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10 meios rápidos de analisar racismo e sexismo em livros de crianças

por FJV, em 19.02.18

Screen Shot 2018-02-18 at 22.53.01.png O departamento de educação do estado da Califórnia (uma espécie de Ministério da Educação local) exarou três páginas compactas, que são um resumo de uma brochura mais vasta, intitulada 10 meios rápidos de analisar racismo e sexismo em livros de crianças. É um dos documentos mais estapafúrdios que já vi – mas alerto para a sua próxima aplicação em Portugal. O folheto recomenda que os pais tenham em atenção a cor do cabelo dos bonecos, a forma como vestem, se utilizam sotaques locais, se os rapazes estão a brincar com carros, se as meninas estão vestidas de cores “suaves”, se as personagens identificadas com “minorias” desempenham papéis secundários, se eventuais diferenças de classe social são ou não apresentadas como injustiças, se a opinião subjetiva do autor parece ser racista ou sexista, etc., etc., etc. A ideia é que os pais, os editores, os jornalistas, os professores, passem todos os livros a pente fino e, provavelmente, queimem os maus exemplos. Eis os exemplos que vêm de uma sociedade praticamente analfabeta e infantilizada como a americana. Em breve isto chegará aqui, como os donuts.

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O cantinho do hooligan. Saúde mental.

por FJV, em 18.02.18

Depois de ver o presidente do Benfica a gritar palavrões numa assembleia do clube, não esperava que o ainda presidente do Sporting conseguisse fazer tão mal ao clube do meu pai e de um dos meus filhos — e de muitos amigos meus. E, sim, Pinto da Costa faz o papel de cavalheiro ao pé desta gente.

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Coisas que se detestam.

por FJV, em 18.02.18

Sim, as pessoas que publicam fotos de gatinhos e de crianças. Pessoas que nos corrigem quando dizemos inconveniências no meio de uma piada. Pessoas que odeiam a chuva. Pessoas que entregam a declaração de impostos sempre um mês antes do prazo. E que sabem tudo sobre os novos motores dos carros de que tu não sabes sequer a marca. Pessoas que sabem que a cerveja fermenta no estômago. Pessoas que sabem que o glúten e tal. Coisas que te acontecem com pessoas que prezam muito os direitos dos animais e sabem a quantidade de gás metano produzida pelas vacas do concelho de Montalegre. Gatinhos e crianças, especialmente. Eu não gosto especialmente de crianças, limito-me a esperar que elas cresçam. E gosto muito de gatos quando vêm, devagar, e se encostam à perna. Não faço nada, espero que subam pelas pernas e então toco-lhes no lombo, devagar. Eles fazem-nos o favor de deixarem que gostemos deles. Ao contrário das pessoas que são espertas e inteligentes e se alimentam de bulgur com iogurte magro e arandos, seja lá o que isso for. O mundo deixou de ser simples.

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O país é deles e eles são 323 milhões.

por FJV, em 16.02.18

Este um texto de que poderei arrepender-me, escrito na sequência do tiroteio na Florida, no qual foram mortas 17 pessoas e feridas 15. Acontece que nós – europeus, gente que pega em armas para caçar ou na recruta – não podemos entrar nos EUA e, embora nos apeteça, dar lições de moral sobre o porte de armas. O país é deles e eles são 323 milhões. Mas o Washington Post calcula que nos últimos anos tenham morrido 1100 pessoas em tiroteios desta natureza, o que é uma estatística baixa, mas revela a quantidade de armas que anda à solta e entregue a pessoas que não sabem manejar uma colher de sobremesa – e que têm atacado sobretudo em escolas e lugares de culto religioso. No ano passado, em Las Vegas, durante um concerto de música country foram mortas 59 pessoas e feridas 420, além das 27 numa igreja Batista do Texas. Os EUA deviam pagar uma taxa moral sobre a exportação destas imagens degradantes. Na verdade, à distância, não é um país apetecível. Hoje passam 180 anos sobre o nascimento de Henry Adams, um dos grandes desenhadores, arquitectos e pensadores da América. Ele não tem nada a ver com esta desgraça.

[Da coluna no CM]

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Richard Feynmann (1918-1988). Trinta anos.

por FJV, em 15.02.18

Em agosto de 2009, na Pshysics World, 130 cientistas de todo o mundo escolheram os dez físicos mais importantes da história. Estavam lá Isaac Newton e Albert Einstein, naturalmente, mas também Niels Bohr, Heisenberg ou Galileo Galilei – e Richard Feynmann (1918-1988), novaiorquino, pioneiro da eletrodinâmica quântica e dos estudos sobre a superfluidez do hélio, criador do conceito de nanotecnologia, maníaco do cálculo matemático, exímio tocador de bateria, aprendiz de samba (desfilou e tudo), frequentador de bares de strip-tease, o célebre investigador que determinou as causas do acidente do Challenger (1986), utilizador de marijuana e cetamina, prémio Nobel da Física em 1965, Prémio Einstein em 1954, e autor de livros que despertam o interesse pela ciência em qualquer alma: Deve estar a brincar, Sr. Feynman!, QED, Uma Tarde com o Sr. Feynmann, O Significado de Tudo ou O Prazer da Descoberta, todos publicados pela Gradiva. Morreu há exatamente 30 anos. Era um génio maravilhoso e divertido: “Não gostaria de morrer duas vezes. É tão aborrecido.” Leiam os seus livros – ele morreu há 30 anos.

[Da coluna no CM]

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O cantinho do hooligan. Da natureza da goleada.

por FJV, em 15.02.18

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Há uma coisa pior do que o Carnaval.

por FJV, em 14.02.18

O meu amigo Mário Sabino (autor do belo romance O Vício do Amor e do  mais famoso O Dia Que Matei Meu Pai), paulista de sempre mas de costeleta carioca, usa uma boa frase para esta ocasião: “Tem coisa mais insuportável do que o carnaval? Tem. O próximo.” Vivesse Mário Sabino em Portugal, e riria do assunto, longe do batuque e das ruas suadas do Rio, Salvador ou Recife: não há coisa mais absurda do que o carnaval lusitano – ele traduz uma incompatibilidade genérica dos portugueses com o país: gostam de foliar, mas na verdade preferiam outro país. Não há inadequação mais profunda do que os desfiles lusitanos: biquínis em pleno inverno, carnes branquinhas – promissoras, vá lá – resistindo ao vento gelado da segunda semana de fevereiro, sambistas de empréstimo rodopiando. E gente feliz, é preciso dizer, esperando os desfiles e suportando o frio. Todos os anos acho absurdo, feio e despropositado o carnaval lusitano; e, no entanto, há nele uma réstia de admirável resistência, militando contra o inverno, fingindo aromas do trópico ou gingando sem arte nem talento. Até ao próximo.

[Da coluna no CM]

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A lógica da Amazon.

por FJV, em 13.02.18

A Amazon passa por ser uma livraria online que nunca deu lucros como livraria — mas enquanto algoritmo. Jeff Bezzos, o fundador, construiu uma base de dados de consumidores (um algoritmo), não para vender livros, mas para lhes vender tudo, de roupa a perfumes, carros a computadores, biscoitos ou panelas de cozinha. Mas os livros foram o aferidor do status de cada cliente, o fornecedor de dados sobre o comprador. Ter essa base de dados e negociar com ela é o verdadeiro negócio – os livros não lhe dão lucro. Tudo o resto já conhecemos: as condições de trabalho escravo, a construção de algoritmos de consumo, o cruzamento de dados com outras tecnológicas, as negociatas de bolsa. Ontem, depois de ter sabido que ia sair um novo livro sobre as condições de trabalho escravo nas tecnológicas, com especial relevo para a Amazon, fui procurar informações sobre ele. Sai a 1 de março. Qual o site onde há mais informações? No da Amazon, claro – que ganhará dinheiro a vender um livro contra a Amazon, tal como o Facebook o ganha de cada vez que há aumento de tráfego e de publicidade ou com campanhas contra o capitalismo global e o Facebook. Tudo lógico.

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Duas vitórias no alfarrabista.

por FJV, em 11.02.18

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Língua e raça.

por FJV, em 10.02.18

O povo não anda bom. Em Espanha, a pátria da maior meia dúzia de coisas mais estapafúrdias que conheço, uma deputada do Podemos (está nessa meia dúzia) declarou-se “porta-voza” do partido, em vez de “porta-voz”. Vai passar a haver “porta-vozes” e “porta-vozas”. Logo, a vice-secretária geral socialista correu a apoiá-la, porque “a linguagem evolui”, lembrando o caso de uma carinhosa ministra que se dirigiu à assistência de uma charla dividindo-a entre “membros e membras”, se bem que outra dirigente do partido (os exemplos são como as cerejas) já tivesse usado a expressão “jovens e jovenas”, distinguindo os “altos cargos” ocupados por homens e as “altas cargas” desempenhados por mulheres. Adoro Espanha, faz-me rir. Já os EUA deixam-me imobilizado de choque e pavor: Ali Michael, uma loiríssima professora da Universidade da Pensilvânia declarou que jamais terá filhos só para não gerar mais gente branca: “Não gosto da minha ‘brancura’ (‘whiteness’), mas gosto ainda menos da dos outros. Não quero ter filhos biológicos para não propagar biologicamente os meus privilégios.” Bom fim de semana.

[Da coluna no CM]

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Um país adolescente.

por FJV, em 09.02.18

Coisas impopulares. Parece haver uma disputa no Parlamento acerca de uma proposta de lei do CDS para a criminalização do abandono voluntário de idosos, à qual a esquerda atribui propósitos perigosos, desde “uma profunda desumanidade” (a lei, não o abandono) até “hipocrisia”, passando por outros ditirambos da ordem. Basicamente, não se pode criminalizar quem abandona os idosos (as pessoas que antes conhecíamos por velhos) em hospitais, nas ruas ou em lares ilegais porque essa atitude, certamente malvada, se deve ao facto de as famílias não terem condições para albergá-los em suas casas. É compreensível e muito atendível. No entanto, dada a facilidade com que o mesmo parlamento aprovou idêntica lei acerca do abandono de animais, causa estranheza o tom da resposta dos partidos de esquerda. Se a lei proposta pelo CDS é iníqua e castigadora, o que propõem então as madamas e os cavalheiros, agora que estão na flor da idade? Que haja políticas sociais. Muito bem. Portanto, tudo certo que se abandonem os nossos velhos desde que haja políticas sociais num país cada vez mais adolescente.

[Da coluna no CM]

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Um lugar de onde não se excluem os que vivem com os outros.

por FJV, em 09.02.18

O que se passa na interessante (sem ironia) cabeça da hierarquia da igreja que, vivendo uma grande crise – relacionada com sexo –, vem recomendar abstinência sexual aos casais católicos recasados? A frase é comprida, mas está correta. E evoca o papa João Paulo II, o inspirador da diretiva. É certo que ela diz respeito apenas aos católicos e não aos que vivem fora desse círculo de giz que se apaga com bastante frequência – mas, num pontificado gerido por um cardeal “moderno”, “progressista” e “sorridente” (três tentações juntas), é interessante ver como a igreja aceita a missão de ser uma fábrica de pecados e contravenções que não têm a ver com a sua dimensão religiosa. Esta é a igreja moderna que também quer gerir a vida sexual dos seus crentes. Mais: a que aceita o infeliz jugo de apreciar o modo como os fieis vivem a sua vida íntima, em vez de iluminar a forma como interpretam a perpetuam a fé. Bento XVI, um homem mal querido, continua a escrever sobre essa lâmina poderosa que é a sua fé: fala da Casa onde se entra. Esse lugar de onde não se excluem os que vivem com os outros.

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Obras notáveis de voluntariado.

por FJV, em 08.02.18

Tomada de assalto pela geração do ‘lifestyle’, a imprensa bem educada não gosta das “imagens negativas do mundo” – e recusa-se a contar as suas histórias com medo do “neo-realismo”, que não acha compatível com a sua ideia de conforto. Infelizmente, o mundo não é um lugar perfeito e, de entre as suas várias iniciativas, há uma que precisamos de elogiar repetidamente ao Presidente da República: a atenção que ele presta e exige que prestemos aos sem-abrigo. Não se trata de apenas de compaixão (mas não viria mal ao mundo se também fosse), apenas de caridade ou solidariedade – por isso há obras notáveis de voluntariado como o Banco Alimentar, a Casa, a Crescer, a Sopa dos Pobres, a AMI, e outras que se dedicam a diminuir o sofrimento dos que nem sequer cabem nas estatísticas. Devido à “vaga de frio”, o Presidente lançou uma nova ofensiva, lembrando-nos os sem-abrigo e transportando-os para os ecrãs das televisões, bem como àqueles que dão parte do seu tempo a esse apoio anónimo. Num mundo que anda à caça do Euromilhões, é bom haver quem se lembre – e ajude com o que pode.

[Da coluna no CM]

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O país estaria, supostamente, transformado num icebergue.

por FJV, em 06.02.18

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 Ontem, de madrugada, arranquei a caminho do Norte. Durante uma, duas horas, fui bombardeado por quase todas as rádios, que previam uma espécie de catástrofe, ou seja, o congelamento coletivo acima do Tejo e a leste de Santarém, mais coisa, menos coisa. A viagem fez-se bem, não houve nevões nem vagas de frio; os termómetros, mesmo de madrugada, mantiveram-se numa zona confortável. À hora de almoço, depois de uma manhã de trabalho, observei várias reportagens televisivas pintalgadas de vermelho-escândalo: o país estaria, supostamente, transformado num icebergue. Não estava, para desespero de repórteres habituadas aos termómetros lisboetas, para quem o hemisfério devia encerrar de outubro a maio. Para elas e eles, a minha explicação sucinta e pedagógica: estamos a atravessar o inverno; no inverno há frio e é costume as pessoas agasalharem-se; a “natureza” (uma coisa que existe cá fora, e que não é apenas boazinha) resiste bem ao frio e precisa dele; chuva não quer dizer “mau tempo”; além de Lisboa, do Bairro Alto e do Chiado, há outras terras no mapa de Portugal – podem visitá-las.

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A exploração do “corpo feminino”, ai de nós.

por FJV, em 05.02.18

 Rose McGowan na red carpet da Fórmula Um do cinema.

 

Peço desculpa por voltar ao tema, mas ele chama-nos. O facto de uma pintura de J.H. Waterhouse ter sido retirada de uma galeria de Manchester (porque era preciso “discutir a forma como a arte vê o corpo da mulher”) veio que nem de propósito acompanhar a decisão de a Fórmula 1 ter decidido acabar com a presença de jovens raparigas junto das boxes por se tratar de uma exploração do “corpo feminino”, ai de nós. Como vejo duas ou três corridas de F1 por ano, o assunto não me entristece nem alegra, limitando-me a observar como o “corpo feminino” continua a ser exposto nas boxes de Cannes, dos Globos de Ouro, dos Grammys e creio que dos Óscares e de outras presenças “da grande arte”, além das revistas de moda e páginas parvas do Instagram. O atual fascismo libidinal que persegue obras de Balthus, pode também vir a censurar quadros de Velázquez (Vénus ao Espelho) ou Goya (La Maja Desnuda) e a coisa promete seguir adiante. Enquanto isso não acontece, espero agora que eliminem atrizes decotadas das passadeiras vermelhas de Hollywood, onde são transformadas em puros objetos.

[Da coluna no CM]

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Seios com folhas de nenúfar.

por FJV, em 02.02.18

John William Waterhouse (1849-1917) nasceu em Roma em 1849 – um pintor clássico, interessado em temas literários, históricos e religiosos. Quando morreu, em 1917, era um dos expoentes da estética pré-rafaelita (é autor do A Dama de Shalott), a meio caminho do impressionismo. A Academia Real britânica tem-no como um dos seus mestres, e isso é dizer tudo. Pois não é. Um museu de Manchester possui o original de Hilas e as Ninfas (Hilas, é um argonautas da mitologia grega), e decidiu retirá-lo das suas paredes considerando que vivemos num “mundo cheio de questões interligadas de género, raça, sexualidade e classe” e que precisamos de discutir a forma como vemos o corpo da mulher. De facto, no quadro mostram-se os seios de duas das ninfas; outras, pudibundas, escondem-nos com folhas de nenúfar. Isto é altamente ofensivo e o museu acha que precisa de ser discutido. Em breve discutirão a Vénus ao Espelho de Velazquez, e poderão retirá-lo. Em Birmingham, uma doutrinária de género obrigou um museu a tapar partes de um quadro de Modigliani. Cuidado Picasso! Cuidado Matisse!

[Da coluna no CM]

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Na adversidade é que vale a pena escrever.

por FJV, em 01.02.18

Escritores corporativos irritam-me cada vez mais, sobretudo em matéria de queixinhas políticas. Nos EUA, que é a pátria atual das vítimas, multiplicam-se os artigos que falam de uma “crise da ficção” atribuída a Trump, aos tempos de Trump, às mentiras de Trump e à cabeleira de Trump. Autores de renome, premiados e festejados, falam do mal que os “anos Trump” andam a fazer à literatura – sem ninguém se rir. Bons tempos em que a literatura americana não tinha “causas” e era excelente. Havia Steinbeck. Nabokov, e Hemingway, que se desprezavam mas escreviam supimpa. Norman Mailer descreveu mundo, investigando, mesmo acusado de pulha. Gore Vidal escreveu os melhores volumes de ficção sobre a América sem as queixinhas das corporações de escritores escandalizados. Hoje, queixam-se da América machista, racista e imbecil – mas escrevem como pregadores calvinistas: cheios de fé, mas com pouca qualidade, apaparicados como membros de uma sociedade de caniches (há exceções, como Ellroy, Donald Ray Pollock e um bom punhado de emigrantes). Na adversidade é que vale a pena escrever.

[Da coluna no CM]

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Os Kamov estão no ar.

por FJV, em 31.01.18

Parece que os helicópteros Kamov, uma joia do Estado (e de que toda a gente ouve falar como instrumentos fundamentais para combater os incêndios), estão parados por avaria ou a aguardar certificação. Mesmo assim, surge a ideia de usar helicópteros para vigiar as auto-estradas em busca de condutores em excesso de velocidade; para ajudar utilizar-se-iam também drones e inibidores de telemóvel. Este aparato impõe respeito para controlar os automobilistas portugueses que insistem em circular acima de 120 kms/h nas auto-estradas. O meu primeiro carro não indicava velocidade superior a 160. Era um veículo modesto e ronronante, cujo motor falhava e que não ultrapassava os 130. O meu carro atual indica um número bastante superior. É este absurdo que não consigo deslindar: se as autoridades europeias insistem numa velocidade máxima de 120 e, em alguns casos, de 110, por que razão insistem os fabricantes em produzir carros que atingem os 240 com facilidade? Não vejo outra justificação que não seja suscitar a utilização de helicópteros – como os Kamov – para vigiar as estradas lusitanas.

[Da coluna no CM]

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A Sociedade contra o Estado.

por FJV, em 29.01.18

O Estado está a tornar-se uma ameaça letal. A minha geração, e boa parte da anterior, viveu na ressaca de vários combates contra a excessiva presença do Estado. Muitos lemos um livrinho de antropologia intitulado A Sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres – à esquerda e à direita. O Estado foi um dos nossos inimigos. Viver longe da alçada do Estado e da sua burocracia era um ideal nobre. Estranhamente, é hoje enorme o número dos que acham que o Estado se deve substituir às nossas decisões, tomando-as em nosso nome, obrigando-nos a comer apenas o que é saudável, a dizer o que é permitido fazer, a cobrar impostos sobre tudo o que mexe. O Estado proíbe programas de televisão, manda recolher livros e elabora listas de ‘livros bons’, substitui-se aos tribunais, tem vontade de regular toda a nossa vida, determina o que se ensina e de que forma a História aconteceu, cobra impostos excessivos – e falha no essencial (apoiar os mais pobres, lutar contra a doença e o infortúnio, proteger os velhos e punir a violência). Em Portugal essa máquina devoradora tem cada vez mais clientes.

 

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Já não se pode.

por FJV, em 26.01.18

Nos anos 80 foi uma passageira moda novaiorquina: venderem-se apartamentos sem cozinha. Onde não há cozinha não há tentação, e na altura a gastronomia e a culinária eram universos letais, pouco nobres, nada mencionáveis. Passados trinta anos, a comida passou a obsessão. Uma nova categoria de pessoas, ‘foodies’, dedica a sua vida a atazanar-nos com novidades sobre o que deve ser o nosso prato. O caso é que os ‘foodies’ e as ‘foodies’, além dos blogues sobre comida e das nutricionistas apaixonadas pela catástrofe (não coma nem mais uma colher de açúcar ou morre!), não se dedicam apenas a um ramo de negócio; há, por detrás, uma dimensão estética, uma ou várias éticas (aplicam muito a palavra sustentável) e, sobretudo, uma tentação antiquíssima: a de mandar nos outros. Descubro essa tentação aos poucos. Leiam os seus textos. São aguerridos, enumeram proibições, fazem lóbi pela batata doce (a batata comum, fonte de alegria, é a inimiga a abater) e pela quinoa (deite fora o arroz!). Tal como na religião, os recentemente convertidos são os piores: transformam a nossa vida num inferno.

[Da coluna no CM]

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Ursula e Nicanor.

por FJV, em 25.01.18

A noite de anteontem foi aziaga; levou dois grandes autores: Ursula Le Guin (nascida am 1929, na Califórnia) é um deles. A autora de A Mão Esquerda das Trevas, Lavínia, Despojados ou do absorvente Tão Longe de Sítio Nenhum desenhou nos seus livros – catalogados nas estantes da “ficção científica” – um universo tão assustador como promissor: sitiados pelo “capitalismo industrial”, perdemos muito da nossa natureza e muita da nossa capacidade de sonhar; mas há na nossa imaginação uma grande capacidade de sobreviver aos vários apocalipses que nos ameaçam. O outro nome que desaparece é Nicanor Parra (nascido em 1914 nas regiões montanhosas e vulcânicas do nordeste do Chile, tinha 103 anos – foi Prémio Cervantes), um magnífico poeta chileno, e também matemático, a quem se deve a libertação da poesia latino-americana das suas teias ideológicas. É muito redutora esta caracterização (sobretudo diante da glorificação do seu compatriota Neruda, que escrevia poemas a bajular Estaline), mas serve para designar a sua busca de liberdade, de simplicidade e de afirmação da poesia.

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Lula em julgamento.

por FJV, em 24.01.18

Ao longo do segundo mandato de Lula sucederam-se os escândalos e os processos judiciais por corrupção. Hoje parece que toda a gente já esqueceu o mensalão e toda a rede de malfeitores que nasceu da tentativa, bem sucedida, de aprisionamento do aparelho de estado pelo PT (recordem-se os nomes: José Dirceu, José Genoíno, Marcos Valério, Delúbio Soares, João Paulo Cunha, etc.). A aliança entre o PMDB, os evangélicos e o PT era contranatura, mas serve para dar uma ideia de como o PT estava disposto a sacrificar tudo para subir ao poder e mantê-lo, numa rede em que entravam, além do PT, o PP,  PPS, o PSB ou o PRP). Valeu tudo: manietar a polícia, a justiça e o estado central; atacar a imprensa e fazer alianças com os inimigos de classe, generosamente recompensados (de Maluf a Delfim Netto, de Sarney a Edir Macedo); constituir o PT como máquina de arrecadação e domínio; crime e difamação; perseguições (vale a pena reconstituir a perseguição racista a Joaquim Barbosa, presidente do Supremo) e favorecimentos ilícitos (a começar na Petrobras). Dilma foi um prodígio de incompetência; um interregno no projecto mais vasto de Lula, que era regressar ao poder. A sua aliança com o PMDB – um casulo de corrupção medonha – resultaria nisto. Quando o PT quis recorrer à rua, percebeu que esta não só já não era um exclusivo seu, e que, do outro lado, uma nova geração de juízes e magistrados tinha chegado aos tribunais brasileiros, livres do jargão esquerdista e da herança da ditadura (o PMDB é uma herança envenenada da ditadura, nada tem a ver com o partido de Ulysses Guimarães ou Tancredo). Os processos actuais põem à vista uma rede que visava a eternização do PT e dos seus aliados no poder – bem como formas de corrupção que atingem todo o Estado. Durante as sessões de Porto Alegre, o PT ameaça radicalizar (vejam-se sobretudo as declarações de Gleisi Hoffmann, a presidente do partido, envolvida no escândalo Petrobras) e é possível que seja o único caminho. Seguir-se-ão as jornadas de luta e de desagravo por intelectuais, sindicalistas, cantores e “amigos do Brasil” (geralmente, pessoas que gostam de bossa nova e confundem Ipanema com a Rondónia) – mas a verdade é esta, dita hoje de manhã por Fernando Gabeira: “A tática da defesa do Lula e toda essa opção da esquerda nos colocou diante de um descaminho histórico. Porque ao invés de reconhecer todos os escândalos que aconteceram e buscar um caminho mais longo de recuperação através de uma crítica, de uma autocrítica, ela decidiu negar o conjunto dos fatos.” Um dos argumentos é o de que a justiça está a atacar a esquerda, o que é falso (veja aqui a lista de dirigentes de outros partidos, como o PMDB, PTB e PP já condenados no processo LavaJato); tem sido a esquerda brasileira a condenar-se a si mesma num país em que o PT chegou ao poder vestindo a roupagem da superioridade moral. Posso enganar-me, mas Lula – que sabia de tudo, que soube sempre de tudo, mas que se achava ungido com a estrela de guia e messias do proletariado brasileiro a quem tudo seria perdoado – será condenado, ou seja, será confirmada a condenação anterior. O pior para Lula, de facto, ainda está para vir. Mas eu tenho-o dito desde 2003.

 

P.S. - Ironia do destino este julgamento estar a realizar-se em Porto Alegre, em outros tempos um bastião do PT.

 

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«É disto que estamos a falar: votar já não conta.»

por FJV, em 23.01.18

Excelente texto de Luís Naves no Delito de Opinião: «Estamos sobretudo a assistir a uma mudança significativa do modelo da União. Até agora, a UE foi uma aliança de nações. No futuro, os federalistas dirão que os seus «valores europeus» são incompatíveis com os nacionalismos. A preparar o terreno, eles têm feito a distinção entre patriotas e nacionalistas (como se fossem dois conceitos, não dois sinónimos), olham com simpatia para movimentos secessionistas conduzidos por elites razoáveis, como parece ser o caso dos catalães, levados ao colo pela imprensa oficial da Europa, a mesma que repete em cada parágrafo essa irritante treta dos «regimes iliberais» do Leste. […] Há países que não cedem na defesa dos seus interesses e têm de ser disciplinados. Por outro lado, a Europa tenta avançar com um projecto político onde as nações terão menor espaço, um projecto onde não cabem os nacionalistas (os mais assanhados, polacos e húngaros, caem na categoria de xenófobos), um projecto que não se resume aos mercados livres que os britânicos defenderam, mas a verdadeira convergência (a iliberal Hungria tem um IRC de 9%, que Macron já criticou, por achar muito baixo). Haverá harmonização fiscal e os parlamentos nacionais vão perder parte dos seus poderes orçamentais.
Então, o que é que a Polónia tem a ver com a Catalunha? O caso catalão mostra-nos o que poderá acontecer às nações que não contam: a Espanha será uma manta de retalhos, como provavelmente a Itália acabará por ser (um governo com Berlusconi, Liga Norte e ainda uns ultra-nacionalistas promete travar os populistas). A Polónia quer evitar a menorização, vê-se como grande nação regional, defensora da civilização cristã, num patamar semelhante ao da França. A Polónia delira, a Espanha apanhou gripe catalã, a Itália, essa, está na mesma.
E, mesmo assim, há uma agitação no Danúbio. Em vez de aceitarem a generosidade alemã, os países de Visegrado querem resistir e juntam-se num clube que lembra cada vez mais o império Habsburgo, lembram-se? aquele que acabou em Sarajevo. Ao mesmo tempo, o caso catalão, sendo um exercício de alta criatividade artística dos seus dirigentes, está a dar ideias. Já ouviram falar da impronunciável Szekely Fold e da resposta que deu o PM romeno? Claro que não. E há mais micro-regiões que até agora só existiam em mapas obscuros desenhados nas húmidas catacumbas do castelo de Kafka.
Em resumo, e termino, a Europa não se sabe bem para onde vai, mas vai levada por elites que já não querem ouvir as suas próprias populações. Os catalães votaram, mas serviu para alguma coisa? Os polacos também votaram, mas ninguém quer saber. Os alemães votaram em Outubro e disseram que os social-democratas iam para a oposição, e que vemos, os populistas lideram a oposição? As eleições na República Checa, onde venceram os populistas, já deram em governo? E em Itália, votar servirá para alguma coisa? E na Hungria, onde Orbán tem sondagens a dar maioria qualificada, vão dizer que não conta? Não, votar já não serve para nada, nós estamos a ser dirigidos pelos 32% da CDU alemã e pelos 35% (se não me engano) do movimento de Macron na primeira volta das legislativas francesas. Só há coligações negativas, grandes entendimentos entre derrotados, geringonças e minorias. É disto que estamos a falar: votar já não conta.»

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Supernanny.

por FJV, em 23.01.18

Regra essencial: sempre que alguém iniciar ou concluir uma indignação em nome dos “sagrados princípios”, da moral, da ética, às vezes do Estado de Direito – desconfie. Geralmente é palhaçada. O caso da SuperNanny (que não penso ver) é o mais recente. Eu gostaria, antes, de me defender das crianças sempre que oiço as suas vozes, já devidamente idiotizadas, a fazer publicidade na rádio e na televisão a produtos financeiros (lembram-se daqueles mais ruinosos e aldrabões?), a saldos nos hipermercados e lojas de informática, a telemóveis e férias no Algarve, sem que “as instituições” saltem para a rua, indignadas, em saiote e camisa de noite, a fingirem de mamãs fofinhas e a servirem-se do seu estatuto intocável para ameaçar e silenciar. Ah! E quero que “as instituições” vigiem muito bem aqueles programinhas de rádio e colunas de jornal assinados por pedagogos e psicólogos, geralmente marcianos em trânsito, cujo único objetivo é destruir a vida dos pais, explorando o seu sentimento de culpa. Isso sim, era um grande favor. Isso e agilizarem os processos de adoção e deixarem de pregar.

[Da coluna no CM]

 

Adenda: 1) Quando este texto foi publicado na edição em papel do CM, esta manhã, recebi cinco mails de protesto e alguns amigos enviaram-me «reacções do Facebook». Eu gosto particularmente das «reações do Facebook», que me acusam de «apoiar» o programa de televisão, que não vi – nem penso ver. Não passa pelas pobres almas que «reagem no Facebook» a ideia de que o assunto me é indiferente desde que me não obriguem a ver o programa. Já passaram pela TV tantas indignidades, tantos Big Brothers, tantas coisas que fariam corar de vergonha os produtores de SuperNanny, que – sim – corro o risco de vir defender o programa que não vi nem penso ver. Mas o mais hilariante foi a reação de um grupo de médicos ou psicólogos que a redação de lifestyle do Observador convidou para ver o programa e que chegou à fantástica conclusão de que «o happy end do último programa» não era «verdadeiro». Tamanha descoberta encheu-me de piedade. Pois se é televisão! Pois se é um «big brother»!

2) Quanto aos «programinhas de rádio» que menciono, não tenho nada contra as pessoas que os fazem – profissionais dedicados e complacentes que dão conselhos exactamente como SuperNannies. Num dos últimos que ouvi, por alturas do Natal, os dois psicólogos disputavam o papel de marciano, relembrando aos pais-ouvintes que nas férias de Natal não podiam deixar «os filhos ao abandono, em casa, e que, pelo contrário, deviam acompanhá-los «nesta temporada» provavelmente para não os traumatizar. Portanto, as pessoas «metiam férias» e seguiam os conselhos dos psicólogos – ou ficavam a alimentar a culpa por não poderem fazê-lo. Marcianos e é já com bonomia.

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Byron.

por FJV, em 22.01.18

Há exatamente 210 anos, a armada portuguesa transportando a família real portuguesa, que fugia da ameaça francesa, chegava ao Brasil (primeiro a Salvador e, depois, ao Rio). Um ano e meio depois, a 7 de julho de 1809, George Gordon Byron, Lorde Byron, fazia escala em Lisboa aproveitando a presença militar inglesa; se na sua biografia a visita (uma quinzena, a caminho de Gibraltar) foi pouco importante, já a sua passagem por Sintra entra na nossa «mitologia dos famosos», salpicada por uma ou outra frase entusiástica («a mais bela do mundo», «glorioso Éden», etc.). Byron nasceu há 230 anos, assinalados hoje, e é uma das grandes figuras do romantismo europeu – o vértice, aliás, de todos os seus pecados e virtudes. A ideia do «herói byroniano», aventuroso e arrogante, destemido e belo (para mulheres e homens), uma estrela cuja popularidade extravasa o mundo das letras, rebelde e auto-destrutivo, está ligada à sua obra – e a uma vida que terminou na Grécia, combatendo no campo militar, longe da Inglaterra, que tratou com soberba. Para Byron, a vida estava sempre noutro lugar.

[Da coluna no CM]

 

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Hemingway era um machista bêbedo.

por FJV, em 19.01.18

O desejo de limpar o passado e de o ver à luz do que pensamos hoje, ou do que hoje é a verdade oficial, faz-nos correr riscos divertidos. Basta fazer as contas (mas mantendo a calma e evitando rir). Depois de uma universidade americana ter aceite os protestos de uma aluna de arte que se sentia ofendida por ter de olhar o quadro ‘La maja desnuda’, de Goya, e de ter retirado uma cópia da obra, já se fez o mesmo com um quadro de Egon Schiele e se tentou com Balthus. Leonardo Da Vinci será visto como pedófilo e proibido; Neruda e Rafael Alberti escreveram poemas exaltando Estaline; Mark Twain é o que se sabe. Quando a Sade, não vale a pena falar – vamos proibi-lo. Eça era um racista. Simone de Beauvoir ter-se-á apaixonado por duas alunas, e deve ser queimada em efígie. Ghandi gostava de jovens. Camões festejava os combates contra sarracenos. Melville é, como todos sabemos, um inimigo das baleias. Quanto a Lewis Carroll, bom, bom. Fernando Pessoa elogiou Salazar. Hemingway era um machista bêbedo. Jesus contava piadas sobre Deus. E por aí fora. É um admirável mundo novo e limpo.

[Da coluna no CM]

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Um lado do cérebro a funcionar.

por FJV, em 18.01.18

Devem os políticos consagrar-se exclusivamente à política? Tenho dúvidas – não certezas. A principal das dúvidas decorre do facto de a política precisar, cada vez mais, de perguntas vindas de fora do sistema partidário e da sua rede de negócios, pressões, apoios e especialidades. Políticos consagrados aos corredores do parlamento e dos seus recantos e comissões (e, pior, da sua má gramática e dos seus lugares-comuns), que não conhecem a vida das empresas e sabem das pessoas aquilo que os “contactos políticos” permitem, podem ser uma vantagem para a manutenção da pequena oligarquia que conhece procedimentos e influências, mas que tem a tendência brutal para constituir uma casta de pessoas isoladas e incomunicáveis, com poder a mais para os conhecimentos e a experiência de que dispõe. Uma coisa é impedir que a política seja um trampolim para o mundo do mau dinheiro e do favorecimento de grupos e corporações; mas privilegiar os que há mais de uma década só têm um lado do cérebro a funcionar, e que sofrem de analfabetismo disfuncional, é um risco que vale a pena ser contrariado.

[Da coluna no CM]

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Dalida.

por FJV, em 17.01.18

Estava a ler uma entrevista com Alain Delon (o ator fantástico de O Leopardo ou de Rocco e os Seus Irmãos, de Visconti) e lembrei-me de um dos mais pirosos duetos da história da “canção francesa”, o de Delon com Dalida, “Paroles” (os mais famosos são os de Gainsbourg com Jane Birkin ou com Catherine Deneuve – ‘Je t’Aime Moi Non Plus’, claro, e ‘Dieu Fume des Havanes’, uma preciosidade). Dalida faria hoje 85 anos e seria uma senhora – foi sempre. Tinha aquela bela severidade da sua terra natal, o Egito (foi Miss Egito em 1954), a leveza de uma mulher que atravessou todas as tragédias (bastantes), e a herança ruidosa de uma família italiana. Hoje ninguém se lembra de Dalida. É uma pena (morreu aos 54 anos, em 1987). Cantou em francês, italiano, espanhol, árabe, egípcio, grego, hebraico, levantino ou alemão. Canções como ‘Gigi l’Amoroso’, ‘Ballade à Temps Perdu’, ‘Le Temps des Fleurs’, ou duetos com Aznavour, Sacha Distel ou Enrico Macias, hoje fazem-nos sorrir com a sua inocência nervosa e sensual. No livro das minhas recordações o seu nome é uma marca cheia de perversidade.

[Da coluna no CM]

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Uma cafeteira apenas para negros.

por FJV, em 16.01.18

Coisas evidentes precisam de ser lembradas: assinalou-se ontem o 89.º aniversário de Martin Luther King – nascido em 1929 e assassinado a 4 de Abril de 1968, há 25 anos. Insistir no óbvio não o faz ser mais óbvio, mas a luta dos negros americanos pelos seus direitos civis faz parte da chamada “caminhada da humanidade”. No domingo, um canal de cabo transmitiu Hidden Figures (Elementos Secretos), o filme com a maravilhosa Taraji P. Henson (além da divertida Octavia Spencer e da inesperada Janelle Monáe). As duas coisas estão ligadas: a luta de Martin Luther King e os factos reais por detrás do filme que conta a vida de Katherine Goble Johnson e de Dorothy Vaugham, duas mulheres negras a trabalhar nas áreas de matemática e informática da NASA durante os anos 60, na segregacionista Virgínia. É impressionante pensarmos que apenas há cinquenta anos, nos EUA, uma matemática genial como Goble Johnson, responsável pelos cálculos das órbitas das primeiras viagens à volta da Terra, tinha de percorrer 600 metros entre a sua secretária da NASA e uma casa de banho para pessoas de cor, ou que a sua cafeteira, isolada naquela sala cheia de cientistas, era apenas para negros.

[Da coluna no CM]

 

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Hélia Correia sobre Frederico Lourenço: «Convivem nele música e dança, narração e poema, tudo o que era então uno e agradava, de igual maneira, aos deuses e aos mortais.»

por FJV, em 15.01.18

«A doutora Maria Helena da Rocha Pereira, a quem ouvi raríssimas – por isso mais valiosas – palavras de absoluto louvor às traduções homéricas do Frederico, disse um dia estas duas curtas frases que contêm milhares de livros dentro: “Eu vivo com os Gregos e sei disso. Mas vocês vivem com os Gregos e não sabem”. Adoentada, apenas oralmente e aos mais próximos transmitiu o seu júbilo pela atribuição do prémio. Um júbilo comum a todos nós.
O Frederico Lourenço é um conforto nos nossos tempos tão ameaçados. Quando a iminência da destruição de tudo o que foi belo e bom e justo sopra a sua trombeta à nossa porta, vemos este homem, que parece tranquilo, prosseguir a sua caminhada entre explosões.» Ler o texto completo aqui.

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