1. Uma das coisas mais divertidas na baronagem do PSD é a exigência, repito, exigência de trabalho ideológico. Minto; a expressão é «debate de ideias». É assustador ver como esta exigência toma conta de almas que se escusam a tropeçar numa ideia sobre o Estado, a Cultura, a Economia ou a vida comum. Debate de ideias quer dizer pensar no futuro da vidinha e no lugar que se há-de ocupar na sala-de-espera, o recinto onde um hipotético futuro governo os pode vir buscar para fazer deles ministros e directores-gerais. Há-de ser um debate de ideias sobre como chegar lá, mas não sobre o que fazer até lá ou nos tempos que se seguem. Por isso, Marcelo Rebelo de Sousa vinha a calhar; o professor arrastaria consigo as ideias, expostas com clareza meridiana na televisão (luzes sobre economia, administração pública, justiça, diplomacia, biblioteconomia, ténis e estratégia), batalharia com Sócrates e eles apoiariam (ou aplaudiriam, consoante os casos), na retaguarda, protegidos e cumprindo o papel. Chegada a hora, logo se veria. É esse o debate de ideias. Foi assim que queimaram Marques Mendes, deixando-o sem apoio, seria assim que lidariam com Marcelo. Só assim se compreende a «vaga de fundo» de gente que detesta Marcelo mas que apareceu a apoiá-lo, desde que Marcelo os protegesse de Pedro Passos Coelho, o candidato com quem não querem discutir.
Esta gente ainda não percebeu o que a levou a tornar-se irrelevante para tudo o que seja o debate sobre o futuro do país, sobre o papel do Estado na sociedade e na economia, sobre as novas realidades culturais, sobre o sentido que tem a política portuguesa na Europa de hoje. Mas explica-se facilmente: preguiça e baronatos. Foi isso que matou a Direita antes, durante os seus governos liquefeitos entre heranças do cavaquismo e do barrosismo. É isso que ameaça liquidá-la se não desperta desta vontade apaixonada pelo «debate de ideias» ao cantinho da sala-de-espera. Ou seja, se não diz, mesmo, o que quer, para além daquilo que se sabe que quer: a «alternância democrática», uma espécie de baloiço que lhes garanta lugares de quatro em quatro ou de oito em oito anos.
2. Ora, dizer o que quer faria muito jeito — na Europa, na Educação, na vida das cidades, no ordenamento do território, na política fiscal, no apoio às famílias e na relação do Estado com as grandes empresas. Não se vê, sobre isso, uma palavra. Aguiar-Branco (que em certo Verão anunciou que era absurdo um «debate de ideias» em pleno mês de Agosto) convidou o partido para fazer oposição, mas não se sabe com que caderno de encargos; Morais Sarmento distanciou-se de Marcelo e anunciou que quer um «debate de ideias» sobre «o sistema político» (o tema que faltava, caramba). No arranque da discussão sobre o programa de governo, ouviu-se alguma alma, entre esta gente, a exprimir uma dúvida, a fazer uma pergunta, a criticar, a esbracejar que fosse? Pensou esta gente, antes e durante a campanha eleitoral, em convocar apoios, chamar nomes novos, fazer propostas sérias? Com esta banda filarmónica, o PS pode dar música até quando quiser.
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