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I hate the internet & the working class.

por FJV, em 14.12.17

Na cama, Bret Easton Ellis lê I Hate the Internet.

 

É um livro delicioso, I Hate the Internet (Odeio a Inernet, sai em Portugal em janeiro) de Jarett Kobek, um turco-americano que descreve as desventuras de uma vintena de personagens da costa leste os EUA, cujas vidas se transformam num inferno graças ao Facebook, ao Twitter e ao Instagram. Basicamente, é um romance sobre economia política, feminismo e internet. Há uma passagem em que Kobek explica que os grandes patrões da internet adoram as indignações generalizadas de natureza política e social – elas alimentam e acrescentam o tráfego, captando mais anunciantes para a Google, o Facebook ou o Twitter. Quanto mais protestos se leem, quanto mais guerra anticapitalista melhor para os acionistas, que enchem os bolsos com cada página da net. Veja-se o caso do grande patrão da Penguin Random House inglesa, Tom Weldon, que exortou a indústria da edição a responder ao “imperativo comercial urgente” de “fazer refletir em romances as experiências da classe trabalhadora”. É maravilhoso ver os tubarões da indústria a querer vender obras sobre a classe trabalhadora a fim de aumentar os lucros dos acionistas.

[Da coluna no CM]

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É uma espécie de longa travessia do deserto.

por FJV, em 13.12.17

O Webster, o dicionário dos dicionários em língua inglesa, elegeu “feminismo” como a palavra do ano. Também podia ser “assédio”, “abuso”, “denúncia”, e compreender-se-ia que se tratava de feminismo. 2017 foi o ano de tudo isso, e foi uma longa marcha desde o século V, quando a matemática, astrónoma e filósofa Hipátia foi assassinada em Alexandria por uma horda de cristãos em fúria, que a queimaram – ou, recuando, desde que Fatima Al-Fihriya Al-Qurashiya, filha de um mercador de Fez, fundou nesta cidade a biblioteca de Al Quaraouiyine no século IX antes da nossa era. Ou desde que, em 1678, A Princesa de Clèves foi publicado anonimamente, ou quando, em 1847, Charlotte Brontë publicou Jane Eyre, trinta anos depois de Mary Shelley, também anonimamente, ter publicado Frankenstein. Cada um destes nomes é hoje analisado, estudado e admirado independentemente de ser mulher – mas o caminho até à dignificação (das investigadoras do Centro 3B da Universidade do Minho como do futebol feminino) não é fácil. É uma espécie de longa travessia do deserto que nos deve encher de orgulho.

[Da coluna no CM]

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Pobre Balthus.

por FJV, em 13.12.17

Apesar dos protestos, que voltaram depois de uma acalmia, o Met, Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, recusou retirar uma pintura de Balthus, “Thérèse Sonha”, das suas paredes. Uma petição pública exigia que fosse retirada porque o retrato (de 1938) levava o Met a “romantizar o voyeurismo e a objetificação das crianças” – e a “desculpabilizar a onda de agressões sexuais a que estamos a assistir”. Pobre Balthus (1908-2001), o protegido de Rilke, de Gide e de Cocteau, o admirador de Piero della Francesca, o amigo de Camus e de Saint-Éxupéry, Malraux ou Man Ray. Para o que as coisas e as obras do passado estão guardadas. Já tínhamos visto o primeiro-ministro italiano mandar tapar as esculturas do Renascimento para receber o seu homólogo iraniano, entre outros casos de imbecilidade temporária – que ameaçam tornar-se mais prolongados. Para substituir o quadro de Balthus, a petição propunha apenas que se usasse uma obra de uma mulher, do mesmo período. Podíamos recuar até Artemisia Gentileschi, no século XVII, que despedaçava cabeças, mas enfim.

[Da coluna no CM]

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Madonna, “Os Maias”, o Ramalhete.

por FJV, em 13.12.17

Não sabia que Madonna ia viver entre as paredes do que podia ter sido “o Ramalhete”. A imprensa noticiou vagamente que um hotel de Santos, em Lisboa, ia recolher a cantora durante um ano, mas a minha filha lembrou que se tratava do Ramalhete de Os Maias, o palacete que tão funesto seria para a família criada por Eça de Queirós, com os seus cretones e salas acolhedoras. Ontem, nestas páginas, Leonardo Ralha voltou ao assunto, e bem, porque foi também o dia em que se soube que Portugal tinha sido eleito “o melhor destino turístico do mundo”, distinção que tanto nos honra como responsabiliza para os anos futuros. Há uma ligação entre Os Maias e o melhor destino turístico do mundo – ou se é um areal cheio de dinheiro, como o Dubai, ou se é um território com história, passado, literatura e velhas mitologias que se instilam nos visitantes, a receber com galhardia e sentido do lucro. O turismo é isso. Quer dizer, “o nosso turismo” é isso: mitologias cedidas por empréstimo. Ter Madonna a ler Os Maias seria uma coisa tremenda, capaz de fazer inveja à rapaziada do secundário.

[Da coluna no CM]

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O cantinho do hooligan. As pombinhas e o lado negro do futebol.

por FJV, em 12.12.17

Passaram um dia inteiro a discutir se o Edinho se desequilibrou quando se encostou ao Aboubakar ou se o Aboubakar o agrediu perigosamente, e porem isso na primeira página depois de um 0-5 incontestável. Os mesmos que no passado dia 2 desvalorizaram um golo mal invalidado e dois penáltis (pronto, um) não assinalados. Deve ser isto que certas pombinhas designam como o lado negro do futebol.

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“Somos os nórdicos do século XXI.”

por FJV, em 08.12.17

Bergen, a cidade mais chuvosa da Noruega.

 

Há dois dias, logo na primeira página do El Pais esta vibrante declaração de Marcelo Rebelo de Sousa: “Somos os nórdicos do século XXI.” As palavras do PR acompanhavam uma peça sobre os êxitos internacionais da diplomacia silenciosa portuguesa – da eleição de Guterres à escolha de Centeno.  Sermos os nórdicos do século XXI é coisa que me seduz: gente discreta, criadora de riqueza, liberal nos costumes, liberal na economia mas protegendo os cidadãos e os seus direitos sociais, respeitadora das leis, rigorosa, poupadinha (bom, ligeiramente sovina), com um amor severo pela natureza e pela paisagem, capaz de mobilizar recursos tendo em vista o “interesse nacional” – tudo isso me agrada. Mas o PR insistia, afinal, na capacidade de mediar conflitos, de estabelecer pontes entre opiniões diferentes, com flexibilidade e tolerância, o que já não é mau. Ainda no El Pais, mas no dia anterior, menção ao facto de os agricultores portugueses serem os mais velhos da Europa; um dia depois, um retrato da deprimida freguesia de Rabo de Peixe, nos Açores: “No hay recursos, pero, bueno, hay wifi.”

[Da coluna no CM]

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Os demónios da destruição.

por FJV, em 07.12.17

É um dos livros do ano – Tempo de Raiva, do anglo-indiano Pankaj Mishra (Temas e Debates) analisa os laços da violência entre as várias utopias, do comunismo ao nazismo, do populismo aos vários messianismos. Mishra situa essa onda de raiva lá mais atrás, no século XVIII, e lê de uma forma mais perversa as implicações do Iluminismo, marcado pelo ressentimento de figuras afinal pouco exemplares, como Voltaire ou Rousseau, que se julgavam iluminados – ou pelo saber ou pela casta a que pertenciam, a dos inteletuais da era da Razão. No seu novo livro, Bárbaros e Iluminados. Populismo e Utopia no Século XXI (D. Quixote), outro dos livros do ano, Jaime Nogueira Pinto aborda o problema de forma semelhante e desenha um confronto entre bárbaros e iluminados – em que estes são os herdeiros das utopias e da Razão, cercados pelos bárbaros (de Trump aos populistas europeus) e inimigos das Luzes e das suas conquistas, num mundo em que cresce a tentação pelo autoritarismo. Ondas de raiva, tempo de ressentimento – periodicamente somos assaltados pelos demónios da destruição.

[Da coluna no CM]

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Convidar Dijsselbloem para uns copos.

por FJV, em 06.12.17

Tenho uma morigerada simpatia por Mário Centeno. Aliás, tirando certa espécie de indivíduos (que vegetam entre a intriga no partido, a chefia de uma secretaria e a subida na atenção dos chefes, sempre com ar hirsuto), tenho simpatia por quem se atreve a servir num governo, espatifando a sua vida em nome da chamada pátria. Portanto, não percebo a vantagem de presidir ao Eurogrupo tirando a de ser português e de desmentir Marques Mendes. Em primeiro lugar, trata-se de substituir um socialista por outro (embora o PS tenha vendido a ida de Centeno como uma espécie de revolução dos povos, Dijsselbloem é socialista), abençoado pelos ocupantes de Berlim e Bruxelas (como Merkel), esses fascistas a quem Centeno vai explicar o que são cativações. Depois, toda a irrelevância de que o Eurogrupo foi acusado pelos socialistas locais não deixará de manter-se, a menos que mordam a língua (o que fazem com frequência) – sim, foi a maldosa Europa “que não é séria” a escolher Centeno, incluindo Dijsselbloem, que foi um bom presidente, e a quem há de convidar para uns copos. Pagando, claro.

[Da coluna no CM]

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Gershom Scholem, 1897-1984.

por FJV, em 05.12.17

  

 Gershom Scholem nasceu há exatamente 120 anos em Berlim (a 5 de dezembro de 1897), e morreu em Jerusalém em 1984 – na ocasião coube ao filósofo Jürgen Habermas fazer seu elogio fúnebre: a descrição de um sábio, um leitor impenitente (lia alemão e inglês, hebraico, grego, latim e aramaico), um homem rigorosamente do seu tempo (amigo de Walter Benjamin e de Leo Strauss) que foi ao passado buscar as raízes do mais radical dos misticismos, a cabala judaica. Um dos seus irmãos era de direita, outro era comunista – Gershom foi um místico dedicado à história do judaísmo, ao estudo da relação entre o finito e o infinito, entre o mortal e o imortal, e a estabelecer o edifício de uma nova religiosidade que existe para lá da ortodoxia. Jorge Luis Borges, que foi um seu leitor dedicado, recebeu a sua inspiração, tal como George Steiner, Umberto Eco ou Derrida reconheceram o seu génio e a sua influência como um génio da imaginação. Susan Sontag falava da sua capacidade para detetar a tristeza (que ele tanto via em Benjamin), um dos sinais do século XX. Sim, os seus livros estão esgotados.

[Da coluna no CM]

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Dez anos de parvoíce ninguém nos tira.

por FJV, em 04.12.17

Durante a bela conversa (700 pessoas ao ar livre, ao princípio da noite de sexta-feira passada, 4 graus, mantas nos joelhos) entre Michael Palin e Ricardo Araújo Pereira, no Festival Literário de Viseu (Tinto no Branco), o membro dos Monty Python referiu-se ao ‘politicamente correto’ (PC) e ao medo de dizer o que se pensa – porque pode suscitar “ondas de indignação”. Só um louco se atira de frente contra essa muralha. Mas o PC não tem apenas a ver com a correção política e “sentimental” dos tempos que correm. Veja-se a celebração do Natal, uma festa religiosa global, é certo, mas de raiz cristã – as empresas, as instituições, as pessoas, evitam desejar ‘Bom Natal’ e passaram a mencionar “as festas” para não “ofender os excluídos”, como se a celebração do Ramadão me tornasse um “excluído” ou não assinalar o Yom Kippur me transformasse num marginalizado. O PC é uma muralha letal que tanto proíbe o “quadro de honra” nas escolas como falsifica a História para que ninguém se queixe de ter sido derrotado ou ninguém tema ser quem é. Dez anos de parvoíce ninguém nos tira.

[Da coluna no CM]

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Zé Pedro. Ponto.

por FJV, em 01.12.17

O Zé Pedro era um cavalheiro do rock. Com tudo o que isso transporta – vários grãos de loucura que o acompanharam nos seus passos pelo lado errado da vida; e outros tantos de elegância e generosidade. Era um guerreiro do rock que não se converteu ao pop (nunca perdeu os seus laços com o punk), e isto é um grande elogio; um dos rostos mais ilustres do palco, dentro – naturalmente – e também fora dos Xutos. Conheci-o para falarmos de livros – ele lia bastante, como tem de fazer uma boa estrela do rock – e fiquei surpreendido com a sua erudição, o seu conhecimento da história da música e da história da literatura ou o seu interesse pela poesia. Um dia tive a sorte de assistir a uma conversa deliciosa do Zé Pedro com Tony Bellotto (guitarrista e compositor dos Titãs, a banda brasileira, autor de romances policiais – o Zé Pedro apresentou um desses livros): foi uma grande lição sobre a natureza, a identidade e a densidade do rock dada por um homem genuinamente bom, informado, jovial, que era agradável ouvir. Fiquemos em silêncio por instantes, como um último acorde.

[Da coluna no CM]

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Jonathan Swift (Dublin, 1667-1745).

por FJV, em 30.11.17

 Um dos seus livros menos conhecidos é A Batalha dos Livros, a antecipação, entre “antigos” e “modernos”, do que viria a ser a guerra de inteletuais de esquerda e direita – e o mais conhecido é As Viagens de Gulliver, uma sátira (como quase tudo o que escreveu), quer das realidades políticas da época (o início do século XVIII), quer da literatura de viagens – e que nos envia a Liliput, uma ilha perdida no Índico, habitada por seres minúsculos, ou a Laputa, e outras paragens exóticas, habitadas por gente absurda ou de costumes amotinados contra o bom senso. O irlandês Jonathan Swift (Dublin, 1667-1745), homem da igreja e da universidade, também desconfiava do bom senso e preferia a sátira: leiam a Modesta Proposta que leva o subtítulo Para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los úteis ao interesse público, em que Swift recomenda que, fustigados pela fome, os cidadãos se entreguem ao canibalismo (cozinhando as crianças pobres). Swift nasceu há 350 anos: ensinou a Europa a rir e a pensar.

[Da coluna no CM]

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Uma esquadra a partir para o Brasil.

por FJV, em 29.11.17

A 29 de Novembro de 1807, há 210 anos, a esquadra portuguesa, acompanhada de quatro navios britânicos, levantou ferros e partiu para o Brasil – deixando em Lisboa uma Junta Governativa do Reino encarregada de manter a paz possível em Portugal, invadido pelos franceses. Para mim, é matéria de ficção: 10 a 15 mil pessoas chegariam ao Brasil logo na primeira viagem, em janeiro (a Salvador) e em março de 1808 (ao Rio). Não fosse isso, a antiga colónia seria o deserto desleixado em que se encontrava, e não teria ocorrido a revolução de 1820. Durante aqueles 13 anos que mudaram a face do Brasil podia ter florescido uma mundividência política mais vasta, mas não estávamos preparados para isso. Seria uma exceção naquele universo que concebia o mapa a sul do equador como um mar de dragões e uma bolsa de matérias-primas e de riquezas a extirpar. Na minha ficção pessoal, foi uma pena: teria sido uma oportunidade para criar um país. Nem na memória somos capazes de o fazer, vilipendiando D. João VI em roda livre, e não percebendo a tristeza daquele regresso. Mas é só ficção, notem bem.

[Da coluna no CM]

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Homem compreensivo, Moravia.

por FJV, em 28.11.17

Um dos livros da minha adolescência foi O Desprezo, do italiano Alberto Moravia, e ainda hoje não consigo explicar como o livro (uma belíssima edição da Ulisseia) me foi parar às mãos. Depois, A Atenção, A Romana e, claro, La Ciociara, além dos contos de O Autómato e de O Amor Conjugal. Bom, era uma adolescência atípica, confesso, porque Moravia pertencia à anterior – não era um brilhantíssimo escritor, mas as suas histórias, adaptadas ao cinema (La Ciociara por Vittorio De Sica, O Conformista por Bertolucci, por exemplo, histórias do pós-guerra), resultavam bem nos tempos do compromisso histórico e sintetizavam o seu alinhamento político (foi toda a vida militante do PC italiano). Moravia, de quem hoje se assinala o 110.º aniversário do nascimento, acompanhou todo o século italiano – o seu primeiro romance, Os Indiferentes antecipava essa ligação entre o seu realismo socialista e um certo existencialismo, aliança sedutora que foi moda europeia. Ao recordá-lo, sinto uma certa nostalgia por aqueles livros – e pela sua imagem de homem compreensivo.

[Da coluna no CM]

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O cantinho do hooligan. Sérgio na Vila das Aves.

por FJV, em 26.11.17

1. Mau como as cobras — era e continua a ser assim, e é isso que o faz ser o eleito dos jogadores (uma irmandade que o defendeu de si mesmo em pleno relvado, no fim do jogo) e dos adeptos. Mesmo assim, vale a pena querer que mude parte do registo; ser mau como as cobras, mas nunca gastar as munições (o penálti sobre Danilo) na primeira frase. 

2. Há muitos anos que isto não acontecia no FC Porto (desde Robson, Mourinho e Villas-Boas, o que é injusto para Jesualdo e Vítor Pereira): pode empatar com um jogo fraco, mas Sérgio é o general e na próxima semana estaremos lá. Isto é adolescente, mas é assim. 

3. Os jogadores a rodearem Sérgio Conceição no final, impedindo-o de fazer a asneira prevista: a irmandade a funcionar. Foi isso que também o travou na flash, mas não o suficiente que o impedisse de mencionar os festejos do Aves.

4. O penálti sobre Danilo: evidente. Ponto final. Mas veja-se a falta assinalada ao primeiro minuto (uma carga sobre Ricardo, falta contra o FCP, a promessa do absurdo).

5. O FC Porto na Vila das Aves: muito fraco. Ponto final.  

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Os rapazes: já nada os salva.

por FJV, em 26.11.17

Amsterdam, 1975.

«Cena corrente, mostra apenas que algo mudou, muito irá mudar, e eles vão perder. Nada adianta alertá-los, porque fariam de surdos, ou talvez me acusassem de pessimismo. Certo é que quando olho para os rapazes de hoje entristeço e digo para comigo: já nada vos salva.» Hoje, J. Rentes de Carvalho, na coluna de domingo do CM.

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A grande ilha do silêncio de Deus.

por FJV, em 24.11.17

Morreu o Pedro Rolo Duarte. Isto é tão absurdo. Passou este dia, mas não passou a ideia de que se trata de um absurdo. Ruy Belo dizia que “somos a grande ilha do silêncio de Deus”, e às vezes só silêncio pode responder a este absurdo, o de o Pedro ter sido levado para outro lado, onde não podemos escutá-lo. Ouço-o ainda, na Rádio Comercial, há muitos anos (Só Com Gelo), leio-o aqui e ali, conversamos de passagem, rimos de passagem. A vida passa depressa. Ao balcão do Hotel D. Carlos, em whiskies de fim de dia. Nas redacções onde nos cruzámos, nas entrevistas que me fez, na coragem que teve em quebrar tantos lugares-comuns, dizendo o que pensava, o Pedro ficará para sempre como um certo tipo que tinha bom gosto, imaginação, delicadeza, tudo o que agora está a mais nesta frase. É um absurdo o Pedro morrer. Resta-nos “a grande ilha do silêncio de Deus”, que é o que somos nestas alturas.

 

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O debate não é sobre a liberdade dos humoristas mas sobre a liberdade.

por FJV, em 24.11.17

A insistência no “politicamente incorreto” pode, claro, resvalar para o “politicamente abjeto” – esta evidência assusta a maior parte dos gramáticos que policiam a nossa linguagem. Ricardo Araújo Pereira está entre os alvos mais fáceis; nos últimos dias, foi acusado de quase tudo nas chamadas redes sociais, e não me custa acreditar que, em breve, seja acusado de homofóbico, racista, xenófobo – a lista habitual é uma argamassa, nunca se é acusado de uma só coisa e há de acabar como fascista, e assediador sexual. O debate não é sobre a liberdade dos humoristas mas sobre a liberdade em sentido lato (onde eles estão incluídos, porque caminham no fio da navalha). Nem sobre a ameaça à criatividade. Tem a ver com o desejo de silenciar os outros e de substituir a realidade por uma língua infantilizada e hipervigiada, sem pecado nem dúvida. Os filhos dos anos 60 e 70 não admitem contrariedades; quando estas existem, querem “zonas seguras”. Não têm sentido de humor nem lhes interessa o passado (a História). Antigamente, queríamos debater; as novas polícias do pensamento querem exterminar. 

[Da coluna no CM]

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Um rosto triste, severo e excelente para papéis ‘negros’.

por FJV, em 23.11.17

Entre a chuvosa primavera de 1816 em que Mary Shelley, nas margens do Lago Genebra (numa casa partilhada com Byron), escreve o esboço de Frankenstein, o Moderno Prometeu (o livro foi publicado em 1818, assinado por autor anónimo), e o outono de 1931, quando se estreia Frankenstein, o filme de James Whale, passam 113 anos de sucesso do livro. A interpretar a figura do monstro, Boris Karloff, um ator inglês nascido em 1887 (em Londres) e cuja carreira começou, de facto, ao entrar na companhia de Jane Russell em 1911. Antes de Frankenstein, Karloff (cujo verdadeiro nome era William Henry Pratt) deixa pouca coisa para trás. Mas no ano seguinte entre no Scarface de Howard Hawks, e embora venha a trabalhar com cineastas como King Vidor, Michael Curtiz (em The Walking Dead), John Ford, Douglas Sirk, Peter Bogdanovich ou Cecil B. DeMille, é ao monstro que fica ligado para sempre, tanto no filme inicial como em A Noiva de Frankenstein ou O Filho de Frankenstein, ou em filmes onde se nota o seu rosto triste, severo e excelente para papéis ‘negros’. Faria hoje 130 anos.

[Da coluna no CM]

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Fernando Relvas (1954-2017).

por FJV, em 22.11.17

Lembro-me de Fernando Relvas (1954-2017) nos corredores do Se7e, um jornal onde quase tudo era possível – e, portanto, lembro-me do seu grande sentido de humor, da sua desorganização, da sua capacidade de improviso, da sua tristeza e dos seus desenhos (os de Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino, O Atraente Estranho, ou Soviet Sex). Estávamos em plenos anos oitenta, o que significa que também quase tudo era possível. Hoje, passados trinta e tal anos (nessa altura Relvas andava pelos 30), a sua ‘banda desenhada’ continua tão atual, atraente e decisiva como nos tempos da Tintim ou de O Estripador; as suas histórias de espionagem e de mulheres noctívagas, de bairros destruídos pelo desleixo, bem como de homens que gostavam de matar e de morrer, inspiram uma grande nostalgia dessa travessia que construiu a sua biografia como um dos mais importantes autores portugueses de BD. Eu gostava especialmente do seu traço, das suas sombras, da melancolia suburbana que ele nunca conseguia disfarçar em nenhum dos seus herois. Morreu ontem perto dos seus cenários. À queima-roupa.

 

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O grande prémio dos liceus.

por FJV, em 21.11.17

O prémio Goncourt des Lycéens (digamos, o Goncourt dos liceus) é um prémio literário organizado em França por uma cadeia de livrarias e pelo ministério da Educação, criado em 1988 pelo liceu de Rennes e com o selo da Academia Goncourt. O que significa que, desde essa data, cerca de 18 mil estudantes do secundário, entre os 15 e os 18 anos, apoiados por uma associação de professores (a Bruit de Lire, ‘ruído de ler’, belo nome) leram (e votaram) 220 romances (já agora, isso corresponde a cerca de 40 mil exemplares distribuídos). O primeiro laureado, em 1988, foi A Exposição Colonial, de Erik Orsenna, a que também foi atribuído, coincidência pura, o maior prémio literário francês, o Goncourt propriamente dito (o que aconteceu mais vezes). Outros autores premiados pelos estudante de liceu? Laurent Gaudé, Delphine de Vigan, Philippe Claudel, Mathias Énard, entre outros – todos de primeira linha. Portanto, eu perguntava-me: quantos livros leem os jovens das escolas secundárias portuguesas por ano? Quantos livros leem os professores de Português por ano? Pronto, isto passa.

[Da coluna no CM]

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Uma ameaça real.

por FJV, em 20.11.17

É provavelmente o melhor romance de Camilo José Cela, Mazurca para Dois Mortos. Nele, gosto especialmente do primeiro capítulo e dos primeiros parágrafos: uma invocação da chuva, uma descrição da paisagem envolvida no cinzento turvo da chuva. Era o tempo em que chovia – semanas seguidas de chuva, dois meses de chuva. Não apenas a ‘morriña’, que os galegos, transmontanos e minhotos percebem como a grande melancolia que desce sobre a terra e mantém a humidade e o verde das colinas. Sob a ameaça da seca, muda a ideia do que é o bom e o mau tempo. Pela primeira vez há muito tempo os citadinos apercebem-se de que o “bom tempo” é um conceito relativo e que a sua indiferença em relação ao “interior” é pecaminosa. Não se trata apenas de “poupar um minuto de água” (um esforço de Facebook) – mas de pertencer à própria terra e de sofrer com ela a falta de “bom tempo”, ou seja, de chuva. Talvez agora passemos a dar mais valor aos rios, aos lagos, açudes, barragens, cursos de água que caem das serras onde havia árvores – e a olhar a seca da ficção científica como uma ameaça real.

[Da coluna no CM]

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Um mundo novo.

por FJV, em 17.11.17

Bons tempos – a frase soa a velharia, eu sei – em que um livro era um livro e tudo o que despertava das suas páginas. Veja-se o que se passou em Frankfurt, no anúncio do país convidado para a grande feira do livro de 2021, que calha ser Espanha. Uma imensa galeria de autores passou pela minha cabeça, de Cervantes a Javier Marías, passando por Clarín ou Ballester, Montalbán ou Unamuno, Galdós ou Campoamor, Alberti ou Gimferrer, Quevedo ou Machado, Mendoza ou Marsé, Lorca ou Vila-Matas. Imaginei-me a passar pelos vários quilómetros de livros dos pavilhões de Frankfurt a deliciar-me com as belas edições espanholas, a vitalidade da sua ficção, mesmo os campeões de vendas (como Reverte) – e a tomar um xerez ou um ‘viño de Ribeiro’, parlapiando aqui e ali com um editor ou um autor. Mas o ministro da cultura espanhol chamou-me à realidade, segundo o que leio na imprensa. Eles não vão apresentar “apenas livros” mas também “a indústria criativa”, “videojogos”, gastronomia e “direitos mediáticos”, cinema e provavelmente apps para o uso de especiarias andaluzas. Admirável mundo novo. 

[Da coluna no CM]

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O Solar Bragançano.

por FJV, em 16.11.17

Um dos meus restaurantes preferidos em Portugal é o Solar Bragançano. Fica defronte do Largo da Sé, mesmo no centro da cidade num edifício do século XVIII que depois sofreu reformas nos dois séculos posteriores – e que mantém a estrutura de antiga casa familiar, loiças e mobílias antigas, dividido por salas (uma delas é um bar repleto de livros que as “autoridades” mandaram retirar, numa atitude selvagem), com escadas de granito e um jardim maravilhoso, discreto, com árvores frondosas. É possível ir a Bragança sem uma visita ao Solar – mas não é a mesma coisa. Pois um visitante do restaurante escreveu um comentário no Trip Advisor sentenciando tratar-se de “instalações muito clássicas a precisar de uns toques de modernidade”. O grande Desidério, proprietário da casa, respondeu-lhe no mesmo lugar, com serenidade de sábio: “Toques de modernidade? Vá até ao Louvre e pinte uns bigodes à Gioconda.” Num mundo que se moderniza a pontapé, que se “gourmetiza” e que quer parecer “jovem” e “ousado” custe o que custar, o meu amigo Desidério foi absolutamente letal. Aprendam. Viva o Solar!

[Da coluna no CM]

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Doutor Alberto Luís

por FJV, em 15.11.17

Na vida dos grandes autores, há sempre presenças tutelares, em segunda linha, movendo-se na penumbra – mas que foram essenciais na história da literatura ou, pelo menos, na obra desses autores. Alberto de Oliveira Luís ou, como nós (jornalistas, escritores, visitantes) o tratávamos, “o Doutor Alberto Luís”, era uma pessoa discreta, acolhedora e simpática que nos habituámos a ver na companhia da sua mulher, Agustina Bessa-Luís, com quem casou em 1945 – o episódio é contado por várias vezes, e respira literatura, como se fosse arrancado a uma página de ‘Memórias Laurentinas’: conheceram-se através de um anúncio de jornal. A cumplicidade entre os dois era enorme; tal como a admiração de um pelo outro e a dedicação de Alberto Luís a uma obra tão complexa e, por vezes, tão cruel para as “relações amorosas”. A sua mão invisível está lá: numa aguarela, num trabalho de investigação, na fixação do texto, na dactilografia do livro, na leitura, na intimidade de uma das nossas vozes mais poderosas e avassaladoras. Uma parte grande de Agustina partiu neste domingo passado.

 

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Reverte.

por FJV, em 14.11.17

Vale a pena ler a nova série de livros de Arturo Pérez-Reverte dedicada ao espião e mercenário Lorenzo Falcó, um operacional que trabalha para os nacionalistas (sem ser falangista) durante os anos 30, ou seja, a guerra civil espanhola. Falcó é um desiludido e um homem sem fé que reconhece o ódio que assalta as duas trincheiras. Nessa Espanha onde é fácil morrer, Falcó (que trafica armas, que tem vícios caros e se aloja num hotel de Salamanca onde hão-de chegar alemães e italianos) é um personagem que enfrenta os seus demónios e cria os dos outros: mata, fere, é surpreendido pela proximidade da morte, negoceia com o risco e a moral. É no campo de batalha que conhece Eva Rengel, que há de acompanhá-lo noutras aventuras (a do segundo livro, Eva) – mas não como amiga ou amante, apenas como outro rosto no espelho da vida. Numa Espanha minada pelo ressentimento (uma armadilha estendida pelo irresponsável Zapatero), a coragem de Reverte é enorme: a guerra não é um combate entre bons e maus, só a aventura, o amor e a História servem de consolo. Falcó é publicado pela Asa.

 

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Houriaa Bouteldja: Sionistas para o Gulag e outras curiosidades.

por FJV, em 12.11.17

 

Houriaa Bouteldja é uma das “figuras famosas” da esquerda francesa e do partido Indigènes de la Republique (PIR), com laços difusos ao grupo da França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon (através de Danièle Obono). Houria defende a “lutte des races sociales” (porque a raça é uma construção social) e denuncia a repressão do anti-semitismo (a Charlie Hebdo, por exemplo, é “sioniste et ami des puissants”) e tem uma paixão duradoura por Jean Genet, com um interessante argumento: “Ce que j’aime chez Genet, c’est qu’il s’en fout d’Hitler.” Bonito. Ao saber que Genet saúda a invasão nazi da França, Houria não se contém: “Il y a comme une esthétique dans cette indifférence à Hitler. Elle est vision. Fallait-il être poète pour atteindre cette grâce?

Publicou um livro intitulado Les Blancs, les Juifs et nous. Vers une politique de l’amour révolutionnaire, onde propõe um amor revolucionário aos seus inimigos (brancos e judeus), exceto a Finkielkraut, um dos grandes “récits racistes” da França de hoje – o livro fez algum sucesso nos EUA (em Berkeley sobretudo), não se sabe se pelo ódio de Houria a Sartre (“Fusillez Sartre!”), visto como um sionista, se por considerar Frantz Fanon um profeta. Esta aparente contradição (Fanon tinha uma grande admiração por Sartre) explica-se: a viúva de Fanon odiava tanto Sartre (justamente, com o argumento de se tratar de um sionista) que mandou retirar o célebre prefácio à edição de Les Damnés de la Terre.

Outras ideias de Houriaa Bouteldja: a Europa tem uma ideologia oficial, a do Holocausto; a homossexualidade não existe nos bairros populares e é uma criação da burguesia esquerdista e dos brancos em geral; é contra os casamentos mistos; e abater um israelita é “faire d'une pierre deux coups, supprimer en même temps un oppresseur et un opprimé: reste un homme mort est un homme libre”. Bravo. Ainda sobre o judaísmo, uma tirada: “Reconhece-se um judeu não porque ele diga que é judeu, mas pela sua sede em se fundir na raça branca.” Sobre violência sexual: “Se uma mulher é violada por um negro, é compreensível que não apresente queixa, a fim de proteger a comunidade negra.” É uma figura.

 

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Longe de Manaus.

por FJV, em 12.11.17

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Edição colombiana de Longe de Manaus – esta semana nas livrarias.

 

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Ruth Orkin: a história de uma fotografia.

por FJV, em 12.11.17

Simplesmente maravilhoso, isto, no Malomil.

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Uma homilia redonda como a cúpula do Kremlin.

por FJV, em 10.11.17

O secretário-geral do PCP é uma pessoa que me inspira simpatia – mas não condescendência. E a simpatia que Jerónimo de Sousa inspira não serve de contrapeso para condescender com o secretário-geral do PCP quando, inspirado pela fé e, certamente, pelo hábito, fala sobre a Revolução Soviética – e, embalado numa homilia sem fim nem começo, redonda como a cúpula do Kremlin, mistura o seu sermão com propaganda rebuscada de O Militante de há quarenta anos. Explico: uma coisa é defender aquilo que Jerónimo defende na vida portuguesa; outra coisa é, pisando sobre a verdade (o seu texto sobre a revolução no DN é um exemplo), os factos e as evidências, tecer loas ao totalitarismo, esquecer os milhões de mortos dos regimes socialistas (que deve tratar como um ligeiro desvio) e, por extensão, festejar o pacto Estaline-Hitler, o terror de Lenine ou os campos da morte no Camboja – precisamos de saber o que pensa sobre o assunto. De qualquer modo, assinalou-se ontem a queda do Muro de Berlim e muitos ocidentais, extasiados, puderam finalmente pedir asilo político na ex-RDA ou na URSS.

[Da coluna no CM]

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