de S. Paulo, etc.) e acabou na embaixada do Brasil em Amesterdão, creio que num segundo exílio. De lá até à Universidade foi um longo trabalho de sacrifício, divertimento, esforço, trabalho dedicado, paixão pelos livros — e embirração, mais uma vez. As suas páginas sobre o 25 de Abril são antológicas, do melhor que já se escreveu sobre o assunto. A sua bibliografia é imensa, vasta, cuidada, renascentista. Nessa altura, quando o entrevistei, jurei a mim próprio que, um dia, se eu fosse editor alguma vez, publicaria os seus livros com o cuidado que eles mereciam. Publiquei Com os Holandeses e, agora, Ernestina, que tem um dos melhores arranques que já li (leiam, leiam) e que invejo muito. Foi por isso que, há uns tempos, saí bem cedo de Lisboa e fui até Estevais, Mogadouro, seiscentos quilómetros, para pedir a José Rentes de Carvalho (ele divide o seu ano entre Estevais e Amesterdão, é o meu cosmopolita preferido) que escrevesse as suas memórias, coisa que espero que esteja a fazer — enquanto nós preparamos as edições de mais livros seus, até agora só publicados em neerlandês. Acredito que serão um extraordinário legado da sua memória a todos nós e um testemunho absolutamente original de um português cujos livros, sempre best-sellers na Holanda, foram sempre tão pouco lidos em Portugal. Lembrei-me dele depois de ler isto, e gostava de voltar a Estevais («Em fins de 2005 habitavam em Estevais cento e quinze pessoas, oitenta e três das quais com mais de setenta anos de idade.») — de onde, depois de almoço, em pleno Verão, partimos por uma daquelas estradas secundárias que vão dar a outra aldeia, a outra aldeia, a outra aldeia, a outra aldeia e a outro vale onde há um rio, e cerejeiras, e negrilhos junto de pontes entre colinas de castanheiros. Obrigado, José.

Esta é a fotografia original da capa de Ernestina, agora nas livrarias

(design de Rui Rodrigues), da autoria do próprio José Rentes de Carvalho.



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