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O limite da vida em papel.

por FJV, em 11.02.16

De que é feita a literatura, o romance? De histórias e de personagens; no fundo, de personagens reais em situações fictícias e de personagens fictícias em situações reais. E também da imaginação dos autores – a sua capacidade de reconstruir (destruir e construir) o mundo. Nem todos os autores acreditam na fórmula «história & personagens», certamente redutora e pobre – por isso há o resto da arte, a procura do sublime, a interrogação do invisível e do imperfeito, tentativa sobre tentativa, revelação sobre revelação. No caso da saga de Harry Potter, a fórmula clássica funcionou num mundo de artefactos e desejos: bruxarias, poderes mágicos, regresso a um mundo onde a infância era aventurosa e conhecia abismos proibidos. Sim, tudo pobre, ludibriando o jogo de imprevisíveis. J.K.Rowling anuncia agora um oitavo livro da série (Harry Potter and the Cursed Child), porque as suas personagens ultrapassaram o limite da vida em papel e o mercado de leitores quer saber mais sobre o que lhes aconteceu depois de Hogwarts e do combate com Voldemort. Primeiro, uma peça de teatro em Londres; agora, o livro, que não será um romance, mas o guião da história, a sair a 31 de julho. O dia de aniversário de Harry Potter.

Na coluna diária.

Alison Lurie sobre Harry Potter, na New York Review of Books.

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Uma descoberta: a fotografia de Lu-Nan.

por FJV, em 08.02.16

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CHINA. Shaanxi Province. 1992. «All 20 families in this remote village are Catholic, but as there is no Father in their village they gather every Sunday and chant and pray together.» © Lu-Nan/Magnum Photos.

 

Himalaya Mountains. 2001. Family working in dust s

Himalaya Mountains. 2001. «Family working in dust storm.» © Lu-Nan/Magnum Photos.

 

TIBET. 2001. Daughter pouring liquor for her fathe

Tibet. 2001. «Daughter pouring liquor for her father to drink.» © Lu-Nan/Magnum Photos.

 

TIBET. 2000. Girl at harvest-time.jpg

 Tibet. 2000. «Girl at harvest-time.» © Lu-Nan/Magnum Photos.

 

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Tibet. 2002. «Couple at mealtime.» © Lu-Nan/Magnum Photos.

TIBET. Xigaze, about 300 kilometers west of Lhasa.

Tibet. «Xigaze, about 300 kilometers west of Lhasa.» © Lu-Nan/Magnum Photos.

 

Agradeço ao João Miguel Barros a descoberta da fotografia de Lu-Nan.

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Nunca menosprezes o Eurofestival.

por FJV, em 08.02.16

Polémica em Espanha, risota em Inglaterra – a Real Academia da Língua, vetusta mas atenta, alertou em Madrid para o descalabro que varre o concurso de canções da Eurovisão 2016. Parece que a concorrente espanhola se exprime em inglês e não «no idioma de Cervantes», o que escandaliza a pátria de Isabel Preysler.
Fui ver. A canção tem o título de «Say Yay» e é interpretada por Barei, uma madrilena que na verdade se chama Bárbara Reyzábal, e o refrão é: «Lalala, lalala, hurray! Say yay, yay, yay, say yay, yay!» É um exagero dizer que isto é inglês, mas as canções não são apenas um refrão.
Os Delfonics, em 1968, tinham uma canção maravilhosa – Tarantino usou-a em Murphy Brown, aliás usou os Delfonics em todo o filme –, «Lalala means I Love You», muito melhor do que «De do do do, de da da da», dos Police, ou a inaudível «Hey Jude», dos Beatles, onde não faltam «lalala, lalala» (até mesmo Van ‘The Man’ Morrison exagera com sílabas tontas em «Gloria»).
Impedirá isto que Barei ganhe o Eurofestival? Em 1968, justamente (o ano da grande canção dos Delfonics), a Espanha ganhou o concurso. Lembra-se da canção? O título era «La, la, la, la».

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A Poeira Que Cai sobre a Terra & Outras Histórias de Jaime Ramos

por FJV, em 05.02.16

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Lançamento a 17 de Fevereiro, 18h30, na Fnac do Chiado, em Lisboa. Apresentação de Ferreira Fernandes. À venda nas livrarias com bom gosto. 

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Patriotismo.

por FJV, em 05.02.16

O patriotismo é uma febre periódica. Samuel Johnson (1709-1784) chamava-lhe “o último refúgio de um canalha”, e a história relembra as patifarias que se fizeram em nome do patriotismo e as palhaçadas de quem o invoca a propósito de quase tudo e, na maior parte das vezes, a despropósito. Assemelha-se um pouco à “Lei de Goodwin”, que determina que uma discussão se encerra quando alguém compara o seu adversário a Hitler (a selvajaria da net conhece bem esta prática). A semana foi fértil em patriotismo: uma legião de crentes (legítima) nos êxitos do governo acusou os descrentes da doença contrária, o anti-patriotismo, peste das pestes. Pior: de traidores, sabotadores, lacaios, vendidos ao capital estrangeiro. Os patriotas absolutos de agora, impantes de fé, são os descrentes do patriotismo há um ano, quando estavam do outro lado da barreira. Pobre pátria. José Augusto-França resumiu a coisa de outro modo: a nossa maldição – a dos portugueses que vivem entre portugueses – não é a de que “quem tem um olho é rei”; é a de haver gente, espertinha e manhosa, que tira um olho para ser rei.

Na coluna do Correio da Manhã.

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Festejos e lamentos.

por FJV, em 05.02.16

Almoço com um amigo que não via há um, dois anos (somos amigos há muito e, portanto, é como se nos víssemos no futebol na semana passada). Festejos e lamentos, vidas passadas e futuras, a saúde (agora preocupamo-nos, claro), os livros. Acabou de ler uma tese de doutoramento escrita com erros de ortografia, sem sintaxe mas com muitos lugares comuns. Lamentos, portanto. Já ninguém sabe latim. Grego, impossível – ao contrário da Alemanha, nos EUA e de Inglaterra, onde os estudos clássicos, resistentes, regressaram à universidade. A inglesa Mary Beard é uma estrela da história antiga, com emissões de televisão e best-seller em livrarias; em Portugal, Maria Helena da Rocha Pereira, Frederico Lourenço, Rosado Fernandes, Ascenso André – são excentricidades; veneradas, mas excentricidades. Será da idade, ou de assistir a uma certa decadência da curiosidade, do conhecimento, do debate, substituídos pela matraca pós-moderna? Outro amigo queixa-se: os seus alunos – literatura, filosofia – leram uma média de meio livro por ano. Somos uma velharia. Ainda acreditamos no mistério. Juntamo-nos para festejos e lamentos.

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Liberais sem pátria.

por FJV, em 05.02.16

Aos tropeções, o século XIX aparece-nos como uma revelação sobre as discussões que hoje deveríamos ter – e, miseravelmente, não temos. A menção ao Fontismo e a Fontes Pereira de Melo tem contribuído para esquecer um país profundamente iliberal que teme desafios e que, ao enfrentá-los, procura desculpas e ilusões de grandeza. O anátema contra Fontes (1819-1887) pretende que o fontismo se limitou a espalhar caminhos de ferro, estradas, portos e uma reforma da administração pública ou do sistema de pesos e medidas; Fontes seria uma figura de tragédia, “sem ideias” (tese muito grata a Oliveira Martins) e que no seu projeto para o país ignorava a “dimensão moral” do progresso. Num livro notável (Fontismo. Liberalismo numa Sociedade Iliberal, Dom Quixote), David Justino relê o Portugal de oitocentos e mostra o esqueleto da retórica protecionista, iliberal, corporativista, moralista, que vem até aos nossos dias. Por detrás do horror à liberdade, uma multiplicação de castas, oligarquias e privilégios (à esquerda e à direita) – como hoje, portanto. Belíssima leitura para os nossos tempos.

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A Cidade e as Serras, o regresso.

por FJV, em 05.02.16

A idade, o infortúnio, o desaparecimento dos que nos são queridos, o desejo de conforto e de sabedoria, a serenidade – Harold Bloom diz que são alguns dos motivos que explicam o nosso prazer em ler e reler os clássicos (no seu caso, Shakespeare acima de qualquer outro). No meu caso, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Cesário Verde, a lista alarga-se aqui e ali, mas entesoura livros que nunca me abandonaram.  A editora Guerra e Paz tem vindo a publicar alguns deles (Eça e Camilo, Os Maias e O Que Fazem Mulheres) em volumes modernos e com a nossa grafia, com revisão de Hélder Guégués. Agora, é a vez de A Cidade e as Serras, o romance da serenidade de Eça, elegia do seu século, confronto com a “civilização” e a sua infelicidade. Nunca me canso de reler a passagem da chegada a Tormes de Jacinto e de Zé Fernandes, um prodígio de melancolia e de riso, nem de recordar o palacete burlesco dos Campos Elísios ou a ligeira conversão de Eça à alegria da natureza. O livro foi publicado há 115 anos, um ano depois da morte do autor. É um monumento que sobreviveu ao tempo que devora tudo, exceto a eternidade.

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Os mais novos preferem ser futebolistas ou larápios, quando há meio século preferiam ser médicos, professores ou Maurice Chevalier.

por FJV, em 28.01.16

Em França, vai uma grande inquietação em redor de Michel Onfray – filósofo, militante de esquerda, fundador da Universidade Popular de Caen, polémico devido às suas posições depois dos atentados de novembro em Paris. O que defende Onfray? Dez anos depois das ‘primaveras árabes’ (agora ‘invernos islâmicos’), substituir o “politicamente correto” pela “geopolítica”, abandonar a ideia de bombardear o Médio Oriente, obrigar o Islão a fazer parte da República, preferir ditaduras laicas a teocracias islâmicas saídas de eleições. E, na base de tudo, uma reforma da consciência europeia. Nestes anos, diz Onfray (um filósofo hedonista, libertário), substituiu-se o real pelo virtual, o sexo pelo género, e falar de família, estudo, rigor, serviço militar, educação e valores nacionais – é ser reacionário, bolorento e nauseabundo. O resultado é uma geração “sem valores” (hoje, a menção deste vazio gera escândalo), em que os mais novos preferem ser futebolistas ou larápios, quando há meio século preferiam ser médicos, professores ou Maurice Chevalier. Há qualquer coisa de novo a acontecer na esquerda, que continua surda a debates.

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Mozart.

por FJV, em 26.01.16

 Este ano assinalam-se os 400 anos da morte de William Shakespeare (1564-1616) e de Miguel de Cervantes (1547-1616) – duas efemérides (em abril) que deviam ocupar uma parte do nosso ano de memórias, a juntar ao doméstico centenário de Vergílio Ferreira. Mas, houvesse ensino da música nas nossas escolas, e amanhã haveria festa em nome de Mozart (1756-1791), de cujo nascimento nos separam 260 anos. Nem seria preciso “ensino da música” com toda a formalidade, nem é necessário que seja um pólo de “ensino artístico”; bastaria que, uma vez por outra, a escola se preocupasse com a música, por exemplo – e levasse os alunos a ouvir W. A. Mozart, com ou sem solenidade. Acredito que alguns professores o façam; eu tive essa sorte, no meu velho liceu, onde o professor não se limitava a programar exercícios de “canto coral”, e nos surpreendia com discos a meio da aula. As “condições” eram piores do que hoje, mas ouvimos Bach, uma sinfonia de Beethoven, um pouco de Schubert. E Mozart, claro. Que pena as nossas escolas serem surdas – a Mozart e ao transcendente que ele nos obriga a respirar.

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O Nobel do aparatchik e os aparatchiks que lhe atribuíram o Nobel e se calaram com Pasternak.

por FJV, em 22.01.16

Em 1965, o Nobel da Literatura foi parar às mãos do soviético Mikhail Cholokhov (1905-1984), autor de O Don Tranquilo, uma epopeia bolchevique (cinco volumes em Portugal), prémio Lenine em 1940, eleito para o Comité Central do PC da URSS em 1961, um aparatchik de Brejnev, além de plagiador – e uma das vozes que se ergueu para insultar Boris Pasternak quando este, em 1958, foi obrigado a recusar o Nobel (com Doutor Jivago) e remetido a exílio interno. Sete anos depois, medricas, a Academia Nobel atribuiu o prémio a Cholokhov para pacificar a coisa. Nesse ano, os inteletuais alinhados com a URSS eliminaram da lista de candidatos nomes como Borges, Nabokov, W.H. Auden, Durrell, Beckett, Somerset Maugham ou Anna Akhmatova. Tudo isto se soube com a abertura de documentos mantidos em segredo até agora. Ah, a vida literária.

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Um espectáculo para patetas.

por FJV, em 20.01.16

Que se saiba, o mundo não melhorou muito nos últimos tempos; em Itália, por exemplo, nasceu uma petição online dirigida diretamente a Deus, a pedir a reversão da morte de David Bowie. Isto, enquanto a imprensa, distraidamente, “acusa” Bowie de ter escondido que tinha um cancro do fígado e que sofrera seis ataques cardíacos desde 2004 – como se o normal fosse publicar periodicamente um boletim clínico para benefício das “redes sociais”. Vagamente, o que chamávamos “a sociedade” transformou-se numa geringonça de “redes sociais” em que tudo se partilha, sobretudo a intimidade – até não haver intimidade na doença, no sexo, na família, na vida dos filhos ou na dedicação aos gatos. Pior do que isso, parece existir mesmo “a obrigação de partilhar” com os outros aquilo que, antes, era do foro estritamente pessoal. Para não deixar que Bowie partisse como um reles culpado, a explicação foi a de que o silêncio guardado sobre a sua doença foi também uma das suas famosas encenações. A nenhum pateta passa pela cabeça que o combate com a morte não é um espectáculo para patetas.

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Citações. A Minha Amiga é Negra.

por FJV, em 29.11.15

Uma crónica de José Ferreira Fernandes sobre «os Van Dunen». Muito boa, como sempre.

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Abistão.

por FJV, em 29.11.15

Michel Houellebecq escreveu Submissão, um romance que trata da ascensão turbulenta de um muçulmano à presidência francesa, e consequente estabelecimento de uma ordem islâmica. Depois de ter ganho o Prémio da Academia Francesa com 2084, o argelino Boualem Sansal viu-o ontem consagrado como o melhor livro do ano em França, segundo a revista Lire. E de que trata 2084? De uma ditadura global muçulmana (o Abistão, inspirado no império de Orwell), fundada sobre dois pilares: a amnésia e a submissão a um deus único e cheio de interditos, onde não há história e a linguagem é rigorosamente vigiada e codificada. Sansal é argelino, sabe do que fala: assistiu aos horrores dos fundamentalistas no seu país, não é um “ocidental atrevido”. Para os radicais, é muito pior: um apóstata condenado à morte.

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Macbeth.

por FJV, em 29.11.15

A bela encenação de Macbeth que Carlos Avillez e o Teatro Experimental de Cascais apresentam neste final de ano relembra a grande atualidade de Shakespeare. As azougadas e os estouvados podem ser muito espertos politicamente – mas são analfabetos em todas as outras matérias, como relembra a sorte do infantil, ambicioso e atormentado Macbeth, usurpador e vítima ao mesmo tempo. O hábito do ressentimento (e da traição) apodera-se de todos, revelando a tensão e o terror permanentes: num mundo em que ninguém se salva (“O bom é mau e o mau é bom”, como diz, insuspeito, o coro das três bruxas), cada um é devorado pelos seus fantasmas e pelo desejo de tragédia. Não é por acaso que Freud se apaixonou por esta peça; os comentadores políticos sérios (não os que tocam as trombetas de ocasião) também deviam vê-la.

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A salvo.

por FJV, em 20.11.15

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São Tomé e Príncipe.

© Fotografia de Sandra Nobre. 

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Alarme social islamófobo

por FJV, em 19.11.15

Em várias zonas de Birmingham e de Londres há lojas que, diante da permissividade das autoridades, vetam a entrada ou o serviço a clientes não muçulmanos, gente haraam. No sábado passado, a inglesa April Major, 43 anos, proprietária de um salão de beleza, foi em sentido contrário: decidiu por sua conta e risco “não aceitar marcações de gente da fé islâmica” (“anyone from the Islamic faith”), como escreveu no Facebook, essa fábrica de coisas estapafúrdias. A polícia de Thames Valley, no Oxfordshire, prendeu-a no dia seguinte, domingo – sob a acusação de ter cometido um crime de natureza racial; não por se ter recusado a aceitar muçulmanos (a loja estava fechada), mas por ter publicado um post que provocou “alarme social”. Muito bem. Pena que, antes dos atentados, as autoridades tenham protegido muçulmanos racistas que fizeram bem pior. 

[Coluna do CM.]

 

Um exemplo de tolerância em Marselha, já depois dos atentados.

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Jogos Olímpicos de Munique, 1972.

por FJV, em 18.11.15

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Os corpos dos cinco terroristas do Setembro Negro (mortos em Munique), recebidos em festa em Trípoli, na Líbia. 1972 – depois de terem assassinado os atletas israelitas.

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Os três terroristas do Setembro Negro, sobreviventes em Munique,  recebidos em festa em Trípoli, Líbia. Foram libertados pela Alemanha na sequência do sequestro de um avião da Lufthansa (Beirute-Frankfurt) — onde só viajavam 12 pessoas, numa operação encenada pela Alemanha e pela OLP.

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Os malucos.

por FJV, em 18.11.15

Texto publicado a 11 de novembro, dois dias antes dos atentados de Paris: A larguíssima maioria dos portugueses pensa que o Estado Islâmico é obra de malucos vestidos de negro que entoam as graças do Profeta e se divertem a retalhar a Síria e o Iraque. Não apenas ali – escondem-se na Europa, atuam às claras em África e veladamente noutros países do Oriente Médio. Como a maior parte dos seus crimes e violências são cometidos sobre africanos e deserdados da Síria e do Levante, os europeus pensam que é uma coisa distante (a imprensa portuguesa transformou alguns dos celerados em estrelas e aventureiros); por isso discutem a questão dos refugiados como se se tratasse apenas de matéria de segurança social. Um vídeo agora divulgado mostra-nos uns desses homicidas de Alá a chacinar 200 crianças sírias. Pelas costas. Os do califado prometeram estes crimes há dois séculos. Não podemos tratá-los apenas como malucos.

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Moncorvo

por FJV, em 18.11.15

Em Torre de Moncorvo (9 mil habitantes, números redondos), os verões são inclementes, abafados, bonitos – e trabalhosos (vindimas e apanha da amêndoa decorrem em setembro); os invernos são gelados (há a azeitona), mas não há primavera igual, explodindo de cor e cheiro da terra. Outros dados: a população é metade da de 1900 e de 2001 a 2011 decaiu em redor de 13%, de modo que 34,4% dos habitantes tem mais de 65 anos (só 9% entre os 15 e os 24). O que faz o Estado por Moncorvo? Entre outras generosas benesses, dá-lhe 5 médicos para o centro de saúde, uma fartura – mas há apenas 3 (com o inverno ficará apenas com dois, um vai de férias, noticia o CM). De certa maneira, os moncorvenses são refugiados no interior do país; a sua solidão, génio e malandrice vêm nos livros de J. Rentes de Carvalho, mas custa ver como o país os abandona.

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Islamofobia

por FJV, em 18.11.15

Não faltou quem pedisse, nessa longa noite de sexta para sábado, ainda as vítimas não estavam contadas, que não tivéssemos medo e que não cedêssemos à xenofobia e à islamofobia. Sobre o medo: a Europa não será a mesma, salvo nos discursos de políticos que salvam a pele, ou nos que vivem na Gronelândia; sim, temos medo, mas viveremos de pé. Acerca da islamofobia, o seguinte: o jihadismo islâmico espalhou, nas duas últimas semanas, atentados no Sinai, na Turquia e no Líbano, antes de regressar a Paris. Um total de 400 mortos, louvados nas mesquitas salafitas e nas redes radicais e acompanhado de ameaças futuras e passadas. As futuras têm como alvo a nossa vida; as passadas estão no próprio islamismo, a perversão teocrática muçulmana que promete devorar cristãos, judeus, infiéis de toda a espécie, negros e brancos, mulheres sem véu ou a música que os atormenta; é esse o seu programa, escrito e publicado. O primeiro alvo deve ser essa galáxia de pregadores radicais espalhada por todos os países da Europa, de Granada a Finsbury Park; eles reduziram o Corão à espada e ocupam o vazio de onde a Europa se ausentou.

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Barthes

por FJV, em 17.11.15

Assinalou-se na semana passada, quinta-feira, 12, o centenário de Roland Barthes (1915-1980). Obras decisivas como O Grau Zero da Escrita (1953), Elementos de Semiologia (1965), O Prazer do Texto (1973), Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977) e o inevitável Mitologias (1957), uma bíblia ilustrada, todos publicados pelas Edições 70, fizeram de Barthes um nome incontornável nos «estudos literários» dos anos setenta e oitenta, ao lado do dos papas do estruturalismo – onde ocupava um dos principais altares, encaminhando-se para transformar os «estudos literários» em «estudos culturais», um caldeirão preparado para facilitar a vida a pregadores com doutoramento e despensa. No mandarinato inteletual da época, o seu trabalho não era o mais ortodoxo. Tinha a seu favor a paixão pela literatura; foi em seu nome que declarou a «morte do autor», que seria um apêndice (menor) da obra; quase nada dele interessaria, justamente na medida em que os média privilegiam o autor (que é uma estrela) em detrimento da obra (que não leram). Fica dele a imagem de uma grande paixão pela literatura (escrevia magnificamente), independente das ortodoxias e inutilidades que a sua obra gerou.

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Mexia: até ao silêncio

por FJV, em 17.11.15

Olhar um livro alguns anos depois não basta – é preciso recordar um pormenor que há-de constituir uma revelação. Depois, essa revelação estende os seus caminhos: um autor, uma ventania, uma sobreexposição, um amor perdido, uma recordação de adolescência, uma memória pessoal. Para isso serve a nossa biblioteca, nem sempre a mais comum, às vezes sucumbindo ao desejo do segredo. Leio as crónicas de Pedro Mexia incluídas em Biblioteca (Tinta da China) com um sentimento de gratidão e de deslumbramento: é muito difícil (raro, incomum, singular) encontrar este desejo de perdição pela literatura. Não como uma militância, mas como uma condição do destino. Há quem a procure uma vida inteira, com o habitual défice de talento; e quem, como Pedro Mexia, nos faz percorrer todo o caminho de volta, até ao silêncio. Conseguir isto é raríssimo.

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Língua portuguesa, um primor

por FJV, em 17.11.15

Sem querer ser purista da língua (mas achando que é necessário defender a nossa), há dois dias comentei aqui a desnecessária transformação de Lisboa em Lisbon num cartaz lisboeta dirigido a lisboetas. Ainda não tinha visto a edição deste mês da revista GQ, cuja capa é dedicada a Jorge Jesus; o leitor que comente a foto, que é supimpa. É claro que, ao contrário do cartaz sobre a «Lisbon Haloween Night», a GQ não é financiada com dinheiros públicos mas as suas obrigações para com a nossa língua são as mesmas. E ela cumpre com galhardia: o grande título de capa é «Nobody f*cks with Jesus», o que não é nem deixa de ser f*dido (pobre dele); há outros títulos: sobre o black tie perfeito, uma reportagem sobre camgirls – e a promoção da festa dos galardões dos homens do ano, intitulada em português GQ men of the year awards, para cujo backstage somos convidados (ena!). Entre os 15 men of the year está Gisela João. Fuck.

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Mulheres e mulheres

por FJV, em 17.11.15

As eleições polacas, ao contrário das portuguesas, resultaram numa maioria absoluta – o vencedor é um partido que leva o bárbaro nome de Lei e Justiça, chefiado por Beata Szydło; em segundo lugar, ficou o Plataforma Cívica, da ex-primeira-ministra Ewa Kopacz; finalmente, já fora do parlamento, ficou a coligação de esquerda, liderada por Barbara Nowacka. Três mulheres. É isto bom? Para os grupos feministas, não: elas são, à exceção da terceira, apenas “instrumentos no jogo político”. Vem nos jornais. Expliquemos então esta encruzilhada: há mulheres e mulheres; Jóhanna Sigurðardóttir, ex-PM islandesa, é mulher; Margaret Thatcher, nunca. Dilma Rousseff é mulher, Angela Merkel, não. Hillary Clinton é mulher (não muito), mas Carly Fiorina, a rival republicana, não. Helle Thorning-Schmidt, que foi PM dinamarquesa, é mulher; Marine Le Pen, não. Catarina Martins é mulher; a polaca Beata Szydlo, como toda a gente sabe, até faz xixi de pé.

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Profissões nobres

por FJV, em 30.10.15

 

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Rex Stout, 40 anos depois

por FJV, em 26.10.15

Houve um tempo em que os seus livros estavam disponíveis nas livrarias; hoje disputam-se nos alfarrabistas para relembrar um dos detetives mais famosos da literatura policial. Foi em Picada Mortal que Nero Wolfe, 140 quilos, criador de orquídeas, erudito e gastrónomo, apareceu pela primeira vez, coadjuvado por Archie Goodwin, o narrador das suas investigações. Ao todo, Rex Stout escreveu 46 livros com Wolfe como herói; num deles, A Montanha Negra, Wolfe viaja até à sua terra natal, Montenegro (na então Jugoslávia), para capturar o assassino do seu amigo Marko Vukčić; tirando essa viagem, contam-se pelos dedos as vezes que saiu de casa em trabalho, permanecendo na velha casa de tijolo da Rua 35, NY. Cumprem-se amanhã 40 anos sobre a morte de Rex Stout (1886-1975), o grande criador dessa galeria de personagens e tiques saborosos.

 

Os 10 melhores Rex Stout

A Montanha Negra

Terror a Prestações

Duplo Crime na Rádio

Gambito

Champanhe para Um

O Cadáver Que Não se Calou

A Liga dos Homens Assustados

Mulheres e Crimes a Mais

A Caixa Vermelha

O Livro Assassino

 

 

 

 

 

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O cantinho do hooligan. Uma época de sonho, 1.

por FJV, em 25.10.15

Começou a contagem decrescente para a saída de Lopetegui. Uma equipa sem treinador devia ser proibida de jogar na I Liga.

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Tolos.

por FJV, em 25.10.15

Robert Shiller e Arthur Akerlof, ambos Nobel da economia, não foram apenas os autores de um livro interessante, mas altamente discutível, sobre como a psicologia é absolutamente importante para compreender os fluxos e movimentos da vida financeira – acabam de publicar um título sobre manipulação e decepção na economia, Phishing for Phools (mais ou menos, A Pesca para Tolos). A tese principal (o livro é magnífico de pistas) é a de que “o público” compra bens que visam, não o seu bem-estar, mas o daqueles que lhos vendem. Não há melhor resumo para a comédia, que acabará em tragédia, em redor da formação do novo governo: os eleitores votaram, não para escolherem o seu destino, mas para facilitarem aos candidatos a escolha do seu – só isso explica a gincana socialista à beira do precipício. Manipulação primeiro, decepção depois.

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Coisas que não estão em cima da mesa.

por FJV, em 25.10.15

Olivier Rolin escreveu um livro admirável, O Meteorologista, relato da prisão, assassínio e descoberta da vala comum onde foi enterrado Alexei Vangengheim, responsável pelos serviços meteorológicos da URSS. Vangengheim foi um dos milhões que morreu nos campos do Gulag soviético. Leiam Soljenitsine e Anne Applebaum. Em 2009, numa entrevista ao CM (pouco depois de um dirigente comunista ter classificado a Coreia do Norte como uma democracia), a deputada Rita Rato, do PCP, não quis comentar o Gulag, nem os milhões de vítimas do comunismo na China ou o estalinismo – por não ter informação sobre o assunto, ou porque, enfim, não é o assunto que está em cima da mesa. Que não tinha estudado a matéria na universidade. O PCP também acha que não devemos comentar o caso Luaty Beirão porque isso é assunto interno angolano, tal como o Bloco de Esquerda não comenta a condenação ilegal do líder da oposição venezuelana. Ainda bem que o PS acha que isto não tem importância.

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