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Meia hora por dia. Qual ginásio, qual carapuça.

por FJV, em 23.08.16

O estudo foi publicado na revista Science Direct e tem graça; garante que, independentemente de sexo, raça, educação ou classe social, há um contributo decisivo da leitura para viver mais e melhor. “Pessoas que leem têm uma vantagem significativa, em termos de longevidade, sobre aquelas que não leem”, diz um dos autores, Becca R. Levy, professora de epidemiologia na Universidade de Yale. Os cientistas acompanharam 4 mil voluntários com 50 anos e estabeleceram que três horas e meia de leitura de livros (jornais, lamento, não servem) garantem uma vida mais longa. Comparando com aqueles que não leem livros, os que dedicam pelo menos meia hora diária a folhear um livro têm menos 17% de hipóteses de morrer nos 12 anos seguintes (a percentagem sobe proporcionalmente até aos 23%). Além de a leitura e a esperança de vida estarem estreitamente ligadas, há outros dados interessantes: as mulheres são mais saudáveis porque leem mais romances, desenvolvendo certas competências cognitivas, além do “desejo de viver mais”. Não sei de que é que estão à espera. Meia hora por dia. Qual ginásio, qual carapuça.

[Da coluna do CM]

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O caso iraquiano em Ponte de Sor. Ainda vai a meio.

por FJV, em 23.08.16

Espero estar enganado mas pode muito bem acontecer que o assunto dos filhos do embaixador do Iraque ainda vá a meio — e esteja, por agora, muito mal contado, e (como suspeito) logo a partir de Ponte de Sor. 

Entretanto, perto de uma discoteca da Póvoa de Lanhoso, um rapaz foi agredido com um taco de golfe por um bando de rapazolas; está no hospital, entre a vida e a morte – ainda ninguém se manifestou chocado, certamente porque os agressores eram minhotos e não iraquianos.

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Em defesa do burquíni, ou de como a devassidão chega por onde menos se espera.

por FJV, em 22.08.16

Admito a tese de que se trata de um instrumento de opressão das mulheres pelo Islão, mas, pessoalmente, gosto do burquíni. Lamento informar, mas também gosto dos velhos e saudosos maillots, fato de banho feminino de uma só peça. Sou um tarado. Posso imaginar a curiosidade que existia, logo a seguir à II Guerra (quando o suíço Louis Rénard inventou o biquíni), acerca do corpo feminino e, sobretudo, do de Brigitte Bardot. Mas o mundo mudou. Roland Barthes teorizou, muito apropriadamente, sobre a «fenda erótica» – a intermitência, o espaço entre a revelação e a ocultação, a pequena suspeita –, que invoco em minha defesa, até porque Barthes era insuspeito de devassidão heterossexual. Hoje, quando qualquer dama posa nua para as gazetas (até a mulher de Donald Trump), o burquíni, humedecido pela água salgada das praias, escondendo as divinas imperfeições mas suscitando a imaginação e os seus maravilhosos pecados, intensifica a dimensão erótica do verão – assim o saibamos receber sem deixar que os imãs mais hirsutos e as escolas de jurisprudência islâmica suspeitem que o aprecio desta forma lasciva.

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. Fosgluten e Xanax.

por FJV, em 21.08.16

A questão é esta: depois do jogo com a Roma percebemos que aquilo que o FC Porto tem de melhor, a nível de Champions, é a app para telemóvel, que funciona muito bem e até está bem escrita. Em termos futebolísticos, o desnível foi enorme – a começar pelo desnível emocional, compensado pelo facto de a Roma ter jogado com 10. Compreende-se a coisa, depois de três épocas de desleixo e Xanax, mas é preciso fazer mais (por exemplo, não sei o que fez Evandro melhor do que faria Ruben Neves naquela fase, mas sei que seria importante ter entrado Ruben).

Quanto ao jogo no Dragão contra o Estoril, o seguinte: o Sporting contrata fulano, o Benfica fica com sicrano, e o FC Porto mantém uma prateleira à espera de 31 de agosto sem entretanto ter alguém para acompanhar André Silva, André André, Ruben Neves e outros membros da família portista que entretanto apareceram, como Otávio ou Layún), salvo a contratação do namorado de Shana Sonck que, muito avisadamente, afinal não vai jogar.

Depois, desacertos (já para não falar da «ineficácia ofensiva», quer dizer, ter feito 25 remates nas estatísticas e um golo na vida real, a par de 66 ataques e de 66% de posse de bola). Ontem, ao minuto 80 – por exemplo – Herrera (deve ter sido o jogador que mais bolas perdeu a meio campo) decidiu jogar flipers: uma bola servida para a cabeça e o mexicano, um dos jogadores menos bonitos jamais nascido em Tijuana, limitou-se a não mexer um músculo que fosse, esperando que a bola fizesse tabela no occipital e ludibriasse o guarda-redes Moreira. Ao minuto 85, Sérgio Oliveira fez quase tudo (o que, no caso de Sérgio Oliveira, é um elogio enorme), fintou, ficou diante da baliza – e passou para que Layún se ocupasse da bola (o que ele fez, pacientemente, perdendo-a para um lateral do Estoril, embora se reabilitasse na jogada seguinte). 

Sei que estamos no princípio (ah, quem não gosta de usar esta frase?), mas reforcei a minha dose de Xanax, relembrando que, no final do jogo com a Roma, só André Silva teve coragem de dizer o essencial: não estamos nada contentes.

De resto, para que não digam que tenho mau ganhar, relembro que houve um penálti não assinalado contra o Estoril, logo no início, com falta sobre Varela (jogou tão atabalhoado que até parecia vestido de burqha). A prova disso? Luís Freitas Lobo desvalorizou a coisa dizendo que «há umas mãos nas costas de Varela que podem ter condicionado a sua acção naquele momento». É um eufemismo como há muito tempo não ouvia, mas que serve para imaginar que os árbitros fazem apostas (como faziam na época passada) sobre quantos penáltis deixam por marcar a favor do FC Porto.

 

Foto ©Manuel Araújo | Record.

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Dilma errou, Lula errou. Amor ardente, de qualquer modo. Uma lista de azares do lulismo.

por FJV, em 18.08.16

Dilma Rousseff, a presidente que não conseguia juntar um sujeito e um predicado e colocar ambos em concordância com um complemento directo (e que pronunciou esta nobre pérola, «todo mundo pode cometer corrupção») diz que, afinal, errou ao ter escolhido Michel Temer para vice na chapa eleitoral. Ai dela, Dilma. Não é a pior, valha a verdade. A esta hora, também Lula deve pensar que errou ao escolher José Dirceu como ministro da Casa Civil, porque, ai dele, foi preso por corrupção. Lula errou também ao ter permitido que José Genoíno assumisse a presidência do PT porque, ai dele, foi detido e condenado por corrupção. Lula também errou ao escolher Marcos Valério como tesoureiro do partido porque, ai dele, foi preso por corrupção. Lula errou ao aliar-se aos radicais evangélicos porque percebeu que estava perdido quando o bispo Edir Macedo, finalmente, não lhe atendia os telefonemas (já tinha tido a prova de que não valia a pena espanejar o chão evangélico porque tinha escolhido José Alencar como vice da sua chapa). Ai dele, que errou ao ter escolhido os seus filhos, sob quem recaem suspeitas e processos de corrupção e de favorecimento ilícito em posse de bens estatais, para cuja atribuição ele concorreu. Errou porque foi apenas mansamente racista nos seus insultos contra Francisco Barbosa, o presidente do STF, que condenou a canalha do mensalão. Também errou quando tentou expulsar do país o correspondente do NYT, uma coisa que nem a ditadura militar conseguiu, ai dele. Também errou quando deixou que o então presidente do PT (que ele, Lula, tinha nomeado) escolhesse aqueles funcionários que foram capturados num aeroporto «com dólares na cueca». Sim, Dilma errou ao escolher Temer como vice, porque não lhe bastava – como não bastou a Lula – ter o PP como vice aliado; precisava de comprar o partidão do regime, o PMDB, como sempre rebolou os olhos, em delírio, de cada vez que fazia alianças com Paulo Maluf (dá para acreditar, Lula a beijar Maluf na boca?) ou recebia o apoio de Delfim Netto (esse, Delfim Netto, esse, o ideólogo da economia do regime militar)? Não sei se Dilma também errou quando mandou a sua tropa (a CUT, o MST, por aí fora) invadir a rua para impedir que leis fossem aprovadas e, de caminho, queimassem jornais e revistas desafectas, mas deve ter errado quando, com o seu português maravilhoso (ah, ela tem esra frase gloriosa: «Por isso que eu me comprometo a trabalhar diuturna e nocturnamente»), enquanto ministra de Lula, ela não sabia de nada. Tanto assim que, depois de Palocci, o ministro da Fazenda de Lula, ter sido envolvido no mensalão e declarado culpado de corrupção na prefeitura de Ribeirão Preto, Dilma errou também – ai dela – ao nomear ministro da Casa Civil, quem?, António Palocci, esse mesmo, que teria de abandonar o cargo por ser suspeito de «improbidade administrativa» e, depois, condenado por esse e outros crimes, desde recebimento ilegal de fundos em dinheiro vivo até falsificação de aquisição de molho de tomate na prefeitura de Ribeirão Preto. Lula também errou, ai dele, por não ter insistido no esclarecimento das circunstâncias em que foi assassinado o prefeito de Santo André, Celso Daniel, nem as sete testemunhas do caso, todas relacionadas com o PT. Pobre Dilma, que errou ao escolher Michel Temer, e que, tentando um golpe, errou querendo nomear Lula como ministro para este escapar ao inquérito legal em curso.  Erros de ambos, Dilma e Lula, amor ardente. A lista de azares é longa, mas escusam de mandar cançonetas sobre «o golpe» e de chorar em público. Aliás, Dilma e o PT patrocinaram, directa ou indirectamente cerca 50 pedidos de impeachment, a maior parte deles contra Fernando Henrique Cardoso (e alguns tão mal instruídos pelo segundo ministro da Casa Civil de Dilma, Jacques Wagner, o campeão das ilegalidades enquanto governador da Bahia, ou por Tarso Genro – o mais ridículo, a fazer jus ao bigode – e Genoíno, o campeão das virtudes que liderou parte substancial do mensalão), mas também contra Collor e Itamar. Não venham com cançonetas sobre «o golpe», sobretudo depois de quase destruirem o Brasil.

 

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A lei.

por FJV, em 18.08.16

Uma das coisas que se aprende de início, mesmo quando não se estudam as elevadas cordilheiras do Direito, é que as leis são universais e não podem ser feitas «à medida» de interesses particulares. Ditosa pátria que tanto respeita os princípios: «[…] a intenção esbarrou na intransigência do BCE e, mais importante, da lei portuguesa.» Logo, «o Governo ainda não desistiu da nomeação destes nomes e até admite mudar a lei para que possa fazer as escolhas que pretende» para o banco que já tinha alterado a lei sobre o tecto do salário dos gestores. As leis são boas consoante quem as aproveita.

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Repetição, 1.

por FJV, em 16.08.16

Uma interessante força de bloqueio permite-se atacar o Estado. Quem se mete com ele, leva. Aguardemos.

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Patty Hearst: uma lavagem ao cérebro já esquecida.

por FJV, em 16.08.16

A história de Patty Hearst contada no livro de Jeffrey Toobin, American Heiress. The Wild Saga of the Kidnapping, Crimes and Trial of Patty Hearst.

É curioso como várias Patty Hearst zumbem à nossa volta.

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Princípios básicos de design gráfico.

por FJV, em 16.08.16

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A saga da sociedade soviética no regime estalinista

por FJV, em 16.08.16

José Milhazes sobre Victor Serge

Frequentemente, a intelectualidade comunista e de alguns setores de esquerda justificavam o seu apoio ao regime soviético, alegando desconhecer os crimes perpetrados por José Estaline e seus carrascos, mas tratava-se de uma justificação esfarrapada. Só não sabiam isso porque não procuravam saber.

 

O livro “O Caso do Camarada Tulaev”, do escritor belgo-russo Victor Serge, foi escrito e editado no Ocidente no início dos anos 40, não sendo o primeiro onde este autor, então figura proeminente do movimento comunista internacional, denunciava a criação do aparelho burocrático e repressivo que José Estaline criava na URSS. Esta sua obra apenas foi publicada na Rússia em 1992, após a queda da União Soviética.

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Avisos.

por FJV, em 15.08.16

«O que é de esquerda é bom. O que é de direita é mau. E não há mais espaço para argumentação. O Partido Socialista tem-se deixado contaminar por este palavreado.» António Barreto.

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Leopoldo López, seja quem fores.

por FJV, em 15.08.16

Não é apenas o caso de Guillermo Fariñas, escandaloso – e silenciado na nossa imprensa e na televisão, que fogueteou, eufórica, com o nonagenário Fidel Castro, certamente festejado como o campeão das liberdades. Se isto não fosse uma vergonha – ver as autoridades e os seus companheiros, lá entre eles, a babarem-se de felicidade com a longevidade do ditador e a enviarem telegramas –, acresce que a condenação de Leopoldo López passa no meio do Verão como um entretenimento longínquo, na Venezuela. Vejam a constelação: para quê protestar contra a condenação ilegal de López, o líder da facção mais direitista, pró-EUA e golpista da Venezuela? Pois se ele é direitista, roubou o petróleo, esvaziou os supermercados e se chama Leopoldo. Quem criou o bom selvagem não pode deixar morrer o bom revolucionário.

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O turista, manancial de dados

por FJV, em 15.08.16

Um turista, um grupo de turistas, um grupo de viajantes, entram em Portugal por terra, mar e ar. Vêm com a disposição, acertadíssima, de passar uns dias de férias num país bom de legumes, robalos e raios ultravioleta – e a polícia manda-os fazer fila a fim de responderem a um inquérito de resposta obrigatória a fim de «estimar o número de residentes e de não residentes que atravessam as principais fronteiras nacionais, conhecer o perfil dos viajantes e suas deslocações, bem como obter uma estrutura de repartição de gastos turísticos internacionais por principais rubricas de despesa». Além disso, pede-se o nome, escolaridade e informação sobre o quanto gastou ou vai gastar em solo nacional. Compreende-se a necessidade de obter esses dados, e o facto de uma brigada da GNR sempre emprestar mais legalidade à operação, mas eu pensava bem antes de vir cá outra vez. 

 

Ver este texto de José Meireles Graça sobre o assunto — e a ilegalidade da acção da GNR:

...para saber de onde vimos, para onde vamos, quanto gastamos, que habilitações literárias têm exactamente os passageiros, e mais quanta pergunta indiscreta um inútil sentado num gabinete em Lisboa com ar condicionado congeminou para nos lixar a existência, e justificar a dele?

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Longe de Manaus, o trailer sérvio.

por FJV, em 09.08.16

Não há tradução, eu sei – mas o Jaime Ramos tem um ar brutal. Cinco estrelas.

 

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Teoria e prática de jornalismo.

por FJV, em 07.08.16

Não é preciso ler livros de espionagem para perceber como se faz contra-informação, mas é interessante ver a nota da direção do JN queixando-se de que os seus jornalistas tinham sido deliberadamente enganados por uma fonte do governo que visava desacreditar um juiz. Mais: o JN alterou a sua primeira página com base numa informação que não foi confirmada pelos jornalistas. Roma locuta est, causa finita est. O governo falou, para quê confirmar?

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Convites para a bola.

por FJV, em 07.08.16

Quando, em tempos, exerci funções governativas, fui ao futebol – e, com três amigos, assisti ao jogo numa bancada do estádio. O clube ficou ligeiramente melindrado por não ter aceite ficar no camarote presidencial (o presidente limitou-se a murmurar um «eu compreendo» e senti-me agradavelmente descartado), o lugar onde os dirigentes exibem para a televisão os membros do governo, presidentes de câmara, detentores de cargos públicos, ex-ministros e ex-presidentes de seja o que for. Um dos espectáculos mais deprimentes é o de ver essa cena: cada um dos convidados fica na lapela do presidente do clube como um triunfo e um trunfo. Faz isto muito mal ao mundo? Não, de facto – mas é um fardo. Ainda por cima «no mundo do futebol», onde os limites do direito civil se cruzam com o penal.

É costume as grandes empresas adquirirem camarotes nos estádios de futebol – e organizarem as suas listas de convidados. Por várias vezes, membros do governo, deputados, membros da administração pública assistem ali aos jogos; alguns, lá atrás, escondidos, a bebericar. São convidados porque ocupam essas funções e desempenham esses cargos. Umas semanas depois de abandonarem funções e cargos deixam de aparecer nessas listas. Normal. Por isso, gente de juízo (que percebe o quanto é transitória a pequena e imbecil glória do poder) deve recusar esses convites. O que é difícil; o mundo do futebol é feito de proximidade com o poder do futebol. Fulano vai ao futebol e faz gala em ficar perto desse poder, ser convidado para um camarote, petiscar no intervalo, privar com os segredos do poder, sentir o cotovelo do presidente do clube a tocar o seu, ficar com o telefone de um diretor que há de arranjar bilhetes mais tarde, ou um lugar no jantar do clube, ou ser convidado para uma final ou eliminatória europeia com viagem e hotel pagos. Sem uma sombra de juízo, aceitam – quer o convite venha do clube, de uma empresa associada, de um patrocinador ou de um empresário da bola: é uma espécie de sinal da ascensão no edifício social. Sim, o secretário de Estado do desporto fica alojado no camarote presidencial, de visita ao seu mundo; mas o secretário de Estado das pescas? O argumento da «adequação social» parece-me estapafúrdio. 

Tal como jornalistas que passam um ano à espera de serem convidados para o lançamento de um automóvel na estepe da Mongólia: viagens, hotéis, roupas, restaurantes, gadgets. Qual deles terá coragem para dizer que a caixa de velocidades do novo carro é, basicamente, uma merda?

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Ninguém entende o Estado, ai dele.

por FJV, em 04.08.16

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Não entendo os protestos contra a fiscalização das praias para verificar se os vendedores de “bolas de Berlim” passam a respetiva fatura – nem o dos cínicos que se riem da intenção de o Estado penalizar os imóveis que recebem mais luz solar, ou têm vista sobre a polinização dos jardins. O dever do Estado é o de ter o seu rebanho vigiado. E o seu rebanho são os contribuintes, que devem ser apascentados com magnanimidade mas rédea curta. Os contribuintes que fazem sexo numa praia, altas horas, deverão ser obrigados pelos fiscais a apresentar a fatura do preservativo, caso usem (se não usarem devem fazer prova, à vista); de contrário, coito interrompido. E mesmo no aconchego do lar, o fisco tem uma palavra a dizer sobre os delírios privados. É isto difícil? Talvez, porque os portugueses são manhosos e comem croquetes não faturados. O que se resolveria se cada cidadão estivesse acompanhado, durante boa parte do dia, e da noite, por um fiscal do Estado – ele controlaria tudo (ah, que base de dados!) e cobraria na hora. Ou o contribuinte apresenta a fatura – ou o fiscal leva a cabeça debaixo do braço.

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Pequenos favores, grandes esquecimentos

por FJV, em 04.08.16

O eurodeputado Francisco Assis pediu à vice-presidente da União Europeia para os Negócios Estrangeiros que obtivesse informações sobre o dissidente cubano Guillermo Fariñas, em greve de fome e risco de vida, o que foi visto como uma excentricidade de Assis – mas não é. Dois factos: Fariñas foi distinguido em há seis anos com o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu; depois do festival de reabertura de relações com os EUA, o regime cubano endureceu a perseguição a opositores (em 2015 houve 8.600 prisões por motivos políticos; até agora, em 2016, já se contam mais de 6.700), o que dá bem a ideia de como a Cuba dos Castro aproveitou a boleia de Obama. Terceiro facto, em suplemento: em dezembro do ano passado, a Assembleia da República recusou-se a receber Fariñas, então de visita a Portugal, quem sabe se depois de pressões da embaixada cubana. Não se viu nenhum intelectual ou “ativista” profissional protestar contra esta indignidade. Pelo contrário: os mesmos que condenaram o grande Guillermo Cabrera Infante ao ostracismo durante anos, festejam os Castro, e ignoram vergonhosamente Fariñas.

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O mundo educado e Harry Potter no Porto.

por FJV, em 01.08.16

O “mundo educado” detesta a ideia, mas a verdade é que o lançamento mundial de Harry Potter and the Cursed Child (que ocorreu no Porto, na Livraria Lello, na noite de sábado para domingo) foi uma festa para milhares de leitores. Quinze mil pessoas na rua. Uma fila que começou na tarde de sexta-feira. Seis mil livros vendidos nessa noite. Nunca me passaria pela cabeça defender os “méritos literários” da obra de J.K. Rowling; não sou fã de bruxarias, mas os três últimos livros (da série de sete) são melhores do que se diz. E comove-me a tribo de fãs, mais do que ‘groupies’ de hip-hop aos pulinhos; aliás, se pudesse, jogaria Quidditch e guardaria uma lista de feitiços para irritar a academia. Desde o início que o “mundo educado” olhou Harry Potter com o desprezo que se esperava: a história é uma excrescência sem profundidade, J.K. Rowling uma oportunista vulgar e os seus leitores semi-analfabetos. Nenhuma das coisas é verdadeira; Rowling é uma mulher amável e humilde, que quis escrever uma série popular e bem humorada para leitores jovens. Tudo resultou. Exceto o “mundo educado”, como de costume.

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Uma última oportunidade à Europa.

por FJV, em 31.07.16

Por que somos nós europeus? Porque somos herdeiros de Shakespeare, da Bíblia, de Bach, de Cervantes, de Mozart, de Goethe, de Darwin, de Newton, de Michelangelo, de Voltaire, de DaVinci. Porque somos herdeiros da ideia de tolerância. Porque separámos Igreja e Estado, Religião e Política. Porque somos também herdeiros de Giordano Bruno, queimado vivo no Campo de Fiori. E de Galileu. E somos igualmente herdeiros da minissaia de Mary Quant, do rock dos Rolling Stones e das dúvidas de Espinosa, expulso de Portugal. Somos também herdeiros de Lutero e de Santo Agostinho. E de Tolstoi, Turgueniev ou Cesário Verde. Somos herdeiros da prosa de Flaubert e da poesia de Yeats. E somos europeus porque somos judeus, protestantes ou agnósticos, porque lemos o Corão ou os Vedas hindus, porque podemos ser budistas, ou católicos, ou acreditar em bruxas. Somos também herdeiros do nosso fardo e da nossa culpa. Isso não faz de nós pessoas especiais. Mas é essa herança que temos de defender quando a barbárie chega à nossa porta, entra nas nossas fronteiras e degola pessoas como nós. E não devemos ter vergonha dessa herança.

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Um preço a pagar

por FJV, em 30.07.16

Durante anos, e de cada vez que explodia um autocarro em Israel, de cada vez que um restaurante era varrido à bomba em Jerusalém, de cada vez que um mercado ia pelos ares em Telavive, a “boa consciência europeia” reagia começando pelo fim – culpando as vítimas, por existirem, e elogiando o braço armado do terrorismo, um alfobre de heróis medonhos. O espectáculo foi tão degradante que incluiu as grotescas declarações antissemitas de Ken Livingstone, o ‘mayor’ esquerdista de Londres (sobre o “trabalho inacabado de Hitler”), e da mulher de Tony Blair, que declarava “compreender”, ai dela, os bombistas suicidas que se faziam explodir em escolas ou ruas da única democracia do Médio Oriente. Hoje, essa mesma Europa fica surpreendida com os atentados de Paris ou de Nice, e com a barbárie que vem nas fotografias de Raqqa, a sede do Estado Islâmico. Com o  seu desinteresse pelas próprias raízes, e com a sua desistência para os grandes combates e os seus valores, a Europa corre o risco de se transformar no palco do terrorismo desta década. Talvez então consiga, finalmente, compreender Israel.

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Roger Scruton sobre o Brexit

por FJV, em 15.07.16

 

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Férias.

por FJV, em 15.07.16

Uma das coisas que mais me diverte, ao ler os jornais, são as “descobertas” que as várias ciências decretam para a nossa vida. Com tudo isso, ainda não sei se o café está interdito a pessoas com problemas cardíacos ou se o colesterol aumenta de cada vez que como um ovo. Mas é no domínio das “ciências do comportamento” que a especulação me diverte realmente. Por exemplo: em setembro, teremos artigos sobre o stresse pré-escolar, tal como em Maio tivemos manifestos sobre os malefícios dos exames. Uma das “descobertas” mais recentes tem a ver com o planeamento das férias das crianças. Durante décadas fomos industriados a fazer planos rigorosos para a “ocupação de tempos livres”, o que sempre me pareceu absurdo – porque o tempo livre não me parece que sirva para ser ocupado, mas para ser livre. A nova tendência, segundo percebi, é a de deixar que as crianças “se aborreçam” um pouco durante as férias a fim de usarem a sua criatividade e não estarem sempre sujeitas a programas que cansam toda a gente. Era o que se fazia quando as férias eram férias e os profissionais da pedagogia não tinham via livre.

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Jogar à bola.

por FJV, em 12.07.16

Uma vitória no futebol não é a vitória do futebol – tal como o futebol não é apenas futebol, jogo de bola. O que ensina o futebol? Liderança e concentração; estratégia e sacrifício; gosto pelo talento e inteligência tática; observação e reclusão. Não é por acaso que os grandes livros atuais sobre futebol são usados como instrumentos de “políticas de liderança” (de Alex Ferguson a Jorge Valdano, para não irmos mais longe – Valdano, aliás, é um grande autor, o mais imitado hoje em dia), mais do que “lições sobre o sucesso” ou resumos de vitórias. Há no futebol, além disso, um certo gosto pela tragédia; uma parte do jogo de anteontem foi retirada a uma peça de Eurípedes sobre a necessidade de heróis e acerca deles. Nem faltou uma espécie de borboleta na face de Ronaldo, como uma predição da Úrsula de ‘Cem Anos de Solidão’. Nem uma ressurreição (duas, contando com a de Eder) e um combatente tão estóico e discreto como Patrício (por vezes, um futebolista é também um dramaturgo em ação). De certa maneira, Portugal foi como Prometeu, roubando a bola aos deuses – para jogar no meio do nosso bairro.

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John Le Carré.

por FJV, em 08.07.16

Estreou ontem Um Traidor dos Nossos, um filme de Susanna White a partir do notável livro de John Le Carré, com Ewan McGregor a fingir de inocente e Damian Lewis (um shakespeareano que chegou à série Homeland), Stellan Skarsgård no papel de mafioso russo, e uma Naomie Harris que a beleza nunca atraiçoa. Convido-vos a ver o filme, mesmo que as críticas cinéfilas sejam “adversativas” (sinceramente, é uma boa razão). A história de ‘Um Traidor dos Nossos’ é demasiado atual para a deixarmos escapar – trata de como a máfia russa e o seu Estado minam a City londrina e a própria democracia. O livro é um pequeno prodígio e faz parte da sequência de “livros pessismistas” de Le Carré (de O Fiel Jardineiro a Amigos Até ao Fim ou Uma Verdade Incómoda) – é ele próprio um guião cinematográfico que dispensaria algum ‘kitsch’ que o filme transporta. São assim os seus livros, para nosso deleite: argumentos de uma intensidade bravíssima, com personagens perturbadoras, sem medo de interpretarem histórias amargas ou heróis destinados a serem ignorados. Leiam o livro, não percam a magia no original.

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Raymond Chandler, já adulto.

por FJV, em 06.07.16

Amanhã chega às livrarias a reedição de um dos títulos mais emblemáticos da coleção Vampiro – mas, valha a verdade, trata-se de um livro sem o qual uma biblioteca da literatura policial fica incompleta. O Imenso Adeus, de Raymond Chandler, é o mais adulto (e o penúltimo) dos romances de Philip Marlowe, o detetive para quem “os problemas são a sua profissão”. Sem Marlowe (e as suas representações no cinema – Bogart, Mitchum, Montgomery, Gould – e na literatura) não seríamos quem somos. Ele inventou a melancolia na literatura policial. Dez anos antes Maigret era melancólico, sim – mas não sabia. Graças a Chandler e a livros como À Beira do Abismo, A Dama do Lago ou Perdeu-se uma Mulher, o policial deixou de ser um gueto e foi finalmente admitido no anfiteatro da literatura; mas é O Imenso Adeus que completa a revolução com uma história sobre a amizade e a confiança (entre Marlowe e Lennox), o amor (as passagens sobre Linda Loring devem ser sublinhadas a ouro), os escritores, o álcool, a honra, a vida perdida sem regresso. Sem Marlowe não seríamos como somos, tão imperfeitos.

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O biquíni, 70 anos, uma velharia.

por FJV, em 05.07.16

O que eu sei sobre Mary Quant sabia nesta página de jornal, e havia de bastar: escreveria que popularizou e institucionalizou a minissaia, libertando pelo menos vinte centímetros das pernas das senhoras; depois, contaria várias histórias que ocuparam o cinema, a literatura e o jornalismo da época. Outra data: vinte anos antes da minissaia vestida por Twiggy, a mãe do suíço Louis Réard, um engenheiro de máquinas, deixou-lhe em herança uma fábrica de lingerie feminina. O que há de comum entre o desenho industrial e os brocados, a seda ou o algodão sensuais? Quase tudo, daí em diante; tanto que, há exatamente 70 anos, a 5 de julho de 1946, um ano depois do fim da II Guerra, Réard apresentou ao mundo um dos grandes símbolos do otimismo filosófico e existencial da época: o biquíni, fato de banho de duas peças. Na altura, tratava-se de um “biquíni gola alta”, evidentemente, mas só nos anos sessenta (quando Mary Quant já exorbitava), e depois do seu segundo casamento, a devassa Jayne Mansfield desceu a gola dois centímetros abaixo do umbigo. Daí em diante até à ‘burqha’, foi o que se sabe.

 

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100 anos de beleza.

por FJV, em 01.07.16

É provável que Olivia De Havilland não desse uma boa Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) em E Tudo o Vento Levou; mas é uma maravilhosa Melanie Hamilton; o timbre da sua voz é terno, digno, amável, destinado ao drama (ao de Lágrimas de Mãe, por exemplo). E a sua beleza brilha alto em A Caminho de Santa Fé ao lado de Errol Flynn (com quem estaria também em Capitão Blood, Robin dos Bosques, A Carga da Brigada Ligeira, Isabel de Inglaterra, entre outros), e em quase todos os filmes de Michael Curtiz e Raoul Walsh – ou interpretando o papel feminino principal de Sonho de uma Noite de Verão, Hermia (ao lado de Cagney, Mickey Rooney ou Dick Powell), como recompensa do seu grande conhecimento de Shakespeare. Contracenou com todos os grandes atores do seu tempo, antes e depois dos Óscares que a premiaram; será sempre o lado bom nos filmes mais negros (como John Huston o previu em This is Our Life, com Bette Davis). Hoje, Olivia De Havilland festeja os 100 anos. Inglesa, nasceu em Tóquio a 1 de julho de 1916. Um século de beleza que se assinala hoje.

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Os velhos, todos nós.

por FJV, em 30.06.16

O parlamento português – que criminalizou o abandono de animais (6 meses de cadeia) – impediu a aprovação de uma lei que puniria o abandono de idosos, com o original argumento de que a medida atinge os mais pobres (o que não é rigorosamente verdade). Todos os anos mais de dois mil velhos franceses são abandonados no verão para morrerem enquanto as suas famílias estão de férias na praia. Anteontem, alguns militantes do Podemos, a agremiação espanhola dos amigos de Pablo Iglésias, anunciavam no Twitter que a esperança da esquerda espanhola era morrerem “todos os velhos que ainda votam”, ou “quando morrerem todos os velhos então falaremos de mudança”. Ontem, o dr. Durão Barroso (uma pessoa que já há muito tempo não está a ir para nova) acusou os velhos ingleses (retrógrados e sem educação) de serem maus eleitores, contra a opinião da “franja mais jovem, urbana e moderna”. O problema é que se tivessem vingado as ideias de Durão Barroso quando ele era jovem e maoista, provavelmente nunca chegaríamos a velhos e acabaríamos fuzilados na Revolução Cultural. Estamos a viver tempos interessantes.

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Ler, o silêncio dos livros.

por FJV, em 28.06.16

A minha primeira surpresa, quando cheguei à universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, foi o horário das bibliotecas: algumas delas estavam abertas 24 horas – e era possível (e em certos casos necessário) reservar lugar para a noitada de trabalho. Recordei a frase de Einstein sobre o assunto: “A única coisa que é absolutamente necessário saber é a localização de uma biblioteca.” Depois da revolução feliz que foi a criação da rede de bibliotecas públicas – e que mudou verdadeiramente o país – tenho trabalhado com o grupo das bibliotecas escolares portuguesas, um sonho tornado possível com Teresa Calçada – e a experiência é enternecedora, mostrando gente cheia de entusiasmo que sabe que, hoje, as bibliotecas não são depósitos de livros, mas também lugares de encontro, de estudo, de perturbação ou até isolamento. De vez em quando vou a uma dessas bibliotecas públicas perto de casa, aberta aos fins de semana. Oiço o silêncio dos livros, que murmuram sem cessar. Risos no jardim. A felicidade de estar perto de gente que lê e se perde a despropósito, sem razões nem método.

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