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Harry Dean Stanton Band.

por FJV, em 18.09.17

Quantos descobriram a ‘Canción Mixteca’ (de José López Alavez, no início do século XX) através da versão de Ry Cooder, em Paris, Texas (1984), o filme de Wim Wenders? Bastantes. E do rosto de Harry Dean Stanton, a estrela discreta e, em simultâneo, poderosa, interpretando aquele papel abandonado de Travis ? Quase todos. A sua carreira foi toda ela feita de papéis secundários – os grandes pilares do cinema, os coadjuvantes indispensáveis, as estrelas distantes sem as quais não brilham as outras. Mas Stanton nunca teve razões de queixa: ele era assim: secundário, coadjuvante, de poucas palavras, escolhido por realizadores como Coppola, Ridley Scott, John Carpenter, David Lynch, Sean Penn ou Scorsese. Não há rosto “americano” tão pouco “americano” no cinema. Recomendo que o vejam também num western improvável, Duelo no Missouri (de 1976), ao lado de Marlon Brando e Jack Nicholson – e escutem a Harry Dean Stanton Band, para perceber essa mistura de blues, rock e música texana. Morreu na sexta-feira aos 91 anos (nasceu em 1926), um fumador inveterado e um rosto como não há mais.

[Da coluna do CM]

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A fartura de votos que se deseja para a República em dia de futebol.

por FJV, em 15.09.17

A Comissão Nacional de Eleições zela por nós com um desvelo de jardim-escola, definindo o que devemos e não devemos fazer no dia das eleições. Nada de futebol nesse dia; nem sexo, nem carnes vermelhas, nem saltar ao eixo – só eleições. Qualquer outra atividade pode “potenciar a abstenção”. Como somos gente que se distrai por tudo e por nada, o governo prepara-se para “proibir espetáculos desportivos em dia de eleições” – o que se aceita desde que, no resto do ano, se proíbam políticos de se ameijoar na tribuna dos estádios a dar abracinhos aos dirigentes do futebol. Peço humildemente ao governo que na sua lei não se esqueça de mandar encerrar os cinemas e os teatros, bem como livrarias, cervejarias de bairro, restaurantes tailandeses e bares de strip-tease. Em caso de eleições durante o estio, vede-se o acesso às praias ou expulsem-se os banhistas a partir do meio-dia; durante a invernia, as autoridades podem perfeitamente proibir a chuva e os passeios à Serra da Estrela (para onde, já agora, serão desterrados os que faltarem a sessões no parlamento para ir ver jogos de futebol).

 

[Da coluna do CM]

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Le Carré, o regresso

por FJV, em 08.09.17

Passam 27 anos de ausência sobre George Smiley, o espião e prestidigitador criado pelo grande talento de John Le Carré – a sua última aparição foi em Peregrino Secreto, um livro de celebração da literatura de espionagem e dos seus heróis. Ontem, em Inglaterra, com A Legacy of Spies (no próximo ano em Portugal, pela mão da D. Quixote), George Smiley regressou ao convívio dos seus leitores. A expressão não dá conta da beleza do momento; Smiley não é apenas um equilibrista no mundo da espionagem britânica, um homem discreto e sábio, atormentado e vulnerável, que acreditava numa Europa capaz de justificar o confronto da Guerra Fria (e, pessoalmente, com Karla, o chefe do KGB) – ele é um personagem literário marcante. A trilogia composta por A Toupeira, O Colegial Ilustre e A Gente de Smiley é um legado maravilhoso – que começou em 1961, na sua primeira aparição em Chamada para o Morto – que aguardámos durante estes anos em que Le Carré, tal como nós, não conseguiu esquecer esse personagem tão poderoso. A sua biografia é um elogio à tremenda beleza da conspiração.

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O sonho americano.

por FJV, em 07.09.17

Em determinada passagem de O Fantasma de Harlot, um maravilhoso romance de Norman Mailer sobre a CIA, os Kennedy e os falhanços da América, há um encontro entre dois espiões – um russo e um americano (Harry Hubbard, o protagonista). O soviético está convencido de que a URSS é um tormento, mas não desertará para a América (ao contrário de Hubbard, que se refugiará em Moscovo) que, diz ele, profeticamente, já não é a casa do sonho, dos inventores, do barroco criativo, da arquitectura humanista. Ele quererá dizer que já não é a América de John Hay ou Henry Adams, por exemplo. Por isso, a decisão da administração Trump em acabar com a “lei dos sonhadores” (ou seja, os 800 mil jovens chegaram ao país indocumentados quando eram crianças) não é apenas o incumprimento da promessa de nacionalidade; é a perversão da “grande ética americana”. Os republicanos, esquecendo que foram eles a imaginar essa América, entregaram-se a um bando de ignorantes e a uma casta de obtusos. Ao assinar este decreto, o governo envergonha os republicanos de há um século e a América de sempre. Trump acabará mal. 

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O soviete de Petrogrado.

por FJV, em 05.09.17

Assim dá gosto. Jerónimo de Sousa não desilude quando é preciso pôr os pontos nos is. A ideia de que o líder comunista poderia, ai de nós, “suavizar” o discurso ou reconhecer alguns dos “excessos” estalinistas, é absurda. O grande mundo do socialismo não o abandona, como se vê pelo discurso na festa do Avante: dele participam os fantasmas reunidos antes do “degelo” de Krushev e depois da subida ao poder de Brejnev. É bom saber com o que contamos: Jerónimo de Sousa de braço dado com Lysenko e Beria, com Lenine e (ah, que sonho) Dzerjinsky, o fundador da Cheka, evocando a dinastia de heróis da Coreia do Norte ou no Camboja (Pol Pot e o regime Khmer merecem uma moldura), como um marxista-leninista tão ortodoxo como um pijama às riscas, dançando uma cumbia na Venezuela ou nadando no Yangtsé ao lado de Mao. Nada de graçolas: Jerónimo de Sousa não vê necessidade de encontrar exceções ou adversativas; isso é admirável na sua figura. Num mundo de falsos “modernos” e hipócritas, Jerónimo não é politicamente correto: ele sonha com o soviete de Petrogrado e com as purgas de Estaline.

[Da coluna do CM]

 

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Abrir a porta e dar um passo em frente.

por FJV, em 04.09.17

Há um fenómeno curioso na direita portuguesa – a sua cruel indigência inteletual. Vemos na televisão alguns dos “grandes comentadores” terçarem armas pela sua donzela e respetivos territórios: “a economia”, o défice, as exportações, as empresas, as operações financeiras, ocasionalmente a política. Matérias que nos interessam (há vinte anos que os telejornais são um prodigioso instrumento de manipulação através dos números). Negócios em primeiro lugar – e “colaboração” com o Estado, uma espécie de elefante da Índia que se maneja a espaços, e que é preciso defender com solenidade e sem asma, de tal maneira que conhecem bem a expressão “dormir com o inimigo”. Mas, tirando isso, os “senadores” ajeitam o nó da gravata e acham que tudo o resto são tropelias das quais estão defendidos e um terreno ao qual não querem “descer”. Acontece que “o mundo dos negócios” (leiam Balzac) dorme com quem lhe ajeita os lençóis e lhe promete tropelias. A liberdade, por exemplo, não é um assunto popular entre nós. A maior parte dos “senadores da democracia” atravessou o último século sem uma ideia na testa.

[Da coluna do CM]

 

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Coisas adoráveis.

por FJV, em 31.08.17

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coisas que acontecem à sexta-feira. Em duas linhas: Sara Carbonero publicou uma fotografia com peluches (animais!, animais!) na sua conta pessoal no Instagram. O resto é maravilhoso: leia e confira como dá vontade de rir.

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Catalunha: «Ahora es una sociedad agresiva, con signos evidentes de violencia.»

por FJV, em 31.08.17

Ler a entrevista com Gregorio Morán, um dos melhores colunistas da imprensa espanhola — o La Vanguardia, agora muito catalanista, acaba de despedi-lo; alguns extractos:

 

La manifestación por el atentado pudo haber sido un lugar de encuentro y de suavización de posturas, pero no. En el momento en que se decide encargarle el servicio de orden a la ANC, eso es como poner al lobo a cuidar a las ovejas. Era una manifestación toda ella organizada para la mayor autosatisfacción del secesionismo.

 

Ahora ya han empezado a decir que con un 30 por ciento de participación en el referéndum ya les vale. Si se hace este va a ser un referéndum mucho más a lo bestia que cualquiera que planteara nunca el franquismo, donde uno solo votando no era el aval de millones de votantes del sí.

 

A muchos nos pareció en su día una sociedad más abierta que la madrileña, por decir algo. Eso ha cambiado mucho. Ahora es una sociedad agresiva, con signos evidentes de violencia aunque no aparezcan en los medios ni se reconozcan oficialmente. La paz social de aquí ahora consiste sólo en que el poderoso no tenga contrincante. Esto es como un circo, con sus payasos, sus trapecistas, sus leones domesticados, sus monitos que hacen monerías, y la orquesta como la del Titanic, tocando en pleno hundimiento.

 

Tras los atentados, cuando el Ministerio del Interior daba 13 muertos, la Generalitat quería dar los menos, la cifra más baja posible. Entonces el conseller Joaquim Forn, un talibán secesionista de toda la vida, que en eso no engaña a nadie, que siempre ha sido un desvergonzado absoluto, iba diciendo que sólo había 2 muertos. Y luego que si 2 muertos catalanes y 2 muertos españoles. Y el olvido de la gran cantidad de turistas que han muerto... Claro, después de la campaña de turismofobia lanzada a bombo y platillo por la CUP, ¿qué hacemos ahora con los turistas muertos?

 

El CIS catalán ha hecho un análisis de las últimas elecciones, y resulta que a la CUP la votaron las clases más altas de Barcelona, el semillero de votos lo tienen en Sarrià, lo cual resulta realmente llamativo. Unamuno ya decía, catalanes, os pierde la estética. En realidad él llamaba benévolamente estética a la frivolidad, porque además ya se ha visto cómo todos estos valientes luego salen corriendo a defender su patrimonio…

 

Pero, en fin, si hemos resistido frente a la dictadura, cuando nos decían, si no le gusta España, váyase... Ahora te dicen lo mismo, que si no estás conforme, que te vayas de Cataluña. 

 

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Catacumbas de ressentimento.

por FJV, em 30.08.17

Um dia vai discutir-se se a ASAE vai ou não poder entrar numa loja de brinquedos e acabar com a trampolinice que é a existência de secções para rapazes e para raparigas. O assunto não me incomoda. Ao ler o despacho exarado pela Comissão de Igualdade de Género acerca dos famosos livritos não vi nada de novo além de novilíngua e indigência. O costume, nenhuma novidade; não me interessa. Felizmente, os meus filhos são pessoas livres e não vão sujeitar-se à ignomínia de lerem livros submetidos ao exame prévio daquelas catacumbas de ressentimento. De resto, é uma guerra perdida; o único remédio é rir: basta dizer que alguém encontrou seis atividades mais difíceis para rapazes e apenas três mais difíceis para meninas – e ficou sem poder ter orgasmos durante vários dias. No Centro de Investigação 3B da Universidade do Minho, pelo contrário, trabalham 150 investigadores desconhecidos da CIG (são responsáveis por 50 patentes internacionais, em vez de fazerem ativismo de sofá). Mais de metade são mulheres. São muito melhores do que os rapazes. São o meu – e o nosso – orgulho.

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Autoeuropa.

por FJV, em 30.08.17

O problema da Autoeuropa ultrapassa em muito a questão do Sábado. É o velho combate do PCP pelo domínio da Comissão de Trabalhadores  – que lhe tinha escapado e permitido um acordo entre as partes. O PCP não esquece as traições nem contemporiza com os trabalhadores.

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Quem disse? (1)

por FJV, em 27.08.17

«Os feminismos são teorias. Eu acho que a teoria na nossa época tem desempenhado um papel terrível na política, tem desempenhado um papel terrível na arte, e também na vida.»

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O Estado, porquê?

por FJV, em 27.08.17

Não percebo o silêncio em redor desta indignidade antecipada. Melhor: percebo perfeitamente — todos os partidos têm os seus regimentos na função pública, administração pública, serviços públicos, conta geral do Estado. Só isso explica que se peça — publicamente, descaradamente — que o orçamento de Estado continue a financiar a ADSE, vejam bem, «aliviando as contribuições directas dos beneficiários». Por que é que tenho de ser eu a contribuir para «o alívio» dos beneficiários desses sistema privado de saúde?

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Uma história de fantasmas.

por FJV, em 25.08.17

A mensagem do Estado Islâmico para Espanha é de uma grande perversidade. Não só declara que o atentado de Barcelona foi a primeira incursão da sua jihad em Espanha (ou seja, desvaloriza o ataque de Atocha em 2004) mas insiste na memória do Califado desfeito no século VIII, e do mapa de al-Andalus. Ao longo das duas últimas décadas, uma malha de radicais islâmicos estabeleceu-se no litoral espanhol do Mediterrâneo, sobretudo em Barcelona – ao ponto de as autoridades policiais da Catalunha, para mostrarem a sua “singularidade” (face ao “espanholismo”), desvalorizarem avisos das polícias belga e francesa sobre essas células. A invocação do Califado não é inocente; a promessa da sua reconstituição está na letra do wahabismo e no espírito das alianças que no final do século XIX se fizeram nas montanhas do Iémen e que têm alimentado o fundamentalismo islâmico e o poder das grandes famílias da região. À distância, o passado faz sentido; mas para nós, que vivemos só na passagem do século XX para o XXI, julgando que a vingança estava esquecida, parece uma história de conspiração e fantasmas.

[Da coluna do CM]

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John Lee Hooker: 100 anos.

por FJV, em 22.08.17

Lembram-se de “One Bourbon, one Scotch, one Beer”? De “Boom, Boom”? De “Dimples”? De “Boogie Chillen”? Uma resposta: John Lee Hooker, a voz e a guitarra dos blues – no pódio, ao lado de Muddy Watters e Sam Lightnin’ Hopkins. Aos oitenta anos (em 1997), um videoclip absolutamente notável, o de “Don’t Look Back”, com Van Morrison (de quem tem duas versões de “Gloria”). Dois anos antes cantava “Too Young” no disco ‘Chill Out’, ao lado de Van, de Carlos Santana ou de Charles Brown (o de “Driftin Blues”): John Lee Hooker tinha a grande arte de arranjar companhias para fazer música – lembram-se de “Crawling King Snake” num dueto inesquecível com Keith Richards, ou o palco em que cantou “Boogie Chillen” com Eric Clapton e os Rolling Stones? Hooker transformava os blues numa festa permanente. Calçava meias coloridas, vestia maravilhosamente, a sua guitarra nunca perdeu o timbre, a voz era uma pepita de ouro que resistiu à idade, até ao fim. Morreu em 2001, calmamente (como as suas últimas canções). Completaria hoje cem anos de idade. “One Bourbon, one Scotch, one Beer” para festejar.

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Em Sabadell estão a fumar substâncias estranhas

por FJV, em 21.08.17

Os nacionalismos são geralmente imbecis – em Espanha têm a agravante de serem estapafúrdios. Veja-se Sabadell, na Catalunha: o município (uma coligação de independentistas de esquerda e Podemos) pediu um documento para mudar a toponímia local; vem daí a ideia de retirar o nome de António Machado a uma praça da cidade – por, apesar de grande poeta universal, lá no fundo ser “espanholista e anticatalanista”. À distância, o município abusou da bebida ou fumou erva estragada. O documento, muito xenófobo, exige ainda expurgar das suas ruas nomes como Goya, Calderón de la Barca, Quevedo, Góngora, Adolfo Bécquer ou Lope de Vega, acusados de terem perfil franquista – ou serem parte de um “modelo pseudocultural franquista”. Goya? Quevedo? Calderón? Sim, todos eles “ferramentas da propaganda franquista”. Há tempos, imbecis em San Sebastián quiseram mudar o nome da bela Praça Cervantes, porque o genial autor do Quixote é “espanholista”. E em Madrid, a extravagante alcaide Manuela Carmena quer mudar a estátua de Cervantes, que é capaz de ser franquista. Pobre Espanha, entregue a tontos.

[Da coluna do CM]

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Teologia activa.

por FJV, em 21.08.17

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Por exemplo, só deixar entrar os ricos nas nossas fronteiras

por FJV, em 21.08.17

Não custa a admitir, como princípio, uma quota de visitantes a determinar por cidades ou países que acham que a avalancha de turistas põe em perigo o seu bem estar, o seu património ou até – no caso de o argumento ser do Bloco de Esquerda – a economia. No fundo, Veneza e outras cidades-estado adoptaram esse princípio ao longo da história. A questão está em como se procede para limitar o acesso a Dubrovnik, por exemplo, ou a Pequim, ou a Idanha-a-Nova (não falo de Barcelona antes do referendo) – os “mais ricos” que fazem reserva nos melhores hotéis e se recusam a alugar apartamentos de curta duração?; os “mais cultos”, que querem visitar os monumentos, as bibliotecas e os museus das cidades?; os que passarem num exame de etiqueta, e se verificar que nunca mijariam da varanda de um hotel de Ibiza?; os “poliglotas”, que falam a língua local?; os “gastrónomos”, que prometem tomar pelo menos uma refeição diária de faca e garfo? Os que se inscreverem primeiro na lista de vagas disponibilizada pelas autoridades ou (horror!) pelo mercado de quartos? Eis uma grande arena para discussão. 

[Da coluna do CM]

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Aproveitamento político.

por FJV, em 17.08.17

Claro que ninguém fica indiferente à energia e à presença do Presidente da República no Funchal, depois da tragédia da Senhora do Monte, de Pedrógão ou de outros cenários onde os portugueses percebem que o Estado não os ignora de todo. Mas a consolação tem de dar lugar, depois, ao apuramento de responsabilidades da parte do mesmo Estado a quem os portugueses entregam os seus impostos, delegam a procura de justiça ou de segurança. Não faz sentido, por isso, que o primeiro-ministro critique o “aproveitamento político” das tragédias. Não são as tragédias que estão em causa – mas uma soma inacreditável de incompetências, mentiras, desacertos, além da descoordenação de meios e de respostas. O próprio primeiro-ministro alterou várias vezes a sua posição em relação ao Siresp, por exemplo. Não basta que faça perguntas aos seus serviços: nós fazemos perguntas; o Estado tem de dar respostas – é assim que funciona a democracia. Não se trata de “aproveitamento político” das tragédias, mas de verificar que o Estado, para o qual contribuímos mais do que generosamente, falha e mente onde não pode falhar nem mentir.

[Da coluna do CM]

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No Delito.

por FJV, em 17.08.17

Por convite do Pedro Correia, o Delito de Opinião publica esta semana um texto meu, «O tempo sem pessimistas».

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Catalanistas.

por FJV, em 17.08.17

O «provincianismo independentista» não esconde um certo rabo de palha: decretada a independência, terminariam estes processos que fazem da Catalunha a capital da corrupção em Espanha. O número de delitos de corrupção investigados na Catalunha é o dobro de Madrid ou da Andaluzia e 300 vezes mais do que Navarra, 15 vezes mais do que a Galiza, superior em 40 vezes às comunidades de Aragão, de Castela e Leão ou de Múrcia. Para entusiastas do independentismo catalão, ler La Soledad del Manager ou Los Mares del Sur, de Manuel Vázquez Montalbán – e comparar com as biografias políticas de alguns líderes catalanistas. O velho Tarradellas definiu a coisa como uma dictadura blanca.

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Perigosa, esta coisa.

por FJV, em 16.08.17

Há tempos, uma dirigente socialista escreveu no Twitter um post escandalizado: então esta jornalista ainda não foi despedida? A ideia de calar os que têm outra opinião, que interpretam os factos de outra forma, que dizem uma verdade inconveniente (como era o caso), ou fazem uma piada, tem vindo ser adotada como regra. As opiniões de um funcionário num documento interno da Google foram o suficiente para que fosse despedido pela empresa porque o texto “perpetuava estereótipos de género”. A atriz Lena Dunham (série Girls) declarou no Twitter que, enquanto esperava um voo, ouviu dois empregados da American Airlines numa conversa “transfóbica” (o seu voo era noutra companhia, já agora); a companhia tratou de saber quem seriam os funcionários, para despedi-los. O comediante Bill Maher, insuspeito de simpatias republicanas (é campeão de piadas contra Trump), protestou esta semana contra o despedimento de Jeffrey Lord, um comentador pró-Trump da CNN apanhado numa piada de mau gosto – mas declaradamente piada. Há tempos, o próprio Maher usou a palavra ‘nigger’ numa piada e originou uma campanha para o seu despedimento da HBO. Está perigosa, esta coisa – e imbecil.

[Da coluna do CM]

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Proiba-se.

por FJV, em 15.08.17

Antigamente, havia extraordinários desejos inconfessáveis: ter uma aventura com um ator ou uma atriz de cinema, aceder a uma profissão, pensar em sexo (a maior parte do tempo) – a lista é muito variada e, ai de nós, pecadores, quase interminável. Hoje, uma das ambições da humanidade esclarecida é proibir. Proibir uma palavra, proibir açúcar, proibir uma ideia, proibir uma pessoa. Não basta não gostar, discordar, achar imbecil – é preciso proibir. Desta vez, quem chamou a atenção para o assunto foi o escritor espanhol Javier Marías. Fui ver à fonte, a imprensa inglesa: a principal associação de estudantes de Oxford quer proibir as togas (é uma questão antiga) ou, agora, proibir que existam togas diferentes. É que o tamanho das mangas das togas são importantes: se forem compridas, significam que os estudantes chegaram, digamos, ao topo e foram distinguidos de alguma maneira. A rapaziada acha que é traumatizante a exibição dessas mangas largas e compridas para os que tiveram notas inferiores – e que “perpetuam” um estatuto de desigualdade que é preciso banir. Proíbam-se.

[Da coluna do CM]

 

P.S. - A associação de estudantes de Oxford (OUSU) é especialista em pedir proibições – uma delas foi a de uma conferência da feminista Germain Greer, pelo facto de não concordarem com as suas ideias sobre género – o que não conseguiu; também tentou, e conseguiu, proibir um debate sobre o aborto (por considerar ofensivas certas ideias defendidas por dois dos participantes) e outro sobre, tome nota, «Freedom of Speech and Right to Offend».

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Os avanços civilizacionais e a avó que vai dar à luz um neto.

por FJV, em 15.08.17

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O admirável mundo novo lusitano rejubilou porque, a acreditar na primeira página do Expresso de anteontem, uma avó irá dar à luz um neto, ou seja, será “portadora” (o termo é letal) de uma criança para a sua filha, que não pode engravidar. A ideia não me enternece. Há crianças abandonadas pelo mundo fora e os números portugueses dão conta de estatísticas que devíamos baixar: repito, crianças abandonadas pelos seus progenitores. A maior parte deles é entregue às instituições sociais do Estado e podem vir a ser, ou não, adoptadas por famílias desde muito cedo. Compreendo o que dizem ser as “alegrias da maternidade” e, à distância, entendo (mas não o partilho como um valor absoluto) o desejo de perpetuar o património genético de uma família através de uma criança gerada no laboratório ou no ventre de uma barriga de aluguer. Trata-se de um manifestação moderna do egoísmo das gerações para quem não existe um impossível ou um interdito. Aldous Huxley já referia o assunto em Admirável Mundo Novo um livro aborrecido, mas premonitório. Os avanços civilizacionais são cruéis.

[Da coluna do CM]

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Bolivarianos.

por FJV, em 11.08.17

Pedro Correia sobre dois pataratas bolivarianos. 

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Viver num T2 no centro da cidade por menos de 400€? Sim, é possível.

por FJV, em 11.08.17

Carlos Guimarães Pinto explica como não tem sentido nenhum dizer que as pessoas estão a ser expulsas do centro das cidades — e prova-o, indicando mesmo apartamentos disponíveis a menos de 400€ mensais. Uma oportunidade para «os jovens», mesmo os do Bloco.

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The Cook, the Thief, The Mayor, The Judge, His Wife & Her Lover

por FJV, em 10.08.17

Nesta novela deliciosa não falta praticamente nada. O único pormenor trágico é mesmo a indiferença.

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A cozinha de Pandora.

por FJV, em 10.08.17

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Que a BBC o diga parece-me bem: que a cozinha portuguesa é a mais influente do planeta inteiro. Tudo começou com o jornalista David Farley a pesquisar as origens da tempura japonesa, que o levou até aos nossos peixinhos da horta; daí, para a curiosidade em relação aos nossos Descobrimentos quinhentistas e à relação que estabelecemos com ingredientes e cozinhas de todos os continentes; daí, para a nossa própria cozinha: plural, variada, criativa e aberta a influências. Há muita gente que fica espantada quando lhes digo que o prato de referência dos judeus de Bagdade era o bacalhau (numa variante parecida com a patanisca, keftes) tal como os judeus de Roma popularizaram o nosso filete de bacalhau salgado, os nossos fritos de grão singraram no Levante e Médio Oriente, ou o nosso estufado de borrego em Java e nos mares da região – além da feijoada no Brasil, claro. Ou quando refiro que somos os melhores a preparar arroz (temos mais de uma centena de variantes) ou pratos de vegetais. Sinceramente, acho que está aberta a caixa de Pandora, e que esta Pandora é saborosa. E suculenta. (Ainda ouço alguns a rir da sugestão de globalizar o pastel de nata...)

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. Bem vindos. 2.

por FJV, em 10.08.17

Nada de novo, portanto: se tivesse sido usado o vídeo, o FC Porto teria concluído o campeonato anterior no primeiro lugar, acima dos 82 pontos.

Por falar nisso, revejam os arquivos: no campeonato de 2007-2008, que foi viciado pela tomada de assalto da Liga, o FC Porto terminou com 75 pontos e não com 69. Dez anos depois, o Conselho de Justiça dá razão ao FC Porto, devolvendo-lhe os pontos, ou seja, assumindo que o Apito Final foi — vamos lá escolher uma palavrinha — uma roubalheira para favorecer o Benfica. Com todas as letras.

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O cantinho do hooligan. Bem vindos.

por FJV, em 09.08.17

1. Foi preciso o video-árbitro para validar o golo de Marcano no jogo de hoje, que o árbitro-assistente tinha anulado. Infelizmente, o video-árbitro não foi usado na Supertaça para invalidar o primeiro golo do SLB, para marcar o penálti cometido por Sálvio ou para puxar do cartão vermelho que não foi mostrado a Jardel (o do Benfica).

2. Medo: seis falhanços de Aboubakar (Moreira prometeu só defender os remates de Aboubakar).

3. Vinganças merecidas: o regresso de Marega, Óliver a dar cartas, dois voos de Casillas.

4. Tiquitaca: Óliver, Alex Telles e Brahimi — e golo.

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Má consciência.

por FJV, em 09.08.17

Regresso em grande de Filipe Nunes Vicente no blog Má Consciência:

Um belo texto aqui, para começar: «Bronzeadas, musculadas e, sobretudo, tatuadas. Enxameiam as páginas  das secções-vidas dos media. Se andam assim têm boas razões, mas estou desfazado do meu género: masculino e, até à data, hetero (ainda não conheci o Nené).Aqueles corpos provocam-me a mesma sensação que os dobermanns. Sempre tive cães, noto bem o interesse de um bicho elegante, mas o dobermann lembra-me a Uzi do tenente Macias, meu instrutor do tempo do desperdício. A psicanalista de serviço já sacou do moleskine: medo de mulheres poderosas. Os psicanalistas são viciados na forma: filha-colo-pai-édipo, bebé-cocó-prazer etc. Não há nada mais excitante do que uma cabeça premiada e um carácter generoso num corpo discreto. A traição da aparência é a atracção.»

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