Terça-feira, 03.11.09

1. Uma das coisas mais divertidas na baronagem do PSD é a exigência, repito, exigência de trabalho ideológico. Minto; a expressão é «debate de ideias». É assustador ver como esta exigência toma conta de almas que se escusam a tropeçar numa ideia sobre o Estado, a Cultura, a Economia ou a vida comum. Debate de ideias quer dizer pensar no futuro da vidinha e no lugar que se há-de ocupar na sala-de-espera, o recinto onde um hipotético futuro governo os pode vir buscar para fazer deles ministros e directores-gerais. Há-de ser um debate de ideias sobre como chegar lá, mas não sobre o que fazer até lá ou nos tempos que se seguem. Por isso, Marcelo Rebelo de Sousa vinha a calhar; o professor arrastaria consigo as ideias, expostas com clareza meridiana na televisão (luzes sobre economia, administração pública, justiça, diplomacia, biblioteconomia, ténis e estratégia), batalharia com Sócrates e eles apoiariam (ou aplaudiriam, consoante os casos), na retaguarda, protegidos e cumprindo o papel. Chegada a hora, logo se veria. É esse o debate de ideias. Foi assim que queimaram Marques Mendes, deixando-o sem apoio, seria assim que lidariam com Marcelo. Só assim se compreende a «vaga de fundo» de gente que detesta Marcelo mas que apareceu a apoiá-lo, desde que Marcelo os protegesse de Pedro Passos Coelho, o candidato com quem não querem discutir.

Esta gente ain­da não percebeu o que a levou a tor­nar-se irrelevante para tudo o que seja o debate sobre o futuro do país, sobre o papel do Estado na socie­dade e na economia, sobre as no­vas realidades culturais, sobre o sentido que tem a política portuguesa na Europa de hoje. Mas ex­plica-se facilmente: preguiça e baronatos. Foi isso que matou a Di­reita antes, durante os seus gover­nos liquefeitos entre heranças do cavaquismo e do barrosismo. É isso que ameaça liquidá-la se não desperta desta vontade apaixonada pelo «debate de ideias» ao cantinho da sala-de-espera. Ou seja, se não diz, mesmo, o que quer, para além daquilo que se sabe que quer: a «alternância democrática», uma espécie de baloiço que lhes garanta lugares de quatro em quatro ou de oito em oito anos.

 

2. Ora, dizer o que quer faria muito jeito — na Europa, na Educação, na vida das cidades, no ordenamento do território, na política fiscal, no apoio às famílias e na relação do Estado com as grandes empresas. Não se vê, sobre isso, uma palavra. Aguiar-Branco (que em certo Verão anunciou que era absurdo um «debate de ideias» em pleno mês de Agosto) convidou o partido para fazer oposição, mas não se sabe com que caderno de encargos; Morais Sarmento distanciou-se de Marcelo e anunciou que quer um «debate de ideias» sobre «o sistema político» (o tema que faltava, caramba). No arranque da discussão sobre o programa de governo, ouviu-se alguma alma, entre esta gente, a exprimir uma dúvida, a fazer uma pergunta, a criticar, a esbracejar que fosse? Pensou esta gente, antes e durante a campanha eleitoral, em convocar apoios, chamar nomes novos, fazer propostas sérias? Com esta banda filarmónica, o PS pode dar música até quando quiser.



FJV
| Comentar | partilhar

•Nas livrarias.

•Correios & Telégrafos
E-mail
•Livros



Lista de restaurantes
•pesquisar neste blog
 
•Ligações directas
LER | O blog da revista LER
QUETZAL | O blog da editora Quetzal
Crónicas impressas
Blog O Mar em Casablanca
•Blog anterior
Aviz 2003>2005
•subscrever feeds
•arquivos

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

•posts recentes

Nicolau Tolentino.

Pedro Hestnes.

John Lee Hooker. Don‘t Lo...

Amy.

Erroll.

Erroll Garner. Hoje faria...