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Uma cafeteira apenas para negros.

por FJV, em 16.01.18

Coisas evidentes precisam de ser lembradas: assinalou-se ontem o 89.º aniversário de Martin Luther King – nascido em 1929 e assassinado a 4 de Abril de 1968, há 25 anos. Insistir no óbvio não o faz ser mais óbvio, mas a luta dos negros americanos pelos seus direitos civis faz parte da chamada “caminhada da humanidade”. No domingo, um canal de cabo transmitiu Hidden Figures (Elementos Secretos), o filme com a maravilhosa Taraji P. Henson (além da divertida Octavia Spencer e da inesperada Janelle Monáe). As duas coisas estão ligadas: a luta de Martin Luther King e os factos reais por detrás do filme que conta a vida de Katherine Goble Johnson e de Dorothy Vaugham, duas mulheres negras a trabalhar nas áreas de matemática e informática da NASA durante os anos 60, na segregacionista Virgínia. É impressionante pensarmos que apenas há cinquenta anos, nos EUA, uma matemática genial como Goble Johnson, responsável pelos cálculos das órbitas das primeiras viagens à volta da Terra, tinha de percorrer 600 metros entre a sua secretária da NASA e uma casa de banho para pessoas de cor, ou que a sua cafeteira, isolada naquela sala cheia de cientistas, era apenas para negros.

[Da coluna no CM]

 

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Hélia Correia sobre Frederico Lourenço: «Convivem nele música e dança, narração e poema, tudo o que era então uno e agradava, de igual maneira, aos deuses e aos mortais.»

por FJV, em 15.01.18

«A doutora Maria Helena da Rocha Pereira, a quem ouvi raríssimas – por isso mais valiosas – palavras de absoluto louvor às traduções homéricas do Frederico, disse um dia estas duas curtas frases que contêm milhares de livros dentro: “Eu vivo com os Gregos e sei disso. Mas vocês vivem com os Gregos e não sabem”. Adoentada, apenas oralmente e aos mais próximos transmitiu o seu júbilo pela atribuição do prémio. Um júbilo comum a todos nós.
O Frederico Lourenço é um conforto nos nossos tempos tão ameaçados. Quando a iminência da destruição de tudo o que foi belo e bom e justo sopra a sua trombeta à nossa porta, vemos este homem, que parece tranquilo, prosseguir a sua caminhada entre explosões.» Ler o texto completo aqui.

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Atwood às chamas.

por FJV, em 15.01.18

Margaret Atwood (criticada nas, como se chama aquilo?, redes sociais) sobre o movimento #me too, depois de um contorverso processo de acusação — não provado — contra um professor universitário: “In times of extremes, extremists win. Their ideology becomes a religion, anyone who doesn’t puppet their views is seen as an apostate, a heretic or a traitor, and moderates in the middle are annihilated.” Também Atwood fala nas bruxas de Salem.

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O cantinho do hooligan. Fosgluten.

por FJV, em 15.01.18

Depois de um frango à José Sá e de um grande golo do Estoril, não admira que a bancada viesse abaixo.

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O heraldo moderno. 2. Acompanhantes.

por FJV, em 15.01.18

É absolutamente peregrina a ideia de que cabe ao PSD a tarefa e a vocação de resgatar o PS dos tentáculos da perigosa extrema-esquerda, devolvendo-o ao convívio com os salões da boa sociedade – onde, de acordo com o que vejo e oiço, se poderá dedicar (já em roda livre e de braço dado com o PSD) a dançar minuetes. Basicamente, o PSD estaria na calha para substituir o BE (ao PCP ninguém o substitui).

E não, isto não tem a ver com a experiência alemã.

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O heraldo moderno. 1. Mudar o PSD?

por FJV, em 15.01.18

Esta manhã, ao pequeno-almoço, pus-me a ler o artigo do Sebastião Bugalho sobre a liderança do grupo parlamentar do PSD. Toda a gente sabe que – mesmo antes de Rio – já existia o problema Hugo Soares. Mas, para além do problema Hugo Soares, há o problema da própria bancada parlamentar. Depois de ter sido dizimada pelos anos da troika, a bancada foi ainda seviciada pelo isolamento de Passos Coelho; e resultou nisto.

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Esta foto é mais pequena do que a da edição em papel mas vê-se o essencial, e é assustadora. Provavelmente, a bancada do PS também me assustaria. Acontece que, no último ano, entre a maior parte destas almas (podem observar-se distintamente), não surgiram «mais do que meia dúzia de ideias», e isto para sermos generosos em relação a um partido que tinha deixado de existir e cujo grande triunfo conhecido foi o diploma sobre o financiamento dos partidos. Portanto, o problema de Hugo Soares é o problema menor que existe na bancada parlamentar.

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Mulheres livres, homens livres.

por FJV, em 12.01.18

Já se disse quase tudo sobre as questões de assédio sexual na “elite americana” e sobre os homens que praticaram esses abusos (de Weinstein a Clinton e Trump) e que devem ser castigados. O espectáculo dos Globos de Ouro também mostrou a imagem das novas bruxas de Salem, mas mais decotadas, vestindo de preto, que é sensual e conforme tanto à cerimónia como ao vigilante puritanismo americano que, geralmente, se conclui com pornografia. Acontece que a discussão sobre o assédio sexual em Hollywood só é produtiva se ultrapassar o nível a que está agora a ser reduzido (quem apalpou quem, quem bebeu demais, quem tentou seduzir quem, quanta coca consumiu); de contrário, será prejudicial à própria criminalização do assédio – porque se trata de gente poderosa, milionária, famosa, que muitas vezes aproveitou a circunstância (que não deixa de ser humilhante). Em breve será aproveitada pela própria máquina de Hollywood (que belos filmes!) e fabricará as suas vítimas debaixo do fogo da nova inquisição. Antes disso, os homens e as mulheres livres serão as primeiras vítimas desse puritanismo.

[Da coluna no CM] 

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FCSH.

por FJV, em 12.01.18

Descobri agora este pequeno vídeo da minha velha faculdade; nessa altura não proibíamos conferências ainda que ocasionalmente fumássemos charros. Nas imagens (fumando, como sempre, enquanto falava de filosofia medieval), um dos meus mais queridos professores, João Morais Barbosa (1945-1991), uma das pessoas que mais me deixa saudades desses tempos — e a quem tanto devo.

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Demografia à la carte.

por FJV, em 11.01.18

Em cada português existe um sociólogo desperdiçado noutras profissões vulgares. Durante os anos da troika, por exemplo, não havia comentador a quem faltassem explicações para a baixa natalidade; ou seja, os portugueses não tinham bebés por causa da ameaça da troika – chegados à hora da fecundação, se me permitem a imagem, portuguesas e portugueses, digamos, encolhiam-se. De nada servia lembrar que, ao fim de uma curva descendente que vinha da última década do século passado, os números da natalidade começaram a subir em 2014, subiram em 2015 e subiram em 2016. E desceram em 2017 – menos sete bebés por dia (menos 2700), um número inaceitável para os catedráticos em sociologia de algibeira que, a falar verdade, se sentem traídos pelos portugueses, pouco solidários com Mário Centeno. Eles esperavam que os jovens casais, mal ouvissem falar dos virtuosos números da economia e das novas conquistas do socialismo, desatassem a reproduzir-se a um ritmo festivo. Só que os ritmos da demografia são longos, e um bebé não nasce de uma máquina mas de pais educados para a vida que há de vir.

 [Da coluna no CM]

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Olha, a legalização da liamba.

por FJV, em 10.01.18

Coleccionador de Erva.jpg

Às vezes Miguel dos Santos Póvoa tem dificuldade em voltar atrás, a esse jantar em que Luís Ferreira o abraça pelos ombros, enquanto estão sentados diante do jardim e o puxa para lhe mostrar o resto da casa – escadarias de granito, retratos em molduras vencidas pelo tempo, salões desabitados, um quarto voltado para a serra, o seu quarto, o escritório repleto de livros, livros, livros, e aquele anexo ao escritório, uma divisão transformada em sala de fumo, com humidificadores onde pensa encontrar charutos. Mas em cada humidificador há marijuanas diferentes, colheitas diferentes, liambas com origens diversas, catalogadas, anotadas, datadas e – mesmo no centro da sala – uma máquina, onde em pontos diferentes se juntam as misturas de tabaco (java, turco, latino) com Cannabis sativa, o papel, o filtro e, no fim, um pequeno tapete onde vão caindo, sucessiva e lentamente, cigarros perfeitos onde o papel do filtro leva um monograma, a letra V. Luís aproxima-se de um dos humidificadores, escolhe uma erva picada na palma da mão, junta-lhe tabaco que retira de uma caixa de madeira, introduz a mistura na máquina e espera a saída do cigarro. E um brilho no olhar, enquanto se aproxima da janela aberta sobre o telhado do alpendre onde estiveram há pouco, apontando o céu claro de Julho.

«Esta paisagem, meu engenheiro de eleição, esta paisagem é uma bênção de Deus, misturada com mar, com o cheiro da resina, com o fumo de uma erva da Costa Rica. Desde há anos que coleciono erva, um pouco de cada parte do mundo e tu, meu engenheiro, vais viajar por todo o mundo. Portanto, em cada parte do mundo vais procurar as ervas mais raras, da Índia à Bolívia, da Turquia à Austrália, o que significa fazeres um pouco da minha felicidade. Serás o meu fornecedor mais precioso, alimentarás um vício proibido e simples.»

 

[…]

 

«O meu engenheiro dos trópicos», ouviu dizer.

«Ele mesmo. Luís, doutor, descobri um exemplar único, nunca me tinha passado pelas mãos uma coisa assim.»

«De que género?»

«Da mais pura. Sativa misturada com Cannabis indica entre bananeiras e fruta-pão, a uma altitude média de quinhentos ou seiscentos metros, com grande humidade. Híbrida. Folhas de seda, Luís. A liamba dos príncipes. Não sei quem a plantou, mas é uma orquestra na minha cabeça.»

«Uma orquestra?»

«Completa. Como numa ópera. Violinos na base, e depois oboés, trombones, fagotes, violoncelos, tímpanos, harpas. E flautas.»

«Estou a ver.»

«Acho que não», disse Miguel dos Santos Póvoa, sorrindo, enquanto uma ondulação mais forte lhe chegara aos pés, molhando as calças e os pés nus, «acho que não consegues ver.»

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«Defendemos uma liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual.» Obrigado, Catherine Deneuve – um módico de civilização no meio disto tudo.

por FJV, em 10.01.18

Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle, é assim que começa o manifesto publicado ontem à tarde pelo Le  Monde, em Paris. Versões no Les Inrockuptibles, no L’Lexpress e na France Info.

 

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Simone de Beauvoir, 110 anos.

por FJV, em 09.01.18

Simone de Beauvoir, em casa de Nelson Algren. © Art Shay.

 

É provável que O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, seja, de facto, uma das obras mais marcantes do século XX – mas a extraordinária projeção de Beauvoir vem do facto de ela própria ser uma figura romanesca, uma pensadora complexa, dificilmente classificável, impossível de limitar ao quadro apatetado de qualquer militância, que a sua vida ultrapassou sempre. Um dos elementos que mais contribuíram para a riqueza da sua obra foi, precisamente, o seu apreço pela ambiguidade – conceito a que dedicou um dos seus ensaios mais notáveis –, tanto na sua vida política como na vida pessoal e nos relacionamentos amorosos (o mais famoso deles, o americano Nelson Algren) que manteve a par do seu “contrato” com Sartre. O feminismo atual deve-lhe quase tudo, mas as mulheres devem-lhe mais: além dos dois volumes de O Segundo Sexo, Beauvoir é a autora de romances como Os Mandarins (um retrato da sua intimidade e daqueles relacionamentos), Mal-Entendido em Moscovo ou vários e importantes volumes autobiográficos. Ontem passaram 110 anos sobre o seu nascimento (1908-1986) mas não se ouviu uma única evocação, o que foi uma pena.

[Da coluna no CM]

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90 anos de Domenico Modugno.

por FJV, em 09.01.18

Tenho um gosto desgraçado por cantores vagamente pirosos e Domenico Modugno, além de estar no pódio dos génios da “música ligeira”, tem uma vantagem soberba: era italiano (de Bari), cantava em italiano e resumia a “figura do italiano”, como Mastroianni. No dia de hoje completaria 90 anos (nasceu em 1928; morreu em 1994, na bela ilha de Lampedusa). Ouço-o muitas vezes (tal como a Gianni Morandi, Adriano Celentano, Sergio Endrigo ou Jimmy Fontana – e conheço as letras). Passando por alto a sua carreira no cinema (atuou em mais de 40 filmes) e na política (deputado do Partido Radical, envolvido em causas públicas), a voz de Modugno comove-me de cada vez que oiço “La Lontananza” ou os seus clássicos “Piove” (ou “Ciao ciao bambina”), “Come prima”, ‘Notte lunga notte’, ‘Dio come ti amo” (há um dueto fantástico com Gigliola Cinquetti) ou, claro, o grande “Nel blu dipinto di blu”, conhecida como “Volare” nas versões de Sinatra ou Dean Martin. Modugno era um poeta (colaborou com Pasolini e Salvatore Quasimodo) e um instrumento da melancolia romântica desses anos 60 italianos. Eterno. 

 [Da coluna no CM]

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Polícia de costumes.

por FJV, em 08.01.18

José António Saraiva escreveu, no Sol, um texto acerca de uma reportagem sobre cirurgias de mudança de sexo, no qual, entre outras coisas, largou a sua opinião – o que me parece ser permitido. A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), no entanto, acha (erradamente, a meu ver) que o texto atenta contra a “dignidade das pessoas transexuais” e pode levar à “prática de atos de violência homofóbica e transfóbica”, razão porque pediu a intervenção do Ministério Público, solicitando também que a ERC, a Comissão da Carteira Profissional e o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas atuem “em conformidade”. Ora bem. Um pouco de bom senso: trata-se de um texto. Uma opinião de que discordo. O leitor, a leitora – concordam com ela? Não concordando com ela (não está em causa gostar ou não do autor do texto ou de, intimamente, quererem que ele seja obrigado a passear-se em trajes menores durante uma parada LGBT), estão disponíveis para a proibirem e punirem tanto o articulista como o jornal, por delito de opinião? É que o governo está. E isso é um péssimo sinal.

[Da coluna no CM]

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Comer.

por FJV, em 05.01.18

O frango com lentilhas de Marco Pierre White.

 

Por motivos exclusivamente profanos utilizei uma tarde de gripe recente para me familiarizar com as principais dietas alimentares prescritas pela internet. Os resultados não foram muito saudáveis. Explorei cerca de vinte e cinco propostas alimentares, desde as de ‘altas calorias’ e ‘altas proteínas’, que geralmente são preferidas pelo ser humano mais ou menos normal e pecaminoso – até às veganas, vegetarianas e macrobióticas ou àquelas que são promovidas por marcas de comida. Em resumo, gostei muito daquela, chamada mediterrânica, e daqueloutra que manda quase jejuar dia e meio por semana, à maneira dos eremitas cumpridores. A minha apreciação é simples: a melhor maneira de emagrecer é não comer. O resto são batalhas de titãs que servem para confrontos entre claques (cada uma adepta de um regime, mas todas eles fascizantes), desejosas de moldar a vida do seu semelhante através do estômago. O resultado é que fiquei cheio de fome ao fim deste passeio realizado com propósitos meramente científicos. Sinto-me capaz de passar de uma dieta a outra. Alguma coisa deve ter corrido mal.

[Da coluna no CM]

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O cantinho do hooligan. Um erro.

por FJV, em 04.01.18

Vai haver mais jogos difíceis – o inverno é a pior das temporadas para o FCP, sempre foi. O Feirense fez o que tinha prometido, explorar «as debilidades» do adversário; e o árbitro colaborou com uma má arbitragem. Vai haver mais jogos com erros destes. Por isso mesmo, Sérgio Conceição não devia gastar já uma das armas ao seu dispor (não ir à flash, nem à sala de imprensa), mas pelo menos fê-lo depois de uma vitória. Alguém que lhe diga que é nestas situações que deve usar ironia, sentido de humor, sarcasmo, perfídia, seja o que for (elogiar perdidamente Fábio Veríssimo, por exemplo). Vai haver sempre jogos maus.

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Cinquentenários.

por FJV, em 04.01.18

Este vai ser o ano de muitos cinquentenários. O do princípio do fim da guerra do Vietnam (a 31 de janeiro, a embaixada americana em Saigão é invadida). O do assassinato de Martin Luther King, em Memphis, e o de Robert Kennedy, em Los Angeles. O da eleição de Richard Nixon. O do lançamento de Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones. O do “Maio de 68” em França, a eterna revolução por fazer, o vulcão de todas as rebeldias posteriores. E o da invasão de Praga pelos tanques soviéticos, sete meses depois da chegada ao poder de Alexander Dubcek (que se assinala amanhã, 5 de janeiro). Entre o espírito comemorativo e a nostalgia pelas datas perdidas, há ainda mais – mas isto basta para prepararmos um ano de debates, com ganhos e perdas. Apesar de tudo, o “Maio de 68” vai despertar mais curiosidade e mais balanços; ainda hoje, a data fala para várias gerações, a dos que lá estiveram, mesmo não estando, e a dos que a elegem como marco das suas vidas pretéritas. Já a invasão de Praga vai permitir verificar que o PCP continua a estar ao lado dos tanques invasores.

[Da coluna no CM]

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Guida Maria.

por FJV, em 03.01.18

Shakespeare, Garrett, Lorca, Gil Vicente, Brecht, Tchekov – Guida Maria (1950-2918) representou-os no palco, entre muitos outros. Passou pelo cinema, pelo teatro, pela televisão, sempre com aquela beleza única e mítica entre os rapazes da minha geração (sobretudo os que viram A Promessa, de António de Macedo, ou O Vestido Cor de Fogo, de Lauro António). Era uma beleza ousada e desafiadora, cativante (que fascinou Truffaut), que atravessou muitas das grandes histórias do teatro e da vida de Lisboa. Pedro Correia, no blogue Delito de Opinião, escreveu o essencial: “Um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido.” Uma espécie de “raio de luz que emergiu das sombras”, uma mulher combativa e enérgica cujo riso era um trovão e que parecia estar ligada aos grandes momentos do seu tempo, inclusive na política. A sua interpretação dos Monólogos da Vagina (em 2000) foi, a todos os títulos, sublime e marcante para a sua vida de atriz e de mulher. É assim que a recordo, em noites de conversa e de evocações – com um raio de melancolia e atrevimento. Obrigado, Guida.

[Da coluna no CM]

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É por causa disto que o país não avança.

por FJV, em 02.01.18

Sim. Não me parece que seja sensato oferecer nos restaurantes, bares e cafetarias dos hospitais, aquele género de comida carregada de colesterol, açúcar e gorduras trans. Admito até que, para efeitos de discursata preambular ao despacho n.º 11391/2017, que quer limitar – nos hospitais – a “oferta de alguns produtos menos saudáveis” para “obter uma redução sustentável do consumo excessivo de açúcar, sal e gorduras” se usem fora do contexto as palavras ‘saudável’ e ‘sustentável’ (que fazem parte da artilharia de qualquer pateta de hoje em dia). Mas não havia necessidade de entrar em pormenores que relevam do bom senso. Há, em todo o adepto da engenharia social e socialista, uma vontade extrema de levar as regras até aos pormenores, o que os leva a falhar redondamente porque se esquecem de coisas óbvias, desde proibir o salpicão ou a feijoada de búzios, isto num documento que proíbe a Coca Cola Zero, o arroz doce, o leite-creme e o pastel de nata, mas não diz nada sobre o pudim Boca Doce, o queijo de Serpa ou a cabidela de Ponte de Lima. É por causa disto que o país não avança, está bom de ver.

[Da coluna no CM]

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Contradições.

por FJV, em 01.01.18

Não, 2017 não foi um ano saboroso – pesam na balança várias tragédias que deixaram um rasto de morte, e várias comédias que não fazem rir. 2017 exagera nas contradições: foi o ano em que a economia abriu as portas (mantendo-se sob disfarce),  permitindo desafogo, sobretudo na função pública. O ano em que fomos definitivamente cercados pelo ‘politicamente correto’ e pela sua procissão de censores; nada que não estivesse previsto há muito, como uma epidemia que atravessa a cultura contemporânea. O papa visitou Fátima – não há como não ficar comovido. O país, informado pela televisão, descobriu que desconhecia três quartos do país, que ia ardendo ou desaparecendo no meio do esquecimento. A ‘máquina da comunicação’ do Estado iludiu problemas, mascarou crises e pequenas patetices. A geringonça continua a geringonçar até levar o Bloco ao poder. A educação e a escola públicas resistem a serem um instrumento ideológico dos novos dogmas. O que ontem era severamente criticado na política – é hoje aceite (mudaram os donos do poder). Contradições. Um país que espera, que aproveita a aberta.

[Da coluna no CM]

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Um exemplo que só esqueceremos daqui a muitos anos.

por FJV, em 26.12.17

As palavras e as visitas do Presidente da República podem tornar-se demasiado “omnipresentes e permanentes” – e hão de parecer excessivas. Mas é preciso deixar-lhe um elogio quando se fala de Pedrógão Grande. Não fosse Marcelo, e a tragédia de Pedrógão seria diluída pela máquina de comunicação do Estado (mesmo assim, para alguns ‘aparatchiks’, os marcianos “da situação”, mencionar Pedrógão é “fazer oposição”) – mas o número de vítimas é poderoso. São nossas, portuguesas; nossos vizinhos; usavam a nossa língua; liam este jornal. Somam-se às de outubro, é certo, mas são um exemplo que só esqueceremos daqui a muitos anos. Neste Natal, Marcelo não permitiu que fossem esquecidas ou diluídas pela propaganda. E fez mais: pediu que visitássemos o interior, que déssemos vida às florestas e às vilas e aldeias do interior, esses três quartos de território onde vive um quarto da população. E chamou a atenção para a resposta de Pedrógão à tragédia de Pedrógão – como o Interior tem de responder, também, à sangria do Interior. Não sei como. Mas tem de ser uma das preocupações do novo ano. 

[Da coluna no CM]

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Longe de casa.

por FJV, em 22.12.17

Em 2005 – desculpem falar de mim – publiquei um romance acerca dos portugueses que não querem regressar a Portugal, Longe de Manaus. Dos que estão em todo o lado, África e Américas, e evitam regressar; e dos que “triunfam” lá fora e nunca poderiam triunfar dentro das quatro paredes de Portugal. Conheci-os também em todo o lado. Do delta do Orinoco à Austrália passando pela China e pela Argentina. Por isso, a fábula da emigração dolorosa nunca me comoveu mais do que por uns instantes: os portugueses buscam a vida onde ela está. Foi sempre assim. Ontem, num encontro do Conselho da Diáspora, disseram-se coisas interessantes sobre a facilidade com que os portugueses se integram noutros lugares, e o ministro dos Estrangeiros acha que se trata de um “caso de estudo”. Há mais de quinhentos anos que é um “caso de estudo”. Há quem pense que vileza da pátria pode sarar de tempos a tempos, mas no geral temos raízes flutuantes. Somos como Zellig, aquele personagem de Woody Allen que se metamorfoseava consoante o lugar e a época em que se encontrava. Isso é um bem inestimável.

[Da coluna no CM]

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Branca de Neve.

por FJV, em 20.12.17

Passam amanhã 80 anos sobre a estreia de Branca de Neve e os Sete Anões, a primeira longa-metragem animada dos estúdios Disney. Confesso: acho tudo insuportável, tanto o filme como a história original, dos irmãos Grimm (de 1812, supõe-se), inspirada em histórias orais alemãs. Prefiro uma versão albanesa em que a princesa vive rodeada de 40 dragões e não é envenenada por uma maçã mas pela picada de um anel. Mas sim, é um marco – e uma história infantil que satisfez milhões de crianças, inspirou a imaginação de psicanalistas e de romancistas (como Donald Barthelme, Angela Carter ou A.S. Byatt) e entrou na nossa cultura de forma afável e duradoura. Há cerca de um mês, no entanto, uma mãe inglesa pediu que o filme não fosse mostrado ao seu filho de seis anos (e iniciou uma petição pública para que a proibição se estendesse) porque o momento em que o príncipe desperta Branca de Neve com um beijo configura uma situação de “abuso sexual” – e ela não queria que o seu jovem rebento pensasse que as raparigas podem ser beijadas enquanto dormem. Portanto, já não sei o que vos diga.

[Da coluna no CM]

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A IURD, antes disto.

por FJV, em 20.12.17

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Ricas, ricas companhias.

O aparato da IURD faz dela um alvo tremendo – e justificado. As reportagens que têm sido publicadas pelos jornais e emitidas pelas televisões evidenciam a prática de crimes a ser rigorosamente investigados. De nada vale invocar o nome ou a condição de “igreja”; no Brasil, a IURD é um colosso mediático e financeiro cujo poder ultrapassa em muito o do poder político propriamente dito. Em 2004 comecei a acompanhar no Brasil a atividade da congregação depois de um bispo queimar imagens de santos cadastradas pelo instituto do Património Histórico e Artístico. Em 2005, colocou-se a hipótese académica de, caso Lula se demitisse, a presidência ir parar às mãos da IURD depois de o vice-presidente Alencar se ter filiado no PMR, um partido dessa igreja. Aliás, foi a aliança de Lula com a IRUD (23 televisões, 50 estações de rádio da Rede Aleluia, etc.) que lhe permitiu apoio para o seu segundo mandato – aparecendo de mãos dadas com Edir Macedo, o tal. Portanto, não invoquem o nome de Deus nesta história – mas de negócios, política, dinheiro (rios dele) e, claro, suspeita de crime.

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Frederico Lourenço: a nova religião que nasceu com os Evangelhos.

por FJV, em 20.12.17

Frederico Lourenço, no seu Facebook, faz um resumo da nova religião assinalada no Natal.

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Carros para totós.

por FJV, em 18.12.17

Se há coisa de que não entendo praticamente nada é a da indústria automóvel; mas, menos ainda, a dos apaixonados pelos carros da chamada “condução autónoma”, ou seja, sem intervenção humana. Um recente estudo de mercado dá-me razão: parece que 70% dos europeus querem continuar a guiar os seus carros, mesmo que o sistema de controle dos carros sem condutor seja fiável. Compreendo: nós conduzimos um carro, entre outras razões, porque temos prazer nisso, porque podemos decidir o nosso próprio grau de autonomia – e porque não gostamos de abdicar dela. É ridículo meter três pessoas num carro entre Lisboa e o Porto, circulando pela auto-estrada a 120 km/h, quando se pode viajar mais rápida e comodamente num comboio ou num avião. Imagino o que fazem essas três pessoas lá dentro, sem ninguém a conduzir; falam do carro que ninguém está a conduzir. “Olha como ele acelera”, ou “será que ele vai ultrapassar?” – assim seriam as conversas, ainda mais ridículas a meio de um congestionamento. Se alguém não gosta mesmo de conduzir um carro, então que não empate. Não faça é figura de totó.

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Costumes.

por FJV, em 17.12.17

Sara Sampaio e a sua ousadia, «cansada, a resfolegar, mas submissa». Crónica de J. Rentes de Carvalho.

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Estar na mó de cima. Ela sabia.

por FJV, em 15.12.17

A presidente da Raríssimas definiu bem a coisa: “O guito há de aparecer.” Ela sabia – porque aprendeu com as dificuldades – que é preciso estar na “mó de cima” e que para isso é bom ter “os amigos certos”. No episódio político da Raríssimas está uma história patética do regime e da oligarquia dominante. Ela compreendeu bem a natureza do nepotismo e da endogamia portuguesas (querem dar uma olhadela às genealogias da banca, da administração pública e da vida política?), estendeu as armadilhas apropriadas e teve benefícios que julgava normais (“os que se praticam” habitualmente, e a preço de mercado, como percebeu). Podemos criticar-lhe tudo (e há bastantes motivos) mas não a intuição e a clareza ao lidar com a oligarquia a fim de “estar na mó de cima”, como ajuizadamente escreveu. Nada existe de novo no “caso Raríssimas” que não exista no regime familiar que vem de 1834 até hoje, com poucas e inócuas convulsões. Lições para o futuro? As que vêm na literatura desde há séculos: ela regressa a casa e assistirá ao desfile dos que vão dizer que, afinal, não a conheciam.

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I hate the internet & the working class.

por FJV, em 14.12.17

Na cama, Bret Easton Ellis lê I Hate the Internet.

 

É um livro delicioso, I Hate the Internet (Odeio a Inernet, sai em Portugal em janeiro) de Jarett Kobek, um turco-americano que descreve as desventuras de uma vintena de personagens da costa leste os EUA, cujas vidas se transformam num inferno graças ao Facebook, ao Twitter e ao Instagram. Basicamente, é um romance sobre economia política, feminismo e internet. Há uma passagem em que Kobek explica que os grandes patrões da internet adoram as indignações generalizadas de natureza política e social – elas alimentam e acrescentam o tráfego, captando mais anunciantes para a Google, o Facebook ou o Twitter. Quanto mais protestos se leem, quanto mais guerra anticapitalista melhor para os acionistas, que enchem os bolsos com cada página da net. Veja-se o caso do grande patrão da Penguin Random House inglesa, Tom Weldon, que exortou a indústria da edição a responder ao “imperativo comercial urgente” de “fazer refletir em romances as experiências da classe trabalhadora”. É maravilhoso ver os tubarões da indústria a querer vender obras sobre a classe trabalhadora a fim de aumentar os lucros dos acionistas.

[Da coluna no CM]

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É uma espécie de longa travessia do deserto.

por FJV, em 13.12.17

O Webster, o dicionário dos dicionários em língua inglesa, elegeu “feminismo” como a palavra do ano. Também podia ser “assédio”, “abuso”, “denúncia”, e compreender-se-ia que se tratava de feminismo. 2017 foi o ano de tudo isso, e foi uma longa marcha desde o século V, quando a matemática, astrónoma e filósofa Hipátia foi assassinada em Alexandria por uma horda de cristãos em fúria, que a queimaram – ou, recuando, desde que Fatima Al-Fihriya Al-Qurashiya, filha de um mercador de Fez, fundou nesta cidade a biblioteca de Al Quaraouiyine no século IX antes da nossa era. Ou desde que, em 1678, A Princesa de Clèves foi publicado anonimamente, ou quando, em 1847, Charlotte Brontë publicou Jane Eyre, trinta anos depois de Mary Shelley, também anonimamente, ter publicado Frankenstein. Cada um destes nomes é hoje analisado, estudado e admirado independentemente de ser mulher – mas o caminho até à dignificação (das investigadoras do Centro 3B da Universidade do Minho como do futebol feminino) não é fácil. É uma espécie de longa travessia do deserto que nos deve encher de orgulho.

[Da coluna no CM]

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