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John Hay

por FJV, em 01.07.15

No meio da esquizofrenia grega, recordo o desaparecimento de John Hay – um ilustre desconhecido – há 110 anos. Hay (1838-1905) foi um dos derradeiros inteletuais na política americana: secretário de Lincoln, foi também conselheiro e secretário de Estado dos presidentes McKinley e Roosevelt, além de embaixador em Londres (era admirador de Disraeli, PM da rainha Victoria), poeta, historiador (a sua biografia de Lincoln é notável). Na viragem dos séculos XIX-XX, redesenhou todo o futuro da América (contou com o seu amigo, o historiador Henry Adams) e da sua geopolítica (do Panamá à China e à Europa). Gore Vidal fê-lo personagem de Império: Hay é o entardecer (não ainda o crepúsculo) de uma América sonhadora, com sabor a risco e a elegância. Evoco-o como um elemento de racionalidade na humanidade capaz de pensar.

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Mandarim.

por FJV, em 26.06.15

De tempos a tempos, o nosso provincianismo transforma-se em soberba e arrogância. Já li alguns protestos escandalizados porque as crianças portuguesas vão estudar mandarim, a língua mais falada do mundo. Inglês, francês, portunhol, claro. Mas mandarim, que humilhação. Houve antepassados nossos que aprenderam línguas orientais e se instalaram no Japão, na China, em Malaca, no Sião, nos limites do deserto. Aí enriqueceram, guerrearam, morreram, enlouqueceram ou foram felizes. Mas que o mundo se altere e as crianças de hoje aprendam mandarim para se entenderem com chineses, que desonra. Pobres provincianos, tão cheios de empáfia europeia. Ainda não descobriram que, além de mandarim, também deviam ter umas luzes de cantonês e de wu. Ajudaria muito.

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O mundo flutuante, 3.

por FJV, em 26.06.15

 © Hiroshi Sugimoto, «Bay Drive In, San Diego». 1993

 

 

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A metro.

por FJV, em 26.06.15

1. O Kindle é o aparelho de leitura de livros digitais vendido pela Amazon. Mas, mais do que isso, é uma espécie de ‘chip’ com que a Amazon controla e monitoriza os seus leitores: com o Kindle, sabe quantas páginas eu li, que passagens destaquei, onde parei mais tempo, que livros abandonei a meio, que títulos recomendei – tudo (inclusive, paga aos autores da sua plataforma de acordo com as páginas lidas). A leitura, último refúgio da humanidade civilizada, deixou de ser uma atividade solitária para passar a estar sob escrutínio de um cérebro vigilante que arquiva, organiza e se serve de dados sobre a nossa intimidade (disponibilizando essas informações a outras empresas e aos governos) e os nossos sonhos, supondo que os livros ainda alimentam a capacidade de sonhar, aprender ou perguntar. Cuidado com o que leem.

 

2. A Amazon, através do Kindle (e também outros serviços digitais como o Youboox e o YouScribe), pagará aos seus autores consoante as páginas lidas ou não lidas. O que, como aqui escrevia ontem, supõe uma monitorização permanente dos leitores (vigiados por um chip) e das suas escolhas através dos aparelhos eletrónicos – uma ameaça evidente à privacidade de cada um. Há um bolo de 53 milhões de euros para dividir entre os autores exclusivos do Kindle, diz a Amazon. James Joyce receberia muito pouco (talvez o monólogo de Molly Bloom escapasse), e muitos contemporâneos veriam os seus direitos de autor reduzidos ao mínimo. A ideia não é apenas perversa; é um ataque frontal a séculos de literatura (“um livro é um todo”) e uma desvalorização da arte de ler, que inclui o direito de saltar páginas para fazer uma sesta.

 

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Clássicos.

por FJV, em 26.06.15

Será que a ideia de fazer regressar o latim e o grego é uma batalha perdida? Para os que defendem a ideia da escola como uma extensão da ideologia fabril, sim – será, mesmo, uma ideia estapafúrdia. É, além do mais, o resultado das “políticas educativas” das décadas mais recentes, centradas “naquilo que os alunos querem”. A ideia anunciada pelo ministro da Educação é vaga e devia, sem desculpas nem amenidades, implicar o estudo das culturas clássicas e de rudimentos dessas línguas. História, língua, cultura, cosmogonias – não para que os alunos se transformem em eruditos e tradutores de Horácio ou Tucídides, mas para que pelo menos a escola não perca a memória do nosso mundo nem da herança que o conhecimento humanístico transporta como uma luz de beleza de experiência e de consolação diante do vazio de hoje.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Manguitos, de novo.

por FJV, em 26.06.15

Os patetas do controle tecnológico rejubilam com o Cartão de Cidadão, como bons provincianos. Através dele pode – quem pode – ter-se acesso à nossa conta fiscal ou bancária, ao historial de multas de trânsito, ao currículo de doenças e compras de medicamentos, à conta da Via Verde e, agora, às marcas de cigarros que compramos (porque há máquinas que são ativadas com o CC). Se “as autoridades” quiserem, podem cruzar as nossas compras de supermercado, de tabacaria e de sex-shop e estabelecer um padrão de mau comportamento. Se a isto somarmos as autorizações que estão prestes a ser dadas – por lei – às secretas para coligir toda a informação que pretendem dos cidadãos, estamos a autorizar um belo Estado que, além de saquear impostos colossais, será mais intrusivo e pleno de poderes. Preparem os manguitos.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O mundo flutuante, 2.

por FJV, em 26.06.15

Lu Nan Tibete 2002.jpg

 

© Lu Nan, Tibete, 2002  © Magnum

 

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© Lu Nan, Tibete, 2004  © Magnum

Lu Nan CHINA. Shandong. 1993.jpg

 © Lu Nan, China. Shandong, 1993 © Magnum

Lu Nan CHINA. Shaanxi Province, Mei-Xian Prefectur

© Lu Nan, China. Mei-Xian, província de Shaanxi, 1992 © Magnum

 

 

 

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Listas.

por FJV, em 26.06.15

Todos gostamos de listas – faz parte da nossa curiosidade e da vontade natural de manter o mundo com uma certa ordem. Nos últimos anos, porém, tem havido listas para tudo, desde os melhores hotéis com camas no chão e janelas voltadas para o Danúbio até às melhores praias a norte do Cabo Raso com serviço de wifi. Tal como na informação meteorológica dos sites de meteorologia, ninguém sabe de onde vem essa informação, que é colhida em sites que copiam outros sites que copiam outros sites e que nunca revelam a sua fonte. É possível termos a listas das 10 melhores caganitas de estorninho do Alto Zêzere (um doutoramento), bem como as 20 pessoas mais altas de Massamá, os 10 bares mais sujos de Berlim (difícil a escolha) ou as 10 melhores cenas de cama em romances com marcianos transsexuais. O mundo não acaba.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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O mundo flutuante, 1.

por FJV, em 26.06.15

Chang Chao-Tang.jpg

© Chang Chao-Tang, 1989.

 

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Destruição.

por FJV, em 21.05.15

O mundo está justamente chocado com a destruição ordenada pelos bandidos do Estado Islâmico: cidades da Mesopotâmia destruídas, ameaças sobre as pirâmides do Egito, muralhas e estátuas do Médio Oriente reduzidas a pó. Há antecedentes próximos. Durante a Revolução Cultural dos anos 60, o regime de Mao destruiu a quase totalidade dos símbolos da grande cultura chinesa. Dos 2700 templos do Tibete ficaram apenas 78, sem falar dos pagodes de Pequim, das igrejas de Sichuan, das estátuas milenares, das tabuletas de velhas lojas de Xangai, das bibliotecas que os Guardas Vermelhos incendiaram ou dos escritores e músicos presos ou levados ao suicídio. Na altura, Sartre, que já justificara o silenciamento de Pasternak na URSS, achou que a China vivia “a verdadeira revolução” (Chomsky secundava-o) que triunfava sobre o passado e criava um “novo homem”. Isto não mudou muito.

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Já houve melhores dias.

por FJV, em 21.05.15

Na primeira semana, o livro entrou imediatamente para a lista dos mais vendidos do principal top americano (o da Publishers Weekly): Selfish não é bem um livro mas uma coleção de selfies de Kim Kardashian. A cultura pop e alguns críticos promovem-no de uma maneira atroz. Há já quem o considere uma espécie de J.D. Salinger da cultura fotográfica contemporânea, ou um Duchamp destes dias, ou um prego na urna da “fotografia artística”. As selfies de Kim Kardashian criam problemas a qualquer “pessoa normal” (eu, por exemplo: gosto de rabos, bundas, glúteos), mas não me passa pela cabeça transformá-la num ícone da “arte contemporânea”, da qual sou descrente assumido. Uma pessoa pode dedicar-se à vida de Kardashian por razões, digamos, libidinais; mas há de reconhecer que a arte decorativa já teve melhores dias.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Taxa única.

por FJV, em 21.05.15

A ideia de uma tarifa única de 20 euros para os táxis do aeroporto de Lisboa é justa, inteligente e adequada. Há quem argumente que 20 euros é muito para uma viagem que hoje custa 12 euros – mas estão errados. Repare-se que os taxistas vão passar a andar fardados, tal como os empregados das livrarias, onde há uma taxa única de 19.90 euros por consumidor, mesmo que os livros comprados somem apenas 16 euros. Quando vamos ao supermercado pagamos sempre 30 euros – é a tarifa única – mesmo se as nossas compras se reduzem a uma meloa e uma pasta dentífrica. Claro, há o argumento de que, com o aeroporto no centro da cidade, as corridas de táxi são sempre baratas demais; mas há uma solução: transferir todos os passageiros para as pistas de Beja ou S. Domingos de Rana com obrigatoriedade de utilizar táxi à saída. Santo remédio.

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Explicações.

por FJV, em 21.05.15

Quando se deu o acidente nos Alpes com o avião da Germanwings, sociólogos de pacotilha e dirigentes políticos alvitraram logo (estão registadas estas coroas de glória) que o piloto era vítima da pressão causada pelas medidas da troika, e que o ataque ao Charlie Hebdo se explicava (ah, valentes!) pelo desemprego e pela crise. Anteontem, numa televisão ocupada por politólogos e sociólogos, uma jornalista declarou que a pancadaria no Marquês de Pombal para comemorar a vitória no campeonato se devia à austeridade e à crise. Naturalmente que o assalto às lojas no estádio do Guimarães se deve à usura dos mercados e ao aquecimento global, e o bloqueio de adeptos de futebol a um campo de treinos com picaretas deve-ao FMI. Os radicais do Islão também acham que os sismos se devem ao facto de as mulheres não se vestirem adequadamente.

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Charlie.

por FJV, em 21.05.15

Vai uma certa agitação nos meios literários porque um grupo de escritores (entre eles Peter Carey, Michael Ondaatje, Teju Cole, Rachel Kushner e Taiye Selasi – todos eles bons) decidiu que a Charlie Hebdo não merece o Prémio Liberdade de Expressão e Coragem atribuído pelo Pen Club americano. Num tempo de unanimidades e em que todos “são Charlie” em dias bissextos, esta opinião conta. Não está em causa qualquer apoio à censura nem a condenação do atentado vil e criminoso contra a revista – já escrevi sobre o assunto e o leitor já não tem paciência. John Le Carré, por exemplo, teve a atitude abjeta de condenar Salman Rushdie cuja morte tinha sido decretada pelo Irão. Aqui, o caso é diferente: o apoio ao Charlie está na fase do “humor cocó-xixi”: alguém diz “cocó-xixi” e parece uma piada. Não é. É só uma maneira fácil de ser pateta.

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Como aumentar a taxa de natalidade, a pergunta cómica

por FJV, em 16.04.15

De acordo com o prometido, os senhores deputados ocuparam a tarde de ontem a discutir a melhor forma de “aumentar a taxa de natalidade”. A expressão é cómica, mas era o que estava previsto. O argumento de que as pessoas querem mas não podem ter filhos é tão estapafúrdio como dizer que um corte de 40 por cento no salário dos progenitores os incentivará a ficar em casa para educar a prole. A curva demográfica começou a descer em vertigem nos anos noventa e não foi por causa da crise – mas pelas “opções de vida” e pelas “mudanças nos costumes”. Um mercado de trabalho selvagem ajuda à crise, mas a desregulação é muito mais geral e está na cabeça dos “casais em idade fértil”. Ter filhos para pagar impostos e salvar a segurança social dos mais velhos é outro grande incentivo que só aquelas pobres cabeças podiam engendrar.

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Morte, sempre a trair

por FJV, em 13.04.15

A morte aproxima-se devagar – mas é sempre fulgurante. Ontem, três nomes importantes para a literatura e para a edição, em níveis diferentes: o alemão Günter Grass, o uruguaio Eduardo Galeano e o editor francês François Maspero. Cada um deles foi importante para a esquerda e para as suas diversas causas – mas o mais importante foi terem escrito e publicado livros, ao contrário das ladainhas que se ouviram ontem, que às vezes quase esqueciam os seus títulos. Eu gostava de Grass por causa de O Tambor e de A Caixa, mas achava tudo o resto muito aborrecido. E fui um leitor de Galeano (o de Vagamundo e de Futebol de sol a Sombra – ele gostava de Eusébio). Por seu lado, Maspero foi um editor e livreiro importante, que durante uma década dominou a vida inteletual francesa. São símbolos que partem. Também era bom sabermos se têm substitutos à altura, seguidores, herdeiros, sucessores. Os de Galeano acusam-no de traição. Primeiro, em Brasília, na Bienal do Livro, falou mal do seu próprio livro, As Veias Abertas da América Latina – um panfleto de economia que fez escola nos «estudos coloniais». A multidão de seguidores não o desculpou, nem lá nem nos EUA. 

 

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Dizer e fazer coisas importantes

por FJV, em 13.04.15

 

Há uma «nova batalha» no mundo da crítica literária: a do género. Uma organização americana que promove a representação das mulheres na literatura (Vida, Women in Literary Arts) analisou 15 publicações literárias influentes no mundo anglo-saxónico e chegou à conclusão de que, muito embora as mulheres dominem as listas de best-sellers (de J.K. Rowlling e Donna Tart a Hilary Mantel), apenas 30 por cento das críticas são assinadas por mulheres. Um outro estudo (no Reino Unido) diz que as mulheres são responsáveis pela compra de dois terços de todos os livros publicados, e que 50% das mulheres são ‘leitoras ávidas’, contra apenas 26% por parte dos homens. A “representação” não me diz muito – mas estes números explicam por que razão as mulheres têm hoje mais sucesso nas universidades e na vida profissional: leem mais.

O documento circulou por todo o mundo e era relativamente pacífico; mas a capacidade de o politicamente correto cair no albergue da palermice é sempre capaz de nos surpreender. O Vida defende mais: que os escritores, independentemente do género, não devem apenas criar personagens femininas – mas pô-las, nos romances, a «dizerem e fazerem coisas importantes». Que grande ideia. Estaline corrigiu páginas de Gorki enquanto decidia que temas deviam os escritores tratar; na China, o governo manda os escritores para os arrozais para escreverem sobre os rouxinóis; as feministas americanas mandam implantar neurónios artificiais.

 

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Clássicos

por FJV, em 13.04.15

 Com aquela prosápia de pato bravo (estávamos em 2008), um antigo secretário de Estado balbuciou um dia que o abandono do Latim e do Grego nas nossas escolas não se devia “às políticas educativas” mas, simplesmente, ao facto de “os estudantes não quererem”. Isto podia ser dito por um capataz de latoaria mas não por um político. A Comissão Nacional de Educação propôs entretanto que o Ministério da Educação estude a hipótese de retomar e reforçar o ensino das línguas clássicas, o que parece ter sido aceite. No meio de tanta asneira, uma boa notícia. Depois de termos passado de 13 mil estudantes (em 1995) para 114 (no ano passado) a estudar Latim, decréscimo de mais de 90 por cento, é evidente que a culpa é “das políticas educativas” moderninhas que desgraçaram a escola e o papel da cultura dentro das suas salas.

 

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Pátria literária

por FJV, em 13.04.15

Não é definitivo que exista um “escritor nacional” para os portugueses. Mas devia apurar-se. Na Alemanha, o lugar é de Goethe; na Espanha, de Miguel de Cervantes; na Itália, é Dante; em Inglaterra, naturalmente Shakespeare; em França acaba de realizar-se uma sondagem que deu o primeiro lugar a Victor Hugo. Há tempos, uma sondagem europeia deu o topo a Shakespeare e Cervantes. Será Camões o nosso representante? Ou Eça, o romancista por excelência (que disputa o título com Camilo)? Ou Pessoa, que paira como uma sombra por toda a modernidade? E qual é o livro que os portugueses elegem como a sua companhia de cabeceira? Os Maias, um portento? Amor de Perdição, o folhetim? Os Lusíadas, o símbolo? Uma coisa é certa: com tantas reformas curriculares, os nossos clássicos ainda não têm lugar garantido.

 

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Arte escondida

por FJV, em 13.04.15

Basta dizer-se que um pateta é um artista para que ele suba de degrau. Veja-se o caso de Nelson Shanks, um simpático pintor septuagenário especializado em “retratos oficiais”. Foi ele o autor do de Bill Clinton – que pernoita na National Gallery – onde, garante, “está escondida uma referência ao escândalo Monica Lewinski”. Fui a correr ver a coisa: há de facto uma sombra que mancha a tela, sim, provocada – dizem os hermeneutas – por um vestido azul (o célebre, de Miss Lewinski) que o artista tinha ao lado enquanto pintava. Mas, no quadro, do vestido só nos chegou a sombra. Diz ele que é uma metáfora do mandato presidencial. Ora, este Shanks é um cobardolas: Velásquez, que era fino e vaidoso, pintou-se a si próprio em ‘Las Meninas’ ao lado de Margarida de Áustria ainda princesa, tal como Van Eyck reproduziu outras pessoas num espelho do retrato do casal Arnolfini. Mas, em matéria de sombras, nenhum deles sonhava com os felácios dos outros.

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Indiferença malévola

por FJV, em 13.04.15

Há vítimas de segunda categoria, como os cristãos assassinados numa universidade do Quénia, por uma milícia muçulmana. A imprensa deu a notícia salientando que “do ataque resultaram 148 mortos”, desvalorizando tratar-se de um crime de ódio e de uma matança religiosa. Outros ataques contra comunidades cristãs na Nigéria, no Iraque, no Iémen, na Síria, na Eritreia ou no Paquistão e no Egito, “de que resultaram” centenas de vítimas não tiveram destaque na nossa imprensa – não vimos nenhuma autoridade religiosa muçulmana de relevo a condenar os crimes, nem se ouviu o habitual ‘somos todos Charlie’ diante do assassinato de cristãos. Só um silêncio absurdo que nos diz que estamos todos sitiados diante da indiferença. No Ocidente a laicidade transformou-se aos poucos nessa indiferença malévola diante do cristianismo.

 

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Clean Reader

por FJV, em 13.04.15

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Existe uma aplicação – uma ‘app’ – que promete varrer a má criação dos escritores, esses atrevidos. Chama-se Clean Reader e, caso encontre palavras comprometedoras num livro digital, imaginemos um romance, substitui-a por outra mais adequada a um dicionário com a moral a postos. Imaginemos que um personagem, no paroxismo da indignação, berra qualquer coisa como “merda!”. Logo o Clean Reader elimina o pequeno palavrão e o substitui por, imaginemos, “sujidade”. Assim, o “que merda!” lusitano aparecerá como “que sujidade!” Não dou mais exemplos mas todos imaginarão outras amáveis substituições. É bom dizer que o Clean Reader não precisa da aprovação do autor para atuar no texto; ele toma conta da literatura, espanejando os parágrafos com o seu látego. Os escritores protestaram mas ainda não perceberam a vantagem.

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Tão velho

por FJV, em 13.04.15

Assinala-se agora a publicação do primeiro número da Orpheu, farol da nossa pequena modernidade. Só foram publicados dois números, mas as réplicas produziram gerações de que Fernando Pessoa e os seus heterónimos se distinguem acima de todas as outras referências. O início do século XX deu-se, no entanto, com o adeus de Eça de Queirós e as páginas finais de Os Maias, onde o perfume de decadência se sobrepõe a todos os outros. Passado um século, o “ambiente literário” não é melhor. Comparando as polémicas da época com as de hoje, a diferença é triste: os autores de então eram mais livres, seguramente, e não tinham os receios de hoje. Hoje, Júlio Dantas poderia passar pela baixa lisboeta, cruzar-se de novo com Almada Negreiros, e repetir a frase que é suposto ter dito na época: “Este Almada, sempre tão velho, coitado.”

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O Mestre e Margarita

por FJV, em 13.04.15

A Editorial Presença publicou uma nova versão do romance de Mikhail Bulgákov, agora com o título O Mestre e Margarita, traduzida por Filipe e Nina Guerra – que assina um notável prefácio onde, em poucas páginas, nos dá uma lição magistral não apenas sobre o livro e Bulgákov (Kiev, 1891-Moscovo, 1940), mas também sobre a literatura durante o período soviético. A tradução flui, é perfeita quase sempre, transporta-nos para Moscovo e para a forma como o autor o concluiu, à beira da morte, ditando-o à sua mulher Elena. Só foi publicado em 1966, com cortes e intrusões da censura, antes de ser lançado em Paris no ano seguinte (versão integral), e é uma narrativa fantástica e cómica sobre magia negra, o mal, a culpa – e, naturalmente, a tirania desses anos 20, quando Bulgákov o começara a escrever, já sabendo que era uma obra-prima do humor negro, do delírio e da denúncia do totalitarismo.

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O banco público

por FJV, em 08.10.14

«Qual foi o génio que inventou o banco público? No nosso mundo cada vez mais controlado, dirigido e digitalizado, o banco público de madeira é um oásis de liberdade no meio da cidade. No banco pode ler, dormitar, comer a sua sanduíche, meditar e reflectir sobre a vaidade dos desejos humanos. (…) O banco oferece convívio, privacidade e conforto. Tudo isto sem custos nenhuns.»

[Tom Hodgkinson e Dan Kieran, O Livro dos Prazeres Inúteis, Quetzal]

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Santarém, na sexta-feira, 12, 18h00.

por FJV, em 07.09.14

Inauguração do Museu Diocesano de Santarém.

E um abraço enorme ao João Soalheiro, que tornou isto possível.

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Joseph Roth, 120 anos.

por FJV, em 02.09.14

Joseph Roth merece mais atenção do que mantê-lo na galeria das curiosidades da velha ‘Mittleuropa’, o mapa que a I e a II Guerra pulverizaram. Talvez por isso, os seus livros passam quase ignorados nas livrarias: A Lenda do Santo Bebedor, O Leviatã (ambos na Assírio & Alvim), A Marcha de Radetzky (Difel),  (Ulisseia) e um magnífico Judeus Errantes (Sistema Solar). Em toda a sua obra há essa nostalgia mal compreendida pelo fim do império austro-húngaro, que devia ser um território de civilização e, de forma inexplicável, gerou – com a guerra e os nacionalismos – ingratidão e fragilidade. Relendo os seus livros percebe-se a pulsão de tragédia que marca o fim de uma Europa povoada de talentos e de sonhos. Roth, judeu, ucraniano que encontrou a pátria nessa Viena luminosa, morreu em Paris na véspera da II Guerra, em 1939, alcoólico e deprimido. Nasceu há exatamente 120 anos, cumpridos hoje.

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

Ver aqui o tributo de Pedro CorreiaA Marcha de Radetzky na sua excelnet série sobre grandes romances.

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Procissão de doidos.

por FJV, em 01.09.14

A palermice em que anda a discussão em torno do Acordo Ortográfico exige que se tomem decisões rápidas. A mais recente proposta veio do congresso dos deputados, no Brasil, onde umas luminárias decidiram propor o fim de toda e qualquer filiação etimológica, retirando ‘h’ não pronunciados e transformando a ortografia numa dependência aleatória e analfabeta da fonética – resultados da “linguística estrutural oral” dos anos setenta e do populismo “anti-elitista” que afoga o sistema escolar brasileiro. Esta procissão de doidos, libertados para a arena sem qualquer atestado de sanidade, ameaça tornar irrelevante todo e qualquer respeito pelos dicionários, pela gramática, pela lógica, pelo bom senso – e, finalmente, por uma língua milenar. Com o Brasil e Portugal a viverem em festa e depressão eleitoral, o cenário é pouco propício a tomarem-se decisões ponderadas. Mas pelo menos que se amordacem os patetas.

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Um momento triste.

por FJV, em 01.09.14

As coisas estão a ficar ainda mais difíceis. Nós, rapazes, atravessámos a adolescência com um objetivo claro – descobrir onde ficava o Ponto G; o que significava uma pesquisa rodeada de solenidade, malícia, companheirismo e até (não riam) uma certa delicadeza. Detetar a proximidade desse lugar invisível garantia um prémio cheio de promessas, além de benefícios para a nossa, digamos, vida social futura. As feministas mencionavam o oásis descoberto por Ernst Gräfenberg (1881-1957), o pai do Ponto G, como uma “vantagem competitiva” imbatível para as mulheres. Nós compreendíamos: era ali (não interessava onde, não éramos agrimensores) que começava o vulcão. Uma notícia do CM alerta-nos agora para uma investigação recente segundo a qual o Ponto G não existe e que a “área” é mais abrangente. Claro que é, sempre o soubemos. Mas para quê destruir anos e anos de perseverança? O fim de um mito é uma coisa triste.

 

[Da coluna do Correio da Manhã]

 

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Naturalmente bons.

por FJV, em 01.09.14

Algumas boas almas descobriram, com justificada mágoa, que há cidadãos educados no ocidente mas disponíveis para as maiores barbáries – entre elas degolar jornalistas, gozar as maravilhas de um estado islâmico terrorista, desprezar a dignidade das mulheres ou despedaçar quem não acredita num deus cruel e interpretado por califas barbudos. As explicações abundam mas não escondem o essencial: a barbárie está dentro de portas, escapando ao paraíso da escola pública, do Estado social, da liberdade política e do sentimento de culpa ocidental. O ocidente, que desde o século XVIII acredita que os homens são “naturalmente bons” (a “sociedade” é que os estraga), transporta agora um fardo desse tamanho – e é um alvo fácil para desequilibrados e desiludidos. As imagens do tresloucado que degolou James Foley (como as dos prisioneiros ucranianos acorrentados a desfilar em Donetsk) estão a um passo de uma demência que autorizámos. Há uns meses, uma colunista do Guardian manifestava as suas dúvidas multiculturais sobre o caso Boko Haram, não estivéssemos a demonizar «todo um continente».

[Da coluna do Correio da Manhã]

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