Sexta-feira, 20.11.09

Há muitos anos, o Inverno de Évora era muito silencioso — foi numa dessas noites que nos encontrámos nas arcadas, perto da Praça do Giraldo; estávamos os dois sozinhos e percorremos aquelas ruas que estavam no mapa habitual dos noctívagos. Nessa noite convenceu-me a escrever uma peça para o Centro Cultural de Évora. Eu não gostava de teatro. No dia seguinte telefonou-me para a universidade e perguntou-me: «Já está pronta?» Comecei a escrevê-la nesse mesmo dia e, uns meses depois, estava em cena no Teatro Garcia de Resende, não apenas com  um notável grupo de actrizes (a peça era apenas para mulheres) mas também com a encenação de Luís Varela (o Mário adoecera entretanto). A voz, ele tinha uma voz magnífica – todos os de Évora recordam como, nos recitais episódicos, ele dizia a poesia de Nemésio, a de Eu Comovido a Oeste. Era ainda o seu lado açoriano, aquele que não se esquece. Em Lourenço Marques incluí-o como personagem. Encontrámo-nos várias vezes num teatro, num lugar ou noutro. Mas recordarei sempre essa noite do Inverno de Évora. E a sua voz.



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Quinta-feira, 19.11.09

Portugal caiu no índice da Transparency International dedicado à percepção da corrupção – do 32º lugar, desceu para 35º (entre 180 países). Não é muito. Nos corredores das polícias e dos tribunais não se fala de outra coisa, como se a tivessem descoberto agora mesmo. Como sou moderadamente conservador, a coisa não me aflige. Lendo Camilo e Eça, para não ir mais longe, a coisa está lá, armada e integrada no código genético da tribo. Mário Soares, para desculpar os seus, chama-lhe coisa comezinha. É a opinião do português médio, para quem um “arranjo” se resolve com outro, desde que não toque na casta nem na família. Com tantos juristas aos saltinhos, fingindo preocupar-se com a lei para não ferir os amigos, suspeito que no próximo ano desceremos ainda mais no índice.

[Na coluna do Correio da Manhã]

 

 



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O grande romance sobre o amor apaixonado entre duas mulheres é português e escreveu-o Agustina Bessa-Luís em 1989. Leva o título Eugénia e Silvina e é um notável retrato sobre a culpa e o processo judicial que decorreu (em Viseu) em redor do caso. Na época, o romance passou despercebido e ao lado dos debates que hoje estão na ordem do dia – Agustina era “reaccionária”, “de direita” e vivia longe da gritaria. Hoje, vejo na televisão debates sobre a homossexualidade com gente que acha que descobriu a pólvora cívica. Sexo e política nunca se deram bem, ainda que se conheçam à esquerda ou à direita. A arma dos intolerantes é chamar homofóbico a quem, reconhecendo o direito à união entre homossexuais, não dispare foguetes ou tenha dúvidas. Ontem como hoje. Vem na literatura.

[Na coluna do Correio da Manhã]

 

 



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Segunda-feira, 16.11.09

A diplomacia portuguesa quer estar na linha da frente e chegou a apoiar para a presidência da UNESCO um conhecido censor egípcio, carcereiro e promitente pirómano. Agora, na melhor das companhias, votou na linha da frente acerca do conflito no Médio Oriente – numa votação onde até a Espanha se absteve, contra o que é costume sempre que se trata de Israel.



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O próximo ano tratará de comemorar os 100 anos de República. Justamente, é um dos capítulos mais importantes da nova História de Portugal, coordenada por Rui Ramos (edição Esfera dos Livros). Como o próprio sublinha, «entre 1910 e 1921, os confrontos políticos provocaram cerca de 1500 mortos» – é um número que a historiografia oficial trata de ignorar em nome do republicanismo patético que gosta de heróis como o salazarismo gostava de milagres. Todo o século XIX (tirando o episódio do constitucionalismo que os republicanos detestam oficialmente) é uma guerra civil permanente. Os líderes mais idolatrados, em Portugal, foram tiranetes autoritários que manipulavam a justiça e as polícias. Nada que não conheçamos. Um pouco mais de conhecimento de História podia poupar-nos ilusões e patetices.

[Na coluna do Correio da Manhã]



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Um grande post de José Medeiros Ferreira: «Não gostei de ver ontem Mário Soares na televisão a fazer uma declaração de circunstância sobre o funcionamento da justiça em Portugal. Mário Soares deve a si próprio uma de duas atitudes perante o que se está a passar na sociedade política portuguesa: ou guarda silêncio ou indica um caminho. Digo eu que sei o que o regime democrático lhe deve.»



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Como é evidente, parabéns ao I.

Boa.



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Domingo, 15.11.09

Tem toda a razão o Filipe.



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«Cada veículo será equipado com um aparelho munido de um GPS (sistema de localização por satélite) que vai contabilizar quantos quilómetros, quando e onde foram feitos. Estes dados serão enviados para uma agência de cobrança que vai fazer a factura». Este big brother rodoviário pode nascer na Holanda.



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Sábado, 14.11.09

Com uma subtileza muito hipócrita (mas necessária), costuma distinguir-se entre o que é do domínio da política e o que é património da moral. A distinção vem a calhar quando se nota o esforço para distinguir o que pertence à justiça e o que cabe na zona da política. Não espanta que a justiça seja entregue aos tribunais, aos magistrados, aos advogados e aos comentadores dos códigos, entre outros. Mas causa apreensão que a política seja cada vez mais propriedade dos juristas em geral, entaramelados em leis, processos e casuística adjacente. Esta esquizofrenia está a fazer escola e o objetivo é simples: levar os cidadãos a evitar a política com receio de ferir um princípio jurídico se pronunciarem frases que ultrapassem o hendecassílabo. Deve ser uma campanha negra, deve.

[Na coluna do Correio da Manhã]



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Quinta-feira, 12.11.09

«O país é pobre? Obras públicas. A dívida cresce? Obras públicas. A desigualdade? Obras públicas. Crise? Obras públicas. Corrupção? Obras públicas. O país é pobre? Obras públicas.»

Luís M. Jorge, no Vida Breve.



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Terça-feira, 10.11.09

 

Por essa razão, e periodicamente, os portugueses são atacados pelos ecologistas europeus — por comerem mais peixe do que os dinamarqueses. São então incitados a comerem peixe «de forma sustentável», apesar de as nossas capturas serem das mais baixas da Europa atlântica. A tese de Ana Oliveira Madsen (a de que existe uma história de amor entre os portugueses e o peixe) merece ser levada a sério. Em poucos países se encontra a variedade de preparações gastronómicas de peixe que existe em Portugal — peixe, quero dizer, com espinhas e outros adereços, não o filete anódino e anónimo.

 

    

Esta questão do anónimo tem que se lhe diga: Portugal é atacado pelos ecologistas por consumir muito bacalhau; mas a verdade é que a Inglaterra, por exemplo, consome mais bacalhau do que nós — nós damos-lhe um nome e aproveitamos tudo do bacalhau; noutros países, o bacalhau é disfarçado de fish, pura & simples, em filete misturado com farinhas.



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Segunda-feira, 09.11.09

Momento único e belíssimo: a actuação do Quarteto de Vasco Barbosa (um cavalheiro de 79 anos, vivísssimo, um violino melancólico e profundo, de acorde eslavo), que interpretou o Nocturno de Borodin antes da apresentação do livro, propriamente dito, por um João Villalobos inspirado — entre livros e música, portanto, foi assim o final de tarde de hoje na Bertrand do Chiado. Muitos amigos de Luís Naves e muitos bloggers (Tomás Vasques, João Gonçalves, Tiago Moreira Ramalho, José Mário Silva, Inês Almeida, Cristina Ferreira de Almeida, Pedro Correia, Francisco A. Leite, João Távora, Fernando Madaíl, António Manuel Venda, Fernando Sobral, muitos mais).
O livro vem a propósito — não só pelo seu cenário, a Hungria, mas pelos seus temas e pela sua melancolia. Não percebemos nada dessa Europa, da velha, civilizada e culta Mittleuropa — o livro de Luís Naves pode ajudar, como uma introdução ao estudo da relação entre diferentes que nunca se encontram verdadeiramente.

«A rua Gogol deve ser das mais agradáveis da nossa cidade: tem fileiras de faias pujantes, muitas delas plantadas no início do século. O bairro, fisicamente, não sofreu durante a guerra. Durante o regime comunista, as melhores casas foram nacionalizadas, para alojar trabalhadores. No fim do regime, foram vendidas, a bons preços. Os prédios estão preservados e só alguns se encontram em mau estado sem obras há décadas.

Enfim, nesta parte da cidade não houve bombardeamentos de guerra, mas aidna se podem ver as cicatrizes do século. Aqui fica o gueto judeu, com a sinagoga e ruas elegantes, com jardins tranquilos. E o que ainda hoje se observa é ausência de antigos habitantes.

Jamais pensamos nas pessoas que faltam, mas para se compreender a nossa cidade, é preciso pensar nas ausências, nos hiatos, no que devia estar ali, mas não está. Famílias inteiras, gente que vibrava e pensava, cheia de vida e de paixão, de sonhos como os nossos... »



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Convém irmos à literatura para de vez em quando. Numa das Novelas do Minho, Camilo Castelo Branco lamenta-se pelo fim dos fidalgos das Terras de Basto. “É pena”, escrevia ele, que foi um retratista de exceção – além de um dos nossos maiores e prodigiosos escritores. Há cada vez menos fidalgos, de facto. Em vez deles e de quem os simboliza, o plebeísmo da corrupção invadiu e tomou conta do país, devorando-o e desculpando os salteadores à falta de fidalgos que deem o exemplo – e à míngua de exemplos que sejam um modelo de honra na política, na cultura e na vida. Nada escapa e tudo se desculpa como se a permissividade bastasse para esconder a desgraça em que estamos e o retrato grotesco desta gentinha. Já não há fidalgos, nem nas Terras de Basto (onde há mais probabilidade de existirem), bem dizia Camilo. O país vai ficando deserto.

[Na coluna do Correio da Manhã]

 



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Domingo, 08.11.09

O Paulo P. Mascarenhas chamou a atenção para este artigo do New York Times sobre o «I» e, de caminho dedicou-o também a J.M. Nobre Correia, professor da Universidade Livre de Bruxelas e «especialista em assuntos de média portugueses». Acompanho há anos a produção ideológica de Nobre Correia, que sabe tudo sobre média e nos adverte, como uma sibila belga, para as catástrofes do jornalismo e para os grandes negócios da estratosfera impressa. Primeiro no Expresso e agora, creio, no Diário de Notícias, onde acho que ainda não escreveu sobre o caso do email perdido. Acompanho-o para saber o que, à partida, está errado. Aconselho os empresários de comunicação social a pedirem, periodicamente, estudos e relatórios de estratégia a Nobre Correia. Depois, munidos desse material, façam exactamente o contrário. É a única forma.



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Salvo erro, Jesualdo Ferreira lembrou que a qualidade do futebol praticado no jogo com o Apoel nem sempre esteve ao melhor nível, que faltava ali qualquer coisa, que não podia ser. Já antes, no jogo com a Académica disse uma, duas, três vezes, que a equipa não pode jogar assim. E tem razão; mas, então, ele que trate de ordenar aquela barafunda. Na altura recordei a grande elaboração astrológico-científica de Jesualdo Ferreira: «O FC Porto tem o seu sistema-base. E depois tem princípios, tem métodos e tem estratégias que variam necessariamente tendo em vista alcançar determinados rendimentos e resultados. O sistema-base não define o modelo. O modelo é um conjunto de sistemas, princípios, métodos e estratégias. O que se pretende atingir cada vez com maior eficácia é que é o modelo.» Para os mais distraídos, isto, que deixa qualquer um em estado catatónico, foi dito no arranque de mais um campeonato — uma entrevista ao Público de há um ano e picos. A coisa fez-se mas não convenceu ninguém.

Desta vez, a pouca sorte de Rolando foi o remate fatal para a impaciência de Bruno Alves, o único que mandava a equipa jogar diante do Marítimo, que subia pelas duas alas. Há uns tempos, escrevi que «Jesualdo tem de entender o sofrimento dos outros – de nós, que não sabemos de arquitectura e de sistema tirado à esquadria, mas que estamos sentados em redor do relvado a contar os minutos de jogo». Agora, é um ponto sem retorno: o Marítimo ganhou bem e mostrou que há ciclos que terminam. Estava na cara quando Jesualdo, mais uma vez na pele de astrólogo, disse que «temos de sofrer». Pois que sofra. Ao contrário do que disse no final do jogo, é tarde para «registar esta derrota como um aviso interno». O aviso já lá estava, preto no branco. Obrigado, Jesualdo. E pronto.

 

E tu, bem podes estar preparado. O Orangeblast e a cafeína não duram sempre. E não têm sempre o mesmo efeito.



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Toda a gente quer que a investigação vá até às últimas consequências. Mas devagar, com atrasos providenciais, ao ritmo mais conveniente. Se se provar que há documentos cuja validade prescreve devido a esta atitude do Procurador, continuaremos a assobiar para o lado e a murmurar «só neste país»?



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De controlo em controlo, até ao controlo definitivo. Um dia destes saímos de casa e uma máquina começa a seguir-nos.



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Sábado, 07.11.09

Rui Ramos sobre a Pátria, um bando de negacionistas.



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Quinta-feira, 05.11.09

 

Conheci-o em Amesterdão e entrevistei-o no dia seguinte, quase sem preparação; o Fernando Venâncio tinha falado dele com admiração — a sua história, o seu feitio, a sua erudição, a sua escrita. Talvez por ser um português desses, como eu, do Douro transmontano, semita, apaixonado pelos caminhos das montanhas (e pelos nomes das terras, pelos muros das aldeias, pelas árvores dos vales, pelos cemitérios abandonados), nasceu entre nós uma cumplicidade que só eu senti e que só eu vivi. Naquela noite antes da entrevista, em Amesterdão, li Com os Holandeses, um livro magnífico, um roteiro de visita, uma torrente de embirração que só os grandes escritores podem manifestar sem mágoa, mas magoando onde fere mais a tinta. Estivemos anos sem nos vermos. Entretanto, li grande parte dos seus livros — e reconheci a minha terra das montanhas, o vento nos planaltos (esse de Felgar, Carviçais, por aí fora), a linguagem, as chuvas de Verão, as trovoadas, um Deus ocasional pendurado como um calendário numa parede envelhecida. E reconheci um daqueles portugueses que admirava noutras histórias, saído de Portugal, sem vontade de regressar, herói exilado, herói longe da Pátria que não o lê. José Rentes de Carvalho passou por Paris, e de lá foi para Amesterdão. Ao contrário de outros, nunca requisitou os serviços da Pátria para divulgar os seus escritores, para levar consigo os retratos de família. Trabalhou na imprensa (O Globo, O Estado de S. Paulo, etc.) e acabou na embaixada do Brasil em Amesterdão, creio que num segundo exílio. De lá até à Universidade foi um longo trabalho de sacrifício, divertimento, esforço, trabalho dedicado, paixão pelos livros — e embirração, mais uma vez. As suas páginas sobre o 25 de Abril são antológicas, do melhor que já se escreveu sobre o assunto. A sua bibliografia é imensa, vasta, cuidada, renascentista. Nessa altura, quando o entrevistei, jurei a mim próprio que, um dia, se eu fosse editor alguma vez, publicaria os seus livros com o cuidado que eles mereciam. Publiquei Com os Holandeses e, agora, Ernestina, que tem um dos melhores arranques que já li (leiam, leiam) e que invejo muito. Foi por isso que, há uns tempos, saí bem cedo de Lisboa e fui até Estevais, Mogadouro, seiscentos quilómetros, para pedir a José Rentes de Carvalho (ele divide o seu ano entre Estevais e Amesterdão, é o meu cosmopolita preferido) que escrevesse as suas memórias, coisa que espero que esteja a fazer — enquanto nós preparamos as edições de mais livros seus, até agora só publicados em neerlandês. Acredito que serão um extraordinário legado da sua memória a todos nós e um testemunho absolutamente original de um português cujos livros, sempre best-sellers na Holanda, foram sempre tão pouco lidos em Portugal. Lembrei-me dele depois de ler isto, e gostava de voltar a Estevais («Em fins de 2005 habitavam em Estevais cento e quinze pessoas, oitenta e três das quais com mais de setenta anos de idade.») — de onde, depois de almoço, em pleno Verão, partimos por uma daquelas estradas secundárias que vão dar a outra aldeia, a outra aldeia, a outra aldeia, a outra aldeia e a outro vale onde há um rio, e cerejeiras, e negrilhos junto de pontes entre colinas de castanheiros. Obrigado, José.

Esta é a fotografia original da capa de Ernestina, agora nas livrarias

(design de Rui Rodrigues), da autoria do próprio José Rentes de Carvalho.



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Quarta-feira, 04.11.09

Richard Hawley, Truelove's Gutter.



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Richard Hawley, Truelove's Gutter.



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A Câmara de Cascais abriu, com a pompa e a circunstância devidas, um museu dedicado à obra de Paula Rego (a Casa das Histórias). Para a tarefa incumbiu Dalila Rodrigues, que já tinha dirigido, com a competência conhecida, o Museu Nacional de Arte Antiga – de que foi polemicamente afastada, por motivos políticos. Depois do sucesso da inauguração, Dalila Rodrigues não foi propriamente afastada do projeto – apenas não foi reconduzida a título definitivo, o que é a mesma coisa. Quem o decidiu? O facto de “não haver unanimidade” no Conselho de Administração da Fundação Paula Rego, sobre o qual correm versões distintas que deixam pairar a suspeita sobre a forma desequilibrada como a Câmara de Cascais conduziu o processo. Política é política, já se vê; mas Dalila Rodrigues merece mais respeito.

[Na coluna do Correio da Manhã]



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Na próxima sexta-feira, nas livrarias, um livro imperdível, uma pequena história de amor.

 

Claudio Magris (à direita, junto de Joan Tarrida) vê o catálogo da Quetzal para a Feira de Frankfurt, onde aparece o primeiro dos seus livros publicado pela Quetzal, que inicia agora a publicação das suas obras, com Lei Dunque Capirá (E Então Vai Entender). Vai seguir-se a reedição de Danúbio, na tradução de Miguel Serras Pereira, e depois Alla Ciecca, entre outros.

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E ainda vai a tempo de ler Palestina, uma história belíssima de Hubert Haddad, que a Quetzal publicou em Abril e que acaba de receber, em França, o Prémio Renaudot.



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Terça-feira, 03.11.09

1. Uma das coisas mais divertidas na baronagem do PSD é a exigência, repito, exigência de trabalho ideológico. Minto; a expressão é «debate de ideias». É assustador ver como esta exigência toma conta de almas que se escusam a tropeçar numa ideia sobre o Estado, a Cultura, a Economia ou a vida comum. Debate de ideias quer dizer pensar no futuro da vidinha e no lugar que se há-de ocupar na sala-de-espera, o recinto onde um hipotético futuro governo os pode vir buscar para fazer deles ministros e directores-gerais. Há-de ser um debate de ideias sobre como chegar lá, mas não sobre o que fazer até lá ou nos tempos que se seguem. Por isso, Marcelo Rebelo de Sousa vinha a calhar; o professor arrastaria consigo as ideias, expostas com clareza meridiana na televisão (luzes sobre economia, administração pública, justiça, diplomacia, biblioteconomia, ténis e estratégia), batalharia com Sócrates e eles apoiariam (ou aplaudiriam, consoante os casos), na retaguarda, protegidos e cumprindo o papel. Chegada a hora, logo se veria. É esse o debate de ideias. Foi assim que queimaram Marques Mendes, deixando-o sem apoio, seria assim que lidariam com Marcelo. Só assim se compreende a «vaga de fundo» de gente que detesta Marcelo mas que apareceu a apoiá-lo, desde que Marcelo os protegesse de Pedro Passos Coelho, o candidato com quem não querem discutir.

Esta gente ain­da não percebeu o que a levou a tor­nar-se irrelevante para tudo o que seja o debate sobre o futuro do país, sobre o papel do Estado na socie­dade e na economia, sobre as no­vas realidades culturais, sobre o sentido que tem a política portuguesa na Europa de hoje. Mas ex­plica-se facilmente: preguiça e baronatos. Foi isso que matou a Di­reita antes, durante os seus gover­nos liquefeitos entre heranças do cavaquismo e do barrosismo. É isso que ameaça liquidá-la se não desperta desta vontade apaixonada pelo «debate de ideias» ao cantinho da sala-de-espera. Ou seja, se não diz, mesmo, o que quer, para além daquilo que se sabe que quer: a «alternância democrática», uma espécie de baloiço que lhes garanta lugares de quatro em quatro ou de oito em oito anos.

 

2. Ora, dizer o que quer faria muito jeito — na Europa, na Educação, na vida das cidades, no ordenamento do território, na política fiscal, no apoio às famílias e na relação do Estado com as grandes empresas. Não se vê, sobre isso, uma palavra. Aguiar-Branco (que em certo Verão anunciou que era absurdo um «debate de ideias» em pleno mês de Agosto) convidou o partido para fazer oposição, mas não se sabe com que caderno de encargos; Morais Sarmento distanciou-se de Marcelo e anunciou que quer um «debate de ideias» sobre «o sistema político» (o tema que faltava, caramba). No arranque da discussão sobre o programa de governo, ouviu-se alguma alma, entre esta gente, a exprimir uma dúvida, a fazer uma pergunta, a criticar, a esbracejar que fosse? Pensou esta gente, antes e durante a campanha eleitoral, em convocar apoios, chamar nomes novos, fazer propostas sérias? Com esta banda filarmónica, o PS pode dar música até quando quiser.



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De Claude Lévi-Strauss herdámos Tristes Trópicos, evidentemente – mais do que uma autobiografia intelectual, uma referência ao trabalho e ao olhar do antropólogo. Menciono Tristes Trópicos porque é um livro que ultrapassa largamente a antropologia e a carreira do próprio Lévi-Strauss, ou o «estudo dos índios do Brasil»; é um livro sobre a observação do mundo, sobre a arte de escutar as sociedades, as primitivas e as modernas. Outra das heranças de Lévi-Strauss tem a ver com esta ideia simples e perigosa, que coloca a natureza no campo das nossas atenções: o homem não é o centro do universo e o progresso não é sempre um triunfo inquestionável.
 



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A quem o dizes, a quem o dizes.



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Imaginemos que o Dr. House era gravado nos Açores, em São Miguel.



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Não é só serem favas, caralho. É sopa de nabo, couve penca como só se consegue em Trás-os-Montes, alfaces de Outono (corredias, lisas, crepusculares, despedindo-se) em Viseu, um resto de azedas do Douro, milhos com grelos (estes tipos inventaram agora meter polenta em tudo, mas esquecem-se dos milhos que anunciam o Inverno), arroz de bacalhau com camarões ou feijão encarnado, mas que diabo, não é preciso serem «lombos de cavalo-marinho com redução de beluga em cama de línguas de colibri das montanhas rochosas e aipo-bola flambeado». Bastam-me filetes de peixe-galo com arroz de pimentos, rissóis de pescada, arroz «carreteiro» com cerveja a acompanhar, sopa de beldro com grão (que a minha avó inventou), espargos-bravos (asparagus Lenuifolius) com ovos em azeite, tortilla de escabeche com pimentos, arroz de vitela à minhota (ligeirinho mas de caldo espesso), pescada de tomatada, a lista não acaba, o Outono dá cabo de mim.



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Desculpem lá, mas neste memorável post há uma exclamação comovente: «São favas, caralho.»

 

Caro Luís: umas favas decentes, agora só na próxima Primavera.



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Obrigado, professor Marcelo. Parece que se percebeu que a hipótese 4) era a mais plausível.



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Parece que, apesar de vários discursos oficiais e do habitual folclore ‘politicamente correto’, Portugal caiu cinco posições num ‘ranking’ que mede as desigualdades entre homens e mulheres e está agora em 46.° lugar, atrás da África do Sul ou do Lesoto, por exemplo. Mas também do Sri Lanka, da Argentina, da Namíbia ou da Bielorússia. Os critérios deste índice, patrocinado pelo Fórum Económico Mundial, são discutíveis e alguns difíceis de medir. Mas tome-se este exemplo: depois da tomada de posse do governo com mais mulheres na história portuguesa, as únicas fotografias que outro dia apareceram na imprensa – eram de homens, isoladamente ou em grupo. Nem por isso especialmente interessantes, os ministros vestiam de cinzento e sorriam entre eles, ligeiramente cansados do poder.

[Na coluna do Correio da Manhã]



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Domingo, 01.11.09

Depois dos sucessivos empurrões a uma candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa (ministrados por gente tão diferente como Guilherme Silva e Morais Sarmento, J.L. Arnaut, ena, ena, e Paulo Rangel), seria bom saber se se trata de 1) entusiasmo diante da perspectiva de ter MRS como líder; 2) conformismo absoluto diante da hipótese de MRS; 3) uma armadilha para MRS avançar; 4) uma armadilha para que MRS não avance e se abra o caminho estreito para um novo candidato que MRS apoiaria porque, enfim, não quis avançar.



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Dois clavinaços nas redes e percebeu-se que o Bom Jesus era de Braga e não da Luz. Fica-nos mal festejar? Fica — um pouco, sim; pois louvemos mesmo assim os rapazes que se atravessaram na procissão engalanada da banda do regime. Aqueles minutos do fim forneceram dois pares de ganchos nas laterais, com Alan (um tunante mal compreendido) e Matheus a trocarem os olhos a David Luís e a Coentrão, e só por isso isso valeu a pena ver o jogo todo.

 

Quanto ao FC Porto, retiro o seguinte da minha crónica de A Bola desta sexta-feira:

«Jesualdo diz, uma, duas, três vezes, que a equipa não pode jogar assim. E tem razão; mas, então, ele que trate de ordenar aquela barafunda. Recordo aos leitores esta passagem de uma entrevista de Setembro do ano passado (ao Público), em que Jesualdo Ferreira explicava o nervo do jogo: “O FC Porto tem o seu sistema-base. E depois tem princípios, tem métodos e tem estratégias que variam necessariamente tendo em vista alcançar determinados rendimentos e resultados. O sistema-base não define o modelo. O modelo é um conjunto de sistemas, princípios, métodos e estratégias. O que se pretende atingir cada vez com maior eficácia é que é o modelo.”
Lido isto (que na altura me deixou em coma estratégico, mas silencioso), há uma coisa que eu não entendo, e admito que seja por culpa minha: quando é que se joga de novo?»



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O tema não é tão elevado como, digamos, os fragmentos perdidos dos derradeiros contos de Cortázar, mas convém dizer que António Figueira acertou. Não apenas sobre o nabo. O feijão catarino, as favas, enfim, aguardam que a idade venha e nos melhore.



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António Sérgio a uma mesa do Snob. (Foto de Miguel Madeira/Público)

Som da Frente. Lança-chamas.



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Terça-feira, 27.10.09

No P2 de hoje, Richard Zimler com um excelente texto sobre «a questão Saramago». Como sempre, aliás.



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Segunda-feira, 26.10.09

Um fragmento do Índico, ia a dizer do pequeno paraíso.



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Domingo, 25.10.09

Ou de como graças a um erro simpático a vaidade ainda é o que é. Obrigado, Fnac. Mas Bolaño?



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Chegou o terceiro, por Farías, mas isso já sabem, depois de um golaço da Académica, e antes do golo de Sougou que Bruno Alves tentou defender com o calcanhar.

O resultado ficou; mas o jogo, só ao estalo. Mas enfim.



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Só a mim. Num jogo deste nível, um golo de Mariano com Farías na linha de golo.

Depois, o de Farías, a passe de Mariano.

Eu falei de três golos; vamos ver como fica a minha pontuação no Expresso.



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Estou a meio (um pouco mais) do novo Dan Brown. A esta hora, Robert Langdon já passou pela provação das salas do Capitólio, em Washington DC. Há uma mão decepada e tatuada.Um Mal'akh tatuado que vai ser o génio do mal que subiu a pulso na escala da Maçonaria, embora muito primário. Há uma chefe da CIA chamada Inoue Sato que tem mistério mas idade a mais para Langdon, o que significa que ainda não há nenhuma mulher bonita, e Katherine Solomon, embrulhada em noética, não me parece. Tem toda a artilharia de esoterismo acerca dos pais fundadores da América e sobre a construção do Capitólio. Quanto à maçonaria, lá iremos. Mais notícias em breve.



FJV

Aos 36'32'', quando Hulk deixou a bola escapar para fora pela quinta vez, levantei-me e assobiei, juntando-me ao coro que já havia no Dragão. Até aos 41'10'', o FC Porto tinha «rematado» duas vezes à baliza, ambas por Rodríguez – e a única assistência de jeito tinha sido de Sapunaru. O jogador que vi correr com mais velocidade, além de Fucile, quando se lesionou, foi Helton, antes de tentar pontapear a bola para Falcao, lá à frente. Nessa altura, como vi Guarín e Farías a aquecer, levantei-me e saí. Tenho uma vaga esperança de que Mariano saia para que Farías tente ser ponta-de-lança, mas nunca se sabe; Jesualdo gosta de arquitectura, mas esquece-se de que é preciso contar com a arquitectura dos outros. E para ser arquitectura, este futebol não tem régua nem esquadro. Outra das razões por que me levantei e saí é que não suportava ouvir o meu companheiro do lado (o meu filho, na circunstância) a perguntar quanto é que «nos tinha custado» o Prediger e por que é que eles cuspiam tanto para o chão, se não jogavam coisa que se visse. Isso é que eu também gostava de saber.Também me disseram que o Meireles estava a jogar; não dei fé.

Pode ser que até ao fim ainda haja 3 golos, mas enfim.



FJV

Regresso a Miguel Torga, Bento da Cruz e Camilo.



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«Nunca dê um charuto a um desconhecido, este também é o meu lema. Há alguns anos eu era muito amigo de um lorde inglês, que certa noite veio jantar a minha casa. Depois do café e, talvez do conhaque, abri uma caixa de Montecristos que me fora oferecida por um amigo mexicano, um produtor de cinema, proprietário de terras no Yucatan. Era um ricaço das Caraíbas que sabia de charutos e, o que era mais importante, conhecia a minha paixão por bons charutos, sentimento tão veemente como a impaciência de Fortunato pelo amontilado. Embora nunca tenha declarado que um charuto, mesmo que se trate da minha vitola, é melhor do que uma mulher, como Kipling se casou com uma norte-americana porque não podia ter relações mais íntimas com o seu amigo americano, irmão dela. Parece que nunca conseguiu manter relações tão íntimas com o seu amigo americano, irmão dela. Mas essa é outra história.»

 

Fumo Sagrado é mais do que um livro - são vários: é uma história do tabaco que começa com a sua descoberta, em 1492, por um marinheiro da tripulação de Cristóvão Colombo; é uma celebração do tabaco e do acto de fumar, essa prática bizarra; e uma rapsódia em que intervêm o cigarro e cachimbo. Mas é, sobretudo, uma crónica erudita da relação entre o charuto e cinema. Nesta espécie de breviário do fumo, em que também se evocam os grandes fumadores da História (como Winston Curchill ou Fidel Castro), do Cinema (como Groucho Marx ou Orson Welles) e da literatura (como Conan Doyle ou Italo Calvino), Cabrera Infante, ele próprio um consumidor apaixonado de «puros», é o guia e o narrador das extraordinárias histórias ligadas a um prazer que faz «sempre recordar um tempo que nunca existiu».



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Sexta-feira, 23.10.09

Não está em causa a notícia nem o seu teor. Mas um título destes, caramba, merece ser lido: «As sardinhas que chegam aos pratos dos portugueses saem dos mares sem deixar um rasto de destruição». Isto é o título.



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Quinta-feira, 22.10.09

Uma das notícias de ontem foi a dúvida da população de Aveiro: parece haver uma proposta para a demolição do Estádio Municipal, construído para o Euro 2004, porque manter aquele monstro é um encargo que a Câmara não pode suportar ou que os munícipes de Aveiro têm de pagar. Tal como o de Aveiro, também o do Algarve e o de Coimbra têm explorações negativas. Trata-se de uma das formas do célebre “investimento público em eventos”. Se não há futebol, haverá concertos; se não houver concertos, arranjam-se concentrações de grupos religiosos; e se não houver nada disso, avança-se para a demolição. Um país de eventos e de investimento público é um país que corre para a frente. Com toda a gente a assistir ao “evento”, naturalmente. Ora, de onde vem o dinheiro para pagar o bilhete?

[Na coluna do Correio da Manhã]



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Temos uma má relação com a polémica. José Saramago disse sobre a Bíblia e as igrejas uma série de coisas previsíveis e houve quem lhe respondesse e ripostasse – nada de mais natural e saudável. É só literatura. Mas houve quem avariasse e tivesse perdido a cabeça de repente: Mário David, eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu pediu a Saramago que “fosse consequente” e abdicasse da cidadania portuguesa porque as suas opiniões ofendem Mário David. O dislate não se compreende. Assim, de cada vez que as opiniões de alguém “ofendessem os portugueses”, lá teríamos de lhe pedir para devolver o passaporte. Não. Saramago tem todo o direito de dizer o que disse, mesmo que sejam banalidades. E nós de discutir forte com ele. É isso que nos permite viver uns com os outros, pensando coisas diferentes.

[Na coluna do Correio da Manhã]



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