Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811) morreu há duzentos anos, cumpridos hoje. Há uns anos, salvo erro, qualquer aluno do ensino secundário sabia de quem se tratava – todas as coletâneas (“seletas”, como então se denominavam) incluíam um célebre soneto (“Chaves na mão, melena desgrenhada”) em que, de dentro de um toucado, surgia um colchão desaparecido (“Eis senão quando [caso nunca visto!]/ Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!”) Nós ríamos bastante e tínhamos razões para isso: Nicolau Tolentino era um boémio setecentista com gosto afinado para a sátira e para o exagero. Professor primeiro (de retórica), oficial de secretaria depois, a sua poesia nunca ultrapassou aquele nível de curiosidade risível e clássica. Mas era bom relê-lo para ter algumas surpresas.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.
A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
– «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»
– «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
A morte de Pedro Hestnes devia afligir-nos – não só porque se trata da morte, em si mesma, mas porque a quase eterna juventude do rosto de Hestnes há-de ficar a marcar uma parte do cinema português dos anos noventa, com a sua placidez, a sua beleza sem tranquilidade, o seu olhar. Passou pelos filmes fundamentais dessa era de renovação – de O Sangue, de Pedro Costa, a Agosto, de Jorge Silva Melo, ou A Idade Maior, de Teresa Villaverde e Três Menos Eu, de João Canijo. Há outros, mas recordo estes de memória (ah, e Xavier, de Mozos), como uma espécie de elogio do seu rosto, como uma estrela distante do cinema que fomos capazes de reinventar. Tínhamos a mesma idade, 49, o que é mais doloroso. Quando alguém parte, assim, deixa a impressão de ter ficado muito por fazer.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Aos oitenta anos, John Lee Hooker (1917-2001) publicou um álbum inesquecível, Don’t Look Back. Os que o conheceram apenas com essa idade não reconheceram no seu som toda a eloquência melancólica dos “Chicago blues”, comandada por uma guitarra que se tornou um ícone de toda a sua obra. Uma obra-prima, Don’t Look Back (a canção com esse título é reinterpretada em dueto com Van Morrison) também não resume uma carreira com cerca de cem discos publicados, de onde trauteamos “Boogie Chillen”, “Serves Me Right To Suffer”, “Boom-Boom” ou “One Bourbon, one Scotch, one Beer” – mas é um bom começo para quem não foi ainda tocado pela magia dos ‘blues’ e daquela arqueologia negra, profunda. A sua voz era única, um apelo das profundezas. Morreu há dez anos, assinalados esta semana.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Amy Winehouse é uma figura de tragédia — ela encarna a figura do talento prodigioso que raramente aproveita as oportunidades que tem para ser o que merece: uma estrela amada. Amada pela sua voz, amada pelo seu timbre verdadeiramente ‘soul’, até amada pelos seus desastres. Houve talentos desses consumidos pelas drogas e pelo álcool, destruídos pela fama e pela má-sorte. Mas Amy Winehouse é uma espécie de Sísifo que não consegue transportar até ao cume da montanha o peso extraordinário da sua vida. Cai demasiadas vezes devorada pelos seus fantasmas ou pelo álcool, o que começa a ser um excesso, até mesmo para os seus fãs mais adolescentes, como uma repetição da desgraça, uma espécie de drama aguardado com a irregularidade de uma coisa que já não seduz nem impressiona.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Dos seus discos, os únicos originais que tenho são os duplos Play it Again Erroll (de 1974) e The Elf. The Savoy Sessions (de 1976). Só os comprei depois da morte de Erroll Garner, em 1977 – um pianista que sempre me deu a ideia de ser bastante tímido e mais melancólico do que merecia. Isso deve-se à interpretação do seu tema mais famoso, «Misty», um monumento do jazz que passa de década para década (é de 1954) transportando a beleza quase cinematográfica que os ouvidos de hoje lhe atribuem. Há quem lembre o seu piano a acompanhar Charlie Parker em «Cool Blues» (nunca ouvi essa versão), que devia ter sido brilhante e inesquecível; mas a verdade é que «Misty» é incomparável, como o prova o filme de Clint Eastwood, Play Misty For Me. Erroll Garner completaria hoje noventa anos.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Carlos Reis, coordenador dos programas do ensino básico, acha que “talvez devesse ser dado a Camões um outro realce, não apenas quantitativa mas também qualitativamente”. Tem razão. O problema é que Portugal tem um problema com Camões – e não é literário, como devia ser (porque é um génio de dimensão universal). É, em vez disso, de natureza política. Desde o século XIX que, infelizmente, Camões é sinónimo de patriotismo. Primeiro, pela mão dos republicanos; depois, pela do Estado Novo; depois, alternadamente, ora pela “esquerda cívica”, ora pela “direita das escolas”. De fora fica Camões como um génio a ler, reler e comentar. Às vezes, no Dia de Camões e das Comunidades, apetecia sugerir a leitura do autor de Os Lusíadas – um soneto que fosse, uma redondilha. Hão-de ver que é deslumbrante.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Via O Insurgente, o índice de liberdade económica (Index of Economic Freedom World Rankings): Cabo Verde em 65.º lugar, Portugal em 69.º. O nosso país regista uma descida de 0.4 pontos em relação ao ano anterior e é o 32.º na lista dos 43 países europeus.

Na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem
mais leve depois que passou a ser um só.
“Além de mala, aquele Alberto Caeiro não pegava ninguém.”
No The Piauí Herald desta tarde:
LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mario Sá Carneiro, acrescentando que “de uns tempos para cá ficou claro que era preciso fazer um streamlining na nossa operação se quiséssemos sobreviver num ambiente poético cada vez mais competitivo.” Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”, mas o seu CFO não lhe deu alternativas. “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.
A notícia dividiu o mercado editorial. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, disse que a eliminação dos heterônimos ajudará a diminuir os custos de marketing: “O brasileiro médio sabe quem é Fernando Pessoa. Mas as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nunca chegaram a se firmar.” Já a Central Única dos Poetas, sindicado ligado à CUT, declarou, em nota, que a medida é “mais um exemplo da brutalidade do mercado”, e confirmou para amanhã uma greve de 48 horas, na qual nenhum poeta fará rimas e Gilberto Gil dirá coisas compreensíveis.
Mario Sá Carneiro declarou que, uma vez consolidada a fusão, a holding Fernando Pessoa S.A. pretende adquirir as marcas T. S. Eliot, Albert Camus, Jean Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. “E claro, no futuro, se tivermos bala, toda a obra poética de José Sarney.”
Imagens das Grodrej indianas, que deixaram de ser fabricadas.
Arturo Pérez-Reverte faz aqui o elogio fúnebre da máquina de escrever depois do anúncio do encerramento da última fábrica do mundo, a Godrej & Boyce, de Mumbai/Bombaim. As Godrej começaram a ser fabricadas logo depois da independência, como um símbolo da nova Índia industrializada e, ao longo da sua história, produziram modelos para 40 línguas diferentes. Acabaram. Mas, calma!, há ainda uma última fábrica de máquinas de escrever que resiste ao digital: trata-se da Swintec, de New Jersey, que ainda fabrica sistemas eléctricos para «margarida»

e que por 209 dólares apresenta no seu catálogo este modelo transparente (as Clear Cabinet, em versões New York State, Michigan e Washington State, entre outras — a mais cara é a 2600CC Clear Cabinet Electronic, cujo valor anda pelos 500 dólares); esta é a mais barata de todas:

Um dia ainda veremos alguém festejar o «aparecimento» de um novo tipo de computador, que «faz um print» ao mesmo tempo que se escreve.



São já centenas, centenas, as imagens recolhidas pelo Miguel (livreiro, e dos bons, em Portimão) no seu blog O Silêncio dos Livros — dedicado apenas a isto: mostrar imagens da leitura.


Cheguei a estas imagens, recolhidas pelo Manuel Bívar, através do blog da Helena Ferro Gouveia. Anúncios guineenses.
Assinala-se mais um aniversário do Portugal dos Pequeninos; o João Gonçalves resume tudo: «Como é próprio de um blogue e da vida, segue-se em frente.» Ao fim de oito anos, não há melhor elogio para esta resistência solitária a que nos habituou. Parabéns.
Algum dia teria de acontecer — e logo numa quinta de agricultura biológica. Parece que, até agora, as suspeitas acerca do E.coli recaem em amostras que têm sido porta-estandarte da dietética moderna e da «cozinha ilustrada»: pepino, rebentos de soja, beterraba, rebentos de vegetais usados em sanduíches. Sim, faltam a rúcula-bebé (num documentário, Amyr Klink diz que a melhor é que se colhe, selvagem, nas redondezas dos cemitérios) e as flores comestíveis, mas há uma ameaça qualquer.
As tarefas. António Barreto sobre as coisas simples: «As democracias, em geral, não são derrotadas, destroem-se a si próprias. […] Que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade.»
E isto: «Os portugueses merecem ser tratados como cidadãos livres, não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados.»









E só para vos fazer inveja: o novíssimo romance de Fernando Sobral, Ela Cantava Fados, mal Julho dobre para Agosto. E o novo livro de J. Rentes de Carvalho, notai bem, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, na mesma altura.
Ontem, o Sol avançava com a notícia de que o ex-primeiro-ministro poderia ocupar os próximos anos a trabalhar para a área dos pretróleos e cimentos brasileiros; o gabinete do PM desmentiu com uma linha, e não era obrigado a mais. Hoje, o Expresso anuncia um ano sabático «dedicado à filosofia» em Paris; o ex-primeiro-ministro diz que se trata de assunto da sua vida privada e que «não há nenhum interesse público nisso», relembrando que «os jornalistas deveriam concentrar-se no jornalismo e não na mexeriquice». De facto; um ano de filosofia não é suficiente para falarmos de vida académica.
P.S. - Pessoalmente, não acho de somenos importância «o que vai fazer nos próximos tempos» um Presidente ou um Primeiro-Ministro e tenho dúvidas de que se trate de matéria exclusivamente privada. Nos EUA, os presidentes anunciam os planos para «os próximos tempos» (gerir uma fundação com o seu nome, dedicar-se ao ensino e ao circuito de conferências, por exemplo, mas nunca aos negócios), tal como no Brasil se discutiram os mesmos planos de FHC e de Lula – FHC partiu para a vida académica (aulas em Providence, conferências, arrumar os papéis da sua fundação) e Lula para «ganhar dinheiro durante um ano» e «depois voltar».
O processo de Cavaco Silva contra Miguel Pinheiro assenta num equívoco que qualquer linguista pode esclarecer. E que qualquer político teria o dever de contextualizar. Além do mais, depois dos «anos Sócrates» e dos sucessivos processos que o ex-primeiro-ministro manteve contra jornalistas (perdendo-os todos e ainda a procissão vai no adro), não é sensato usar dez linhas da Sábado como exemplo. O mal está feito, o que é uma pena.
Em nome do Brasil, por causa do «bom relacionamento» de José Sócrates. Eu duvido. Tem tempo.
Adenda: desmentido.
Antonio Palocci apresentou a demissão do governo Lula por suspeitas de corrupção, para salvar a face do presidente e do governo. Foi em 2006 e era ministro da Economia. Em 2011 Palocci, ministro da Presidência de Dilma Rousseff, é obrigado a demitir-se pelos mesmos motivos. Toda a especulação vai dar ao polígono paulista onde se estabeleceu o poder do PT. Lula diz que «foi no momento certo». Ele sabe.
Poucos homens poderiam manter, ao longo da vida, uma tal elegância e uma tal profundidade. Jorge Semprún (1923-2011) teria de ser um deles; o seu A Escrita ou a Vida (1994) é um testemunho raro; os seus A Segunda Morte de Ramón Mercader (1969) e Autobiografia de Federico Sánchez (1977) entram em qualquer panorâmica da literatura e da política espanholas; no cinema, não deve ser esquecida a sua colaboração com Costa-Gravas e Alain Resnais. A polémica perseguiu-o, de Büchenwald às histórias do Partido Comunista espanhol, mas a sua aura sobreviveu. Conheci-o em Madrid quando era ministro da Cultura: um rosto tranquilo, uma voz pausada; era independente numa Espanha que queria alinhados à força, o que lhe custou o lugar. A sua morte deixa o mesmo rasto de turbulência. É o costume.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Qual a importância do Polo Norte? Toda. Antigamente, achava-se que havia esferas no interior da Terra e que elas moviam o planeta; a imagem fica bem em sonetos, mas não é verdadeira. A descoberta do Polo Norte magnético é outro dos momentos decisivos para a nossa existência e não tem a ver com um ponto fixo à superfície do planeta – o primeiro a aproximar-se dessa lugar e dessa medição exata foi James Clark Ross, há 180 anos. Era para esse ponto invisível e flutuante que as bússolas apontavam (embora não sejam a mesma coisa); só no século XX a sua localização variou cerca de 1000 quilómetros. Os poetas, os geógrafos, os astrónomos e os viajantes deviam reter esta data e o nome de Ross. O nosso mundo ganhou muito com essa descoberta.
[Na coluna do Correio da Manhã]
O país anda chocado com cenas de violência com honras televisivas mas convém lembrar que as agressões entre “jovens” são comuns e estão na base de filmes fatais e de “histórias de iniciação”. Guerras de gangues não são de hoje – James Dean e Marlon Brando deram corpo a essas histórias. Mesmo violência entre raparigas não é uma novidade. Estes episódios só são novos para quem tem se obstina em desenhar Portugal com as aguarelas da pacificação e tem horror às notícias da “vida real”. O problema é que, agora, os idiotas de todas as idades se juntam na internet com toda a liberdade – antigamente gabavam-se dos seus pequenos crimes apenas em silêncio; agora têm o palco digital. O ‘país real’ fica à distância de um clic e, na verdade, não é bom de se ver a todas as horas do dia.
Gosto muito de ouvir alguns sociólogos e psicopedagogos comentar “casos reais”; a principal razão tem a ver com o fato de não parecerem ser deste mundo, se bem que se esforcem. De repente pintam o cenário como se fosse a catástrofe, uma espécie de fim do mundo organizado em ondas de violência juvenil. A ideia de que os atos de violência são praticados por jovens que imitam a “violência dos adultos” ou por raparigas que imitam a “violência dos rapazes” é uma ideia interessante, mas, como se sabe, despropositada. Nesse mundo, os jovens eram pacíficos como cordeiros, as crianças um modelo de inocência, e as adolescentes um retrato de anjos que vestem de saias. Infelizmente, a realidade também tem partes de cenas filmadas no YouTube com agressões entre jovens. São muitas.
O Prémio Príncipe das Astúrias atribuído a Leonard Cohen é uma belíssima surpresa. Não apenas pelas suas canções que reconstituem a história da nossa vida dos últimos quarenta anos; também pela sua poesia que o prémio elogia e distingue. Cohen é um “desviado”, um poeta que escreve sobre o afastamento da morte e o amor subtil ou infernal. Há um ano, em Montreal (sua terra natal), no Canadá, visitei a sua casa – fica no coração do bairro português, onde alguns o conheciam como “Sr. Leonardo”, mesmo diante da velha sinagoga hoje convertida em centro português. A sua poesia nasce ali: num largo cheio de árvores, de imigrantes e de estranhos. A sua voz acrescenta-lhe densidade e humanidade, como uma sombra que não nos larga nem deixa de nos preencher. Grande Leonard Cohen.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Um dos problemas portugueses é a falta de números credíveis. Alguém avança com as estatísticas da economia, da cultura, da educação – e logo uma voz começa por desmentir a possibilidade de esses números estarem, vá lá, certos. A verdade é que nenhum país consegue estudar-se, definir-se, imaginar-se, sem números que possam desenhar as várias realidades do território, das cidades – da ‘sociedade’. A ONU acaba de distinguir, por isso mesmo, o Pordata, o sítio de estatísticas mantido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, dirigida por António Barreto. É por isso notável que, apesar da existência do Pordata, os portugueses continuem a alimentar ilusões sobre a sua história recente. Os números podem não explicar tudo mas, certamente, ajudam a estabelecer a base de tudo.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Seria simples explicar nas escolas – agora que elas estão prestes a fechar para férias – a alegria da música, a sua simplicidade e também a sua leveza. Bastava ouvir-se um pouco de Albinoni, de quem se assinalam, hoje, os 340 anos do seu nascimento em Veneza (1671-1751). Muitas vezes, os seus concertos e sonatas parecem divertimentos permanentes, buscando uma intensidade que nunca atinge. Essa é a sua arte e deve ser vista como uma vantagem. Parte da desvalorização de Tomaso Albinoni deve-se ao célebre Adagio que, afinal, ele não compôs mas lhe foi colado como um adesivo – mas é injusto. Como outros compositores do barroco italiano (como Vivaldi, Tartini ou Corelli), a sua simplicidade é uma iniciação perfeita aos mistérios da música e à sua geometria. Só isso bastaria.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Durante três semanas este blog esteve «interrompido». Foi a melhor maneira de me dedicar em exclusivo à campanha em que aceitei participar como candidato do PSD pelo círculo de Bragança. Durante três semanas vivi, com entusiasmo, e na companhia de uma equipa notável, uma experiência extraordinária que não vou esquecer. Essa equipa – sem apoios «profissionais», sem uma máquina «profissional» dotada de meios que os eleitores (e os leitores) conhecem da televisão – foi uma revelação no terreno. Percorri um distrito desertificado e quase abandonado à sua sorte; sem querer transformar esta campanha eleitoral numa epopeia, devo dizer que cheguei ao fim cansado, exausto (fiz toda a campanha com problemas «de mobilidade»), mas convencido de que estava a valer a pena. Por outro lado, durante essas semanas, não quis que este blog fosse «contaminado» por matéria exclusivamente política, que me ocupou todos os dias, a maior parte do tempo.
Regressamos.

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina
De desautorização em desautorização, até que se perceba em que águas navega: «You cannot run a monetary union with the likes of Mr Sócrates.»
As coisas vistas da Islândia: «No meu país eu sei quem puxou os cordelinhos, porque o fizeram e o que fizeram, e Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve esse incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e como se pode solucionar esse problema no futuro.»
Naturalmente, a alheira.
Primeira fase: prestes a entrar no Bloco Operatório, na estante das farpelas.
Segunda fase: esterilização e preparação. O livro está convenientemente preparado para entrar no Bloco Operatório e ser submetido à dissecação.
Terceira fase: o livro é dissecado em todos os sentidos.
Quarta fase: recobro; o livro repousa depois de operado.
Sérgio Lavos, aqui, sobre a sua paixão e desilusão com o Barcelona FC.
«Por isso, meu caro Vila-Matas, lamento ter deixado de gostar do Barcelona. Pesaroso, lembro a minha primeira visita à cidade catalã e a romaria ao Camp Nou. Aquela grandiosidade, a popular mística, era verdadeira. Barcelona vivia o clube e eu vivia com a cidade quando via os jogos do campeonado espanhol, e sentia um gozo enorme sabendo que Guardiola era leitor de Borges e de Kafka, e que um dos meus escritores preferidos se sentava com os jogadores naquele café da Praça Catalunha de que agora não quero recordar o nome a falar de futebol e livros.»
Sempre me angustiou (é um pouco forte, eu sei) a obrigatoriedade de ter alguém a apresentar um livro de outra pessoa. Há autores que sabem falar do seu livro; outros não podem falar, ou não sabem falar, ou não querem falar (até por lhes faltar a paciência). As sessões de lançamento são, por isso, mais ou menos regidas por esse cânone: editor fala e agradece, apresentador apresenta, autor agradece e fala. Há variações, evidentemente. Um livro meu foi apresentado por um amigo que garantiu que o não tinha lido, o que é de uma honestidade desarmante e fatal. Às vezes há continuação da «festa», o que tanto pode exigir a presença de declamadores, recitadores e leitores em voz alta, como de corais alentejanos ou de um quarteto de cordas – acho que um quarteto de cordas é aceitável, mas o resto é despropositado a menos que se trate de um «sarau». Há casos, no entanto, em que a melhor pessoa para apresentar o livro é o autor, ele mesmo e sozinho, falando sobre o processo de escrita (uma curiosidade atraente), sobre um personagem ou sobre um tema (o tema) ou, inclusive, lá está, sobre o livro. Por isso, gosto da coragem de Richard Zimler, que irá apresentar o seu próprio livro, no dia 9, às 18.30, no El Corte Inglés de Lisboa. Richard vale por tudo.
Mas Madame Bovary, ou seja, Dona Bovary, à portuguesa, também foi à Feira do Livro. Só que com outras intenções.
P.S. - Julian Barnes escreveu O Papagaio de Flaubert; este blog dedica-se a Bovary.
Luís M. Jorge visitou a Feira do Livro: «Ontem à noite, na Feira do Livro, encontrei semelhanças úteis entre o mercado editorial e o da produção e comércio de vinhos. Chamo-lhes úteis porque talvez possam iluminar as estratégias dos seus operadores.» A ler com atenção, sobretudo pelos «operadores».
Alguém pode explicar ao Ouriquense que é aborrecido estar a saltitar de página para página quando se quer ler os últimos posts? Portanto, se não te importas, volta lá a pôr os últimos, digamos, vinte posts na primeira página do blog.
Adenda, aos leitores: Já está.

Pedro Tamen.
Prémio APE de Poesia, 2011. Atribuído a O Livro do Sapateiro.
[Foto de Pedro Loureiro, © LER]
Um pouco de teoria da conspiração e de «podia ter sido assim» — a influência de Isaac Asimov em Bin Laden.
De facto. Isto não faz espécie a ninguém? E isto, que não há meio de desaparecer das estatísticas?
Depois da goleada ao Villareal, tudo está preparado para a segunda mão. Pelo meio, um jogo desinteressante em Setúbal que rendeu vitória por quatro, e com um James em grande forma (e com a defesa a precisar de caldinhos), mas que serviu para dilatar a maior vantagem da história dos campeonatos portugueses; foi de olhão.
Queria, no entanto, recordar três ou quatro momentos de glória. O primeiro, de Freddy Guarín (2-1 com o Villarreal): foi, como se recordam, um golo em dois tempos, com uma primeira parte primorosa em que desviou dois adversários da linha de corrida e uma segunda parte amável e, simultaneamente, crudelíssima, em que a bola acaba por lhe ser devolvida. O resto, ou seja, o toque de cabeça final de Guarín, não faz parte do golo – é pura elegância e capacidade de decidir numa fracção de segundo; está, sinceramente, além do golo, até porque alguém que finta a margem direita do Villarreal e se apresenta diante do guarda-redes com aquela disposição, já merece o golo. Por isso o toque de cabeça é como que o terceto final do soneto que Guarín compôs, ele que não parece poeta. O segundo (3-1 ao Villarreal), já com aquela via ligeiramente despedaçada por Hulk e transformada numa espécie de Nevsky Prospekt em tempos de revolução (Tomás, tu entendes), entra também na história; em primeiro lugar, porque o árbitro estava disposto a deixar, alegremente, que o Villareal torpedeasse os meniscos do brasuca; em segundo lugar, porque o toque de Falcao é milimetricamente seguro. Passemos ao terceiro (4-1 no mesmo jogo): um golo de ave, de quetzal, em voo ligeiramente pronunciado, empurrando o ar com o movimento do corpo, gesto de puro e indiscutível talento – só Falcao poderia tê-lo marcado diante da assembleia de incréus que veio das Espanhas, precedido da habitual fama com que os bárbaros se anunciam antes de serem derrotados. Podíamos falar do quarto (5-1), com Falcao a servir de periscópio e a fazer com que a bola atravessasse toda a área, com um empurrão de cabeça. Vamos ver na quinta-feira.
Entretanto, em Junho, ele vem, já preparado para formar no tridente de ataque. Esta sim, é de olhão.
Passam hoje 400 anos sobre a data da impressão do primeiro exemplar da Bíblia do rei Jaime I (James) de Inglaterra. Na tradição latina o assunto pode não ter muita importância; mas, na verdade, é um marco quer para a teologia, para a política ou para a literatura posteriores (os grandes autores do cânone, em língua inglesa, seguem esta versão). Trata-se da primeira tradução integral, rigorosa e comentada da Bíblia para a língua popular, ou vernácula. A partir daí, a Bíblia passou a estar disponível para discussão, deixando de ser um texto reservado à liturgia e ao clero. Mais: pela primeira vez no Ocidente, houve uma preocupação literária e estilística na sua tradução. Ao mesmo tempo, no mundo católico da época, pelo contrário, ler a Bíblia podia ser um ato de heresia fulminante.
[Na coluna do Correio da Manhã]
É uma má notícia para os dietistas e caçadores de imoralidades calóricas: a ‘francesinha’ faz parte do nosso orgulho. O sítio AOL Travel acaba declarar que ela é a oitava melhor sanduíche do mundo, uma espécie de Machu Pichu da culinária de bar. A ‘francesinha’ deve ser comida de garfo e faca, e nas dez primeiras da lista, apesar da abundância de ingredientes, só o ‘kati roll’ (de Calcutá, em sexto lugar) se lhe compara em elegância – todas as outras só podem ser comidas com manifesto prejuízo das maneiras à mesa. A ‘fast food’ portuguesa pode ser enriquecida com a ‘francesinha’, à semelhança do que a cadeia Habib’s já fez com o pastel de nata ou o bolinho de bacalhau. Podíamos, claro, chamar-lhe ‘portuguesinha’ e licenciá-la como parte do nosso ‘património imaterial’.
[Na coluna do Correio da Manhã]
«É racional acreditar em Sócrates, quando diz que o chumbo do PEC IV, em Março, é que fez faltar o dinheiro já em Maio?
«Quando sabemos que o FMI é mais brando do que a UE, não podemos concluir que fomos enganados pela retórica de Sócrates? Que o país perdeu muito dinheiro ao não pedir o resgate mais cedo? Que se o pedisse só à UE, sem o FMI, isso apenas beneficiava o ego do primeiro-ministro?
«Se Manuela Ferreira Leite tinha razão em 2009, quando traçou um panorama negro do país, enquanto Sócrates aumentava a função pública e prometia cheques-bébé, a conclusão é que o primeiro-ministro sabia menos que Manuela Ferreira Leite? Ou que enganou deliberadamente o eleitorado, para vencer as eleições? E quem nos engana, uma vez, duas, três vezes, não nos estará a enganar agora?
Henrique Monteiro, Expresso.
José Pacheco Pereira lutou, nos últimos anos, contra a transformação da política em propaganda, apoiou a tese da «asfixia democrática», falou abundantemente do «problema de carácter de José Sócrates», pediu uma comissão de inquérito sobre os negócios obscuros do PM, dá lições de «comunicação & anti-propaganda» na SIC Not, conspirou contra Santana Lopes (porque era insuportável a confusão entre interesses privados e interesses públicos, entre política e propaganda) – hoje, acha que os portugueses devem escolher para primeiro-ministro quem melhor maneja os truques e repete chavões fáceis de apreender. E que não interessa quem esteve no governo durante seis anos levando-nos até aqui, ao abismo, ao descontrole das finanças públicas, ao empobrecimento, ao desvario – interessa apenas que não seja Passos Coelho. É isso?

Coleccionamos muitas despedidas. O David era um homem muito generoso, muito culto, que não se esquece. Como diz o Jorge, até já, alé lá.
.gif)

• Leituras frequentes
• Tikkun
• NextBook
• Média | Portugal
• Expresso
• I
• Público
• Sol
• SIC
• TSF
• Visão
• Média | Brasil
• Veja
• Ligações gerais
• A Peste
• Abrupto
• Arrastão
• Blógico
• Bússola
• Claro
• Cocanha
• Daedalus
• F World
• Faccioso
• Filisteu
• Fumaças
• Ilhas
• Manchas
• No Arame
• No Mundo
• Para Não Morrer de Sede no Inferno
• Retorta Blog / Rust Never Sleeps
• Rititi
• John Lee Hooker. Don‘t Lo...
• Amy.
• Erroll.