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Como aumentar a taxa de natalidade, a pergunta cómica

por FJV, em 16.04.15

De acordo com o prometido, os senhores deputados ocuparam a tarde de ontem a discutir a melhor forma de “aumentar a taxa de natalidade”. A expressão é cómica, mas era o que estava previsto. O argumento de que as pessoas querem mas não podem ter filhos é tão estapafúrdio como dizer que um corte de 40 por cento no salário dos progenitores os incentivará a ficar em casa para educar a prole. A curva demográfica começou a descer em vertigem nos anos noventa e não foi por causa da crise – mas pelas “opções de vida” e pelas “mudanças nos costumes”. Um mercado de trabalho selvagem ajuda à crise, mas a desregulação é muito mais geral e está na cabeça dos “casais em idade fértil”. Ter filhos para pagar impostos e salvar a segurança social dos mais velhos é outro grande incentivo que só aquelas pobres cabeças podiam engendrar.

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Morte, sempre a trair

por FJV, em 13.04.15

A morte aproxima-se devagar – mas é sempre fulgurante. Ontem, três nomes importantes para a literatura e para a edição, em níveis diferentes: o alemão Günter Grass, o uruguaio Eduardo Galeano e o editor francês François Maspero. Cada um deles foi importante para a esquerda e para as suas diversas causas – mas o mais importante foi terem escrito e publicado livros, ao contrário das ladainhas que se ouviram ontem, que às vezes quase esqueciam os seus títulos. Eu gostava de Grass por causa de O Tambor e de A Caixa, mas achava tudo o resto muito aborrecido. E fui um leitor de Galeano (o de Vagamundo e de Futebol de sol a Sombra – ele gostava de Eusébio). Por seu lado, Maspero foi um editor e livreiro importante, que durante uma década dominou a vida inteletual francesa. São símbolos que partem. Também era bom sabermos se têm substitutos à altura, seguidores, herdeiros, sucessores. Os de Galeano acusam-no de traição. Primeiro, em Brasília, na Bienal do Livro, falou mal do seu próprio livro, As Veias Abertas da América Latina – um panfleto de economia que fez escola nos «estudos coloniais». A multidão de seguidores não o desculpou, nem lá nem nos EUA. 

 

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Dizer e fazer coisas importantes

por FJV, em 13.04.15

 

Há uma «nova batalha» no mundo da crítica literária: a do género. Uma organização americana que promove a representação das mulheres na literatura (Vida, Women in Literary Arts) analisou 15 publicações literárias influentes no mundo anglo-saxónico e chegou à conclusão de que, muito embora as mulheres dominem as listas de best-sellers (de J.K. Rowlling e Donna Tart a Hilary Mantel), apenas 30 por cento das críticas são assinadas por mulheres. Um outro estudo (no Reino Unido) diz que as mulheres são responsáveis pela compra de dois terços de todos os livros publicados, e que 50% das mulheres são ‘leitoras ávidas’, contra apenas 26% por parte dos homens. A “representação” não me diz muito – mas estes números explicam por que razão as mulheres têm hoje mais sucesso nas universidades e na vida profissional: leem mais.

O documento circulou por todo o mundo e era relativamente pacífico; mas a capacidade de o politicamente correto cair no albergue da palermice é sempre capaz de nos surpreender. O Vida defende mais: que os escritores, independentemente do género, não devem apenas criar personagens femininas – mas pô-las, nos romances, a «dizerem e fazerem coisas importantes». Que grande ideia. Estaline corrigiu páginas de Gorki enquanto decidia que temas deviam os escritores tratar; na China, o governo manda os escritores para os arrozais para escreverem sobre os rouxinóis; as feministas americanas mandam implantar neurónios artificiais.

 

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Clássicos

por FJV, em 13.04.15

 Com aquela prosápia de pato bravo (estávamos em 2008), um antigo secretário de Estado balbuciou um dia que o abandono do Latim e do Grego nas nossas escolas não se devia “às políticas educativas” mas, simplesmente, ao facto de “os estudantes não quererem”. Isto podia ser dito por um capataz de latoaria mas não por um político. A Comissão Nacional de Educação propôs entretanto que o Ministério da Educação estude a hipótese de retomar e reforçar o ensino das línguas clássicas, o que parece ter sido aceite. No meio de tanta asneira, uma boa notícia. Depois de termos passado de 13 mil estudantes (em 1995) para 114 (no ano passado) a estudar Latim, decréscimo de mais de 90 por cento, é evidente que a culpa é “das políticas educativas” moderninhas que desgraçaram a escola e o papel da cultura dentro das suas salas.

 

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Pátria literária

por FJV, em 13.04.15

Não é definitivo que exista um “escritor nacional” para os portugueses. Mas devia apurar-se. Na Alemanha, o lugar é de Goethe; na Espanha, de Miguel de Cervantes; na Itália, é Dante; em Inglaterra, naturalmente Shakespeare; em França acaba de realizar-se uma sondagem que deu o primeiro lugar a Victor Hugo. Há tempos, uma sondagem europeia deu o topo a Shakespeare e Cervantes. Será Camões o nosso representante? Ou Eça, o romancista por excelência (que disputa o título com Camilo)? Ou Pessoa, que paira como uma sombra por toda a modernidade? E qual é o livro que os portugueses elegem como a sua companhia de cabeceira? Os Maias, um portento? Amor de Perdição, o folhetim? Os Lusíadas, o símbolo? Uma coisa é certa: com tantas reformas curriculares, os nossos clássicos ainda não têm lugar garantido.

 

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Arte escondida

por FJV, em 13.04.15

Basta dizer-se que um pateta é um artista para que ele suba de degrau. Veja-se o caso de Nelson Shanks, um simpático pintor septuagenário especializado em “retratos oficiais”. Foi ele o autor do de Bill Clinton – que pernoita na National Gallery – onde, garante, “está escondida uma referência ao escândalo Monica Lewinski”. Fui a correr ver a coisa: há de facto uma sombra que mancha a tela, sim, provocada – dizem os hermeneutas – por um vestido azul (o célebre, de Miss Lewinski) que o artista tinha ao lado enquanto pintava. Mas, no quadro, do vestido só nos chegou a sombra. Diz ele que é uma metáfora do mandato presidencial. Ora, este Shanks é um cobardolas: Velásquez, que era fino e vaidoso, pintou-se a si próprio em ‘Las Meninas’ ao lado de Margarida de Áustria ainda princesa, tal como Van Eyck reproduziu outras pessoas num espelho do retrato do casal Arnolfini. Mas, em matéria de sombras, nenhum deles sonhava com os felácios dos outros.

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Indiferença malévola

por FJV, em 13.04.15

Há vítimas de segunda categoria, como os cristãos assassinados numa universidade do Quénia, por uma milícia muçulmana. A imprensa deu a notícia salientando que “do ataque resultaram 148 mortos”, desvalorizando tratar-se de um crime de ódio e de uma matança religiosa. Outros ataques contra comunidades cristãs na Nigéria, no Iraque, no Iémen, na Síria, na Eritreia ou no Paquistão e no Egito, “de que resultaram” centenas de vítimas não tiveram destaque na nossa imprensa – não vimos nenhuma autoridade religiosa muçulmana de relevo a condenar os crimes, nem se ouviu o habitual ‘somos todos Charlie’ diante do assassinato de cristãos. Só um silêncio absurdo que nos diz que estamos todos sitiados diante da indiferença. No Ocidente a laicidade transformou-se aos poucos nessa indiferença malévola diante do cristianismo.

 

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Clean Reader

por FJV, em 13.04.15

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Existe uma aplicação – uma ‘app’ – que promete varrer a má criação dos escritores, esses atrevidos. Chama-se Clean Reader e, caso encontre palavras comprometedoras num livro digital, imaginemos um romance, substitui-a por outra mais adequada a um dicionário com a moral a postos. Imaginemos que um personagem, no paroxismo da indignação, berra qualquer coisa como “merda!”. Logo o Clean Reader elimina o pequeno palavrão e o substitui por, imaginemos, “sujidade”. Assim, o “que merda!” lusitano aparecerá como “que sujidade!” Não dou mais exemplos mas todos imaginarão outras amáveis substituições. É bom dizer que o Clean Reader não precisa da aprovação do autor para atuar no texto; ele toma conta da literatura, espanejando os parágrafos com o seu látego. Os escritores protestaram mas ainda não perceberam a vantagem.

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Tão velho

por FJV, em 13.04.15

Assinala-se agora a publicação do primeiro número da Orpheu, farol da nossa pequena modernidade. Só foram publicados dois números, mas as réplicas produziram gerações de que Fernando Pessoa e os seus heterónimos se distinguem acima de todas as outras referências. O início do século XX deu-se, no entanto, com o adeus de Eça de Queirós e as páginas finais de Os Maias, onde o perfume de decadência se sobrepõe a todos os outros. Passado um século, o “ambiente literário” não é melhor. Comparando as polémicas da época com as de hoje, a diferença é triste: os autores de então eram mais livres, seguramente, e não tinham os receios de hoje. Hoje, Júlio Dantas poderia passar pela baixa lisboeta, cruzar-se de novo com Almada Negreiros, e repetir a frase que é suposto ter dito na época: “Este Almada, sempre tão velho, coitado.”

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O Mestre e Margarita

por FJV, em 13.04.15

A Editorial Presença publicou uma nova versão do romance de Mikhail Bulgákov, agora com o título O Mestre e Margarita, traduzida por Filipe e Nina Guerra – que assina um notável prefácio onde, em poucas páginas, nos dá uma lição magistral não apenas sobre o livro e Bulgákov (Kiev, 1891-Moscovo, 1940), mas também sobre a literatura durante o período soviético. A tradução flui, é perfeita quase sempre, transporta-nos para Moscovo e para a forma como o autor o concluiu, à beira da morte, ditando-o à sua mulher Elena. Só foi publicado em 1966, com cortes e intrusões da censura, antes de ser lançado em Paris no ano seguinte (versão integral), e é uma narrativa fantástica e cómica sobre magia negra, o mal, a culpa – e, naturalmente, a tirania desses anos 20, quando Bulgákov o começara a escrever, já sabendo que era uma obra-prima do humor negro, do delírio e da denúncia do totalitarismo.

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O banco público

por FJV, em 08.10.14

«Qual foi o génio que inventou o banco público? No nosso mundo cada vez mais controlado, dirigido e digitalizado, o banco público de madeira é um oásis de liberdade no meio da cidade. No banco pode ler, dormitar, comer a sua sanduíche, meditar e reflectir sobre a vaidade dos desejos humanos. (…) O banco oferece convívio, privacidade e conforto. Tudo isto sem custos nenhuns.»

[Tom Hodgkinson e Dan Kieran, O Livro dos Prazeres Inúteis, Quetzal]

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Santarém, na sexta-feira, 12, 18h00.

por FJV, em 07.09.14

Inauguração do Museu Diocesano de Santarém.

E um abraço enorme ao João Soalheiro, que tornou isto possível.

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Joseph Roth, 120 anos.

por FJV, em 02.09.14

Joseph Roth merece mais atenção do que mantê-lo na galeria das curiosidades da velha ‘Mittleuropa’, o mapa que a I e a II Guerra pulverizaram. Talvez por isso, os seus livros passam quase ignorados nas livrarias: A Lenda do Santo Bebedor, O Leviatã (ambos na Assírio & Alvim), A Marcha de Radetzky (Difel),  (Ulisseia) e um magnífico Judeus Errantes (Sistema Solar). Em toda a sua obra há essa nostalgia mal compreendida pelo fim do império austro-húngaro, que devia ser um território de civilização e, de forma inexplicável, gerou – com a guerra e os nacionalismos – ingratidão e fragilidade. Relendo os seus livros percebe-se a pulsão de tragédia que marca o fim de uma Europa povoada de talentos e de sonhos. Roth, judeu, ucraniano que encontrou a pátria nessa Viena luminosa, morreu em Paris na véspera da II Guerra, em 1939, alcoólico e deprimido. Nasceu há exatamente 120 anos, cumpridos hoje.

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

Ver aqui o tributo de Pedro CorreiaA Marcha de Radetzky na sua excelnet série sobre grandes romances.

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Procissão de doidos.

por FJV, em 01.09.14

A palermice em que anda a discussão em torno do Acordo Ortográfico exige que se tomem decisões rápidas. A mais recente proposta veio do congresso dos deputados, no Brasil, onde umas luminárias decidiram propor o fim de toda e qualquer filiação etimológica, retirando ‘h’ não pronunciados e transformando a ortografia numa dependência aleatória e analfabeta da fonética – resultados da “linguística estrutural oral” dos anos setenta e do populismo “anti-elitista” que afoga o sistema escolar brasileiro. Esta procissão de doidos, libertados para a arena sem qualquer atestado de sanidade, ameaça tornar irrelevante todo e qualquer respeito pelos dicionários, pela gramática, pela lógica, pelo bom senso – e, finalmente, por uma língua milenar. Com o Brasil e Portugal a viverem em festa e depressão eleitoral, o cenário é pouco propício a tomarem-se decisões ponderadas. Mas pelo menos que se amordacem os patetas.

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Um momento triste.

por FJV, em 01.09.14

As coisas estão a ficar ainda mais difíceis. Nós, rapazes, atravessámos a adolescência com um objetivo claro – descobrir onde ficava o Ponto G; o que significava uma pesquisa rodeada de solenidade, malícia, companheirismo e até (não riam) uma certa delicadeza. Detetar a proximidade desse lugar invisível garantia um prémio cheio de promessas, além de benefícios para a nossa, digamos, vida social futura. As feministas mencionavam o oásis descoberto por Ernst Gräfenberg (1881-1957), o pai do Ponto G, como uma “vantagem competitiva” imbatível para as mulheres. Nós compreendíamos: era ali (não interessava onde, não éramos agrimensores) que começava o vulcão. Uma notícia do CM alerta-nos agora para uma investigação recente segundo a qual o Ponto G não existe e que a “área” é mais abrangente. Claro que é, sempre o soubemos. Mas para quê destruir anos e anos de perseverança? O fim de um mito é uma coisa triste.

 

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Naturalmente bons.

por FJV, em 01.09.14

Algumas boas almas descobriram, com justificada mágoa, que há cidadãos educados no ocidente mas disponíveis para as maiores barbáries – entre elas degolar jornalistas, gozar as maravilhas de um estado islâmico terrorista, desprezar a dignidade das mulheres ou despedaçar quem não acredita num deus cruel e interpretado por califas barbudos. As explicações abundam mas não escondem o essencial: a barbárie está dentro de portas, escapando ao paraíso da escola pública, do Estado social, da liberdade política e do sentimento de culpa ocidental. O ocidente, que desde o século XVIII acredita que os homens são “naturalmente bons” (a “sociedade” é que os estraga), transporta agora um fardo desse tamanho – e é um alvo fácil para desequilibrados e desiludidos. As imagens do tresloucado que degolou James Foley (como as dos prisioneiros ucranianos acorrentados a desfilar em Donetsk) estão a um passo de uma demência que autorizámos. Há uns meses, uma colunista do Guardian manifestava as suas dúvidas multiculturais sobre o caso Boko Haram, não estivéssemos a demonizar «todo um continente».

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Socialismo do século XXI: aqui está a solução ideal.

por FJV, em 21.08.14

À primeira leitura nem nos damos conta da enormidade. Mas, vejam bem, a Venezuela está no caminho do socialismo e — dados os progressos já registados — avança para um novo patamar: o socialismo biométrico: a partir de agora, o governo controlará a venda de bens de consumo — vai ser possível receber informações sobre o que os venezuelanos compram, em que quantidade e com que frequência, impedindo-os  (por exemplo) de adquirir o mesmo alimento mais de uma vez na semana. Segundo Maduro, «o sistema biométrico será perfeito».

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Legumes perecíveis.

por FJV, em 20.08.14

Vale a pena recordar Lenine: o pior governo não é aquele que comete erros mas aquele que, cometendo-os, não consegue corrigi-los. É o caso do ‘governo’ da União Europeia. Veja-se o caso: depois de errar na gestão da “questão russa e ucraniana”, a Europa, vestida de espartilho, saiote e com laca no cabelo – como uma velha dama que ainda se julga poderosa e influente –, impôs sanções à Rússia, que retaliou e decretou um embargo a produtos europeus. A UE foi então “obrigada” a destinar 125 milhões aos agricultores que exportam para a Rússia, a fim de compensar as perdas dos produtores de frutas, legumes & vegetais perecíveis, além de esconder os permanentes dislates diplomáticos dos guerreiros de salão em Bruxelas – e manter a face. Não custa muito adivinhar quem vai pagar estes 125 milhões (e os outros). É nisto que a UE se revela incorrigível: na sua capacidade de errar sucessivamente e sem remorso.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Vender as colónias.

por FJV, em 18.08.14

Eça de Queiroz defendia que vendêssemos as colónias (ao metro quadrado, mais lucrativo) mas também não lhe desagradaria que Portugal fosse derrotado numa hipotética guerra, a fim de perdermos, finalmente, a nossa independência. A relação dos inteletuais do século XIX com o país esteve sempre marcada pela desilusão e pelo pessimismo. Eça, Ramalho, Brandão, Herculano, Antero, Fialho, Laranjeira, Camilo – a lista de melancólicos é longa e brutal. Quando leio o grande ‘Portugal Contemporâneo’, de Oliveira Martins, é como se o país repetisse hoje todos os erros e patetices de há cem anos. Ontem, no CM, Luciano Amaral falava do estado da economia: para resolver todo “o problema”, era preciso um “programa de ajustamento” ainda mais duro; mas isso ia destruir-nos durante décadas. Vender as colónias hoje é impossível – e não me parece boa ideia sermos derrotados noutra guerra. Pelo menos antes das eleições.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O real, uma hipótese.

por FJV, em 18.08.14

Na fila do supermercado, mesmo à minha frente, a adolescente bronzeada protesta porque a mãe comprou uvas com grainha (“sementes”, diz ela). Percebo a sua angústia imbecil; há anos, uma rapariga da televisão também anunciou ao mundo que comia uvas e cerejas depois de a empregada da família lhes tirar grainhas e caroços (era “um mimo”). Há coisas que têm os dias contados. Um dia destes, noutro supermercado, uma jovem casadoira admirava-se porque os espinafres “tinham raízes” e não eram as folhas verdes e assépticas que retirava de uma sacola de plástico; a ASAE, em próxima oportunidade, virá em seu socorro – toda a gente sabe que os espinafres nascem no ar e que as pevides da melancia são colocadas lá por patifes sem noção e com perversões sádicas (que não leram a diretiva europeia que institui “uma nova era para os pepinos curvos e as cenouras nodosas”). Há qualquer coisa aqui que não bate certo. A incompatibilidade com o real é uma hipótese, mas a ideia de que o mundo foi criado em laboratório também me inquieta.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Uns bons hectares de livros.

por FJV, em 14.08.14

 

Já fechou há três anos a Acres of Books (de Bertrand Smith), em Long Beach.

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O pecado na Turquia, novos elementos.

por FJV, em 14.08.14

 

Que as mulheres turcas, incluindo as muçulmanas, possam rir quando lhes apetece — era este o assunto, depois das declarações do vice-primeiro ministro turco, Bulent Arinc, pedindo às mulheres castidade em geral e sisudez no espaço público, e antes da reeleição de Recep Tayyip Erdoğan. 

A agência literária Kalem, de Istambul, reuniu-se aqui para uma sonora gargalhada e enviou a sua amável fotografia, que agradecemos.

 

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Cigarros sem filtro

por FJV, em 14.08.14

No fundo, namorar com Lauren Bacall tinha sido um sonho de juventude. Namorar é uma maneira de dizer. Passear à beira-mar, dizer-lhe que Humphrey foi bom compincha mas que eu estaria à altura, levá-la a comer lagostins, ler-lhe sonetos, cozinhar, preparar-lhe um whisky, ir buscar-lhe os seus cigarros sem filtro. E agora, o que poderia eu dizer àquela mulher? Havia mais gente à mesa, mas eu estava à sua frente e os outros falavam de cinema. Ela ouvia (era um restaurante em Tróia, diante do mar) e fumava cigarros sem filtro. Então, eu disse a pior das banalidades, que nem um adolescente: “Gosto tanto de si.” Ela deitou a cabeça para trás e riu. Uma gargalhada que havia de tirar o tesão a Humphrey, como em To Have and Have Not, em The Big Sleep ou Key Largo. “Desculpe, não fui capaz de melhor”, disse-lhe eu. Respondeu ao acender um novo cigarro: “Sim, mas foi capaz de o dizer.” Foi em 1993. Na altura havia Chesterfield sem filtro.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Apareceu Magdalena – e agora?

por FJV, em 13.08.14

Uma notícia boa: num arquivo de Sevilha foi anteontem anunciada documentação que liga Miguel de Cervantes a uma dama – Magdalena Enríquez. Ela estava autorizada por Cervantes (que na altura se encontrava na situação de «desocupado» na cidade andaluza...) a «levantar o soldo». Encontrar um amor de 1593 é digno o bastante para folhear o Quixote em homenagem.

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A expectativa de que não lhe seja excessivamente nociva.

por FJV, em 13.08.14

Este é um dos melhores posts – não sobre Emídio Rangel, mas sobre a actividade política: «Uma sociedade civilizada, isto é, livre, deve começar por entender bem a verdadeira natureza da acção política e depositar nela a expectativa de que não lhe seja excessivamente nociva.»

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Houve um engano.

por FJV, em 13.08.14

 

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Estados de melancolia.

por FJV, em 13.08.14

Num livro sobre “os grandes criadores”, Paul Johnson começa por elogiar os humoristas. Talvez porque a nossa vida precise bastante do seu riso, da sua capacidade de enfrentar a escuridão – ou, às vezes, de a revelar em todo o seu perigoso esplendor. Robin Williams possuía esse génio irreparável e desconcertante, um rosto feito para a comédia e para a tragédia, uma voz que desafiava, destruía e reparava a harmonia perdida. Durante mais de uma década todos seguimos essa disputa entre ‘Bom Dia Vietname’ e ‘O Clube dos Poetas Mortos’, até chegarmos a ‘O Bom Rebelde’. Já sabíamos, antes dele, que o humor não é o aroma de uma felicidade jovial e a salvo de interrogações. O que estava nos seus filmes era essa suspeita: o humor não é uma parvoíce inventada para imbecis, nem uma proteção contra a perda, o lado negro das coisas, os “estados de melancolia”. O humorista deu a sua vida por nós. Isso não o salvou.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Dóris Graça Dias. 1963-2014

por FJV, em 12.08.14

 

Um dia vamos esquecer os livros e as gargalhadas – e tudo o resto. Mas não a Dóris. Escrever sobre a morte; às vezes são assim os nossos dias. Dóris Graça Dias nasceu em Moçambique (1963), morreu agora em Lisboa. Crítica, professora, leitora incansável, viajante sempre. Também ela conhecia o riso que não engana.

(Foto de Dóris; Dóris e José Riço Direitinho – esta última publicada hoje por José Riço Direitinho na sua página de Facebook: «Quando ainda sorríamos e não sabíamos.»)

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Histeria alimentar

por FJV, em 12.08.14

A mais recente descoberta da histeria alimentar tem a ver com a frutose. Está nas primeiras páginas. De cada vez que almoço com pessoas com menos de cinquenta anos, é vulgar ser alertado para os «venenos» do meu prato; a frutose é a última loucura. Parece que o açúcar da fruta é terrível. Às vezes sou olhado de lado porque uso açúcar no café (não conheço nenhum país produtor de café que o beba sem açúcar) e assisto a conversas sobre os flocos de aveia, como se alguém no seu perfeito juízo os comesse salvo por razões de saúde (aquilo sabe mal, ponto). Não consigo uma refeição sem que apareça uma alma a contar as calorias ou a murmurar «ui, veneno...» ao verificar que molho o pão no azeite, como os meus antepassados. Se acrescentarmos a isso a abundância de 'chefs' em vez dos cozinheiros de antanho, mais a ideia de comer uma bolacha de farelo de duas em duas horas, eis um mundo estupidificado pela comida.

[Da coluna do Correio da Manhã

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Boas leituras.

por FJV, em 12.08.14

Na semana passada, o Journal of Applied Social Psychology divulgou três estudos sobre as consequências da leitura das histórias de Harry Potter por jovens em idade escolar. Os resultados não são surpreendentes, mas alegraram os “cientistas sociais”: depois de lerem os livros de J.K. Rowling, os adolescentes ficam mais tolerantes em relação a temas como a imigração ou a homossexualidade, por exemplo, e menos disponíveis para o racismo ou a xenofobia. Isto faz-me lembrar que há uns tempos, passeando em Santiago de Compostela com o escritor Carlos Quiroga, descobri uma Biblioteca de Buenas Lecturas (fica perto da Catedral). Nenhum de nós riu da ideia – a de que há leituras “boas” e leituras “más” – que contraria o princípio, muito divulgado hoje, de que não interessa o que se lê. O critério não é moral, evidentemente  – avalia-se pelos resultados. As bibliotecas de Hitler e de Mao eram vastíssimas.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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