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Aproveitamento político.

por FJV, em 17.08.17

Claro que ninguém fica indiferente à energia e à presença do Presidente da República no Funchal, depois da tragédia da Senhora do Monte, de Pedrógão ou de outros cenários onde os portugueses percebem que o Estado não os ignora de todo. Mas a consolação tem de dar lugar, depois, ao apuramento de responsabilidades da parte do mesmo Estado a quem os portugueses entregam os seus impostos, delegam a procura de justiça ou de segurança. Não faz sentido, por isso, que o primeiro-ministro critique o “aproveitamento político” das tragédias. Não são as tragédias que estão em causa – mas uma soma inacreditável de incompetências, mentiras, desacertos, além da descoordenação de meios e de respostas. O próprio primeiro-ministro alterou várias vezes a sua posição em relação ao Siresp, por exemplo. Não basta que faça perguntas aos seus serviços: nós fazemos perguntas; o Estado tem de dar respostas – é assim que funciona a democracia. Não se trata de “aproveitamento político” das tragédias, mas de verificar que o Estado, para o qual contribuímos mais do que generosamente, falha e mente onde não pode falhar nem mentir.

[Da coluna do CM]

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No Delito.

por FJV, em 17.08.17

Por convite do Pedro Correia, o Delito de Opinião publica esta semana um texto meu, «O tempo sem pessimistas».

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Catalanistas.

por FJV, em 17.08.17

O «provincianismo independentista» não esconde um certo rabo de palha: decretada a independência, terminariam estes processos que fazem da Catalunha a capital da corrupção em Espanha. O número de delitos de corrupção investigados na Catalunha é o dobro de Madrid ou da Andaluzia e 300 vezes mais do que Navarra, 15 vezes mais do que a Galiza, superior em 40 vezes às comunidades de Aragão, de Castela e Leão ou de Múrcia. Para entusiastas do independentismo catalão, ler La Soledad del Manager ou Los Mares del Sur, de Manuel Vázquez Montalbán – e comparar com as biografias políticas de alguns líderes catalanistas. O velho Tarradellas definiu a coisa como uma dictadura blanca.

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Perigosa, esta coisa.

por FJV, em 16.08.17

Há tempos, uma dirigente socialista escreveu no Twitter um post escandalizado: então esta jornalista ainda não foi despedida? A ideia de calar os que têm outra opinião, que interpretam os factos de outra forma, que dizem uma verdade inconveniente (como era o caso), ou fazem uma piada, tem vindo ser adotada como regra. As opiniões de um funcionário num documento interno da Google foram o suficiente para que fosse despedido pela empresa porque o texto “perpetuava estereótipos de género”. A atriz Lena Dunham (série Girls) declarou no Twitter que, enquanto esperava um voo, ouviu dois empregados da American Airlines numa conversa “transfóbica” (o seu voo era noutra companhia, já agora); a companhia tratou de saber quem seriam os funcionários, para despedi-los. O comediante Bill Maher, insuspeito de simpatias republicanas (é campeão de piadas contra Trump), protestou esta semana contra o despedimento de Jeffrey Lord, um comentador pró-Trump da CNN apanhado numa piada de mau gosto – mas declaradamente piada. Há tempos, o próprio Maher usou a palavra ‘nigger’ numa piada e originou uma campanha para o seu despedimento da HBO. Está perigosa, esta coisa – e imbecil.

[Da coluna do CM]

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Proiba-se.

por FJV, em 15.08.17

Antigamente, havia extraordinários desejos inconfessáveis: ter uma aventura com um ator ou uma atriz de cinema, aceder a uma profissão, pensar em sexo (a maior parte do tempo) – a lista é muito variada e, ai de nós, pecadores, quase interminável. Hoje, uma das ambições da humanidade esclarecida é proibir. Proibir uma palavra, proibir açúcar, proibir uma ideia, proibir uma pessoa. Não basta não gostar, discordar, achar imbecil – é preciso proibir. Desta vez, quem chamou a atenção para o assunto foi o escritor espanhol Javier Marías. Fui ver à fonte, a imprensa inglesa: a principal associação de estudantes de Oxford quer proibir as togas (é uma questão antiga) ou, agora, proibir que existam togas diferentes. É que o tamanho das mangas das togas são importantes: se forem compridas, significam que os estudantes chegaram, digamos, ao topo e foram distinguidos de alguma maneira. A rapaziada acha que é traumatizante a exibição dessas mangas largas e compridas para os que tiveram notas inferiores – e que “perpetuam” um estatuto de desigualdade que é preciso banir. Proíbam-se.

[Da coluna do CM]

 

P.S. - A associação de estudantes de Oxford (OUSU) é especialista em pedir proibições – uma delas foi a de uma conferência da feminista Germain Greer, pelo facto de não concordarem com as suas ideias sobre género – o que não conseguiu; também tentou, e conseguiu, proibir um debate sobre o aborto (por considerar ofensivas certas ideias defendidas por dois dos participantes) e outro sobre, tome nota, «Freedom of Speech and Right to Offend».

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Os avanços civilizacionais e a avó que vai dar à luz um neto.

por FJV, em 15.08.17

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O admirável mundo novo lusitano rejubilou porque, a acreditar na primeira página do Expresso de anteontem, uma avó irá dar à luz um neto, ou seja, será “portadora” (o termo é letal) de uma criança para a sua filha, que não pode engravidar. A ideia não me enternece. Há crianças abandonadas pelo mundo fora e os números portugueses dão conta de estatísticas que devíamos baixar: repito, crianças abandonadas pelos seus progenitores. A maior parte deles é entregue às instituições sociais do Estado e podem vir a ser, ou não, adoptadas por famílias desde muito cedo. Compreendo o que dizem ser as “alegrias da maternidade” e, à distância, entendo (mas não o partilho como um valor absoluto) o desejo de perpetuar o património genético de uma família através de uma criança gerada no laboratório ou no ventre de uma barriga de aluguer. Trata-se de um manifestação moderna do egoísmo das gerações para quem não existe um impossível ou um interdito. Aldous Huxley já referia o assunto em Admirável Mundo Novo um livro aborrecido, mas premonitório. Os avanços civilizacionais são cruéis.

[Da coluna do CM]

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Bolivarianos.

por FJV, em 11.08.17

Pedro Correia sobre dois pataratas bolivarianos. 

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Viver num T2 no centro da cidade por menos de 400€? Sim, é possível.

por FJV, em 11.08.17

Carlos Guimarães Pinto explica como não tem sentido nenhum dizer que as pessoas estão a ser expulsas do centro das cidades — e prova-o, indicando mesmo apartamentos disponíveis a menos de 400€ mensais. Uma oportunidade para «os jovens», mesmo os do Bloco.

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The Cook, the Thief, The Mayor, The Judge, His Wife & Her Lover

por FJV, em 10.08.17

Nesta novela deliciosa não falta praticamente nada. O único pormenor trágico é mesmo a indiferença.

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A cozinha de Pandora.

por FJV, em 10.08.17

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Que a BBC o diga parece-me bem: que a cozinha portuguesa é a mais influente do planeta inteiro. Tudo começou com o jornalista David Farley a pesquisar as origens da tempura japonesa, que o levou até aos nossos peixinhos da horta; daí, para a curiosidade em relação aos nossos Descobrimentos quinhentistas e à relação que estabelecemos com ingredientes e cozinhas de todos os continentes; daí, para a nossa própria cozinha: plural, variada, criativa e aberta a influências. Há muita gente que fica espantada quando lhes digo que o prato de referência dos judeus de Bagdade era o bacalhau (numa variante parecida com a patanisca, keftes) tal como os judeus de Roma popularizaram o nosso filete de bacalhau salgado, os nossos fritos de grão singraram no Levante e Médio Oriente, ou o nosso estufado de borrego em Java e nos mares da região – além da feijoada no Brasil, claro. Ou quando refiro que somos os melhores a preparar arroz (temos mais de uma centena de variantes) ou pratos de vegetais. Sinceramente, acho que está aberta a caixa de Pandora, e que esta Pandora é saborosa. E suculenta. (Ainda ouço alguns a rir da sugestão de globalizar o pastel de nata...)

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. Bem vindos. 2.

por FJV, em 10.08.17

Nada de novo, portanto: se tivesse sido usado o vídeo, o FC Porto teria concluído o campeonato anterior no primeiro lugar, acima dos 82 pontos.

Por falar nisso, revejam os arquivos: no campeonato de 2007-2008, que foi viciado pela tomada de assalto da Liga, o FC Porto terminou com 75 pontos e não com 69. Dez anos depois, o Conselho de Justiça dá razão ao FC Porto, devolvendo-lhe os pontos, ou seja, assumindo que o Apito Final foi — vamos lá escolher uma palavrinha — uma roubalheira para favorecer o Benfica. Com todas as letras.

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O cantinho do hooligan. Bem vindos.

por FJV, em 09.08.17

1. Foi preciso o video-árbitro para validar o golo de Marcano no jogo de hoje, que o árbitro-assistente tinha anulado. Infelizmente, o video-árbitro não foi usado na Supertaça para invalidar o primeiro golo do SLB, para marcar o penálti cometido por Sálvio ou para puxar do cartão vermelho que não foi mostrado a Jardel (o do Benfica).

2. Medo: seis falhanços de Aboubakar (Moreira prometeu só defender os remates de Aboubakar).

3. Vinganças merecidas: o regresso de Marega, Óliver a dar cartas, dois voos de Casillas.

4. Tiquitaca: Óliver, Alex Telles e Brahimi — e golo.

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Má consciência.

por FJV, em 09.08.17

Regresso em grande de Filipe Nunes Vicente no blog Má Consciência:

Um belo texto aqui, para começar: «Bronzeadas, musculadas e, sobretudo, tatuadas. Enxameiam as páginas  das secções-vidas dos media. Se andam assim têm boas razões, mas estou desfazado do meu género: masculino e, até à data, hetero (ainda não conheci o Nené).Aqueles corpos provocam-me a mesma sensação que os dobermanns. Sempre tive cães, noto bem o interesse de um bicho elegante, mas o dobermann lembra-me a Uzi do tenente Macias, meu instrutor do tempo do desperdício. A psicanalista de serviço já sacou do moleskine: medo de mulheres poderosas. Os psicanalistas são viciados na forma: filha-colo-pai-édipo, bebé-cocó-prazer etc. Não há nada mais excitante do que uma cabeça premiada e um carácter generoso num corpo discreto. A traição da aparência é a atracção.»

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As nadadoras-salvadoras de Gijón.

por FJV, em 09.08.17

Gosto da indumentária das nadadoras-salvadoras de Gijón: vermelho, como convém, e com uma reduzida cuequinha de biquíni que se perde entre os glúteos – o resultado é interessante, se me faço entender. Este comentário seria considerado machista e sexista pela conselheira municipal de Segurança Cidadã da cidade asturiana – e eu seria denunciado pela local Associação de Mulheres Separadas e Divorciadas, que não admite piadas nem exclamações de júbilo heterossexual. Várias comissões de igualdade de género espanholas, muito bigodudas, consideram sexistas algumas observações sobre o assunto nas “redes sociais”. Fui ver, indignado. Por exemplo: “10 afogados e só de manhã. Alguns, duas e três vezes”, e foto de uma nadadora. Ou: “Onde é que me inscrevo para poder afogar-me um pouco?” Escandaloso machismo e sexismo. O município, entretanto, pediu às nadadoras para usarem calções, o que levou a jornalista (e romancista) Carme Chaparro, da Telecinco, a protestar contra esta atitude ainda mais sexista, dizendo que o problema é dos homens, que “não são capazes de se controlar”. Assim vai o radicalismo ibérico.

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Serra do Roboredo.

por FJV, em 09.08.17

Nunca descobri a Serra do Roboredo, que agora arde perto de Moncorvo: ela descobriu-me a mim, inventou-me, fez-me amar aquelas árvores (os carvalhos brancos, as faias, negrilhos, amendoeiras, castanheiro bravo, sobreiros, medronheiros, cerejeiras, cedros, zimbros e ciprestes), as colinas de vegetação suave (urze, giesta amarela, cravinas, orquídeas, esteva e carqueja, pilriteiros, rosa-brava e refúgios de espargo, serralha e acelga), as suas sombras humedecidas (onde nascem míscaros, sanchas e roques), a capela de N.S. da Teixeira (frescos que lembram El Greco), as ruas silenciosas de Maçores, Açoreira, Felgueiras, Peredo e Urros, ou a Fraga do Facho e a água do seu ribeiro (“os castanheiros curvam-se sobre ela, para que o sol do estio a não aqueça”, como escreveu Campos Monteiro). Eu saía a pé da minha aldeia, Pocinho, e a Serra do Reboredo era o esplendor aberto ao céu, comovente, de onde levantava a neblina para deixar ver, da outra margem, todo o Vale do Nídeo onde flutuavam águias, açores e falcões) até à foz do Côa. Não são eucaliptos que ardem, ó ignorantes. É a minha serra.

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A Caixa, com certeza.

por FJV, em 09.08.17

Durante anos, os do “oásis” e os da “euforia” (até se acabar o dinheiro, como todos sabemos – e frequentemente se esquece), Portugal podia não ter a extraordinária vaga de turistas que enchem as nossas ruas. Mas, à mesma dimensão, havia uma extraordinária vaga de gestores (os melhores do mundo, os pilares da Europa, as colunas da economia) a encher os gabinetes das “nossas empresas”, incluindo o banco público. Parece que em grande parte delas houve irregularidades e má gestão, ou não estariam como estão ou como acabaram por desaparecer; parece que, no caso da Caixa, houve dinheiro para todos os amigos do regime comprarem ações de outros bancos (que depois foram destruir, também metodicamente), montarem empresas inviáveis, negócios tão ruinosos que nunca empobreceram os gestores amigos que, entretanto, transitaram para outros negócios em que era necessário ser muito amigo “das autoridades”. E o que concluem os relatórios (como o da Caixa)? Que é tudo exagero e maledicência. Em literatura, nem o Cohen de Os Maias, de braço dado com o conde Gouvarinho, era capaz desse descaramento.

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Portugueses na Venezuela.

por FJV, em 08.08.17

Por motivos, digamos “literários”, colecionei histórias de emigração portuguesa um pouco por toda a parte – e do tempo em que não havia Skype, nem internet, nem voos acessíveis. Em quase todo o lado havia histórias de heróis. Em todos os continentes. De vencedores e derrotados, de luz e de sombra, de glória e de perda. Na Venezuela conheci gente que se espalhou de Caracas (no belo bairro da Candelaria) às cidades do petróleo, das ilhas à penumbra dos Andes, do Orinoco a Maracaibo – quase todos tinham sobrevivido às adversidades. Penso neles como heróis: no imobiliário e na construção, nos restaurantes e no comércio, no ensino e na agricultura. Guardo da comunidade portuguesa da Venezuela uma impressão amável e malandra, de gente ambiciosa e grata – o Centro Português de Caracas, obra coletiva, é a prova. Talvez um dia, quando a literatura ou o cinema portugueses quiserem fazer o retrato dos seus contemporâneos, eles possam figurar nessas páginas e nessas imagens como heróis discretos que defrontaram o país que os empurrou para a emigração e a terra que lhes está a ser tão amarga.

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O mundo moderno e a falência das pessoas normais.

por FJV, em 08.08.17

O mundo comoveu-se com o relato de Lamar Odom, estrela da NBA, basquetebolista de eleição, grande talento (sem ironia: esteve nos Lakers, nos Clippers, nos New York Knicks e nos Dallas Mavericks), ex-cônjuge de uma Kardashian, e, portanto, milionário e consumidor de drogas. O desfile de explicações vem da infância, naturalmente: marijuana num bairro pobre, vítima e algoz, pobre e sonhador, cocaína entre sexo e adultério, bebida e fama – e mais cocaína ainda. Parece que Lamar bateu no fundo, entrou em coma, despertou, viu os filhos (finalmente) e se arrependeu de ser um idiota, publicando um texto mais ou menos comovente. A internet e as televisões choraram e aplaudiram. Acontece que percursos como os de Lamar Odom com a cocaína são comuns; em quase todos eles, os imbecis transformam-se em heróis depois de confessarem ser imbecis. Infelizmente, as pessoas que não se drogam, não casam com uma Kardashian, não são milionários, não publicam fotos parvas no Instagram ou não abandonam os filhos são consideradas gente sem grande interesse e exemplos para ninguém. Nisto estamos.

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Christian Millau (1928-2017), absolutamente perto do divino.

por FJV, em 05.08.17

Insolente, impertinente, desrespeitador – é o que significa impoli em francês. É esse o título do diário de Christian Millau (1928-2017), Journal impoli, publicado em 2011 e que, em subtítulo, leva os anos a que diz respeito: 2011-1928, assim, invertendo a ordem do tempo. São 700 páginas que afrontam a cultura francesa mais oficial, a dos mandarins e das universidades, falando de Céline e de Hemingway, de Churchill e de Orson Welles, do grande Blondin ou de Mauriac e Cendrars, vultos que hoje estão na galeria dos esquecidos. Como o próprio Millau, um autor desconhecido em Portugal – e aqueles que o conhecem associam-no a Henri Gault, com quem se associou para lançar em 1972 o mais famoso dos guias gastronómicos, o GaultMillau, a quem se deve a consagração da nouvelle cuisine. Jornalista de política e romancista, no pós-guerra lutou contra o moralismo literário, essa literatura de tias velhas que destruiu a cultura francesa. O seu humor era corrosivo. O seu gosto era absolutamente divino – sem ele, a literatura gastronómica seria banal. Morreu anteontem.

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Férias de um selvagem.

por FJV, em 04.08.17

Quando comecei a escrever sobre viagens, no início dos anos 80, havia lugares tão sombrios como maravilhosos para descobrir. Atravessar África de uma costa à outra, descer a América do México à Antártida, cruzar as rotas do Médio Oriente ou subir pela Ásia até à Mongólia: era difícil, um desafio sem comodidades, uma tentativa de chegar a “um lugar único”. Hoje, qualquer “lugar único” desses tempos tem um ‘spa’ igual aos do Algarve, cozinha gourmet como a de Tóquio e uma rede ‘wifi’ que atravessa o deserto. Claro que há sempre possibilidades, mas não convém falar delas (são o nosso segredo). Eça dizia que o mundo se estava a tornar banal e que um dia chegaríamos a Tombuctu para encontrar um cavalheiro local a ler um jornal de Paris. A diferença seriam as pessoas, as suas histórias, a sua comida, a sua língua. Com a televisão e a net há cada vez menos diferenças (além das guerras – vejam no mapa) e há quem venha a Lisboa para comer um sushi igual ao de Los Angeles. Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem.

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O Estado gosta de coisas sexy e cheias de marketing.

por FJV, em 03.08.17

Henrique Pereira dos Santos (HPS) é arquiteto paisagista, especialista em paisagem rural, conservação da natureza e autor de estudos sobre a matéria – e uma das pessoas que mais entende e escreve sobre incêndios. Ontem, no blogue Corta-Fitas, publicou um texto sobre um dos projetos que bem conhece, o da utilização de rebanhos e pastoreio como forma de gerir os territórios e, inclusive, de contribuir para a gestão dos fogos florestais. Do concurso público em que foi apresentada a proposta (“gestão socialmente útil do fogo nas nossas paisagens”) veio um conjunto de inanidades, cheia de palavreado que valha-nos Deus, excluindo o projecto de um total de 253. Protestaram e foi-lhes dada razão. É um método usado lá fora, onde está no topo das soluções – menos em Portugal, onde consumimos milhões a alugar helicópteros que não funcionam e a pagar manipulação de informação. Como escreve HPS, as autoridades querem coisas mais sexy e cheias de marketing. Por exemplo, subsidiou-se com 1 milhão de euros um projeto de monitorização de incêndios por drones. Sim, também não funciona.

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Boaventura, o amiguinho dos circenses.

por FJV, em 03.08.17

Compreendo – com dificuldade, mas com paciência – a nostalgia estalinista de alguns comunistas históricos, pelo menos até chegar à parte do Gulag, das purgas, dos julgamentos forjados e das vagas de assassínios (os textos de Lenine já mostram a tendência criminosa do autor e do regime). Mas tenho alguma dificuldade (é uma maneira de dizer) em entender que Boaventura Sousa Santos ache graça ao regime venezuelano, um subproduto do caudilhismo latino-americano alimentado por ideólogos europeus pagos com regularidade (dos trotsquistas ingleses aos especialistas circenses do Podemos espanhol). Um regime que mata nas ruas, que fecha jornais e televisões, que desperdiça e empobrece os recursos do país, que obriga os seus concidadãos a insuportáveis e intermináveis missas (assisti a dez horas de celebração com Chávez e é um pouco menos que abjeto), que manipula e falsifica um milhão de votos, que manda os seus capangas esmurrar deputados ou prender ilegalmente os oposicionistas, não é companhia que se recomende. Será que defendem isto para Portugal, os amiguinhos de Maduro?

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Sam Shepard, a morte que não estava prevista.

por FJV, em 31.07.17

Era um dos meus atores preferidos – por causa de Os Eleitos (1983), sim, o filme de Philip Kaufman (a partir de um livro de Tom Wolfe)E não por causa de Chuck Yeager, o personagem, mas do próprio Sam Shepard (1943-2017), o ideal naquele papel sedutor. O cabelo, o olhar, a roupa, os aviões, a dolência, as cervejas, a insistência em sonhar (e o casamento com Jessica Lange ou o namoro com Patti Smith) – tudo o indicava para ser o modelo de um aventureiro tranquilo, aquilo que nós queríamos ser na minha geração. Mas Shepard era também um guionista de eleição, literário, melancólico (como acontece com ‘Zabriskie Point’, de Antonioni), desesperado (como é o caso de ‘Paris Texas’, de Wim Wenders) ou ainda sobre tudo o que falha na vida (escreve a peça de teatro e, depois, o guião de Fool for Love, de Robert Altman). Pulitzer de teatro, Shepard é também o autor de dois belos livros de histórias, Crónicas Americanas (Motel Chronicles) e Atravessando o Paraíso, ambos dos anos 80 – o tempo de que foi um ícone de beleza e perdição. A sua morte, anteontem, não estava prevista.

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Jeanne Moreau, a beleza pérfida.

por FJV, em 31.07.17

Se se lembrarem de ‘Viva Maria’ (1965), de Louis Malle, hão-de recordar-se de Jeanne Moreau ao lado da sex symbol da época, a Bardot. Ao contrário desta, que respirava uma energia visível, um perfume juvenil e corporal, Moreau pairava mais atrás, como uma beleza sem descrição, tão subtil como em A Noite, de Antonioni (1961), com Mastroianni e Monica Vitti (o seu contraste), tão perversa como no filme-escândalo da temporada, Les Amants (1958), de Louis Malle (onde interpreta o papel de uma mulher casada que trai o marido e o amante) ou tão inesperada que só podia ser retocada por mão de mestre em Jules e Jim (um triângulo amoroso) pela sensibilidade de Truffaut (de 1962), que havia de amadurecê-la em A Noiva Estava de Luto (1968), depois de passar pelas mãos de Luis Buñuel no cru Diário de uma Criada de Quarto (1964). A sua beleza era pérfida (veja-se Ligações Perigosas, de Roger Vadim, 1959), difícil e de um erotismo malvado (Orson Welles coloca-a em Macau em Uma História Imortal, adaptação do texto de Karen Blixen) – não era para meninos, se me faço entender.

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Vender o Interior.

por FJV, em 28.07.17

Em 1871, a fim de resolver “o problema das colónias”, Eça de Queiroz recomendava que as vendêssemos (ao metro quadrado, que era mais lucrativo). A ideia não vingou e “o problema das colónias” estendeu-se por mais cem anos. A fim de informar os portugueses sobre “o problema dos incêndios”, o governo mandou que toda a comunicação se concentrasse em Carnaxide, de onde a Proteção Civil poderá falar sobre paragens que os portugueses também não conhecem (e não é por isso que a informação prestada é melhor; pelo contrário, está cheia de manipulação). Vamos lá: trata-se de dois terços do território onde vive menos de um quarto da população. O vice-presidente da Câmara de Mação, António Louro, pôs o dedo na ferida: não só há um falhanço completo no combate aos incêndios, como há uma falência da nossa paisagem rural bem como um avanço da desertificação rural e do abandono do território. Coisas que estão ligadas. Uma das formas de resolver a situação (“o problema do interior”) é vendê-lo ao metro quadrado, ficando parte dos lucros destinado a promover o festival da Eurovisão em Lisboa.

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O sexo e as idades mais jovens.

por FJV, em 27.07.17

Periodicamente, os tribunais portugueses produzem textos magníficos – à semelhança do que acontece em outros países onde os acórdãos vêm com suplementos de rococó e os seu redatores têm pontaria para a má gramática. Neste caso, de que os leitores se recordam e de que ontem o CM se fez eco, um tribunal considerou que a indemnização a uma senhora de 50 anos – depois de uma intervenção cirúrgica mal sucedida e que praticamente a impedia de ter relações sexuais –podia muito bem ser reduzida porque, vamos lá, nessa idade “a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens”. Sim, há outras coisas (a cozinha, as conferências da Proteção Civil, o voyeurismo, o tai-chi, a lista vai por aí adiante), mas a sexualidade aos 50 anos é muito interessante. Reduzi-la a uma prática para adolescentes e procriadores não me parece decente. As heroínas de Balzac, que no Séc. XIX tinham 30 anos, teriam hoje 45, a idade em que tudo recomeça e que, valha-nos Deus, torna as pessoas interessantes. O Tribunal Europeu condenou Portugal por discriminação sexual. Devia ser por inanidade.

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A taxa turística e o orçamento da cultura.

por FJV, em 26.07.17

Não vale a pena – por ser tão óbvia – discutir a duplicidade de critérios usada pelo Bloco de Esquerda para as questões “da cultura” há três anos e hoje. Mas há uma questão levantada ontem por Catarina Martins que merece reflexão (e na qual, como de costume, a líder do partido mistura tudo): a necessidade de investir mais dinheiro no património cultural edificado. Um estudo realizado pelas estruturas do turismo do Porto e Norte, já em 2012, mostrava que cerca de 60% dos turistas estrangeiros apontavam o património como a razão principal da sua visita. Ora, uma percentagem considerável do orçamento da cultura é aplicada no restauro e proteção do património – mas não basta, nem é justo que seja apenas esse orçamento diminuto a suportar as despesas. É necessário que o sector do turismo pague a sua fatura – e é, enfim, uma das razões válidas para a existência de uma “taxa turística” (que a hotelaria se apressa a criticar hipocritamente) a aplicar na proteção do património. Até agora tem sido apenas a cultura a suportá-lo. Mas a indústria tem de perceber que o seu sucesso tem um preço.

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Silenciar os sobreviventes.

por FJV, em 25.07.17

O respeito pelos mortos não pode ser limitado pelo segredo de justiça. Sublinhemos o “não pode” mesmo se isso contrariar certos juristas – porque há um sentido para a dignidade dos vivos e dos mortos, e nós temos o direito de conhecer essa condição. A forma inábil como as autoridades lidam com este problema deve-se ao facto de pensarem que tudo é responsabilidade Estado e que a verdade põe em causa a sua autoridade. Por isso, e independentemente de se duvidar da existência de uma “lista secreta” (que seria uma indignidade de patife, como escrevi ontem), não é possível nem decente invocar o segredo de justiça para impedir o esclarecimento integral do número de mortos causados pela tragédia de Pedrógão. Espanta-me a indiferença do meu país (que se escandaliza por tantas ninharias) diante deste caso. Escandaliza-me a invocação do segredo de justiça para não ser dado um nome a cada uma das vítimas. Hélia Correia escreveu um livro intitulado O Número dos Vivos; mas o país desceu tão baixo que não se inquieta com o número dos mortos nem com os que andam a silenciar os sobreviventes.

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Uma indignidade de patife.

por FJV, em 24.07.17

Em 2006, o governo pressionou a RTP a censurou a informação sobre os incêndios. Fez censura. Esperava-se que as autoridades tivessem aprendido alguma coisa com essa grosseira tentativa de manipulação da opinião pública. Não só não aprenderam como a Proteção Civil tenta agora manipular de novo essa informação; é um velho hábito. O problema é que, desde o primeiro minuto, ninguém acredita na fiabilidade das informações oficiais. Como o desastroso Siresp, vão falhando sucessivamente. Até chegarmos ao número das vítimas mortais. Neste fim de semana circulavam informações, algumas delas bastante credíveis, sobre a possibilidade de o número de mortos ser bastante superior aos que constam nos dados oficiais. A gravidade sem par desta acusação, a ser confirmada, é mais do que escandalosa – constitui uma falta de respeito para com todos os portugueses, mas especialmente para com aqueles que sofreram a tragédia de Pedrógão e ainda permanecem abandonados e sem apoio; porém, esconder os mortos e falsear o seu número em nome das sondagens de opinião seria uma indignidade de patife.

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Philip Seymour Hoffman.

por FJV, em 23.07.17

Se tudo tivesse corrido bem, Philip Seymour Hoffman (1967-2014) festejaria os seus 50 anos este domingo. Uma ninharia. Mas não sobreviveu nem às drogas nem à depressão. Tirando isso, que é triste e não tem o glamour da vida do rock’n roll, Hoffman foi um dos grandes atores que dava gosto ver: transformava qualquer papel secundário (O Grande Lebowski, Os Idos de Março, O Mentor, Magnolia) num papel definitivo, de que nunca nos esquecíamos – e fazia de cada papel principal (Capote, Doubt, O Homem mais Procurado) uma obra de arte que prometia sempre um degrau seguinte. Transfigurava-se em qualquer dos papeis, o que era fácil porque Hoffman encarnava todos eles – pairava sobre as histórias, controlando-as sem as falsificar; dominava o ecrã, porque sofria com cada personagem. Em Capote é maravilhoso; em O Homem mais Procurado (que adaptava um livro de Le Carré), ao lado de Rachel McAdams, Dafoe ou Robin Wright, transformou o thriller numa arte sumptuosa; em O Mentor, vulgarizou Joaquin Phoenix e embelezou Amy Adams. Quanto à sua morte, nunca lha perdoaremos.

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