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Para que serve o Estado?

por FJV, em 22.06.17

Para que servem então as corporações policiais? «A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande alerta a população para a vaga de assaltos nas aldeias evacuadas, devido ao incêndio que lavrou no concelho, e pede atenção ao surgimento de falsos técnicos de apoio.» Repare-se que o aviso é dos bombeiros. Em situações de infortúnio, insegurança, incerteza e sofrimento, «os pilares da sociedade», como gostam de chamar-se, não funcionam? Era a este «controle da situação» que estava a referir-se a ministra da Administração Interna?

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Ouvir quem sabe.

por FJV, em 22.06.17

A entrevista de Celso Paiva (Rádio Renascença) e Ana Fernandes (Público) a António Salgueiro é um documento importante demais para podermos passar por cima sem reflectir.

 

«Não sabemos efectivamente se houve trovoadas ou não. Há coisas muito estranhas nestas informações, ou na falta delas. Quando há aproximação de frentes destas, de trovoadas, aquilo que sabemos é que as condições são muito instáveis e normalmente a teoria e alguma experiência aconselha-nos a nem sequer fazer combate. A primeira intervenção tem de ser feita da melhor forma possível mas, não conseguindo resolver, a situação vai exponencialmente aumentando de perigo para os combatentes e para as pessoas que estão próximas e, portanto, muitas vezes o conselho é que nem sequer se faça. Os processos são conhecidos e não há aqui nada de misterioso: Hoje de manhã já ouvi algumas intervenções em que se fala de mistérios e há aqui muitos mistérios, há mistérios no site do Instituto da Atmosfera e do Mar em que aparecem e desaparecem coisas: Há quem fale em mistério no local. Isto não tem mistérios: tem de facto situações extremamente complicadas, extremamente difíceis, mas consegue-se determinar com alguma antecedência aquilo que pode vir a acontecer.»

 

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O que arde quando tudo arde.

por FJV, em 22.06.17

Helena Garrido no Observador: «A tragédia de Pedrógão Grande, o enorme número de vítimas mortais num incêndio, expõe de forma dramática o abandono a que está votado Portugal. Vimos no fogo e nas mortes o fosso entre um país urbano, pendurado nos direitos e desabituado a ter deveres, e um país que vive entregue a si próprio, esquecido. Foi-nos mostrado, de forma terrível, como são ocas são as palavras e os discursos contra a desigualdade. Desigualdade é isto, é um Estado não ser capaz de proteger aldeias de um incêndio.»

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Eucaliptos e incêndios.

por FJV, em 22.06.17

Henrique Pereira dos Santos no Delito de Opinião: clareza, inteligência, simplicidade de explicações – uma voz notável.

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Enigmas argentinos.

por FJV, em 20.06.17

Nesta notícia (sobre a descoberta da maior coleção de artefactos nazis da história do país) há uma parte extremamente cómica: «A polícia encontra-se agora a tentar apurar de que forma é que os artefactos entraram na Argentina.» No país onde viveram Josef Mengele e Adolf Eichmann, e onde se albergam igualmente representantes do Hezbollah que organizam manifestações e colocam bombas, não estou a ver como é que isso foi possível.

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Diversos

por FJV, em 20.06.17

O Ouriquense contra a múmia paralítica.

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Uma sociedade avançada.

por FJV, em 19.06.17

As faculdades de Letras são um albergue simpático. Por isso, o PCP organizou na de Lisboa um seminário intitulado “Socialismo, exigência da atualidade e do futuro”, dedicada a comemorar as alegrias da Revolução Russa de há 100 anos, e no qual o secretário-geral do PCP defendeu “uma democracia avançada” e a atualidade do bolchevismo. As novas gerações, escutando a linguagem épica de Jerónimo de Sousa, não conhecem a peregrinação dos horrores ligados à ideia de uma “sociedade avançada”, conceito leninista a que Estaline emprestou a eficácia que se sabe. A deputada Rita Rato, por exemplo, que faz parte desse jardim de infância, recusou-se um dia a comentar o Gulag e as mortes do estalinismo, porque não tinha dado isso na faculdade. Como passam hoje 80 anos sobre o nascimento de André Glucksmann recomendo aos seminaristas do PCP a leitura de A Cozinheira e a Devoradora de Homens, que leva o subtítulo Ensaio sobre o Estado, o marxismo e os campos de concentração. Do Gulag ao Vietname passando pela decoração de interiores da Lubianka e do KGB, é um mundo avançadíssimo.

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Crescimento infinito e todos a comer em pedrinhas

por FJV, em 19.06.17

A doutrina do crescimento infinito ensina que, se este ano se venderam 10 milhões de telemóveis, no próximo ano é necessário chegar aos 11, apesar de já haver cerca de 17 milhões de aparelhos. Há coisas mais palermas, mas essa é uma delas – razão porque os telemóveis servem inclusive para, em certas ocasiões, telefonar. As indústrias do século XX pensam no “crescimento” como um algoritmo, inclusive quando se trata do turismo. É assustadora a quantidade de artigos, entrevistas, sessões espíritas, reportagens e disparates sobre a matéria. Antigamente fumavam erva de má qualidade, agora discutem Airbnb, regulamentação e startups de tuk-tuks e hostels onde se dorme no meio de mosquitada e móveis do Ikea. Portugal é atraente por causa do património histórico que é preciso cuidar (e que a indústria turística devia pagar a dobrar e com língua de palmo); o resto arranja-se. Sim, também na cozinha, mas (já perceberam, certamente) come-se cada vez pior nos “restaurantes da moda”, todos iguais, onde deixou de se comer em pratos e se usam ardósias. Adoro os sinais de perigo.

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A arte contemporânea lava mais amarelo.

por FJV, em 14.06.17

A “arte contemporânea” é um instrumento interessante para lavagem de dinheiro. Oligarcas russos, potentados privados do Oriente, multimilionários e estados do Golfo, burgueses enriquecidos pela construção civil ou “antigos jovens” protegidos por alguns negócios bem remunerados – os poderosos investem generosamente em “arte contemporânea” e transformam-se em “patronos da cultura”, o que é hoje melhor do que ter o Euromilhões. Todos ganham: ‘marchands’ que conhecem bem demais as fraudes do seu ofício, pacóvios que apreciam “arte decorativa” para a sala de estar, artistas que têm de fazer pela vida, “curadores” que teorizam sobre a herança de Duchamp e a esperteza de Damien Hirst, colecionadores fantasiados de misantropos. Em matéria de “arte contemporânea”, por isso, a cultura lava muito mais branco. O sistema de retribuições da “arte contemporânea” baseia-se no receio de parecer iletrado diante de tão notáveis obras, como uma barragem da EDP pintada de amarelo. Quem se atreve a rir do assunto? No fundo, a “arte contemporânea” ainda é mais barata do que as facturas da eletricidade.

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Um Balzac hoje?

por FJV, em 14.06.17

Um a um, os casos acumulam-se como uma espécie de galeria de personagens num retrato de família – podia escrever-se um romance acerca do assunto, um Balzac contemporâneo cheio de gestores, notívagos endinheirados, madrugadores flibusteiros, gente com prosápia, sem vícios conhecidos, sem mácula no registo. O país moderno da era Sócrates, como da era Cavaco, oásis de investimento e de dinheiro a rodos produz agora os seus efeitos e danos colaterais: afinal, os melhores gestores da Europa – e subúrbios brasileiros – tinham mácula, capturavam políticos que se deixavam capturar com prazer e proveito futuro. Cada gaveta que se abre revela tesourinhos escondidos, negócios de influência provinciana, rendimentos injustificados – uma geração inteira, aliás, como aconteceu em Espanha com as malhas do ‘beautiful people’ dos anos dourados do PSOE ou com a grosseira corrupção dos anos do PP. Daqui a alguns anos, é provável que a literatura lhes preste atenção, a esses personagens de eleição. Mas desconfio que os próprios escritores, tão comprometidos, já desistiram de falar de falar do seu país.

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Israel, heróis e silêncios

por FJV, em 12.06.17

A ONU demorou 16 anos (de 1975 a 1991) a revogar a vergonhosa declaração – patrocinada pelos países árabes “da linha da frente” – que associava sionismo e racismo. Portugal votou favoravelmente essa glória do antissemitismo (Melo Antunes era ministro dos Estrangeiros, e teve a oposição do seu secretário de Estado, José Medeiros Ferreira), a 15 dias do 25 de Novembro. Menciono este episódio porque ele é marcante na história do judaísmo moderno, ao qual Esther Mucznik acaba de dedicar um livro, A Grande Epopeia dos Judeus no Século XX (Esfera dos Livros). São mais de 300 páginas onde se cruzam factos e datas fundamentais nessa história de incompreensão e perseguição – e também de grandes realizações. Do Holocausto nazi ao antissemitismo contemporâneo, passando pela fundação do estado de Israel, em maio de 1948, e pelas guerras israelo-árabes, Esther Mucznik trata também de estabelecer as pontes com Portugal e com a sua própria família (Esther viveu em Israel, onde o seu avô morreu em 1933). É uma história de heróis e de silêncios, de segredos e de grandes momentos.

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Republicanos e leais.

por FJV, em 10.06.17

As “redes sociais” apreciaram que a infanta Leonor, 12 anos, filha do rei de Espanha, tivesse uma cadelinha chamada Sara. Os animais valem tudo. Posso ser um mau caráter desprezível, mas se gostar da companhia de galinhas, cágados, gatinhos ruivos ou cãezinhos incontinentes, consigo logo likes no Facebook. Portanto, as “redes sociais” apreciaram o gosto da infanta, mas acharam desprezível que ela se declarasse leitora de Stevenson ou de Lewis Carroll – a malfadada elitista que, ainda por cima, gosta de filmes de Akira Kurosawa, o maravilhoso realizador de Ran, Dersu Uzala (A Águia das Estepes) ou Os Sete Samurais. Qualquer um destes filmes pode e deve ser visto por miúdos de 12 anos, mas as “redes sociais” castigaram Leonor – em primeiro lugar, por imperativo “republicano”; em segundo lugar, porque além de elitistas, os gostos (Robert Louis Stevenson! Lewis Carroll!) são “incomuns”. Ela devia gostar de Miley Cyrus ou Selena Gomez para ser republicana, e ler, digamos, os tweets da canalha. Qualquer dia é apanhada a ler Jane Austen ou, pior, o Quixote.

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Vão aos livros.

por FJV, em 09.06.17

À hora a que escrevo nenhum grupo organizado tinha ainda reivindicado a nova onda de terror em Londres – mas o Estado Islâmico tinha assassinado 170 civis em Mossul durante o final da semana, logo a seguir a uma onda de atentados brutais e mortíferos no Paquistão e no Afeganistão. Não vale a pena ouvir os comentários logo a seguir aos acontecimentos. Os que outrora tentavam “compreender” os terroristas (designação substituída por “jihadistas”) estão um pouco cansados de explicações, e falam em público da necessidade de vigiar as redes caseiras de “combatentes do Estado Islâmico” – e, em privado, da conveniência de os esmagar. Não é assim tão simples. A pregação islâmica (‘radical’, para não chocar as almas sensíveis) foi semeada em bolsas multiculturais onde o veneno circulou livremente durante anos. Londres, Paris, Birmigham, Berlim, Barcelona, Copenhaga conhecem-nas. Mas a explicação tem duzentos anos, com o pacto wahabista assinado no Iémen para a recuperação do Califado, e alimentado pelos sauditas e emiratos. Escusam de falar da troika, da má índole ocidental e da crise dos refugiados, fica o aviso.

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Duas histórias pérfidas no reino da dissimulação em tempos pós-verdade: o corte de relações com o Qatar por parte da Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes, sob o pretexto de que aquele país financia o terrorismo. Qualquer história do Médio Oriente explica com detalhe este nó górdio – o terrorismo pré-Estado Islâmico foi financiado por estados ou organizações daqueles países; o problema é o apoio iraniano à ‘jihad’ (que entra pela Síria e pelo Iraque) e as presuntivas ligações entre Teerão e Doha, além da luta pelo Iémen (território da aliança wahabita), em que os sauditas e o Catar estão em campos distintos. Vão aos livros. Segunda história: depois de passar três décadas a bradar contra o “estado policial britânico”, a pedir o desarmamento das polícias e do país, a dar abraços ao IRA, ao Hamas, à Jihad e a Khadafi, a defender os loucos da mesquita radical de Finsbury Park, Jeremy Corbyn pede a demissão de Theresa May por esta ter cortado o número de polícias na rua. Se somarmos a Europa e os EUA a negociar armas com a Arábia Saudita, temos uma linda festa. Vão aos livros.

 

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Festejai o califado.

por FJV, em 07.06.17

Para minha grande surpresa, houve comentadores que descobriram agora a vocação dos países do Golfo para financiar o terrorismo – uma galáxia que vai do Hamas à Irmandade Muçulmana, da Jihad Islâmica à Al-Qaeda e às Brigadas dos Mártires de al-Aqsa. Foi com esta gente que a esquerda europeia e as suas ONG andaram aos beijinhos durante décadas, misturando-se com o IRA e a ETA nos campos de treino da Líbia, do Iraque e da Síria. Ao mesmo tempo, as “organizações de caridade islâmica” dos sauditas e dos emiratos tanto financiavam a mesquita de Finsbury Park como as famílias dos suicidas que se faziam explodir um pouco por toda a parte. A Europa assistiu, comovida, a cerimónias em que Cherie Blair (a mulher de Tony Blair) e Ken Livingstone (o então mayor de Londres) se solidarizavam com os jovens jihadistas que atacavam os mercados de Jerusalém e se transformavam em heróis da causa, recebendo virgens às catadupas. Os emires rejubilavam e os seus primos do noroeste iam armando o Estado Islâmico para ver se lhes sobrava alguma coisa do Iraque. Festejai o califado.

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Cem Anos de Solidão.

por FJV, em 01.06.17

Vamos pela efeméride a meio: anteontem passaram 50 anos sobre o fim da impressão dos primeiros exemplares de Cem Anos de Solidão (em Buenos Aires, Editorial Sudamericana); no dia 5 de junho de 1967, o livro era finalmente posto à venda. Cinquenta anos depois, a saga dos Buendía (os Arcádios, os Aurelianos, Úrsula, Remédios), a cidade mítica de Macondo, as histórias de Melquíades, Rebeca (que comia terra), Pilar ou Maurício Babilónia (com as suas borboletas amarelas), além das recordações de todas as personagens, fazem parte da nossa memória da literatura. Gabriel García Márquez (1927-2014) escreveu outros romances e novelas (Crónica de uma Morte Anunciada, um prodígio de construção, O General no Seu Labirinto, sobre a loucura caudilhista, ou O Amor em Tempos de Cólera) – mas Cem Anos de Solidão há de permanecer como uma reinvenção da maneira de contar e de escrever na literatura do seu século. Tão influente que o livro se tornou fonte de obsessão para escritores – tanto quanto maravilhosa para milhões de leitores que hoje podem reler esse romance avassalador.

 

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O cantinho do hooligan. A novela.

por FJV, em 01.06.17

A novela do treinador é ridícula. Mas não é mais ridícula do que as anteriores – a escolha de Lopetegui (& as escolhas de Lopetegui), a escolha de Nuno, as «fugas de informação», a «aliança» com o Sporting, etc. Se Sérgio Conceição for o escolhido, é pena que – infelizmente – o seja pelas más razões, que se resumem numa: a necessidade de alguém que faça regressar ao FC Porto «o espírito do FC Porto». Acontece que esse espírito se perdeu há muito, com a avalancha de contratações estapafúrdias, o despautério financeiro, a falta de coragem para alguém dizer que os líderes têm prazo – de facto – de validade (e para que alguém lho diga), a mistura de assuntos privados com assuntos do clube, a promiscuidade entre família e famiglia. Portanto, chegados a esta altura, e como teremos de esperar que se chegue ao fim de mais um ciclo de liderança, o FC Porto precisa de um treinador. Precisaria de um treinador e de um cavalheiro ao mesmo tempo, figura em que encaixariam Bobby Robson ou André Villas-Boas (a coisa está tão pelas ruas da baixeza que até me lembro de Jesualdo), não apenas de um animador das hostes. E de um cavalheiro que perceba como o nosso futebol dançava nesses anos em que jogadores de segunda linha se transformavam em jogadores de primeira ordem. Alguma vez Paulo Ferreira e Nuno Valente deixavam cair a cabeça, para já não falar de Alenitchev, Derlei, Benny (aquele golo contra o Manchester, obra de arte), Capucho – ao lado de tipos que sempre foram naturalmente bons? E vai ser preciso. Que seja Sérgio Conceição não me assusta nem me indigna. Mas será um duplo trabalho – terá de ser ele a pôr na linha aquela gente e a dar mais velocidade à capacidade de reação do FC Porto frente à máquina demolidora e bem organizada dos adversários – e frente ao seu futebol.  

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Vá lá, um pouco de calma, isto é normal.

por FJV, em 31.05.17

Outro dia, um texto publicado num blogue feminista chique (Capazes) defendia que, em nome do equilíbrio democrático, o direito de voto fosse retirado aos ‘homens brancos’ durante, digamos, vinte anos. Isso serviria para impor um módico de justiça ao nosso mundo, dominado pelos ‘homens brancos’, período após o qual os direitos políticos lhes seriam suavemente restituídos. Ou não. Aí está um tema para discussão. Entretanto, em Paris realizar-se-á um festival “afro feminista europeu”, o Nyansapo, em que só 5% do recinto estará “aberto a todos”. 80% do espaço será “não misto para mulheres negras” além de 15% “não misto para pessoas negras”. Esta distribuição do espaço do festival (que a presidente da câmara de Paris pediu para proibir) também não me comove por aí além. Poderíamos falar da “idade do ressentimento”, da parolice, da vida sexual das doninhas, dos “estudos culturais” das universidades e da abundância de pólen na atmosfera. Não é caso para guerra civil. Há certos momentos em que não vale a pena discutir com pessoas malucas. Elas ganham.

 

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Turismo.

por FJV, em 31.05.17

Com ironia, Eça de Queirós achava que a visita dos estrangeiros era um incómodo: estamos nós em camisa, de chinelos, a palitar os dentes – e vem esta gente obrigar-nos a recolher o lixo e a ter maneiras à mesa. Os deputados que se preparam para agravar as condições de existência do “alojamento local” fazem-no por disciplina partidária, porque o Estado precisa de fazer o seu saque e de elaborar regulamentos. Mas, lá no fundo, servem a pequena xenofobia, a ideologia da treta, o atavismo e os interesses pessoais – e não esqueceram o que disse um responsável pelo setor nos tempos da pós-revolução (que o turismo é “a prostituição de um povo”, lembram-se?). O ataque ao “alojamento local” é ótimo para o lóbi hoteleiro, que quer ser absolutamente dominador (quem sabe, um dia poderá financiar campanhas eleitorais). Para os burocratas, os turistas são um incómodo e um perigo, mesmo que 90% dos residentes na capital se declarem satisfeitos com o turismo – e a sentir mais orgulho na sua cidade. Por detrás de um destes burocratas está sempre um perigoso provinciano encartado. E maldoso.

 

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Vaidade impura.

por FJV, em 29.05.17

Uma certa pessoa recomenda livros portugueses em inglês. E tal.

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O cantinho do hooligan. Do problema do treinador.

por FJV, em 29.05.17

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Nestes dias tenho receio das notícias sobre treinadores que se despedem do seu emprego, seja ele onde for. Claro que acho benigna a ideia de há treinadores que se recusam a trabalhar no FC Porto por motivos financeiros para lá do razoável – significa que algum bom senso entrou naquelas cabeças e que pode haver esperança – mas acho pior a mania de apresentar-nos um treinador-surpresa (a lista vai de Jorge Simão e regressa a Rui Barros e passa por meia dúzia de nomes espanholizantes, sem mencionar Vítor Oliveira). Como não acredito, sinceramente, que tivesse havido uma proposta séria e conforme a Marco Silva, Carvalhal ou Sérgio Conceição, o facto de não contratarem a Madonna já me parece um sinal de sorte.

Duas notas ainda: 1) depois de Lopetegui ter arrasado o balneário e deixado sementes aqui e ali, e de Nuno Espírito Santo ter querido dançar o funaná em câmara lenta, até acho plausível que os treinadores com dois dedos de testa hesitem várias vezes antes de atender um telefonema. Já vão longe os tempos em que treinar o FC Porto era ser bafejado pela sorte. Isto devia dar uma ideia, aos vários directores em exercício, da merda que fizeram. 2) também dá ideia da pouca coragem desses treinadores, que preferem trabalhar para ficar em 11.º em vez de começar por jogar na Champions – mas eles lá devem reconhecer as suas limitações.

Está a ser, vai ser, há de ser um folhetim bonito de se ver.

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Totti, totus tuus.

por FJV, em 29.05.17

Ontem, depois de ter vencido o Génova (o 3-2 foi de Diego Perotti aos 90 minutos), parecia que o clube romano estava a festejar o segundo lugar no campeonato – mas não: era a despedida de Francesco Totti, o número 10 da AS Roma. Melhor: o eterno 10 da AS Roma. Em futebol, 25 anos na equipa principal são uma eternidade – quase toda a vida de Totti, ‘Il Re di Roma’ ou ‘Il Capitano’. O homem que podia ter jogado noutros clubes – e ganho muito mais dinheiro – e nunca saiu “do clube do seu coração”. Hoje, “clube do coração” não quer dizer nada a não ser que se esconda a “cor do coração” e Totti nunca o fez: onde ele estava, estava a AS Roma, no lugar de campeão, no de segundo (a Roma é campeã de segundos lugares), no de sexto, no de antepenúltimo. Ontem, Totti encheu de lágrimas o Estádio Olímpico. Aos 40 anos Totti já não “fazia a diferença”, nem a Roma está na primeira linha. Mas ao vê-lo, ali, reunindo milhares de adeptos para a sua despedida, só podíamos ter inveja daquela glória hoje tão rara. Não no futebol (“É um mundo que não me agrada, cheio de gente que não gosta de futebol, que só gosta de dinheiro”, diz Totti). No mundo dos homens que ainda são humanos.

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Dracula, Bram Stoker.

por FJV, em 29.05.17

Parece que há cerca de quatro anos a editora inglesa Constable & Robinson recebeu um manuscrito, The Cuckoo’s Calling, Quando o Cuco Chama, de um autor desconhecido, Robert Galbraith. Na resposta, o editor dizia que se tratava de um livro comercialmente inviável e recomendava mesmo que Galbraith, ai dele, tivesse aulas de “escrita criativa”. Erro crasso: Galbraith era o pseudónimo que J.K. Rowlling (criadora de Harry Potter) usava para as histórias policiais do detetive Cormoran Strike, e o livro foi um sucesso comercial. Coisa diferente ocorreu há 121 anos, quando a mesma casa editora aceitou publicar um “romance de horror” de um vago jornalista irlandês que trabalhava em Londres no Telegraph, Bram Stoker. O livro não foi um best-seller imediato, mas Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) achou-o magnífico e a crítica, em geral, comparava-o a Frankenstein, de Mary Shelley, às obras de Stevenson ou Poe, ou a O Monte dos Vendavais. O personagem principal era um conde que vivia entre a Transilvânia (na atual Roménia) e a Moldávia – e o livro era Drácula, publicado a 26 de maio de 1897, há 120 anos. Passado todo este tempo, Drácula ainda povoa os nossos pesadelos.

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Lembram-se de quando a China produzia apenas relógios de imitação?

por FJV, em 29.05.17

 

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Ah, «compreender» o terrorismo

por FJV, em 24.05.17

O essencial sobre a tudologia acerca do terrorismo, pelo Pedro Correia. Era fundamental acertarmos nisto.

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Simon Templar.

por FJV, em 24.05.17

Como Simon Templar e como James Bond, ao lado de Jane Seymour

  

Roger Moore (1927-2017) sabia que era “apenas Roger Moore” – isso não o incomodava. Ou seja, sabia que ia passar à história do cinema como Simon Templar (‘O Santo’) ou como James Bond, os dois personagens que interpretou com humor e desprendimento. Era “o inglesinho elegante” em quem o ‘smoking’ branco assentava bem, que sabia levantar a sobrancelha direita nos momentos certos, e que fingia – adoravelmente – correr risco de vida ao lado de Britt Ekland, Barbara Bach, Lois Chiles, Maud Adams ou Grace Jones, atrizes de quem hoje poucos se lembram (são sete filmes como Bond). O seu génio está todo em Simon Templar, ‘o Santo’, com a sua roupa e penteado imaculados, além de cenas mirabolantes mas de reduzida ação. Hoje, quando vemos os filmes de 007 com Moore, recuamos mais do que um século; aquela sofisticação vem tocar-nos de leve, e rimo-nos: quase tudo é graciosamente obsoleto, até o sentido de humor, o donjuanismo com aquela banda sonora (Carly Simon, Duran Duran, Sirley Bassey ou Sheena Easton, lembram-se?). Roger Moore era mestre numa grande escola de cavalheiros.

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Manchester.

por FJV, em 23.05.17

Há exactamente 16 anos, a 1 de Junho, estava bem perto da discoteca Dolphinarium, em Telavive – onde um bombista suicida se fez explodir matando 21 adolescentes. Na altura, o Guardian publicou as declarações do pai do jihadista, Saeed Hotari: «I am very happy and proud of what my son did and I hope all the men of Palestine and Jordan would do the same.» À ABC News, as declarações foram ligeiramente diferentes: «I am proud and I will never forget it until the last day of my life. This kind of death is better than any other kind of death. Thanks to God.» 

Dois anos depois, a foto de Saeed Hotari estava presente na sessão onde o mayor de Londres, Ken Livingstone, e Cherie Blair, mulher do primeiro-ministro britânico, prestavam homenagem aos heróis do Hamas e da então Jihad Islâmica, que reivindicaram o atentado na Dolphinarium e que, menos de dois meses depois, faziam explodir a pizaria Sbarro, no centro de Jerusalém, à hora de almoço. 

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O amor presidencial.

por FJV, em 23.05.17

O que é uma hipérbole? Uma figura de estilo que assenta na expressão exagerada de uma imagem, uma ideia, uma comparação. Se quiserem mais, perguntem ao Presidente da República que, chegado aos Açores, tratou de classificar como uma “grande terra com grande gente”. Que problema isto levanta? Aparentemente nenhum, e sou açoriano honorário – mas, conhecendo os portugueses, não haverá concelho que não tenha já montado o seu vigilante “elogiómetro” (um dispositivo para medir a intensidade dos elogios patrióticos). Minhotos, alentejanos, beirões do mar e da serra, raianos e ilhéus: não conheço terra que não esteja pronta para o seu elogio – e a compará-lo com os precedentes. Se o presidente é tão elogioso para com (imaginemos) as ameixas de Elvas, o que dirá (imaginemos) do presunto de Chaves? A uruguaia Cristina Peri Rossi tem um belo romance intitulado O Amor É uma Droga Dura. Também o otimismo patriótico é uma droga dura. Obriga-nos a subir a dose do elogio; chegará um dia em que o dicionário não bastará para satisfazer a fome de amor presidencial. Será, ai de nós, um dia terrível.

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110 anos de Lawrence Olivier.

por FJV, em 23.05.17

Daqui a uma semana, o Teatro de S. João, no Porto, vai estrear Macbeth, de Shakespeare (encenação de Nuno Carinhas, tradução de Daniel Jonas). Refiro-o também porque passaram ontem 110 anos sobre o nascimento de Lawrence Olivier (1907-1989), a quem devemos a grande trilogia de Shakespeare no cinema: Henrique V (1944), Hamlet (1948, vários triunfos nos Oscares) e Ricardo III (1955) – um clássico na representação de Shakespeare, e na história dos seus rostos inesquecíveis (há ainda Otelo, Henrique V, Rei Lear e O Mercador de Veneza). Foi durante um Hamlet que conheceu (em 1937, o mesmo ano em que representa Macbeth) uma das mulheres da sua vida, Vivien Leight (a Scarlett O’Hara de E Tudo o Vento Levou e a Blanche Du Bois de Um Elétrico Chamado Desejo). Reduzir Olivier a Shakespeare é ridículo: ele é o grande rosto de Heathcliff no Monte dos Vendavais de 1939, ou o de Rebecca, de Hitchcock, ao lado de Joan Fontaine, ou Mr. Darcy no Orgulho e Preconceito com argumento de Aldous Huxley (de 1940). A sua representação devolve-nos o prazer dos clássicos.

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O País do Futuro.

por FJV, em 19.05.17

Diz-se que há uma “maldição de Stefan Zweig”, o escritor austríaco que fugiu da Europa e do nazismo para se fixar no Brasil, em Petrópolis, onde se suicidou em 1942. Em 1941 publicou Brasil, País do Futuro – título que constituiu, em simultâneo, uma promessa e uma maldição. O Brasil, hoje, é uma equação incerta. É um país que já não tem desculpa. Não pode desculpar-se com a “herança colonial portuguesa” (sua desculpa fácil de sempre, sobretudo entre os intelectuais) nem com a agressão do capitalismo. Minado (verdadeiramente minado) pela corrupção, raros são os políticos a salvo da suspeita. Depois do consulado equívoco de Lula e da tragédia de Dilma (um pesadelo de incompetência e desleixo), o Brasil ouviu, incrédulo, o depoimento do antigo presidente petista, culpando a sua falecida mulher por eventual corrupção. Uma vergonha. Anteontem, o país soube que Michel Temer não tem apenas falta de legitimidade eleitoral – mas também de probidade. Nada de novo. Do PSDB ao PT, passando pela desgraça que é (e sempre foi) o PMDB, poucos se salvam. O país do futuro é de novo um enigma. E um escândalo.

 

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De novo, cultivar o jardim.

por FJV, em 19.05.17

Sob o efeito da guerra que ocupara a Europa no início da segunda metade do século XVIII e ainda vivendo o horror do terramoto de Lisboa, o de 1755, Voltaire termina Cândido, ou o Otimismo de uma forma enigmática, mas deliciosa – sim, o otimismo é bom; mas “devemos cultivar o nosso jardim”. Foi essa a escolha dos eleitores franceses (como está a ser a dos alemães, aliás, voltando as costas ao populismo de Schultz): um certo regresso a casa, cuidar da França, recentrar a política para que ela tenha espaço para a imaginação. Por alguma razão isso não alegra nem seduz os nossos tribunos, certamente porque têm dificuldade em ler a língua de Voltaire (e, assim, de compreender como a França voltou a estar no centro da Europa). É possível que este “novo centro” francês, bem expresso no governo anunciado ontem, ao afastar os cavernícolas da velha esquerda (a balela dos “insubmissos profissionais”) tanto como os herdeiros da gerontocracia da direita (e da sua pose) consiga despenalizar a política. E que os europeus possam cumprir o desígnio de Voltaire: cultivar o seu jardim.

 

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