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Identidade.

por FJV, em 05.06.14

Se há combate que marcou o século XX foi o dos direitos civis: a luta pela integração, pela partilha, por não ser necessário abdicar das identidades individuais no interior da vida em comunidade. Com isso, veio a ideia de que a pluralidade e a diferença podem constituir elementos de coesão e de aperfeiçoamento. Não fazer apartheid. Não separar brancos e negros, não distinguir heterossexuais e homossexuais, impedir a segregação de minorias. Não é isso que pensa Astrid Osterland, que, em Berlim, é uma das fundadoras do primeiro cemitério para feministas e lésbicas. Desta forma, diz Astrid, “a causa gay fica para a posteridade”. Engana-se: fica separada do resto das coisas, como um gueto para além da vida e da morte, prolongando na morte os rancores, ressentimentos, desafetos e solidões que existiram durante a vida. A criação de um cemitério para a comunidade gay feminina é uma muralha ridícula.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Céline

por FJV, em 27.05.14

Passam hoje 120 anos sobre o nascimentos de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Há uma novidade brutal na sua obra, uma desesperança quase criminosa: Morte a Crédito, Viagem ao Fim da Noite ou Norte fornecem as peças essenciais, notáveis, desse retrato do “escritor maldito”. Mas, por muito conveniente que seja, Céline não é maldito: uma parte substancial da sua obra é apenas um testamento anti-semita, vergonhoso (Vão Navios Cheios de Fantasmas). Deve ser julgado por isso, ou devemos valorizar a sua obra devastadora, que mudou a língua literária do seu tempo? Hoje, em época de paz, temos de fazer um esforço para recolocá-lo no lugar dos seus tormentos: “Eu matei muito”, dizia Céline sobre a sua memória da I Guerra. Nunca se é o mesmo depois disso. Tudo deixa de existir (ele não acreditava no amor): a decência, a normalidade, a vida plena. Sim, era um ser abjecto, um escritor único e impiedoso.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Hammett

por FJV, em 26.05.14

Lembram-se de O Falcão de Malta, ou Relíquia Macabra, o filme de John Huston com Humphrey Bogart e Mary Astor? Antes disso era um livro – o berço de Sam Spade, o detective criado por Dashiell Hammett nesse livro de 1930 (o filme é de 1941) e que depois apareceu em vários contos de Hammett, de quem amanhã se assinalam os 120 anos do seu nascimento. Wim Wenders fez um filme em sua homenagem (Hammett, de 1982, a partir do livro de Joe Gores): é o retrato do “escritor perdido”, doseando literatura e política, apaixonado (por Lilian Hellmann), contraditório, ex-detective da Agência Pinkerton, consumido pelo álcool e pela América. A literatura policial não seria a mesma sem ele – A Chave de Vidro, A Maldição dos Dain ou Colheita Vermelha e O Homem Sombra estão traduzidos (sem falar das histórias do Agente Secreto X-9). Mas Falcão de Malta é uma obra-prima impossível de esquecer, o anúncio do policial moderno e marcado pelo medo.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Os franceses

por FJV, em 26.05.14

Será da Europa? Será dos franceses? Será da França? Claro que não, até porque não há uma coisa como “os franceses” – mas tenho o direito de duvidar; o chauvinismo, o “populismo dos comerciantes e funcionários” e o poujadismo estão lá. Tal como a tentação da capitulação, da velha Action Française e do revisionismo histórico, com a sua mistura de arrogância nacionalista, anti-semitismo minucioso e comprovado, e racismo beligerante. Desta vez, Jean-Marie Le Pen foi escutado a dizer que o vírus ébola resolveria os problemas da imigração em três meses. Ele tem razão, caramba – basta ler ‘A Peste’, de Albert Camus (Nobel francês nascido na Argélia, já agora, um ‘pied-noir’): o vírus desperta de tempos a tempos, guardado de geração em geração, administrado com cautelas. Nada a fazer. Na França, estes demónios despertam com inigualável qualidade, certa pompa e aquele ar de velhacaria cheia de advérbios e honras passadas, contra os polacos, os judeus, os americanos, os portugueses, os pretos, os chineses, seja quem for. Tudo menos os franceses, claro.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Meteorologia.

por FJV, em 26.05.14

Um dos meus sonhos era o de escrever uma coluna diária sobre meteorologia, a evolução das estações do ano, o estado do tempo, como Joe Shute, no Daily Telegraph. Há dias ele comentava o que tinha observado no País de Gales: “campos de ouro” estendidos até ao mar – prímulas, calêndulas, margaridas, dentes-de-leão, goivos do mar, hipericão. O esplendor de maio, portanto. O que este termóstato favorece: passeios, namoros, piqueniques e neblinas matinais no Atlântico. Previsão para os próximos dias: marés suaves, poemas de Ruy Belo, descida de temperatura agradável e acrescentar terra aos vasos das varandas. A primeira exposição ao sol multiplica o tom rosado em rostos pálidos, faz apetecer grelhados e caminhadas a norte do Cabo da Roca. A meteorologia é o pórtico da harmonia das coisas, juntamente com a floração dos hibiscos, das magnólias e dos bolbos mais tardios. Simples como as coisas simples.

[Da coluna do Correio da Manhã]

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Jose Emilio Pacheco.

por FJV, em 02.02.14

Conheci-o em 1995, quando o México estava a mudar, esmagado pela revolta de Chiapas e pela agonia do regime. Salinas estava para ser substituído por Zedillo, e o PRI velho não teria muito tempo de vida, no meio de cumplicidades com os cartéis da droga. Eu queria conhecer José Emílio Pacheco (1939-2014) porque tinha lido Los Trabajos del Mar e Ciudad de la Memoria, dois livros que me revelavam um pouco da sua poesia, direta, melancólica, musical. Na véspera, fui comprar As Batalhas no Deserto (que o editor Marcelo Teixeira, corajosamente, depois publicou em Portugal) e li-o de uma assentada: era um retrato curto, maravilhoso e quase adolescente das mudanças no México cinquenta anos antes, retrato sentimental da capital do país. Depois de conhecer Carlos Monsiváis, Jaime Sabines ou Adolfo Castañon, trilogia de respeito, Pacheco (Prémio Cervantes em 2009) foi uma grande descoberta no México desses anos de pólvora e ‘mariachi’. A morte levou-o anteontem. Ele escrevera: «O guardião não me deixa entrar./ Já passei do limite de idade.»

 [Da coluna do Correio da Manhã.]

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Pete.

por FJV, em 02.02.14

Confesso que alguns deles (Don Mclean, Donovan, Peter Paul & Mary...) eram para lá de aborrecidos, para não dizer insuportáveis, mas Pete Seeger não tinha culpa de ter deixado raízes em todo lado: a sua vantagem era ser o original, o homem que desde a década de quarenta não podia ser esquecido quando se falava do “folk americano” e do “ativismo cívico”. Pete Seeger (1919-2014), que cantava com desleixo (não era isso que interessava, nem a Alan Lomax ou Woody Guthrie) mas com empenho, serviu-se da música para – nos anos sessenta – a transformar, sobretudo, em intervenção política. ‘Where Have All the Flowers Gone’ e ‘Turn, turn, turn’ (os Byrds têm uma excelente versão) são boas canções, e ‘If I Had a Hammer’ tornou-se uma das bandeiras do seu repertório, imenso, comprometido e inspirador. Sem ele, a música popular teria sido diferente e mais desatenta. Aos 94 anos, imagino que morreu a trautear.

 

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Xiaolu

por FJV, em 28.01.14

Alguns dos nossos inteletuais suspiram em francês, com saudades do tempo em que eram mandarins, mas a chamada ‘língua global’ é o inglês. O que tem consequências, claro. Com o cinema e a televisão do seu lado, a máquina americana de ficção desvaloriza tudo o que não fala a sua língua nem obedece à sua gramática. A rebelião ocorre aqui e ali, mas episódica. O último episódio vem da Índia, do festival de Jaipur, onde a anglo-chinesa Xiaolu Guo (entre nós está publicado o seu belo ‘Aldeia de Pedra’), diante das televisões e da América reafirmou que a ficção americana está “massivamente sobrevalorizada”. Mais: “Se alguém escreve em japonês, ou vietnamita, ou português, tem de esperar até ser traduzido para inglês.” A menção ao português comove-nos, mas a verdade é que conhecemos poucos livros vindos de lá do Bósforo, dos mares da Ásia e do Pacífico. O centro do mundo continua a deslocar-se.

 

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As cinzas de Freud.

por FJV, em 20.01.14

O que é um lapso? Uma coisa no lugar de outra. Veja-se o caso dos ladrões que tentaram – na noite de final de ano – roubar a urna contendo as cinzas de Sigmund Freud, em Golders Green, Londres (precisamente: junto do cemitério judaico da Sinagoga Portuguesa). Freud, o grande escritor e fundador da psicanálise, fugiu de Viena em 1938, depois de a Áustria ter sido “anexada” pela Alemanha nazi (ou ter recebido os nazis de braços abertos). Freud morreu em 1939 em Londres e foi cremado no Hoop Lane, onde repousam também as cinzas da sua mulher e filha, de Kingsley Amis, Enid Blyton, Bram Stoker ou Peter Sellers, entre outros. 75 anos depois, a tentativa de roubo danificou a urna – um vaso grego datado de 500 anos AC, oferecido a Freud pela princesa Maria Bonaparte (sobrinha bisneta de Napoleão), e trazido de Viena durante a fuga. Um lapso é isto: roubar um vaso e sair-lhe Freud e a história da Europa.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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A «comunicação».

por FJV, em 19.01.14

Perder a vergonha: é exatamente a isso que se referia Ruth Rendell, a autora britânica de romances policiais (com aquele discreto inspetor Wexford como herói), quando, recentemente, comparava atitudes sobre leitura nos últimos vinte anos. Muita coisa mudou no modo como lemos, como encaramos o acto de leitura ou desenhamos o conceito de livro; mas a diferença essencial, dizia Rendell, é que agora as pessoas “já não se envergonham” de dizer que não lêem livros. Daí que, hoje em dia, a leitura seja cada vez mais uma atividade minoritária. Nesta matéria há contas a ajustar e a fatura deve ser apresentada, desde já, ao sistema escolar – que não só revelou uma brutal incapacidade de motivar gente para a leitura como, além disso, desvalorizou o ensino da literatura em benefício da “comunicação”. A nossa civilização assentou nesse tabu: o livro. Perdê-lo é deixar entrar os bárbaros dentro da cidade.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Os anos que vêm

por FJV, em 17.01.14

A “crise” obrigou-nos a repensar o modo de vida e a forma como lidamos com as coisas banais: o preço da bica, as compras de Natal, a roupa do ano passado, os gestos menores do dia-a-dia, as meias-solas para os sapatos, a ida ao restaurante. Dificilmente iremos encarar o futuro com a mesma leviandade. Há quem se lamente de que, assim, ficamos “mais conservadores”. Se for verdade, é uma vantagem, porque a “saída da troika” não significa o recomeço das festividades ou o regresso ao tempo em que a prosperidade se vendia ao preço do pechisbeque, cheio de engenharias financeiras. Voltaremos a ser portugueses de antanho, provavelmente, renitentes em relação às ilusões do progresso barato, céticos quando se tratar de fazer contas. Os nossos carros terão doze ou quinze anos. A nossa biblioteca será revisitada. Os nossos casacos terão cotoveleiras. Estaremos mais atentos à vida que construímos. Assim serão os anos que vêm.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Até ao osso.

por FJV, em 16.01.14


Existe, nos EUA, um prémio de 10 mil dólares para inéditos de literatura policial. O júri decidiu em 2013 atribuir o galardão a Alaric Hunt, pelo seu livro Cuts Through Bone, já foi publicado (em Maio, nas versões papel, áudiolivro e e-book) pela editora Minotaur: a história centra-se sobre a porto-riquenha Rachel Vazquez, assistente do detetive Clayton Guthrie, encarregados de investigar a um assassínio que os transporta aos túneis de Nova Iorque e a uma sequência de homicídios de jovens mulheres de Manhattan. Alaric Hunt mostrou ser um grande conhecedor de NY e dos mecanismos do inquérito policial e da chamada “literatura de ação”. A surpresa veio quando a imprensa, que gostou do livro, quis falar-lhe: Hunt nunca esteve em NY. E onde vive? Numa prisão da Carolina do Sul. Desde quando? Desde 1988, condenado a prisão perpétua pela morte de uma jovem depois do assalto a uma ourivesaria. 

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Atrasado, mas enfim

por FJV, em 10.01.14

Canções como “Domingo à Tarde” ou “Tudo Passará” foram os grandes êxitos de Nelson Ned em Portugal durante os anos sessenta. Não havia ‘juke box’ que os dispensasse. A sua voz era inconfundível, poderosa – e “romântica”; muito naturalmente, nunca entrou no pódio da MPB, tal como outros proscritos que enchem as listas de “cantores pirosos”, como Odair José, Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto, Nilton César, Sidney Magal ou Bartô Galeno. Como Tim Maia, por exemplo, Ned, que era anão, conheceu o caminho das drogas, que tentou combater com a conversão religiosa – e o do grande sucesso (cantou com Tony Bennett) que nunca resultou em ser admirado. Morreu anteontem, aos 66 anos (n. 1947) como uma curiosidade dolorosa e triste. A música popular “cafona” tinha em Nelson Ned um dos seu grandes representantes: a vibração da sua voz compensava tudo: desde o mau gosto ao sofrimento verdadeiro.

 

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Em silêncio.

por FJV, em 05.01.14


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Chefs & o destino é empratar.

por FJV, em 03.01.14

Subscrevo, naturalmente, este post do Rui Rocha. Bem vindo à campanha em defesa dos cozinheiros e cozinheiras de antanho.

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Poemas de Roberto Bolaño, 3.

por FJV, em 03.01.14

Terceira série das traduções de poemas de Roberto Bolaño. As anteriores aqui e aqui.

 

 

[AUTORRETRATO]

 

Nasci no Chile em 1953[1] e vivi em várias e

distintas casas.

Depois, chegaram os amigos pintados por Posadas

e a região mais transparente do mundo

pintada por um velho e clássico pintor mexicano

do século XIX cujo nome consegui

esquecer por completo.

Entre um extremo e outro só vejo

o meu próprio rosto

que sai e entra no espelho

repetidas vezes.

Como num filme de terror.

Sabes a que me refiro?

Àqueles que chamávamos de terror psicológico.

 

 

[HORDA]

 

Poetas de Espanha e da América Latina, o mais infame

Da literatura, surgiram como ratazanas do fundo do meu sonho

E transformaram os seus guinchos num coro de vozes brancas:

Não te preocupes, Roberto, disseram, nós nos encarregaremos

De fazer-te desaparecer, nem os seus ossos imaculados

Nem os teus escritos que cuspimos e plagiamos habilmente

Emergirão do naufrágio. Nem os teus olhos, nem os teus tomates,

Se salvarão deste ensaio geral de afogamento. E vi

As suas carinhas satisfeitas, graves adidos culturais e rosados

Directores de revistas, leitores de editoras, e pobres

Revisores, os poetas de língua espanhola, cujo nome é

Horda, os melhores, as ratazanas fedorentas, banhos

Na dura arte de sobreviver em troca de excrementos,

De exercícios públicos de terror, os Neruda

E os Octavio Paz de bolso, os porcos insensíveis, abside

Ou arranhão no grande edifício do Poder.

Horda que detém o sonho do adolescente e a escrita.

Meu Deus! Debaixo deste sol gordo e seboso que nos mata

E nos diminui.

 

 

[A POESIA LATINO-AMERICANA]

 

É horrível, cavalheiros. A vacuidade e o espanto.

Paisagem de formigas

No vazio. Mas no fundo, úteis.

Leiamos e contemplemos o seu fluir permanente:

Ali estão os poetas do México e da Argentina, do

Peru e da Colômbia, do Chile, Brasil

E Bolívia

Comprometidos com as suas parcelas de poder,

Em pé de guerra (permanentemente), dispostos a defender

Os seus castelos da investida do Nada

Ou dos jovens. Dispostos a pactuar, a ignorar,

A exercer a violência (verbal), a fazer desaparecer

Das antologias os elementos subversivos:

Alguns velhos fora de moda.

Uma atividade que é o fiel reflexo do nosso continente.

Pobres e débeis, são os nossos poetas

Quem melhor encenam essa contingência.

Pobres e débeis, nem europeus

Nem norteamericanos,

Pateticamente orgulhosos e pateticamente cultos

(Ainda que mais nos valeria aprender matemáticas ou mecânica,

mais nos valeria lavrar e semear! Mais nos valeria

fazer de maricas e de putas!)

Perus recheados de peidos dispostos a falar da morte

Em qualquer universidade, em qualquer balcão de bar.

Assim somos, vaidosos e lamentáveis,

Como a América Latina, estritamente hierárquicos, todos

Em linha, todos com as nossas obras completas

E um curso de inglês ou francês,

Fazendo fila nas portas

Do Desconhecido:

Um Prémio ou um pontapé

Nos nossos cus de cimento.

 

 

[AUTORRETRATO]

 

Cabecilha aos 8 anos, ninguém suspeitou

que aquele que tinha mais medo era eu.

O ruivo Barrientos e o louco Herrera

foram os meus capitães mais fiéis

naquelas manhãs rosadas de Quilpué[1]

quando tudo se desmoronava à minha volta,

mas Bernardo Ugalde foi o meu amigo mais sábio.

Nas vésperas do Mundial de 62[2]

Raúl Sánchez e Eladio Rojas[3] apoiavam-nos

na defesa e no meio campo: os avançados

éramos nós.

Valentes e audazes, como se iludíssemos a morte,

a minha trupe continuava a lutar

enquanto os autocarros matavam os miúdos solitários.

Assim, sem nos darmos conta,

fomos perdendo tudo.

        

 

[O REGRESSO DE ROBERTO BOLAÑO]

 

1.

Regressei às putas do Chile e não houve bordel

onde não tivesse sido recebido como um filho

como o irmão que regressa no meio do nevoeiro

e escutei uma música deliciosa

uma música de guitarra e piano e congas

boa para dançar

boa para alguém se deixar ir

e saltitar de mesa em mesa

de par em par

saudando os presentes

para todos um sorriso

para todos uma palavra

de reconhecimento

 

2.

Regressei pálido como a lua

e sem demasiado e entusiasmo

aos bordeis da minha pátria

e as putas sorriram-me

com um calor inesperado

e uma que provavelmente não tinha

30 anos

embora aparentasse 50

levou-me a dançar

um samba ou um tango

juro que não recordo

no meio da pista iluminada

pela lua e as estrelas

 

3.

Regressei já pacificado

bastante doente

fraco e sem dinheiro

e sem plano para arranjá-lo

sem amigos

sem uma triste pistola

que me ajudasse a abrir

algumas portas

e quando tudo parecia levar-me

ao lógico desastre final

apareceram as putas e os bordéis

as canções que dançavam

os velhos chulos

e tudo voltou a brilhar

 

 

[A LUZ]

 

Luz que vi nos amanheceres de México D.F.

Na Avenida Revolución ou em Niño Perdido,

Luz fodida que magoava as pálpebras e te fazia

Chorar e esconder-te em algum daqueles autocarros

Enlouquecidos, aquelas carrinhas que te faziam viajar

Em círculos pelos subúrbios da cidade escurecida.

Luz que vi como um único punhal levitando

No altar dos sacrifícios de D.F., o ar

Cantado pelo Dr. Atl[4], o ar imundo

Que tentou capturar Mario Santiago. Ah, a fodida

Luz. Como se fodesse consigo mesma.

 

 


[1] Bolaño passou a sua infância em Valparaíso – foi em Quilpué que fez os seus primeiros estudos.

[2] O campeonato mundial de futebol de 1962 realizaou-se no Chile e foi ganho pelo Brasil. Alguns dos jogos realizaram-se em Viña del Mar (no Estádio Sausalito), província de Valparaíso, não muito longe de Quilpué.

[3] Eladio Rojas (1934-1991, médio, jogou no Everton (clube de Viña del Mar), no River Plate, da Argentina, e no Colo-Colo, de Santiago) e Raúl Sánchez (1933, defesa, jogador do Santiago Wanderers e do Colo-Colo), futebolistas chilenos.

[4] Pseudónimo de um pintor, escritor, vulcanólogo, jornalista e politico mexicano (1875-1964). Viajou pela Europa, foi mestre de pintores como Orozco e Siqueiros, aderiu à Revolução Mexicana de 1910 e ao seu «socialismo bíblico» e posteriormente declarou a sua simpatia por Hitler. Pintor de paisagens, dedicou-se a representar os vulcões mexicanos.



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Uma evolução sentimental.

por FJV, em 03.01.14

 

 Jø Nesbo e Yrsa Sigurðardóttir

 

A ideia de “produzir” uma sequela da trilogia Millenium, do malogrado Stieg Larsson, tem algum sentido: trata-se de arranjar uma nova história para os personagens Blomqvist & Lisbeth Salander, bem como situá-la naquele cenário que fascinou milhões de leitores. O livro, que poderá ser publicado em 2015, está a suscitar interesse até em meios académicos (como na Faculdade de Letras do Porto, onde se estuda a literatura policial, graças a Maria de Lurdes Sampaio ou a Gonçalo Villas-Boas). O universo nórdico deslocou e alterou o modo como olhamos o policial. Autores como Camilla Lakberg, Larsson, Mons Kallentoft, Jø Nesbo ou Yrsa Sigurðardóttir introduziram na mecânica do género alguns ingredientes que dificilmente passavam no filtro do policial americano, mais formal e “seco”: uma dimensão humana e temperamental menos urbana e mais “poética” (que existia em autores do sul da Europa). A “descoberta dos nórdicos” é uma revolução sentimental na literatura.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Efemérides.

por FJV, em 03.01.14

P.D. James, uma das grandes autoras britânicas de policiais, entre os quais Gosto pela Morte (uma jóia) e Desvios e Desejos, publicou Morte em Pemberley’ (Porto Editora) em 2013, e não foi por acaso: comemoravam-se os 200 anos de Orgulho e Preconceito, um dos romances do nosso cânone. De que trata Morte em Pemberley? De Orgulho e Preconceito: depois do casamento de Elizabeth e Fitzwilliam Darcy (basicamente, é assim que termina o livro de Jane Austen), o marido de Lydia, irmã de Elizabeth, é assassinado. Este é o pretexto para P.D. James regressar ao policial, que ama, e a Orgulho e Preconceito, que todos os ingleses amam. Na semana passada explicou isso no Telegraph: as personagens do livro de Jane Austen são tão perfeitas que se justifica que revivam noutros livros. Este ano assinalam-se 70 anos sobre Mau Tempo no Canal. Poucos se vão interessar pelo Faial e São Jorge ou Pico, por Margarida Dulmo, pelo tio Clark, pelas tempestades no canal. Estamos a perder a capacidade de nos encantar.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Foi um swap.

por FJV, em 03.01.14

O New York Times publicou uma conversa com Marcello Dell’Utri, 72 anos, antigo senador, amigo de Silvio Berlusconi e condenado por associação à Mafia. O que existe de recomendável na sua figura? Nada. No labirinto da troca de favores da política italiana, Dell’Utri ajudou várias pessoas a “subir na carreira”, mas a ninguém como Massimo De Caro, antigo diretor da biblioteca Girolamini, de Nápoles, preso depois de se saber que roubava livros antigos do monumental arquivo daquela biblioteca barroca, uma pérola napolitana – e os entregava a Dell’Utri, bibliófilo confesso, com um gosto muito apurado por livros dos séculos XVI e XVII, e que chegou a pedir a Berlusconi um prefácio para uma edição facsimilada de O Príncipe, de Maquiavel. Milhares de livros roubados foram encontrados na biblioteca de De Caro, entretanto contratado pelo governo como especialista em energias renováveis. Um folhetim.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Foz Côa & Góis.

por FJV, em 29.12.13

 

Parabéns a Vila Nova de Foz Côa e a Góis. O leitor que não estranhe, mas parece que estas duas vilas do interior do país – uma limitada pelo Douro, outra pelo chamado “pinhal interior” – foram os únicos municípios onde houve mais bens reconstruídos do que novas edificações. É uma reivindicação antiga da parte de gente sensata: autarcas que prefiram recuperar, restaurar, reedificar, do que fazer de novo, deixando um rasto de ruínas que o tempo consome e esquece. Até que outras gerações sejam obrigadas a lidar com elas. Tenho uma lista: auditórios, edifícios, palacetes que podiam albergar serviços públicos, jardins abandonados, ruas transformadas em lixeiras. O ideal de cada novo incumbente municipal é chegar e “deixar a sua marca”. O resultado está à vista pelo país fora, desordenado, desleixado e esquecido. Até os edifícios das câmaras destes concelhos são exemplares: são antigos e estimados.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Best-sellers.

por FJV, em 28.12.13

Como é que emagreceste tanto, Nigella?

 

No estranho “caso Nigella Lawson” (a autora de livros e programas de culinária – além de sex symbol para a meia-idade), agora no tribunal, há revelações interessantes para além das relacionadas com o consumo de drogas e com os vários milhões dispersos por contas bancárias e gastos com cartão de crédito. Uma delas tem a ver com livros: o ex-marido de Nigella, o milionário Charles Saatchi, publicitário, é galerista e ‘colecionador de arte’. Em 2009 publicou My Name Is Charles Saatchi and I Am a Artoholic, onde responde a várias questões sobre a sua vida & obra (uma exceção, uma vez que Saatchi não dá entrevistas). O livro teve uma passagem discreta pelas livrarias, que preferiam livros de cozinha. Pelo tribunal, ficámos agora a saber que Saatchi mandava comprar centenas de exemplares nas livrarias, ou através da Amazon, para que tivesse um bom lugar nas listas de best-sellers. É a vida.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O medo sueco.

por FJV, em 28.12.13

A arte ofende? Muitas vezes. Significa isso que é legítima a ação da censura para que os ofendidos deixem de se sentir ofendidos? Em Março de 2008, o Metro de Londres proibiu a pintura de uma mulher nua e seráfica, da autoria de Lucas Cranach (1472-1553) com medo de ofender os passageiros multiculturais que andavam nas suas carruagens. Por que o fizeram? Por medo que alguém achasse blasfema a pintura que Cranach compôs há quinhentos anos e que a Royal Academy exibia na época. Agora, o parlamento sueco retirou da sua sala de jantar uma pintura barroca, do século XVII, onde se divisavam uns discretos e alvíssimos seios. Por motivos, digamos, morais? Não. Porque “os muçulmanos” e “as feministas” se sentiriam ofendidos com um suavíssimo e celestial busto desnudado. O medo instalou-se definitivamente. Tudo é pode ser uma ofensa. Há uma lista em aberto para destruir a inocência do nosso mundo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Poemas de Roberto Bolaño, 2.

por FJV, em 07.12.13

[LISA]

 

Quando Lisa[1] me disse que tinha feito amor

com outro, na velha cabina telefónica daquele

armazém de Tepeyac[2], julguei que o mundo

terminava para mim. Um tipo alto e magro e

com o cabelo comprido e uma verga grossa que não esperou

mais de um encontro para penetrá-la até ao fundo.

Não é uma coisa séria, desse ela, mas é

a melhor maneira de tirar-te da minha vida.

Parménides Garcia Saldaña[3] tinha o cabelo farto e podia

ter sido o amante de Lisa, mas alguns

anos depois soube que tinha morrido numa clínica psiquiátrica

o que se tinha suicidado. Lisa já não queria

dormir mais com perdedores. Às vezes sonho

com ela e imagino-a feliz e fria num México

desenhado por Lovecraft. Escutamos música

(Canned Heat[4], um dos grupos preferidos

de Parménides Garcia Saldaña) e depois fazemos

amor três vezes. Da primeira vez veio-se dentro de mim,

da segunda veio-se na minha boca e, da terceira, apenas um fio

de água, um pequeno fio de pesca, entre os meus seios. E tudo

em duas horas, disse Lisa. As duas piores horas da minha vida,

disse do outro lado do telefone.

 

 


 

 

 

 

[OS CÃES ROMÂNTICOS]

 

Naquele tempo eu tinha 20 anos

e estava louco.

Tinha perdido um país

mas tinha ganho um sonho.

Sim, tinha ganho esse sonho

o resto não interessava.

Nem trabalhar, nem rezar,

nem estudar de madrugada

junto aos cães românticos.

E o sonho vivia no vazio do meu espírito.

Uma casa de madeira,

entre penumbras,

num dos pulmões dos trópicos.

Às vezes voltava-me dentro de mim

e visitava o sonho: uma estátua eternizada

em pensamentos líquidos,

um verme branco retorcendo-se

no amor.

Um amor desbocado.

Um sonho dentro de outro sonho.

E o pesadelo dizia-me: hás de crescer.

Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto

e esquecerás.

Mas naquele tempo crescer teria sido um crime.

Estou aqui, disse, com os cães românticos

e aqui vou ficar.

 

 


 

[DEVOÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO]

 

 Em finais de 1992 ele estava muito doente[5]

e tinha-se separado da sua mulher.

Essa era a puta da verdade:

estava só e fodido

e costumava pensar que lhe restava pouco tempo.

Mas os sonhos, alheios à doença,

vinham todas as noites

com uma fidelidade que conseguia assombrá-lo.

Os sonhos que o transportavam para esse país mágico

que ele e ninguém mais chamava México D.F.

e Lisa e a voz de Mario Santiago[6]

lendo um poema

e tantas outras coisas boas e dignas

dos mais calorosos elogios.

Doente e só, ele sonhava

e defrontava os dias que se dirigiam

até ao fim de outro ano.

E de tudo isso extraía um pouco de força e de coragem.

México, os passos fosforescentes da noite,

a música que se ouvia nas esquinas

onde antes as putas gelavam

(no coração de gelo de Colonia Guerrero[7])

proporcionavam-lhe o alimento de que necessitava

para cerrar os dentes

e não chorar de medo.

 

 



[1] Referência a Lisa Johnson, poetisa americana, musa e companheira de Roberto Bolaño em 1975-1976, durante os anos do infrarrealismo ou realismo visceral. Chegaram a viver juntos durante um mês e meio numa casa de D.F. Lisa Johnson é Laura Jáuregui num dos seus romances.

[2] O morro de Tepeyac fica a norte de México D.F., parte da Serra de Guadalupe. Na tradição católica mexicana, é o local das aparições da Virgem de Guadalupe.

[3] Parménides Garcia Saldaña (1944-1982), escritor mexicano, apaixonado por J.D. Salinger, Norman Mailer, rock e marxismo. É autor de Pasto Verde ou de En la Ruta de la Onda, livro emblemático da chamada Literatura de La Onda, um movimento literário anti-governamental nos tempos da eternização do PRI (Partido Revolucionário Institucional). Em vários livros Roberto Bolaño refere-se a esse grupo de escritores, juntamente com o infrarrealismo.

[4] Os Canned Heat eram uma banda de rock e blues que chegaram a atuar no festival de Woodstock. O baterista, Adolfo ‘Fito’ de la Parra (n. 1946), era mexicano de D.F., acompanhou Etta James, os Platters ou as Shirelles, e tem mesmo um álbum intitulado Fito de la Parra Drum Solos. O guitarrista era Bob Hite (1945-1981), e o primeiro líder da banda era Alan ‘Blind Owl’ Wilson (1943-1970), que chegou a tocar com John Lee Hooker (este considerava-o o mais talentoso tocador de harmónica) ou Jimi Hendrix. As duas canções mais famosas da banda eram «Going Up the Country» e «On the Road Again».

[5] Foi em 1992 que foi diagnosticada a Roberto Bolaño uma doença hepática e uma úlcera no cólon, de que viria a morrer em 2003.

[6] Mário Santiago (1953-1988) era um dos companheiros de Roberto Bolaño, e é considerado o fundador do infrarrealismo. É personagem de Bolaño em Os Detectives Selvagens. O primeiro manifesto do infrarrealismo foi assinado por Bolaño, em 1976: «Uma boa parte do mundo está a nascer e outra parte a morrer, e todos sabemos que todos temos de viver ou todos de morrer: nisto não há meio termo. […] Chirico diz: é necessário que o pensamento se distancie de tudo o que se chama lógico e bom sentido, que se distancie de todos os entraves humanos de modo que as coisas apareçam com um novo aspecto, iluminadas por uma constelação surgida pela primeira vez. Os infrarrealistas dizem: vamos mergulhar de cabeça em todas as peias humanas, de tal modo que as coisas comecem a mover-se dentro de nós mesmos, uma visão alucinante do homem.»

[7] Zona no noroeste de México D.F., residencial e popular.

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Mandela.

por FJV, em 06.12.13

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Poemas de Roberto Bolaño, 1.

por FJV, em 06.12.13

 

[A MINHA CARREIRA LITERÁRIA]

Recusas de Anagrama, Grijalbo, Planeta, com toda a certeza

         [também de Alfaguara,

Mondadori. Um não de Muchnik, Seix Barral, Destino...

         [Todas as editoras... Todos os leitores...

Todos os gerentes de vendas...

Debaixo da ponte, enquanto chove, uma oportunidade de ouro para

         [ver-me a mim mesmo:

Como uma serpente no Pólo Norte, mas escrevendo.

Escrevendo poesia nos país dos imbecis.

Escrevendo com o meu filho nos joelhos.

Escrevendo até que cai a noite

com um estrondo dos mil demónios.

Os demónios que hão de levar-me ao inferno,

mas escrevendo.

 


 


[ESTA É A PURA VERDADE]

 

Fui criado ao lado de revolucionários puritanos

Fui criticado ajudado empurrado por heróis

da poesia lírica

e do baloiço da morte.

Quero dizer que o meu lirismo é diferente

(já tudo está escrito mas permitam-me

acrescentar qualquer coisa mais).

Nadar nos pântanos da vulgaridade

é para mim como uma Acapulco de mercúrio

uma Acapulco de sangue de peixe

uma Disneilândia submarina

Onde estou em paz comigo.

 

 


 

 

[O ENTARDECER]

 

O pai de Lisa viu passar esse entardecer

até lá em baixo

até México D.F.

O meu pai viu esse entardecer calçando as luvas

antes do seu último combate[1].

O pai de Carolina viu esse entardecer

derrotado e doente depois da guerra. O mesmo

entardecer sem braços

e com os lábios

delgados como um queixume.

O que o pai de Lola viu trabalhando numa

fábrica de Bilbau e o que

o pai de Edna viu procurando as palavras

exactas da sua prece.

Esse entardecer fantástico!

Aquele que o pai de Jennifer contemplou

num barco no Pacífico

durante a Segunda Guerra Mundial

e o que o pai de Margarita contemplou

à saída de uma taberna

sem nome.

Esse entardecer corajoso e trémulo, indivisível

Como uma seta lançada ao coração. 

[Poemas publicados em La Universidad Desconocida. Tradução minha.]

 

[1] Léon Bolaño, pai de Roberto Bolaño, foi boxeur e condutor de camiões. Chegou a ganhar o titulo de campeão de pesos pesados antes de conhecer Victoria Avalos, professora primária, com quem casou e com quem se mudou para Quilpué. Léon e Victoria separaram-se em 1973. Léon e Roberto Bolaño não se viram durante 22 anos – o encontro entre os dois deu-se em Madrid, em 2000, quando o escritor trabalhava em 2666. «Matou-se por causa desse livro. Quase não dormia, era uma obsessão», declarou Léon Bolaño em 2006. O pai soube da morte de Roberto apenas dois dias depois.

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Vias de extinção.

por FJV, em 06.12.13

A ideia de as pessoas se despirem é-me simpática. Durante um ou dois anos imaginei como seria Gillian Anderson nua – sim, por causa de Ficheiros Secretos –, e tenho uma lista com outros nomes. Gillian Anderson acaba de aparecer nesses termos, abraçada (é uma maneira de dizer) a um congro por causa de uma campanha da Fishlove, “em defesa da pesca sustentável”. Preferia um peixe mais simpático e com menos espinhas, mas enfim. Periodicamente, atrizes, atores, modelos, gente comum, magérrima ou bem nutrida, aparece nua em defesa de princípios morais e em campanhas políticas ou causas estapafúrdias. O ativismo nu enternece-me, mesmo no inverno. Há quem se dispa em calendários de râguebi ou de bombeiros, em protesto contra os maus tratos a animais ou em defesa dos direitos das aves de arribação. Na Argentina, um grupo de feministas despiu-se para insultar e agredir uns rapazes católicos que rezavam pacificamente. O corpo deixou de ser corpo. É agora uma espécie em vias de extinção. Que pena.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Recordações de outras eras.

por FJV, em 06.12.13

Um texto antigo do Origem das Espécies, agora que ele se prepara para treinar trivelas nos próximos tempos:

 

«Devia existir uma espécie de guarda de honra em redor de Quaresma, para recuperar as bolas que ele perde e entregar-lhas outra vez, para que ele possa repetir a finta ou fazer de novo o que ele fez a Adalto, passando-lhe a bola por cima. Valdano, há tempos, escrevia sobre essa arte de fazer coisas estranhas, próximas do talento puro, situando Quaresma entre os grandes artistas. Mas Quaresma é solista de outra música. Há jogadores que tomam o seu lugar numa grande orquestra; há os que reconhecemos em música de câmara; há os solistas extravagantes, como Cristiano Ronaldo (que os scolarianos perseguiram à pedrada durante um ano inteiro) ou Messi, que não podemos perder de vista. E há os que saltam para o palco ora a solo, ora com o seu grupo, bailaorescantaores e guitarristas. Sentem-se bem no tablao; não compreendem que interpretam um papel de tragédia, mas sabem passar do cante corto para o cante grande com um silêncio demolidor. A metáfora é propositadamente gitana. O cante p'alante deve ser escutado pelo público e a estrela é o cantaor; Quaresma interpreta-o algumas vezes, em trivelas fantásticas. Mas ele dá-se bem com o cante p'atrás, onde serve o conjunto de bailaores principais, e essa é uma virtude rara. O golo de hoje arrancou-lhe um sorriso aberto, largo, que o acompanhou até ao final como um jaleo cheio de brilhos adolescentes, tra tra tantan, trajili trajili traji, sons desconexos, mas sempre com voz afillá, rouca, de bandoleiro.»

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Rentes.

por FJV, em 06.12.13

Rentes de Carvalho em Estevais, Mogadouro.

 

A história de J. Rentes de Carvalho dava para dois bons volumes, mas só ele poderá contá-la. A nós, basta a alegria de saber que, aos 83 anos, é finalmente reconhecido pelos seus – mais pelos seus leitores do que pelos seus pares, que olham desconfiados para um português que viveu quase toda a sua vida na Holanda, onde os seus livros são bestsellers. E de que tratou nesses livros? Imagens, personagens, patifarias, mitos, manias, fragmentos de um país, Portugal, que frequentemente se esquece da sua certidão de nascimento. Depois de em 2012 ter recebido o Grande Prémio de Literatura Autobiográfica com Tempo Contado, é este ano distinguido com o Grande Prémio APE de Crónica (com Mazagran, textos da imprensa holandesa). Pelo meio, romances deliciosos como La Coca, Ernestina, Mentiras e Diamantes ou A Amante Holandesa. 83 anos de bilhete de identidade, é isso que são os seus livros. Na próxima terça-feira recebe, em Sintra, o Grande Prémio APE de Crónica.

 

    

   

Texto lido por J. Rentes de Carvalho em novembro de 2012,

na entrega do Grande Prémio APE de Literatura Autobiográfica:


«Os tolinhos. Os bufos. Os convencidos. Os pategos. Os membros e as suas esposas. Os amigos dum gajo que conhecemos há muito e  não é sério. Os fanáticos. Os sinceros. Os que foram maoístas. As bruxas. Os inimigos do povo. As irmãs do Salazar. Os compadres. Os hesitantes. O senhor Pacheco do táxi, do aviário e da bomba da gasolina. Os que comem peixe à sexta-feira. Os sócios benfeitores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis. O médico dos Raios-X. A ex-telefonista da ex-PIDE do antigo regime. O clarim de Caçadores 9. Os filhos do falecido Prof. Dr. Joaquim do Amaral Thorensen Perestrelo Owen Ricciotti Matoso Guedes de Crespo e Bombarral (Marquês de Leça, Irmão da Ordem Terceira, Diplomé des Palmes du Mérite Agricole). O maquinista do ‘Foguete’ que levou o Papa a Braga. Os heróis do mar. Os gloriosos combatentes anti-fascistas. Os gaseados de 1914-1918 (Flandres). A tia da D. Amália Rodrigues. O cauteleiro de Cinfães. Os moradores do terceiro andar do prédio nº 42 do Beco dos Capachinhos 1300-444  Lisboa. Os que só gostam de cerveja. O que comprou as calças do Gungunhana e as ofereceu depois ao Museu de Bragança, donde parece que foram roubadas na noite de 7 de Fevereiro de 1952. A mulher do filho do vizinho do Marcelo. As figuras prestigiosas da nossa política acompanhados (acompanhadas? era o que faltava!) das respectivas esposas. O emigrante que construiu aquela casa. Os visitantes do Jardim da Estrela. Os dez mais elegantes. Os calvos, os obesos, os deficientes motores, os invisuais, os diminuídos mentais - que é como quem diz: os carecas, os buchas, os aleijadinhos, os cegos, os tarados. Os manetas e os gagos. O locutor da Rádio Renascença. O bissexual que casou com a Maria João e na intimidade lhe chama Zé Maria. O senhor doutor que está quase a chegar, não falta nada. Os três da panelinha. Os três. Os que dizem trinta e três. A Trindade. O senhor Pimpim. Os que leram Marx. O reformado que pinta aguarelas e imita muito bem o barulho da água a ferver. O eléctrico dos Anjos. Os senhores guardas. As senhoras guardas. As gentes da autoridade. Os defensores da ordem. A mulher que fugiu ao marido alcoólico e se foi juntar com um cego que tem uma barraca em Chelas. Os tocadores de violoncelo. Os fascinados pelo destino do proletariado. Os holandeses anticolonialistas, vegetarianos, com casa no Algarve. O ex-ministro. A Rosa que gosta muito de crianças. Os enfermeiros. As calistas a domicílio. A menina do quiosque. O bispo de Aveiro. Você e eu.»

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Reler páginas soltas.

por FJV, em 05.12.13

 Fotografia de Pedro Loureiro

 

Depois de reler um dos capítulos de 2666, de Roberto Bolaño, relembro quando comecei a lê-lo, em Dezembro de 2008 — o Inverno ajuda muito nestes casos e sempre tive uma tentação por livros extensos para enfrentar o frio. Não há uma regra. Há quem os prefira para o Verão; sestas de férias — mesmo curtas, dependuradas sobre a tarde — são, quando se pode, o cenário ideal para que o livro demore mais nas nossas mãos. Não foi assim comigo.

O que 2666 me trouxe, nunca soube explicar senão em redor desse livro em que conheci quatro loucos apaixonados pela obra de Archimboldi, um escritor de que havia notícias vagas e em redor do qual se foi construindo uma mitologia muito parecida com a de J. D. Salinger. Desses quatro, três (é o número ideal: um triângulo amoroso ou apenas erótico — neste caso, apenas literário — do qual fica excluído um, que é o do «amor verdadeiro») partem para o México em busca de um Benno von Archimboldi que passa como uma sombra pelo painel de Santa Teresa. O que faz um escritor nascido em 1920, na Rússia, naquele cenário? O mesmo que eu fiz, muitos anos antes, nas ruas sujas de Ciudad Juárez. Não há quase nada que recomende esta cidade do estado mexicano de Chihuahua, feia e cercada pela violência, como a mais indicada para um turista, a não ser a memória do cinema (Man of Fire, com Denzel Washington, por exemplo, mas também numerosos westerns porque está ligada à fronteira texana de El Paso), da música («Cocaine Blues», de Johnny Cash e «Just Like Tom Thumb’s Blues», de Bob Dylan, para não ir mais longe) e da literatura: é um dos cenários de Cormac McCarthy.

Em 1995, Ciudad Juárez não era nada disso; apenas um cenário de papel sujo, rasgado pelos cartéis da droga e da prostituição. Havia caravanas de grandes jipes atravessando a fronteira por El Paso, em busca de droga, tequila, mulheres e má comida. O mesmo cenário para Stan Laurel e Oliver Hardy atravessarem um dos momentos mais difíceis das suas vidas (nuvens de álcool e poeira atravessando as janelas de um hotel miserável) como aparece no quase monumental A Quatro Mãos, o livro de Paco Taibo II — um dos livros «onde tudo aparece»: Trotsky escrevendo um romance policial, Malcolm Lowry abandonado nas ruas de Cuernavaca, Frida Khalo perdendo (ainda mais) a voz.

Volto atrás: eu estava em Ciudad Juárez em 1995. Treze anos depois regressei — pela mão de Bolaño. A cidade era a mesma. Eu diria a mesma coisa de Macondo, se tivesse ido a Macondo, antes de ter desaparecido.

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Coisas novas, rerum novarum.

por FJV, em 05.12.13

Nem de propósito. Assinalaram-se anteontem os 450 anos sobre a última das sessões do Concílio de Trento, iniciado 18 anos antes e presidido por três papas – foi o concílio da Contra-Reforma, a confirmação da guerra contra o protestantismo e contra a heresia no interior da igreja católica. Os dois concílios posteriores são de tendências diversas: o Vaticano I, de 1869, reforçou a ortodoxia; o Vaticano II, na década de 60 do século XX, constituiu uma “abertura ao mundo”. Francisco I é hoje considerado um revolucionário, sobretudo por pessoas que não leram documentos como as encíclicas Rerum Novarum ou Pacem in Terris. Mesmo assim, a igreja precisa de fazer a reforma que devolva algum entusiasmo a um mundo deprimido, e observar as consequências dos seus textos doutrinários em matéria social, por exemplo. Não para alegrar a ‘opinião pop’, flutuante; mas para provar que a sua mensagem tem sentido.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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