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Santarém, na sexta-feira, 12, 18h00.

por FJV, em 07.09.14

Inauguração do Museu Diocesano de Santarém.

E um abraço enorme ao João Soalheiro, que tornou isto possível.

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Joseph Roth, 120 anos.

por FJV, em 02.09.14

Joseph Roth merece mais atenção do que mantê-lo na galeria das curiosidades da velha ‘Mittleuropa’, o mapa que a I e a II Guerra pulverizaram. Talvez por isso, os seus livros passam quase ignorados nas livrarias: A Lenda do Santo Bebedor, O Leviatã (ambos na Assírio & Alvim), A Marcha de Radetzky (Difel),  (Ulisseia) e um magnífico Judeus Errantes (Sistema Solar). Em toda a sua obra há essa nostalgia mal compreendida pelo fim do império austro-húngaro, que devia ser um território de civilização e, de forma inexplicável, gerou – com a guerra e os nacionalismos – ingratidão e fragilidade. Relendo os seus livros percebe-se a pulsão de tragédia que marca o fim de uma Europa povoada de talentos e de sonhos. Roth, judeu, ucraniano que encontrou a pátria nessa Viena luminosa, morreu em Paris na véspera da II Guerra, em 1939, alcoólico e deprimido. Nasceu há exatamente 120 anos, cumpridos hoje.

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

Ver aqui o tributo de Pedro CorreiaA Marcha de Radetzky na sua excelnet série sobre grandes romances.

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Procissão de doidos.

por FJV, em 01.09.14

A palermice em que anda a discussão em torno do Acordo Ortográfico exige que se tomem decisões rápidas. A mais recente proposta veio do congresso dos deputados, no Brasil, onde umas luminárias decidiram propor o fim de toda e qualquer filiação etimológica, retirando ‘h’ não pronunciados e transformando a ortografia numa dependência aleatória e analfabeta da fonética – resultados da “linguística estrutural oral” dos anos setenta e do populismo “anti-elitista” que afoga o sistema escolar brasileiro. Esta procissão de doidos, libertados para a arena sem qualquer atestado de sanidade, ameaça tornar irrelevante todo e qualquer respeito pelos dicionários, pela gramática, pela lógica, pelo bom senso – e, finalmente, por uma língua milenar. Com o Brasil e Portugal a viverem em festa e depressão eleitoral, o cenário é pouco propício a tomarem-se decisões ponderadas. Mas pelo menos que se amordacem os patetas.

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Um momento triste.

por FJV, em 01.09.14

As coisas estão a ficar ainda mais difíceis. Nós, rapazes, atravessámos a adolescência com um objetivo claro – descobrir onde ficava o Ponto G; o que significava uma pesquisa rodeada de solenidade, malícia, companheirismo e até (não riam) uma certa delicadeza. Detetar a proximidade desse lugar invisível garantia um prémio cheio de promessas, além de benefícios para a nossa, digamos, vida social futura. As feministas mencionavam o oásis descoberto por Ernst Gräfenberg (1881-1957), o pai do Ponto G, como uma “vantagem competitiva” imbatível para as mulheres. Nós compreendíamos: era ali (não interessava onde, não éramos agrimensores) que começava o vulcão. Uma notícia do CM alerta-nos agora para uma investigação recente segundo a qual o Ponto G não existe e que a “área” é mais abrangente. Claro que é, sempre o soubemos. Mas para quê destruir anos e anos de perseverança? O fim de um mito é uma coisa triste.

 

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Naturalmente bons.

por FJV, em 01.09.14

Algumas boas almas descobriram, com justificada mágoa, que há cidadãos educados no ocidente mas disponíveis para as maiores barbáries – entre elas degolar jornalistas, gozar as maravilhas de um estado islâmico terrorista, desprezar a dignidade das mulheres ou despedaçar quem não acredita num deus cruel e interpretado por califas barbudos. As explicações abundam mas não escondem o essencial: a barbárie está dentro de portas, escapando ao paraíso da escola pública, do Estado social, da liberdade política e do sentimento de culpa ocidental. O ocidente, que desde o século XVIII acredita que os homens são “naturalmente bons” (a “sociedade” é que os estraga), transporta agora um fardo desse tamanho – e é um alvo fácil para desequilibrados e desiludidos. As imagens do tresloucado que degolou James Foley (como as dos prisioneiros ucranianos acorrentados a desfilar em Donetsk) estão a um passo de uma demência que autorizámos. Há uns meses, uma colunista do Guardian manifestava as suas dúvidas multiculturais sobre o caso Boko Haram, não estivéssemos a demonizar «todo um continente».

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Socialismo do século XXI: aqui está a solução ideal.

por FJV, em 21.08.14

À primeira leitura nem nos damos conta da enormidade. Mas, vejam bem, a Venezuela está no caminho do socialismo e — dados os progressos já registados — avança para um novo patamar: o socialismo biométrico: a partir de agora, o governo controlará a venda de bens de consumo — vai ser possível receber informações sobre o que os venezuelanos compram, em que quantidade e com que frequência, impedindo-os  (por exemplo) de adquirir o mesmo alimento mais de uma vez na semana. Segundo Maduro, «o sistema biométrico será perfeito».

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Legumes perecíveis.

por FJV, em 20.08.14

Vale a pena recordar Lenine: o pior governo não é aquele que comete erros mas aquele que, cometendo-os, não consegue corrigi-los. É o caso do ‘governo’ da União Europeia. Veja-se o caso: depois de errar na gestão da “questão russa e ucraniana”, a Europa, vestida de espartilho, saiote e com laca no cabelo – como uma velha dama que ainda se julga poderosa e influente –, impôs sanções à Rússia, que retaliou e decretou um embargo a produtos europeus. A UE foi então “obrigada” a destinar 125 milhões aos agricultores que exportam para a Rússia, a fim de compensar as perdas dos produtores de frutas, legumes & vegetais perecíveis, além de esconder os permanentes dislates diplomáticos dos guerreiros de salão em Bruxelas – e manter a face. Não custa muito adivinhar quem vai pagar estes 125 milhões (e os outros). É nisto que a UE se revela incorrigível: na sua capacidade de errar sucessivamente e sem remorso.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Vender as colónias.

por FJV, em 18.08.14

Eça de Queiroz defendia que vendêssemos as colónias (ao metro quadrado, mais lucrativo) mas também não lhe desagradaria que Portugal fosse derrotado numa hipotética guerra, a fim de perdermos, finalmente, a nossa independência. A relação dos inteletuais do século XIX com o país esteve sempre marcada pela desilusão e pelo pessimismo. Eça, Ramalho, Brandão, Herculano, Antero, Fialho, Laranjeira, Camilo – a lista de melancólicos é longa e brutal. Quando leio o grande ‘Portugal Contemporâneo’, de Oliveira Martins, é como se o país repetisse hoje todos os erros e patetices de há cem anos. Ontem, no CM, Luciano Amaral falava do estado da economia: para resolver todo “o problema”, era preciso um “programa de ajustamento” ainda mais duro; mas isso ia destruir-nos durante décadas. Vender as colónias hoje é impossível – e não me parece boa ideia sermos derrotados noutra guerra. Pelo menos antes das eleições.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O real, uma hipótese.

por FJV, em 18.08.14

Na fila do supermercado, mesmo à minha frente, a adolescente bronzeada protesta porque a mãe comprou uvas com grainha (“sementes”, diz ela). Percebo a sua angústia imbecil; há anos, uma rapariga da televisão também anunciou ao mundo que comia uvas e cerejas depois de a empregada da família lhes tirar grainhas e caroços (era “um mimo”). Há coisas que têm os dias contados. Um dia destes, noutro supermercado, uma jovem casadoira admirava-se porque os espinafres “tinham raízes” e não eram as folhas verdes e assépticas que retirava de uma sacola de plástico; a ASAE, em próxima oportunidade, virá em seu socorro – toda a gente sabe que os espinafres nascem no ar e que as pevides da melancia são colocadas lá por patifes sem noção e com perversões sádicas (que não leram a diretiva europeia que institui “uma nova era para os pepinos curvos e as cenouras nodosas”). Há qualquer coisa aqui que não bate certo. A incompatibilidade com o real é uma hipótese, mas a ideia de que o mundo foi criado em laboratório também me inquieta.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Uns bons hectares de livros.

por FJV, em 14.08.14

 

Já fechou há três anos a Acres of Books (de Bertrand Smith), em Long Beach.

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O pecado na Turquia, novos elementos.

por FJV, em 14.08.14

 

Que as mulheres turcas, incluindo as muçulmanas, possam rir quando lhes apetece — era este o assunto, depois das declarações do vice-primeiro ministro turco, Bulent Arinc, pedindo às mulheres castidade em geral e sisudez no espaço público, e antes da reeleição de Recep Tayyip Erdoğan. 

A agência literária Kalem, de Istambul, reuniu-se aqui para uma sonora gargalhada e enviou a sua amável fotografia, que agradecemos.

 

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Cigarros sem filtro

por FJV, em 14.08.14

No fundo, namorar com Lauren Bacall tinha sido um sonho de juventude. Namorar é uma maneira de dizer. Passear à beira-mar, dizer-lhe que Humphrey foi bom compincha mas que eu estaria à altura, levá-la a comer lagostins, ler-lhe sonetos, cozinhar, preparar-lhe um whisky, ir buscar-lhe os seus cigarros sem filtro. E agora, o que poderia eu dizer àquela mulher? Havia mais gente à mesa, mas eu estava à sua frente e os outros falavam de cinema. Ela ouvia (era um restaurante em Tróia, diante do mar) e fumava cigarros sem filtro. Então, eu disse a pior das banalidades, que nem um adolescente: “Gosto tanto de si.” Ela deitou a cabeça para trás e riu. Uma gargalhada que havia de tirar o tesão a Humphrey, como em To Have and Have Not, em The Big Sleep ou Key Largo. “Desculpe, não fui capaz de melhor”, disse-lhe eu. Respondeu ao acender um novo cigarro: “Sim, mas foi capaz de o dizer.” Foi em 1993. Na altura havia Chesterfield sem filtro.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Apareceu Magdalena – e agora?

por FJV, em 13.08.14

Uma notícia boa: num arquivo de Sevilha foi anteontem anunciada documentação que liga Miguel de Cervantes a uma dama – Magdalena Enríquez. Ela estava autorizada por Cervantes (que na altura se encontrava na situação de «desocupado» na cidade andaluza...) a «levantar o soldo». Encontrar um amor de 1593 é digno o bastante para folhear o Quixote em homenagem.

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A expectativa de que não lhe seja excessivamente nociva.

por FJV, em 13.08.14

Este é um dos melhores posts – não sobre Emídio Rangel, mas sobre a actividade política: «Uma sociedade civilizada, isto é, livre, deve começar por entender bem a verdadeira natureza da acção política e depositar nela a expectativa de que não lhe seja excessivamente nociva.»

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Houve um engano.

por FJV, em 13.08.14

 

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Estados de melancolia.

por FJV, em 13.08.14

Num livro sobre “os grandes criadores”, Paul Johnson começa por elogiar os humoristas. Talvez porque a nossa vida precise bastante do seu riso, da sua capacidade de enfrentar a escuridão – ou, às vezes, de a revelar em todo o seu perigoso esplendor. Robin Williams possuía esse génio irreparável e desconcertante, um rosto feito para a comédia e para a tragédia, uma voz que desafiava, destruía e reparava a harmonia perdida. Durante mais de uma década todos seguimos essa disputa entre ‘Bom Dia Vietname’ e ‘O Clube dos Poetas Mortos’, até chegarmos a ‘O Bom Rebelde’. Já sabíamos, antes dele, que o humor não é o aroma de uma felicidade jovial e a salvo de interrogações. O que estava nos seus filmes era essa suspeita: o humor não é uma parvoíce inventada para imbecis, nem uma proteção contra a perda, o lado negro das coisas, os “estados de melancolia”. O humorista deu a sua vida por nós. Isso não o salvou.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Dóris Graça Dias. 1963-2014

por FJV, em 12.08.14

 

Um dia vamos esquecer os livros e as gargalhadas – e tudo o resto. Mas não a Dóris. Escrever sobre a morte; às vezes são assim os nossos dias. Dóris Graça Dias nasceu em Moçambique (1963), morreu agora em Lisboa. Crítica, professora, leitora incansável, viajante sempre. Também ela conhecia o riso que não engana.

(Foto de Dóris; Dóris e José Riço Direitinho – esta última publicada hoje por José Riço Direitinho na sua página de Facebook: «Quando ainda sorríamos e não sabíamos.»)

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Histeria alimentar

por FJV, em 12.08.14

A mais recente descoberta da histeria alimentar tem a ver com a frutose. Está nas primeiras páginas. De cada vez que almoço com pessoas com menos de cinquenta anos, é vulgar ser alertado para os «venenos» do meu prato; a frutose é a última loucura. Parece que o açúcar da fruta é terrível. Às vezes sou olhado de lado porque uso açúcar no café (não conheço nenhum país produtor de café que o beba sem açúcar) e assisto a conversas sobre os flocos de aveia, como se alguém no seu perfeito juízo os comesse salvo por razões de saúde (aquilo sabe mal, ponto). Não consigo uma refeição sem que apareça uma alma a contar as calorias ou a murmurar «ui, veneno...» ao verificar que molho o pão no azeite, como os meus antepassados. Se acrescentarmos a isso a abundância de 'chefs' em vez dos cozinheiros de antanho, mais a ideia de comer uma bolacha de farelo de duas em duas horas, eis um mundo estupidificado pela comida.

[Da coluna do Correio da Manhã

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Boas leituras.

por FJV, em 12.08.14

Na semana passada, o Journal of Applied Social Psychology divulgou três estudos sobre as consequências da leitura das histórias de Harry Potter por jovens em idade escolar. Os resultados não são surpreendentes, mas alegraram os “cientistas sociais”: depois de lerem os livros de J.K. Rowling, os adolescentes ficam mais tolerantes em relação a temas como a imigração ou a homossexualidade, por exemplo, e menos disponíveis para o racismo ou a xenofobia. Isto faz-me lembrar que há uns tempos, passeando em Santiago de Compostela com o escritor Carlos Quiroga, descobri uma Biblioteca de Buenas Lecturas (fica perto da Catedral). Nenhum de nós riu da ideia – a de que há leituras “boas” e leituras “más” – que contraria o princípio, muito divulgado hoje, de que não interessa o que se lê. O critério não é moral, evidentemente  – avalia-se pelos resultados. As bibliotecas de Hitler e de Mao eram vastíssimas.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O festim.

por FJV, em 12.08.14

Rui Veloso respondeu às tresleituras disparatadas da sua entrevista ao DN – e anunciou disco novo em 2015. Uma horda de patetas apareceu nas “redes sociais” para lamentar o adeus de outro músico desiludido com o país, retirado e amargurado; este é o habitual discurso da banalidade e da queixinha barata. Muitos apressaram-se a prever a hecatombe do costume: estão a matar Portugal, vejam. O problema dos músicos é sombrio porque dependem da concorrência, do gosto, da banalização e, vá lá, do cansaço. Mas não afeta apenas músicos: outros autores (e outras profissões) sofrem o mesmo desgaste e não culpam a pátria. O tempo devora os seus filhos; o nosso tempo devora tudo com mais crueldade ainda, com a ajuda da tv e da internet. Além de que não é possível alimentar com dinheiros públicos uma indústria na qual as autarquias gastaram milhões durante anos de concertos gratuitos. Esse festim acabou.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O mapa.

por FJV, em 12.08.14

O califado.

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Nicolau de Cusa: do conhecido ao desconhecido

por FJV, em 12.08.14

Nicolau de Cusa (por ter nascido em Cusa, Kues, não muito longe da atual Mainz, Alemanha) morreu há 520 anos em Itália. Nos tópicos de história da filosofia das nossas escolas ele aparece muito raramente, mesmo quando se invoca o princípio da “douta ignorância”, título de uma das suas obras (de 1440). Antes do cisma protestante (as “Teses” de Lutero são de 1517), Nicolau já estava entre dois mundos, depois de ter escrito um tratado – ignorado – sobre a necessidade de mudar a igreja do seu tempo. O mais fascinante na sua obra é, porém, o apelo à razão e, simultaneamente, o fascínio pelo incompreensível e pelo desconhecido: Deus era, para Nicolau (que, além de teólogo, era físico e matemático), essa matéria sem geometria, sem designação e sem centro. A sua cosmologia era, por isso, revolucionária para a época; tinha a ver com os sonhos – se o mundo era infinito e desconhecido como poderia ter um centro?

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Algoritmo.

por FJV, em 12.08.14

Há tempos, uma universidade novaiorquina disponibilizou um algoritmo para analisar um livro e determinar se está ou não destinado à categoria de best-seller. Agora, um grupo de investigadores da universidade de New South Wales, Austrália, acaba de construir um programa informático (o The Moral Storytelling System) destinado a escrever histórias com um “epílogo moral”. Neste caso, trata-se de pequenos textos que retomam as categorias e estados morais presentes, por exemplo, nas fábulas de Esopo, como a ganância, o orgulho, a imprudência, a recompensa, o remorso, a inveja ou a gratidão. A complexidade de uma história literária nunca será reproduzida dessa forma – e a literatura não tem a ver com virtudes morais ou cívicas. Mas, observando a promiscuidade abjecta entre a vida política e a vida financeira portuguesa, dois ou três parágrafos gerados por computador bastariam para dar conta do assunto.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O riso é antecâmara do pecado

por FJV, em 12.08.14

Em O Nome da Rosa, de Umberto Eco, o frade Jorge de Burgos achava que o riso era a antecâmara do pecado (o livro perdido da Poética, de Aristóteles, dedicado à comédia, estava envenenado). Semelhante opinião tem Bulent Arinc, vice-primeiro-ministro turco, que aconselhou as mulheres a serem mais sisudas “em espaço público”, evitando rir por dá cá aquela palha. É uma posição consentânea com certa leitura do Corão – provavelmente a mesma que leva o novo “imã” do califado sírio-iraquiano a decretar a excisão do clítoris a todas as mulheres que vivem no seu território; nem prazer, nem riso em público, nem praia, nem autorização para conduzir carros ou para viajar. Mas, pelo menos na Turquia de Bulent Arinc (e na de Erdoğan) sem riso. Há duas perspetivas: uma, explicar que foi contra este cenário que foi fundada a Turquia moderna e laica, a de Mustafa Kemal Atatürk, a partir de 1923; a segunda, garantir por todos os meios que as mulheres turcas, incluindo as muçulmanas, possam rir quando lhes apetece. E se alguém argumentar que o riso é antecâmara do pecado, sim, conceder com algum desprendimento que há essa possibilidade maravilhosa.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Temos dúvidas.

por FJV, em 12.08.14

O seu livro mais famoso – tirando o projeto da Enciclopédia, que dirigiu com D’Alembert – é A Religiosa (de 1760 mas publicado em1796), um livro sobre a brutalidade do encarceramento de uma mulher num convento. Da história real passou-se para o retrato de conjunto, favorecido pelos dias da Revolução Francesa, que iria incendiar igrejas e reputações. Mas Diderot, que morreu há 230 anos, em Paris, é um exemplo e um modelo do Iluminismo. Se a fé em Deus lhe foi estranha durante metade da vida, a fé no conhecimento constituiu uma espécie de bússola. Sendo vulgar dizer-se que um homem é “produto do seu tempo”, é preciso insistir em que o tempo de Diderot e o que se lhe sucedeu foi também resultado dessa fé apaixonada do autor de Jacques, o Fatalista. A Enciclopédia é a melhor prova. Pensava-se que, ao dominar aquela catedral de saber, se era uma pessoa melhor. Temos dúvidas, mas sempre é um avanço.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Saint-Ex

por FJV, em 12.08.14

Voar de Toulouse a Dacar, passando por Casablanca, sobrevoando primeiro a estreita faixa do Mediterrâneo, entrando nas areias do deserto a sul de Essaouira e Marraquexe, ver pela primeira vez aquele pequeno promontório de Tarfaya antes de observar como as tribos de caminhantes se dirigiam a Nouakchot. Sigo o percurso maravilhoso de Antoine de Saint-Exupéry em Correio do Sul  e em Voo Noturno, onde encontramos sinais dessa viagem aos comandos do seu avião – e da sua vida em Tarfaya durante cerca de dois anos. Podemos invejá-lo, sim. Mas o que conhecemos dele é sobretudo O Principezinho, publicado um ano antes da sua morte (no final da guerra, com o seu avião abatido sobre o mar, pelos alemães), e que constitui o cerne do seu testamento literário. Foi o livro que o fez justamente famoso, lido por milhões de leitores. Saint-Exupéry morreu a 31 de Julho de 1944, passam agora 70 anos.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Identidade.

por FJV, em 05.06.14

Se há combate que marcou o século XX foi o dos direitos civis: a luta pela integração, pela partilha, por não ser necessário abdicar das identidades individuais no interior da vida em comunidade. Com isso, veio a ideia de que a pluralidade e a diferença podem constituir elementos de coesão e de aperfeiçoamento. Não fazer apartheid. Não separar brancos e negros, não distinguir heterossexuais e homossexuais, impedir a segregação de minorias. Não é isso que pensa Astrid Osterland, que, em Berlim, é uma das fundadoras do primeiro cemitério para feministas e lésbicas. Desta forma, diz Astrid, “a causa gay fica para a posteridade”. Engana-se: fica separada do resto das coisas, como um gueto para além da vida e da morte, prolongando na morte os rancores, ressentimentos, desafetos e solidões que existiram durante a vida. A criação de um cemitério para a comunidade gay feminina é uma muralha ridícula.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Céline

por FJV, em 27.05.14

Passam hoje 120 anos sobre o nascimentos de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Há uma novidade brutal na sua obra, uma desesperança quase criminosa: Morte a Crédito, Viagem ao Fim da Noite ou Norte fornecem as peças essenciais, notáveis, desse retrato do “escritor maldito”. Mas, por muito conveniente que seja, Céline não é maldito: uma parte substancial da sua obra é apenas um testamento anti-semita, vergonhoso (Vão Navios Cheios de Fantasmas). Deve ser julgado por isso, ou devemos valorizar a sua obra devastadora, que mudou a língua literária do seu tempo? Hoje, em época de paz, temos de fazer um esforço para recolocá-lo no lugar dos seus tormentos: “Eu matei muito”, dizia Céline sobre a sua memória da I Guerra. Nunca se é o mesmo depois disso. Tudo deixa de existir (ele não acreditava no amor): a decência, a normalidade, a vida plena. Sim, era um ser abjecto, um escritor único e impiedoso.

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Hammett

por FJV, em 26.05.14

Lembram-se de O Falcão de Malta, ou Relíquia Macabra, o filme de John Huston com Humphrey Bogart e Mary Astor? Antes disso era um livro – o berço de Sam Spade, o detective criado por Dashiell Hammett nesse livro de 1930 (o filme é de 1941) e que depois apareceu em vários contos de Hammett, de quem amanhã se assinalam os 120 anos do seu nascimento. Wim Wenders fez um filme em sua homenagem (Hammett, de 1982, a partir do livro de Joe Gores): é o retrato do “escritor perdido”, doseando literatura e política, apaixonado (por Lilian Hellmann), contraditório, ex-detective da Agência Pinkerton, consumido pelo álcool e pela América. A literatura policial não seria a mesma sem ele – A Chave de Vidro, A Maldição dos Dain ou Colheita Vermelha e O Homem Sombra estão traduzidos (sem falar das histórias do Agente Secreto X-9). Mas Falcão de Malta é uma obra-prima impossível de esquecer, o anúncio do policial moderno e marcado pelo medo.

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Os franceses

por FJV, em 26.05.14

Será da Europa? Será dos franceses? Será da França? Claro que não, até porque não há uma coisa como “os franceses” – mas tenho o direito de duvidar; o chauvinismo, o “populismo dos comerciantes e funcionários” e o poujadismo estão lá. Tal como a tentação da capitulação, da velha Action Française e do revisionismo histórico, com a sua mistura de arrogância nacionalista, anti-semitismo minucioso e comprovado, e racismo beligerante. Desta vez, Jean-Marie Le Pen foi escutado a dizer que o vírus ébola resolveria os problemas da imigração em três meses. Ele tem razão, caramba – basta ler ‘A Peste’, de Albert Camus (Nobel francês nascido na Argélia, já agora, um ‘pied-noir’): o vírus desperta de tempos a tempos, guardado de geração em geração, administrado com cautelas. Nada a fazer. Na França, estes demónios despertam com inigualável qualidade, certa pompa e aquele ar de velhacaria cheia de advérbios e honras passadas, contra os polacos, os judeus, os americanos, os portugueses, os pretos, os chineses, seja quem for. Tudo menos os franceses, claro.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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