
Ontem estive na Feira do Livro de Peniche. Jantar bom, vento sobre a baía, neblina na Berlenga, as luzes da Consolação, salitre do Baleal – e gente preciosa com quem se fala muito bem, e de quem se ouvem histórias para vários livros. E este momento culminante, na hora da fila dos autógrafos, depois de falar um pouco com o leitor (de passagem: um excelente leitor): «Diga-me o seu nome...» Uma micropausa, antes de responder: «Petrónio.» «Petrónio?» «Sim. Petrónio Augusto.» Não só o visitante de Trimalquião, o ironista de Satiricon — mas, ainda por cima, com desinência imperial.
O «caso Carlos Queiroz» começou há muito tempo e, embora mereça discussão, leva muito tempo a alinhavar. Pessoalmente, acho que Ronaldo tinha razão: «Assim não vamos lá, Carlos...» E não fomos. Mas isso já foi há muito tempo. De modo que é preferível tomar os últimos episódios como referência: de repente, o secretário de Estado diz que há «factos graves» e o presidente da FPF diz que é «um assunto delicado». Factos graves e assuntos delicados são matéria de todos os dias em clubes de futebol. Terá Queirós insultado a equipa do anti-doping no estágio da Covilhã? Só dois meses depois é que o inquérito revela «factos graves»? Só dois meses depois é que o assunto é «delicado»? Se Portugal tivesse ultrapassado a Espanha (ou cilindrado a Costa do Marfim), e já uma glória nacional, o governo e a FPF tinham disponibilizado uma equipa do anti-doping para Queirós praticar insultos e atirar-lhes cascas de tremoço? Ou demoraram apenas dois meses a escandalizar-se? O que teria sido assim tão grave? A suspeita não tem fim, como se sabe. Mas ver tantos espíritos ofendidos dois meses depois, isso sim, desperta ainda mais curiosidade. Factos graves? Um mimo.
As imagens de Duisburgo não merecem muitos comentários. As frases que ficam são suficientes:
O Público está a tornar-se exímio em matéria de títulos e leads de notícias. Em matéria política, mas também «desportiva». Na primeira página do online, e a propósito da vitória do FC Porto sobre a Sampdoria, a entrada (3 linhas) não deixava de lembrar o óbvio: «o FC Porto, terceiro classificado no campeonato», caso alguém fosse esquecer-se; lá dentro, para mostrar que a vitória sobre os italianos, enfim, era desprezível, lá se esclarecia que tinham ficado em 4.º lugar do campeonato italiano, não eram propriamente uns ases. Contraste muito notado com a notícia, quase eufórica, da vitória do Benfica sobre o Mónaco — os que ficaram em 8.º lugar do campeonato francês.
Pedro Mexia abandonou o cargo de sub-diretor da Cinemateca Portuguesa. É pena – independentemente da continuidade de Maria João Seixas. Mexia trabalhou com João Bénard da Costa e era visto como uma espécie de herdeiro de “uma certa visão do cinema”. Poeta, ensaísta, uma das poucas pessoas que, com sobriedade e cultura, pensa a política em Portugal, Pedro Mexia tinha uma vantagem nada negligenciável para o seu cargo: estava longe dos grupos de pressão do “cinema português” e tinha da Cinemateca uma visão que se adequava ao estatuto da própria instituição. Ou seja, não via a Cinemateca como uma “vanguarda” ou um “pátio da atualidade”, mas como um verdadeiro museu do cinema. Esta perspetiva não agrada a muita gente, mas é pena. Porque é a mais acertada e a mais nobre.
[Na coluna do Correio da Manhã.]
O nome das ruas é um assunto tremendo e as comissões de toponímia deviam ser mais escutadas e mais bem preparadas. E também devia ser estudada a quantidade de ruas que muda de nome consoante as mudanças na política. No Porto, o executivo da Câmara não atendeu uma proposta para atribuir o nome de José Saramago a uma rua da cidade (não sei qual). À partida, a decisão é má. Se Saramago fosse propriedade de um partido político, compreendia-se; mas trata-se do nosso Nobel da literatura, e provavelmente irá ficar na história com mais justiça do que qualquer um dos políticos vivos que já têm o nome inscrito na toponímia nacional. Requer-se um certo distanciamento. Não só de tempo. Também de juízo crítico. Eu também não gosto muito de Manuel Fernandes Tomás, mas é a vida.
[Na coluna do Correio da Manhã.]
E, na verdade, o Francisco Mendes da Silva tem toda a razão. Exemplos e fundos não faltam.
Manuel Alegre dispara em todas as direções. Vai descontar 20% dos seus rendimentos para um fundo de auxílio à pobreza, para agradar ao sr. D. Carlos Azevedo. Vai defender uma estrututa militar na CPLP para resolver os problemas da Guiné (isso é que vai ser...), para irritar o dr. Cavaco. Vai defender a proibição de revisão constitucional, para tentar agradar ao BE e ao PS. Podem começar a colecionar as declarações e fazer um quadro comparativo daqui a quatro meses.
Tomás Vasques põe o dedo na ferida a propósito das discussões sobre a revisão constitucional: o país fervilha de constitucionalistas que defendem a Constituição porque passaram anos a estudá-la («anos de estudo da matéria»). Na verdade, devemos temer muito este reaccionarismo dos que acham que não se pode mexer na Constituição, como não se deve mexer nas cores da bandeira ou nas estrofes do pobre hino. A querela em torno dos poderes presidenciais, então, é a mais ridícula de todas — porque já se sabe que, até agora (a esta proposta), a discussão foi encomendada à medida dos interesses imediatos. Os proprietários da Constituição servem-se de uma aura que detêm com abnegação — a de serem proprietários da Constituição, de se recordarem do hemiciclo, dos bravos combates por um artigo ou da negociação por outro, num heroísmo de fantasmas. Mais uma vez, um pouco de estudo do século XIX (e do período 1820-1850) seria da máxima utilidade. Convenhamos: muita gente acha que não se deve mexer na Constituição apesar de a Constituição não ser adequada, porque — precisamente — se mete onde não é chamada. Compreende-se o princípio, o de não se poder proceder a revisões periódicas da Constituição sob pena de o texto perder o que lhe resta de honra, dignidade e princípio. O problema é que os seus princípios estão errados, a sua dignidade está ferida e a sua honra já ninguém lha reconhece. A Constituição foi o produto de um processo revolucionário e as revisões posteriores não lhe retiraram essa marca. Tomás Vasques acha que há uma discussão política & ideológica que vale a pena travar em torno da Constituição e que não se pode reduzir a questões técnicas. Tem razão. Uma das coisas que há a fazer é tentar que o seu texto seja respeitado por todos os portugueses. Para isso, o melhor caminho não é mudar os as opiniões, as orientações políticas e as opções dos portugueses — mas transformar a Constituição num texto útil, mais neutro, de garantias mínimas ou máximas, essencial. Agora, esta ideia peregrina de que os senhores professores se dedicaram a «anos de estudo da matéria» é verdadeiramente para fazer rir. Azar.

Hoje, pouca gente sabe o que é um marco geodésico, para que serve e como se calcula a sua posição exata. Dizemos “milhares de quilómetros” e admitimos que a medida está certa. No século XVII havia dificuldades e Jean Picard resolveu-as a partir de cálculos que ainda hoje nos fazem inveja. Foi assim que chegou aos 6.328,9 quilómetros, o raio terrestre (valor corrigido hoje em 0,44%). Daí em diante, as nossas medições e cálculos foram mais fáceis, meridiano a meridiano, até conseguir uma fiabilidade assombrosa para a cartografia. Além dos trabalhos como astrónomo (uma cratera lunar tem o seu nome), interessou-se pela luz, pela fosforescência dos materiais ou pela ascensão dos objetos celestes. Nasceu há 390 anos, que se assinalam hoje. Picard era um talento poético.
[Na coluna do Correio da Manhã.]
Manuel Alegre considera que o Presidente «não pode deixar de emitir uma opinião» sobre a proposta de revisão constitucional. Manuel Alegre também não pode deixar de emitir uma opinião sobre a realização de touradas, a flexibilidade laboral, a retroatividade fiscal, o verso livre, o aumento de impostos, os resultados dos exames de Matemática, o aumento de insolvências de empresas, Rui Pedro Soares, os limites à pesca de atum, o financiamento ilegal do BPP ou a absolvição de Valentim Loureiro.
Independentemente de saber se é «eleitoralmente útil», «politicamente oportuna», se aborrece ou não os senhores professores e outros co-proprietários, se aquilo que sabemos do projecto é ou não questionável, a proposta de revisão constitucional do PSD acordou o velho regime em peso e coletivamente, de António Arnaut a Alberto João Jardim. Tem, além disso, o mérito de levar o secretário-geral do PS a convocar uma reunião do partido para discutir artigos publicados em jornais. Os parceiros do ancien régime, de Alberto João Jardim a António Arnaut, atropelam-se para denunciar um golpe de Estado, o que é normal nestas circunstâncias (o dr. Vital Moreira já tinha anunciado há anos que a eleição de Cavaco Silva seria também uma ameaça de golpe de Estado constitucional). É estranho, aliás, que o PS proteste contra a «destruição do Estado socialista» e não proteste, em coerência, com uma boa parte das medidas que tomou nos últimos anos. Mas entende-se: não interessa que a Constituição seja respeitada ou respeitável; interessa é que ela decreta, por escrito, o «Estado socialista», independentemente de ser adequada ou não. É o velho espírito das coisas desejáveis transformadas em lei. De repente, uma plataforma de «exigentes constitucionalistas» a que não conhecíamos nem a habilidade nem a disponibilidade, achou que vinha aí o apocalipse.
E, no entanto, é tudo tão simples e razoável: o secretário-geral do PS não quer saber de Constituição nenhuma, e, intimamente, não quer saber para nada do «Estado socialista» que o texto decreta, porque a Constituição, como está, é uma velharia ideológica que resultou do PREC. Como Tomás Vasques explica, com uma clareza mais do que meridiana, e de forma clarividente, o que está em causa é apenas isto: o confronto «permite ao PS um novo fôlego na próxima campanha eleitoral». Mais nada.
Antes de se pensar em remodelação é preciso que certos ministros façam prova de vida, não vá dar-se o caso de alguns deles existirem mesmo.
José Medeiros Ferreira comentou as afirmações de António Costa sobre «o cansaço dos ministros». Recomendo a leitura do post e, sobretudo, de duas frases florentinas deliciosas: «Não sei se irão a tempo.» e «Compreende-se.» O talento está nos detalhes.

Todos os anos, o verão enche-se de cantorias – o país fica transformado num palco. A avalanche de espetáculos e de “programas das festas” alegra todos os concelhos. Há, no entanto, um pormenor nada despiciendo: caso não saiba, boa parte da fatura é paga pelo contribuinte. Ou seja: provavelmente, há autarquias que financiam ilegalmente a “música comercial”. Se isso faz parte dos seus cadernos de encargos, registemos a novidade; se a ideia é providenciar “cultura” às populações, o catálogo nem sempre é bem escolhido e convinha que o fosse; se é um hábito adquirido e mais nada, então é bom começar a fazer a lista desses maus hábitos, para se lançar um programa de desintoxicação, tendo em vista uma boa administração do dinheiro dos cidadãos. É uma maneira de dizer.
[Na coluna do Correio da Manhã.]
O Ministério da Cultura é uma das instituições mais frágeis de qualquer governo. Primeiro, porque em redor da cultura se reúne um numeroso grupo de interessados, mais do que de interesses; depois, porque é difícil negociar com pessoas que se acham no direito absoluto de serem financiadas segundo critérios altamente flutuantes; finalmente, porque esse financiamento vem de um fundo cada vez mais restrito, que não dá para tudo. Daqui resultam muitos equívocos que se acumulam nos arquivos da chamada “política cultural”. A forma de evitar os cortes orçamentais na cultura ficou agora encontrada: €8,5 milhões ficam à guarda do Ministério das Finanças. Se o historial do MC pode levantar dúvidas, as trapalhadas das Finanças ao longo deste ano bem podem deixar-nos aterrados.
[Na coluna do Correio da Manhã.]

Há de vir o dia em que a cultura não significa apenas espetáculo, financiamento, palco – mas há de ser vivida como parte do dia de cada um. Por necessidade. Por absoluta falta. Porque a cultura (a literatura, a música, a pintura, o cinema, o teatro, a língua, a paisagem, as ruínas do tempo, o património invisível) tem uma relação estreita com a felicidade e a infelicidade. Não é apenas um gueto de atividades catalogadas na ‘programação cultural’ – é, também, elegância, espírito do tempo, negação do tempo, memória, transigência. E mesas de café. Esplanadas. Contemplação. Distância. Viagem. Coisas que não se entendem. Coisas sem explicação. Vidas sem geometria. Uma respiração. Uma representação, um eco, um silêncio. Uma inspiração para coisas perfeitas e impossíveis.
[Na coluna do Correio da Manhã.]

O empresário Joe Berardo é um homem imparável. Conheci-o e sei-o bem. Não está para meias palavras, o que é uma vantagem em Portugal. Ontem, por exemplo, e a propósito do seu museu e dos cortes no orçamento da cultura, lançou um aviso ao governo: “Existe um acordo que tem de ser respeitado.” O problema dos acordos é que têm sido rasgados sucessivamente e já ninguém parece lembrar-se do que disse ontem, ou do que prometeu em campanha eleitoral, ou do que anunciou em clima de disparate. O próprio empresário, anteontem, lançou a ideia de o Estado “nacionalizar tudo e começar tudo de novo”. Deve ser ironia, a menos que as suas empresas estejam a salvo ou queira vender baratos, ao Estado, os direitos sobre a sua coleção de arte, por exemplo. Ou é só outro amigo do Estado?
[Na coluna do Correio da Manhã.]
O pior dos argumentos em literatura, gastronomia, asfaltamento de estradas, jogo do berlinde ou política é o patriotismo. Pior ainda, o “patriotismo de conveniência”, já referido no século XVIII por Samuel Johnson, mestre dos mestres: “O patriotismo é o último refúgio dos malandros.” José Sócrates oscila entre o amor e o temor por Espanha, como também se divide entre o populismo nacionalista e o cosmopolitismo de alfaiate. Convinha definir, antes de mais, que o interesse nacional é fazer com que os “nacionais” vivam melhor e de acordo com aquilo que acham justo, correto e melhor para eles. O problema é maior, no entanto, quando nos comparamos – porque ficamos a perder. Em música, literatura, presuntos, costumes ou futebol. E, claro, até em matéria de governantes.
[Na coluna do Correio da Manhã.]
O Ministério da Cultura apresentou uma proposta sobre taxas e isenção de taxas para efeitos de doação de livros. Explica-se com facilidade: ao fim de alguns anos, os editores têm de dar um destino aos livros que estão em armazém. Alguns deles gostariam de doá-los – mas essa doação não está isenta de IVA, o que é um absurdo. Em alguns casos, os editores são obrigados a destruí-los, opção certamente desumana mas que lhes fica mais barata do que pagar ao Estado por vendas não efetuadas. Com esta iniciativa, o governo propõe-se ficar com os livros em excesso e distribuí-los conforme entenda, encaminhando-os para associações culturais, prisões, escolas, etc. É uma ideia a estudar. Em se tratando de livros, toda a gente quer oferecê-los. Pagá-los é mais difícil..
[Na coluna do Correio da Manhã.]
Pelo contrário, o problema não é a carochinha quer ou não querer casar. Convém-lhe é este estado de coisas, em que pode namoriscar conforme as conveniências. E sabe que, no horizonte, há sempre uma possibilidade.
Para os admiradores da diplomacia iraniana, aqui está um bom exemplo; apesar de alguns recuos, o ministro dos negócios estrangeiros da república mantém a defesa dos bons costumes; entre eles está a lapidação.

Livraria na 16th Street, The Mission, San Francisco.

Shakespeare & Co.
Isto sim. É um manifesto contra as livrarias moderninhas, todas brancas, tipo Multiópticas.
De cada vez que regresso de Cerveira, Caminha, Moledo, Vila Praia de Âncora — um polígono estratégico da minha vida (Longe de Manaus termina em Vila Praia de Âncora, O Mar em Casablanca termina em Moledo) —, agradeço muito à palermice dos portugueses que vão para lugares onde se acotovelam entre nuvens de transpiração e mosquitos, e onde não podem respirar o ar do fim de tarde em Âncora ou nos pinhais e dunas de Moledo. Também mencionaria as «neblinas matinais» e o Forte da Ínsua visto do areal, enfrentando o monte de Santa Tecla. Fazem bem. Desta vez desci para Cerveira pela serra e, depois de uma tarde magnífica (apenas suspeitei, lá atrás, a ilha da Boega), fui levado por Caminha, Moledo, até Vila Praia de Âncora. Só faltou parar na feirinha para comprar travessas de barro, colheres de pau (que estão proibidas) e umas cutelarias de Guimarães. Depois, mão divina levou-me à mesa, para uns mexilhões frescos fantásticos (sem nenhum «molho à espanhola», apenas com limão, pimento, cebolinha e um fio de azeite), um polvo que não adivinha jogos de futebol, umas amêijoas robustas, tensas, que nunca fizeram regime — e um robalo pescado à linha. Podia dizer-vos qual foi o vinho branco, mas seria injusto e quero reservar umas caixas para a próxima temporada (divisei, mas não tive tempo para a função, uma garrafinha de aguardente, branca, puríssima, enevoada, que ia bem com o charuto). Barracas de praia no areal. Praças com esplanadas para beber café e Água das Pedras com gelo e limão. Jornais portugueses e estrangeiros. Gente nobre, luminosa e com quem dá gosto conversar, daquela que não se esquece. Histórias do Minho, do meu polígono estratégico. Moledo com a arte e a ironia de António Pedro. Folhagem de árvores junto da praia. Ide, ide, ide para as Caraíbas, ide para Punta Cana. Ide para longe.
Joe Berardo acha que a única solução é «nacionalizar tudo e começar tudo de novo». Podíamos começar pela sua coleção de arte. Daqui a uns anos faziam-se as contas e tal.
O Diogo Belford enumera aqui alguns pontos negros da actividade dos dois governos PS em matéria de cultura. Tem razão. Do ponto de vista da estabilidade, três ministros podiam fazer melhor. Não se sabe é se podiam, ainda, fazer pior. A questão é, no entanto, muito mais vasta — e não tem a ver com as nomeações e demissões mal anunciadas ao longo destes anos. São pormenores num mapa de maus feitios, incompatibilidades, má execução de políticas, excução de más políticas — e indefinição sobre o papel do Estado na cultura. Mas isso deve discutir-se mais tarde. O problema é que, sobre as instituições que o Diogo nomeia, não há uma definição precisa dos respetivos cadernos de encargos. Para que serve um teatro nacional (que deve existir) e que repertório deve apresentar? De que forma deve ser gerido e dirigido o teatro de ópera? Que contrapartidas devem oferecer — ao público — as companhias de teatro apoiadas pela Direção-Geral das Artes? Pode o MC confiar em alguém que diz que gostaria de mudar o Museu Nacional de Arte Antiga para um edifício «mais moderno»? Pode alguém confiar em quem anunciou vários museus (o da Língua é um bom exemplo, mas há mais) só porque lhe agradou a existência de um, semelhante, que viu noutro lugar? Tem, ou não, o MC, autoridade para negociar (influenciar, negociar — não impor) um repertório clássico fundamental no teatro e na música? Pode o MC continuar a apoiar o cinema, da forma como tem feito, sem ter acesso ou poder verificar, com rigor, o destino do seu investimento (incluindo, claro está, a avaliação da forma como algumas «empresas associadas» cumprem ou não as suas obrigações)? Podem as câmaras municipais continuar a financiar ilegalmente (e violando os princípios mais básicos da independência das instituições públicas) a «música comercial»? Pode o MC continuar a formular «políticas» sem a colaboração — que lhe devia ser prestada — do Ministério da Educação e do Ministério dos Negócios Estrangeiros? Pode a «política da Língua» definir-se sem a participação, permanente, do Ministério da Educação, da Biblioteca Nacional, da rede de leitura pública, do Ministério dos Estrangeiros, da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas, da rede de leitorados portugueses no estrangeiro? Pode o Estado português continuar a financiar um numeroso grupo de incompetentes, pusilânimes e indigentes herdados das várias formações da CPLP, onde se tem investido o dinheiro que há e, sobretudo, o que não há? Pode o MC subscrever um documento sobre a «política da Língua» onde, nos seus quase 100,000 caracteres, não se encontra a palavra «livro»? Pode um MC, depois disto, permitir-se anunciar a colaboração de empresas de «obras públicas» (como foi feito há mais de um ano) na recuperação do Património edificado – e haver monumentos nacionais em risco enquanto se fala do «Museu da Viagem»?
Joe Berardo acha que o governo não tem razão; mas também prevê que vai sair-se bem disto. É o que é preciso. Sair-se bem e tal.
Lula, que está mortinho por abraçar Ahmadinejad, vai achar isto um nadinha aborrecido, mas enfim, são costumes deles.
Adenda: Ver este texto de Pedro Correia.
Se o Ministério da Cultura tinha detectado que o Director-Geral das Artes lhe era infiel, tinha-o demitido na primeira oportunidade porque, lamentamos muito, um Director-Geral tem de executar políticas, criar consensos e resolver problemas. Deixando que ele se demitisse primeiro, só mesmo o silêncio lhe calhava bem. Em vez de controlar os danos, o MC procedeu ao alargamento de danos antes de contratar alguém «do meio» para tentar calar desafectos. É a doutrina do apaziguamento perpétuo.
União Nacional — uma tentação delicodoce que reúne, à mesma mesa (a da conveniência ou a da vingança), Miranda Calha, Proença de Carvalho, Vera Jardim e Santana Lopes, olha quem. Dadas «as dificuldades do país», Santana Lopes pede um governo da salvação nacional; Proença de Carvalho quer o Presidente a nomear um governo «de consensos»; e Vera Jardim diz mesmo que «a José Sócrates tal solução agradaria». Vê-se.

«Patriotism is the last refuge of a scoundrel.»
Samuel Johnson, 7 de Abril de 1775.
Muito bem. O governo «decidiu avançar com uma descativação excepcional de 7,5 por cento das verbas oriundas do PIDDAC», ou seja, decidiu não avançar com os cortes «na Cultura». Nada que nos entristeça, evidentemente; mas não é caso para alegrias. O governo decidiu que, sobretudo nesta fase, não valia a pena proceder a uma reforma regimental, o que se compreende — limita-se a medidas de gestão. De alguma forma, esta medida vai contra a corrente de Gabriela Canavilhas e representa um recuo substancial que é anunciado pelo ministro dos Assuntos Parlamentares e não, como devia, pela ministra da Cultura. O problema não é esse. É a palavra «cortes». Só há uma maneira de resolver o problema — em definitivo — e o governo também o sabe mas não está para isso: é divulgar, de forma sistemática, controlada e total, as transferências de fundos do Orçamento, do PIDDAC, do QREN, do que for, para as instituições e entidades apoiadas.
Todos sabemos que deve existir um Teatro Nacional, um Teatro de Ópera, uma rede de orquestras, apoios ao teatro independente, apoios ao cinema português — entre outros. Mas, quando se levanta a onda «contra os cortes na Cultura», é fundamental sabermos do que estamos a falar, e de que fundos estamos a tratar. Aparecer alguém a dizer «cortaram-nos €500,000!» é chocante; mas sabermos que esse «corte» de €500,000 é feito num total de transferências de €M10, já é outra música (ou seja, a transferência é de €M9,5).
Mas não basta saber que fundos são transferidos e para quem. É preciso conhecer a natureza dos protocolos, cadernos de encargos e contrapartidas que estão na base dessas transferências. Ou seja: se uma companhia de teatro recebe €700,000 anuais, é necessário sabermos a quantas montagens se refere esse subsídio, se se trata de apoio à montagem, à produção, ou — genericamente — à empresa que tutela a companhia. Mais: era bom saber se uma das contrapartidas a essa verba de €700,000 inclui, por exemplo, itinerâncias, espectáculos para escolas, adaptação de textos de autores portugueses, etc. Também é importante conhecer o número de espectadores com bilhete pago, o número de espectadores com convite e — por exemplo — se a entidade acumula esses apoios com outros atribuídos por entidades municipais ou nacionais (do Estado, de qualquer forma) para os mesmos fins. Mas isso seria apenas o princípio de um programa.
Adenda: o Luís M. Jorge assinala aqui a importância dos bens culturais entre os transaccionáveis e destinados à exportação. Tem toda a razão. O estudo recente de Augusto Mateus sobre a «indústria cultural portuguesa» é uma fonte credível e autorizada. Por isso mesmo convém verificar a que área corresponde a criação de mais de 60% da riqueza, emprego, etc., no conjunto dessas «indústrias». Curiosamente, a uma área a quem, nos últimos cinco anos não foi atribuído um cêntimo pelo OE. Edição, justamente.
«Se nos compararmos, perdemos em quase tudo: na poesia, na novela, na viola de gamba, na saúde oral e no tamanho dos narizes.»
Luís Januário, no A Natureza do Mal.
Caro João: nada contra Jorge Barreto Xavier. A questão não se prende com o Director-Geral das Artes mas com a prática decidida pelo Ministério das Finanças e à qual Barreto Xavier teve de obedecer — a de taxar um prémio «em sede de IRS». Não é elegante chamar Paulo Nozolino e 1 dizer-lhe que um júri às ordens do Ministério da Cultura e da AICA decidiu atribuir-lhe um prémio no valor de um tanto, 2 organizar uma sessão pública para mostrar à imprensa a entrega do prémio, 3 não entregar o prémio (como seria normal) mas 4 um papel em que se promete uma transferência bancária e, finalmente, no dia seguinte, 5 enviar um email onde se pede uma certidão emitida pelas Finanças para ver se se entrega o prémio, ou não, e 6 avisando que vai fazer-se o corte de 10%. Pede-se uma certidão quando (fazem-no as câmaras municipais, fazem-no certas instituições do Estado) se vai proceder ao pagamento de um serviço prestado; um prémio — uma distinção decidida independentemente do premiado, que não concorreu a ela — não é um serviço prestado. Um prémio desta natureza é atribuído a um artista e não a um contribuinte; o fotógrafo, pintor, escritor, cineasta, seja o que for, é também um contribuinte nos termos da sua relação com o Estado, ou (vamos lá...) com a sociedade, e, nessa condição, é obrigado a pagar os seus impostos; mas receber um prémio não se enquadra em nenhuma actividade sujeita a IRS ou IRC ou a qualquer taxa eventualmente criada pela esponja do Estado. Argumentarás tu, e argumentará certamente alguém mais, que o Estado é capaz de ter criado um regulamento qualquer sobre isso. Lamento muito. O Estado pode criar os regulamentos e posturas que entender para receber o que acha que lhe faz falta; por isso, atira-se aos rendimentos do trabalho ou à riqueza dos contribuintes e à actividade das empresas. Isso toda a gente entende. Mas alterar as regras «a meio», e com a deselegância de um rinoceronte, não me parece que se entenda. Não conheço pessoalmente Jorge Barreto Xavier, mas conheço o seu trabalho. Como funcionário do Estado limitou-se a proceder como o Estado exige; não tem, pois, responsabilidade directa neste assunto. O Estado é que confunde «uma distinção a um artista» (que tem um valor pecuniário) com «pagamentos a entidades ou indivíduos com dívidas fiscais». E, portanto, como é de sua natureza, desconfia de toda a gente.
Finalmente, uma nota: acho nobre e superior defender-se um amigo, como tu fazes em relação a J. Barreto Xavier. Independentemente do que escreve Paulo Nozolino, e como conheço as obrigações dos departamentos do Estado, não critiquei J. Barreto Xavier; apenas mantenho que não se pode — como tu largamente sabes — confiar no Estado. Infelizmente para J. Barreto Xavier.
Alguns comentadores insistem, insistem, repetem, repetem permanentemente até se convencerem de que é mesmo verdade: falam de uma «Alemanha fria, oportunista, calculista» e hoje ouvi mesmo mencionar o «futebol alemão» como «eficaz mas sem alegria». Coisas que se desfazem num instante: 4-0, 4-0, 1-0, etc. (e um mau resultado, sim senhor). Quanto à alegria, eu vi o riso aberto de Müller, de Sami Khedira, de Schweinsteiger, de Miroslav Klose, de Podolski, de Mesut Oezil – que não me atrevo a dizer que estavam tristes. Triste foi o futebol da Argentina e do Brasil, que fazem futebol «criativo». Tristeza – e eu acompanhei-a, porque era uma guerra contra o destino – foi a do Paraguai, o país historicamente mais derrotado e maltratado do «cone Sul» (sobretudo por brasileiros e argentinos). Mas temos de os ouvir repetir a coisa até à final, suponho.

Claro que era a Argentina, mesmo depois da festa antecipada — mas mal comandada, como se sabia. Assim, não corremos o risco de Maradona se despir em público nem de o outro cavalheiro nos oferecer o triste espectáculo da sua sodomia. Estamos salvos, ainda por cima pelo bom futebol da Alemanha. Aprendam.
Enquanto isso, o uruguaio Abreu, el loco, diz o suficiente para percebermos a sorte que lhes caiu no relvado: «Como la historia manda, vamos a seguir buscando.»
Absolutamente isto. Rui A. Araújo sobre a assim chamada, enfim, imaginemos, perdão, literatura, vá lá, transmontana (LT). «Na LT evocam-se as gentes rijas e sofredoras, as casas humildes de virtude, os solares alegretes de pasmar e fantasiar, e, mais do que tudo, a paisagem: os socalcos do Douro (degraus de gigantes!), a neve do Barroso (açúcar dos deuses!), as amendoeiras de Freixo (jardins do Éden!). A Terra Quente é maravilhosa — porque é quente; a Terra Fria é espantosa — porque é fria; as zonas moderadas deslumbram pelo sóbrio equilíbrio climatérico! É assim Trás-os-Montes na LT. […] A LT faz pior: cultiva a pieguice, o bairrismo, o revivalismo, o provincianismo, o bucolismo, o saudosismo e, mais grave, o analfabetismo. […]»

Sim, eu também gostava que o Gana seguisse em frente; mas também gostava que o Uruguai fosse às meias-finais. Gosto de Oscar Tabarez; tem a figura típica do uruguaio como eu o conheço (aliás, tem o rosto do uruguaio mais uruguaio que conheço, o meu amigo Mario Delgado Aparaín). Só um uruguaio do mundo podia dizer, no final do jogo, com aquele sorriso fatal, ao canto da boca (desculpem-me os argentinos, mas é o sorriso fatal, ao canto da boca, próprio de quem aprendeu a ouvir tango e a fingir que não está a ser irónico), «no jugamos bien pero parece que hay algo que nos está empujando, no se que será, debe ser la fuerza de estos muchachos». Ou que promete: «Viene Holanda y, aunque parezca raro, le queremos ganar.» Ou que não se atribui grande importância: «Pusimos lo que hay que poner y eso nos tiene muy satisfechos.» Ou que se refere ao próximo adversário com uma grandeza de guerreiro: «Si digo que es un rival difícil me quedo corto.» Aprendam. Há coisas que têm de se aprender.

[Dedicado aos meus amigos brasileiros com quem falo de futebol, Eduardo C., Arthur D., Lourenço M., Manuel C. P., Wilson F. G., Sérgio A., Marcelo F.]
Queridos amigos: qual é a sensação de ver o Uruguai já para lá da meta, e o Paraguai e a Argentina (ah, a Argentina) quase a dar o salto? Estranho, muito estranho. Às vezes penso que Ijuí, a terra de Paulo Bonamigo (treinou o Botafogo, o Palmeiras, o Marítimo — daqui — ou o Atlético Mineiro) fica só a uns quilómetros de distância de Passo Fundo, a terra de Scolari (e do excêntrico Teixeirinha). Foi aí, em Ijuí, que nasceu Dunga, que não é a coisa mais chata do mundo porque, além disso, tem o futebol de Dunga, essa sim, mais chata ainda. Não sei quem quis repetir a receita do futebol gaúchês, mas há coisas que precisam de um maestro à altura e de intérpretes afinados. O dunguismo acabou. Agora, voltando ao princípio: digam-me lá o que acham da vossa vizinhança.
Paulo Nozolino recusa o Prémio AICA/MC 2009 «em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo». O Estado está habituado a mudar as regras quando lhe convém e como lhe apetece, independentemente dos compromissos assumidos e publicados. «Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.» Primeiro, na cerimónia da entrega do prémio (uma distinção e não um concurso), dão a Nozolino um papel dentro de um envelope, onde lhe prometem um cheque; no dia seguinte, pedem-lhe uma declaração fiscal, como se Nozolino tivesse realizado um trabalho para a Direcção-Geral das Artes e o fotógrafo tivesse respondido uma encomenda. É uma novidade absoluta no comportamento do Estado com um premiado – que não pediu para ser premiado.
Termina assim o comunicado de Paulo Nozolino, publicado no site da editora Frenesi, e intitulado «Um Estado que não sabe lidar com homens feitos de uma só peça»: «Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.»



Os chips electrónicos obrigatórios nos carros deviam ser chumbados pela Comissão de Protecção de Dados. Fotografar automobilistas nas portagens das Scuts é absolutamente a mesma coisa. Que seja o constribuinte ou o Estado a pagar o controle electrónico da nossa passagem em, digamos, Paços de Ferreira, é a mesma coisa.
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