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O dinheiro era de quem?

por FJV, em 23.02.17

Falando-se de ‘off-shores’ fala-se de crime financeiro. É assim? É. Aliás, para a generalidade do eleitorado, é um crime colocar um cêntimo que seja num banco de Badajoz. Por isso, esta interessante notícia sobre a fuga de 10 mil milhões para as ‘off-shores’ tem graça, sobretudo porque não é novidade – a mesma notícia sobre o mesmo assunto e a mesma quantia apareceu há um ano, no mesmo jornal. Mistério isto ter aparecido agora, não? Acontece que as suspeitas sobre o crime financeiro são, em grande parte, uma boa treta; algumas delas partem do princípio de que os donos desse dinheiro não são os seus legítimos proprietários, mas o sistema financeiro (olha quem), a autoridade tributária (ui, ui) ou o país inteiro, para abreviar. Com tanto patriotismo, ninguém sabe porque há em Portugal melhores condições fiscais para os estrangeiros fazerem a sua “fuga de capitais” para cá, do que para os portugueses manterem o seu dinheiro no país. Houve quem lembrasse, ontem, “ai o que nós faríamos com esse dinheiro”. Mas afinal o dinheiro era de quem?, se não se importam que pergunte.

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Explicações do mundo, 1.

por FJV, em 06.01.17

«Na Islândia não há ruínas, não há barcos vikings para provar que chegámos aqui. Então, as pessoas acham, entre outras coisas, que descendemos do bacalhau.»

Andri Snær Magnason, escritor islandês. The New York Times.

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Imprensa séria.

por FJV, em 06.01.17

Desde segunda-feira que o Correio da Manhã e a CMTV acompahavam a história de Anabela Lopes, «vítima de violência doméstica», desaparecida, provavelmente raptada e agredida pelo seu marido, e em perigo de vida. A «imprensa séria» achou que o assunto não merecia acompanhamento, porque havia que dar notícias sobre os novos chefs que festejam o ano novo com tortas de bulgur em cama de seitan gratinado com cobertura de abacate, ou sobre os transgender japoneses. O facto é que «o caso de Grândola» era sério e emblemático, mas os especialistas em género ainda não o tinham descoberto e «a violência doméstica em ambiente rural» é coisa para grunhos. Hoje, nas suas edições online, assinalam a descoberta de Anabela Lopes, prestes a ser executada pelo marido, como se desde o primeiro minuto se tivessem interessado pela história. Para retomar um tema recente, só há «interesse público» quando os advogados de Pedro Dias concedem entrevistas exclusivas à «televisão pública» – e nessa altura, ah, rejubilemos!, as repórteres justiceiras acham que o cavalheiro dava uma estranha sensação de conforto. 

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O cantinho do hooligan. Onde se pode ser extremista, 2.

por FJV, em 06.01.17

Soares Dias é o melhor árbitro português. Talvez o segundo melhor seja Jorge Sousa, que deixou um penálti por assinalar contra o Benfica e a favor do Sporting (o de Pizzi, monumental). Soares Dias deixou dois penáltis por assinalar no FC Porto-Benfica (um deles, a mão de Mitroglou, seria ‘transporte’ em voleibol). A contabilidade de penáltis por assinalar deixa o FC Porto prejudicado — mas, por exemplo, no Chaves-FC Porto, o FCP teve cinco penáltis para marcar e só aproveitou dois; então? Rui Santos, ui ui, garante que, se tivessem sido arbitragens correctas, o FCP iria à frente do campeonato com sete pontos de vantagem. Digo isto por dizer, e para ganhar outra vantagem — é que, no jogo com o Moreirense, o FCP Porto teve uma hora para jogar e marcar e não o fez. Depois, foi o que se viu: Danilo expulso e uma gargalhada monumental. Nuno Espírito Santo portou-se bem: parecia a Rainha de Inglaterra — «Nós etc etc.» Ninguém bateu no árbitro, ao contrário do que aconteceu no Setúbal-Sporting, onde o árbitro (fraquinho) assinalou um dos dois penáltis cometidos pelo Sporting (o que não foi assinalado mostra Coates a querer despir a camisa do jogador do Setúbal – e logo por detrás), e mesmo assim teve direito a investidas de Jesus, Nelson e Coates à frente das câmaras de televisão (até Adrien esteve para levar, por andar ali metido a separar árbitros, polícias e equipa técnica do Sporting). O resultado é que o grande problema do Sporting se chama Jorge Jesus, e não Bruno de Carvalho nem “arbitragens”. Quanto ao FC Porto, um dos problemas é o “estilo Rainha de Inglaterra” de Nuno Espírito Santo.

Explico. Há qualquer coisa que me escapa no plural majestático de Nuno Espírito Santo – aquele “nós” tanto se refere a ele próprio, como ao plantel mais ao treinador, como ao FC Porto em geral, como à Santíssima Trindade em particular. O que é certo é que, mesmo tendo em conta o reduzido interesse da Taça CTT, o FC Porto (“nós”) está atrás do Moreirense e do Belenenses. Isso não deixa a equipa (“nós”) numa situação confortável, porque quem se deixa empatar com o Feirense (“nós”) há de ter dificuldade em desativar a Juve, quando chegar a altura. Nuno E.S. anunciou que (“nós”) vai refletir, mais precisamente “nós, equipa técnica”. Uma das coisas em que pode refletir é no desinteresse com que a imprensa acompanhou mais uma derrota da equipa treinada por “nós”, justamente uma segunda linha quando era preciso a divisão Panzer.

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Chegou o frio, televisões.

por FJV, em 06.01.17

Preparemo-nos. Vem aí o frio, dizem as televisões. Basicamente, é como se a calota polar chegasse a Figueiró dos Vinhos e fosse necessário avisar a população.

Todos os anos me divirto com as repórteres embrulhadas em anoraques usados nas séries de tv do Alasca, de microfone em punho, inquirindo habitantes de Vinhais, Manteigas ou Terras de Bouro: "Então, está frio?" Uns cavalheiros à porta de uma loja de ferragens respondem que sim, sim, "está mais frio do que em agosto".
Hidratem-se, recomendam as repórteres. Ah, e não se esqueçam: a Proteção Civil recomenda que se vistam várias peças de roupa em vez de só uma (verídico). Evite tomar banho de mar e, se chover, use guarda-chuva. "E então como fazem por causa do frio?", perguntam de dentro do anoraque. As pessoas de Vimioso entreolham-se e balbuciam: "Agasalhamo-nos." O normal: tirando um vizinho que fuma substâncias esquisitas, na minha rua não anda ninguém em t-shirt. Chama-se inverno. Imagino um programa da proteção civil a explicar como se usam ceroulas ou luvas e se prepara chá de limão.

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Caraíbas.

por FJV, em 06.01.17

Coisas que se escondem para não nos fotografarem em Varadero.

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Os maridos viris não pode ser feridos na sua honorabilidade, consideração, honra e dignidade.

por FJV, em 04.01.17

Vejamos: em 2011, uma mulher acusou o marido de violência doméstica (e de violação), além de infligir maus-tratos físicos e psicológicos às três filhas. Diante disso, o tribunal condenou-a por difamação, considerando que a mulher, está na cara (com nódoas negras), agiu com o "propósito de difamar e caluniar" o marido, já que as suas acusações são atentatórias (ui, ui) do "bom nome, hombridade, reputação e decoro" do cavalheiro. De acordo. E mais: como não concordar que se trata de "suspeições desprimorosas"? Evidentemente que são. Nojentas. E como não concordar com o tribunal ao considerar que essas "suspeições" põem em causa a "honorabilidade, consideração, honra e dignidade" do marido? Parece, inclusive – que horror –, que ele passou a ser tratado com ‘comentários e olhares vexatórios’, o que não se pode permitir.
Os tribunais têm de defender a honra destes maridos viris. Curiosamente, o tribunal, que condenou a malvada (à primeira), não considera falsas as suas acusações; simplesmente são chatas para o marido. A Relação de Guimarães veio agora anular a sentença. Pobre marido.

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A fábrica de refugiados.

por FJV, em 04.01.17

Conheci Martin Adler como repórter. Foi assassinado em Mogadíscio por “rebeldes” da Al-Qaeda (assim foram festejados nas ruas de Paris, apenas porque se opunham ao imperialismo americano). Martin fez para a Grande Reportagem, de que fui diretor, a cobertura dos “acontecimentos” de Grozny, na Chechénia: com o argumento de punir o secessionismo e a resistência islâmica, as tropas russas entraram na cidade e destruíram-na, matando toda a gente, na mesma altura em que a opinião pública europeia estava preocupada, sim, com o destino dos bombistas-suicidas do Hamas, o isolamento da Líbia ou com a liberdade dos pregadores radicais das mesquitas de Londres. Hoje, ao ver as imagens de Aleppo, recordo as palavras de Martin, que previra o cenário de destruição da Síria, a aliança Putin-Assad e a formação de um estado pária islamita. Diante disso, os bem pensantes veneram Obama que, sem sair da televisão, deixou o Médio Oriente em chamas (pior do que o encontrou) e permitiu que Rússia sitiasse a Ucrânia e o Mar Negro. Esta gente, reunida, foi a maior fábrica de refugiados do Mediterrâneo.

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Israel.

por FJV, em 03.01.17

Desde 1975 que a ONU tem como política oficial o ataque a Israel; é estranho, aliás, que tenha entregue a política de direitos humanos à Arábia Saudita, à Síria, à Líbia e a Cuba, financiando organizações abertamente anti-semitas e amigas de organizações terroristas (e ter sempre dado a mão ao grande responsável pelo facto de a Palestina não ser um Estado independente, Arafat). A resolução que condena os colonatos israelitas esquece que Israel foi sucessivamente atacado (1948, 1967, 1973) pelos estados árabes da região (o que nunca motivou protestos) com vista ao seu extermínio, razão pela qual o Hamas, que domina a faixa de Gaza, ter abrigado militantes jiadistas de todas as origens. Numa cidade do Irão existe inclusive um gigantesco relógio digital anunciando os anos e dias que faltam para a destruição de Israel. A ONU acha isso uma gracinha e o Ocidente ri-se. Por isso, Israel tem o direito a defender-se contra as ameaças reais. E sim, deve ser obrigado a parar a construção de colonatos no dia em que os agressores desistirem de agredir Israel. Arafat nunca o fez. A ONU também não.

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As ‘raparigas’ estudam mais na universidade, são melhores e mais discretas.

por FJV, em 03.01.17

O comissário europeu Carlos Moedas veio a Portugal e uma das suas visitas foi ao centro de investigação 3B’s da Universidade do Minho (cada um dos ‘b’ significa biomaterial, biodegradável e biomimético), no Vale do Ave, entre Braga e Famalicão – é ali que trabalham 150 investigadores desconhecidos do ‘mundo pop’ (não têm o ‘glamour’ histérico da Web Summit nem são tão populares como os ‘chefs’ da moda), distribuídos por quase uma dezena de nacionalidades. Nestas áreas de investigação, em poucos anos, a Universidade do Minho conseguiu cerca de 50 patentes científicas internacionais – um caminho maravilhoso. Li várias notícias sobre o assunto, mas o pormenor mais importante (além da natureza do trabalho que desenvolvem, claro) foi desprezado em quase todas: as mulheres são ali praticamente o dobro dos homens. Enquanto os ‘rapazes’ andam a discutir a bola e a apreciar à socapa, muito cúmplices e a coçar as partes, um ministro que chama ‘feira do gado’ a uma reunião decisiva, as ‘raparigas’ estudam mais na universidade, são melhores e mais discretas. Sim, o meu aplauso vai para elas.

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Começar o ano.

por FJV, em 02.01.17

O que sobra do primeiro dia do ano? Revi a melhor das adaptações de Orgulho e Preconceito ao cinema (com Keira Knightley e Matthew MacFadyen – não, não é a de Lawrence Olivier, lamento; quando muito seria a da televisão, com Colin Firth). Entrei na derradeira etapa de um romance de Don Winslon sobre o narcotráfico mexicano. Também constatei que as temperaturas baixaram. Que metade dos comentadores televisivos, à falta de melhor, estava ocupada com questões de economia, como nos últimos dez anos (e no entanto, vemos a tempestade avançar). Que há sempre gente feliz a mergulhar no mar de Cascais. Que o aumento do PIB foi poucochinho. Que a Turquia continuará a colher o que semeou. Cozinhei e comi, um sinal de felicidade. O dia 1 de janeiro nunca parece o primeiro dia do ano. Adio sempre a lista das “resoluções do ano novo” para o dia de Reis. Vai estar mais frio, nessa altura. Terão acabado “as Festas”. T.S. Eliot dizia que abril era o mês mais cruel; janeiro é o mais longo, o que também fará dele cruel – e frio. Todos os anos se repete este receio anunciado.

Dissemos adeus a Nicolau Breyner; todos gostávamos dele, mas muitos não mereciam. Dissemos adeus a David Bowie, a Prince ou a Fidel Castro. Alguém acreditava que demoraria tanto tempo para que os cientistas reconhecessem a teoria da relatividade, de Einstein? Alguém acreditava que um governo podia nascer com base no partido mais derrotado nas eleições? Alguém acreditava que Marcelo podia despedir-se dos seus comentários políticos na televisão (e, de facto, não se despediu – diz-se)? Alguém iria imaginar que uma equipa de futebol especialista em empates podia ganhar o Euro? Alguém acreditava que Nice, Paris, Bruxelas, Orlando e Berlim iriam ser atacadas por comandos de lunáticos islamitas? Alguém ia acreditar que PCP e BE podiam ser metidos no bolso? Alguém – há um ano – acreditava que Trump podia ser presidente dos EUA? Alguém acreditaria que Bob Dylan podia ganhar o Nobel da Literatura? Quem acreditava, há uns meses, que Guterres podia ser secretário-geral da Onu? Alguém acreditava que os discos de vinil iriam regressar? Alguém acreditava que Leonard Cohen podia morrer?

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O calendário também é uma geringonça.

por FJV, em 31.12.16

É provável que “geringonça” seja, para a vida portuguesa, a palavra do ano – um fenómeno novo na política portuguesa, muito apreciado para quem viu a série ‘Borgen’ na TV – porém, ao contrário da série dinamarquesa, os partidos da coligação entram no governo, não se limitam ao parlapié. Seja como for, há outras. ‘Hostel’ é uma delas, como ‘Airbnb’, o novo alojamento turístico dentro de portas, depois de nos anos anteriores ‘tuk tuk’ ter entrado no léxico urbano, juntamente com ‘chef’ para significar quase tudo, desde o preparador de tostas mistas até ao desenhador de comida em restaurantes com estrelas Michelin. ‘Terrorismo’, infelizmente, também entra, tal como ‘migrante’ e ‘refugiado’. ‘Atentado’. ‘Estado Islâmico’. ‘Trump’. Já esquecemos ‘dívida’, ‘troika’ e ‘austeridade’ – mas a nossa vida em 2007 não será muito diferente, no meio de promessas de vida nova e de desejo de melhores hábitos já a partir de depois de amanhã. No fundo, o calendário também é uma geringonça – mas a sério. Uma convenção que tanto funciona como não funciona. Como todos nós.

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Natal, está bem.

por FJV, em 23.12.16

O mundo dos mercados reduziu o Natal à “festa da família”, tremendo à ideia de explicar a origem da data e substituindo a figura de Jesus pela de um Pai Natal finlandês que foi emagrecendo a conselho dos nutricionistas. “Festa da família” já não é mau e foi, aliás, um recurso dos católicos para não afrontar o laicismo crescente – e alargar a celebração a não praticantes. Inteligente. Hoje, o Natal é uma herança da “nossa cultura”, que lhe associa (erradamente) o Hannukah judaico e o solstício de Inverno do nosso hemisfério, uma espécie de reconciliação com os outros. Proponho que a música ultrapasse a questão: ouvir a Oratória de Natal de Bach (BWV 248) pode ser longo e fastidioso mas, como não sabemos alemão, mesmo os não cristãos podem escutar algumas passagens, se não quiserem ouvir a celebração de Camille Saint-Säens, o concerto n.º 8 de Corelli (um prodígio), a ‘Infância de Cristo’, de Berlioz, ou a bela Missa de Natal, de Marc-Antoine Charpentier. Ouvir música é, nestes tempos, resistir à ameaça da barbárie, o que bem precisamos. Seja, portanto, bom Natal.

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LER Inverno 2016/2017: quase a chegar às bancas.

por FJV, em 22.12.16

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• António Araújo: a esquerda e a direita (em Portugal) já não são o que eram, nem voltarão a ser. António Araújo foi à procura de práticas, hábitos e ideias de uma cultura de direita — e do que poderia distingui-la de uma cultura de esquerda. Encontrou, em vez disso, um abismo a separar a cultura das elites e das não-elites. Da Direita à Esquerda, o seu livro, é um estudo sobre o funcionamento da sociedade portuguesa. | Entrevista de Filipa Melo.

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• Entrevista | Salman Rushdie: «A literatura é olhar para todos os caminhos até encontrar um.»  Depois de viver duas décadas sob a ameaça de morte da fatwa iraniana, Salman Rushdie fala à LER sobre o sentido da literatura na sua vida — e na vida de todos nós. | Entrevista de Isabel Lucas.

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• Camille Paglia: Liberdade e Politicamente Correto. A ideologia do politicamente correto (nas universidades e na imprensa) assenta na vitimização e na limitação da liberdade de expressão, diz Camille Paglia. Trata-se de um caso clássico de institucionalizaçãode ideias outrora revolucionárias. Hoje, uma ameaça cruel à liberdade. | Texto de Camille Paglia.

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• Timothy Garton Ash: A liberdade morre se não a usarmos. O historiador Timothy Garton Ash pensa que, no mundo da internet, da acessibilidade e das conexões globais, a liberdade de expressão enfrenta inimigos severos e subtis – a começar pela nossa indiferença, a terminar na vigilância rigorosa e permanente. | Texto de Timothy Garton Ash.

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• Bob Dylan: um prémio contra a corrente. O almoço de dia 13 de outubro caiu mal a muita gente. Alguns dos mais atentos, que receberam a notícia bombástica em direto, terão ficado tão indispostos que não conseguiram comer mais do que uma sopinha. E tudo por causa de um prémio literário. | Texto de Humberto Brito.

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• Montaige: sobre o que flutua, sobre o nosso mundo. Montaigne: o vão, o diverso e o ondulante — ou tudo o que é preciso saber sobre o humano. Ao contrário do que, por vezes, se supõe, Montaigne não era um teórico abúlico e completamente ­fechado ao mundo. A imagem mítica da torre onde se «encerrou» com os seus livros é, no mínimo, incompleta. | Texto de Hugo Pinto Santos.

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• Escritores: como era a vida antes das redes sociais. Do Bloomsbury, em Inglaterra, ao grupo da Orpheu, em Portugal, passando por referências aos «salões literários» do século XVIII, aos frequentadores do Hotel Algonquin em Nova Iorque, Helena Vasconcelos redescobre alguns dos nomes de poetas e romancistas ingleses do Romantismo que viveram em intimidade cúmplice enquanto escreviam. | Texto de Helena Vasconcelos.


• Crónicas de Abel Barros Baptista, Eugénio Lisboa, Leonor Baldaque e Tiago Cavaco.

[Fotografia da capa: Rui Rodrigues.]

 

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Abstinência sexual.

por FJV, em 22.12.16

A jota do CDS fez uma pergunta: porque é que uma criança de 10 anos aprende na escola tudo sobre a utilização do preservativo (e sobre o aborto, segundo os novos donos da escola pública, transformando tudo em ‘questão técnica’), mas só aos 15 anos discute a hipótese da ‘abstinência sexual’? Bom, porque há hormonas. E porque aos 15 anos toda a gente anda com as hormonas aos saltos. E porque a nossa cultura transformou o sexo numa indústria popular e obsessiva. Porque o sexo está em todo o lado, da televisão à política.Porque ninguém está preparado para explicar o que é a abstinência sexual – muito menos os professores – sem explicar o que é a atividade sexual e, explicando o que é a atividade sexual, as pessoas reconhecem o assunto (mesmo a partir dos 10 anos), mas já abstinência, estamos entendidos. E porque os dois pratos da balança estão sempre desequilibrados (o sexo ganha à abstinência). Porque somos tarados, naturalmente. Mas tudo isto não retira à pergunta alguma lógica. Porque só os mais velhos, como eu, podem falar de uma educação para o pudor sem corar de vergonha.

[Da coluna do CM]

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Como os inteligentes tomam conta da cidade.

por FJV, em 22.12.16

Os inteligentes tomaram conta de Lisboa; basicamente, isso significa que estamos lixados. Veja-se isto: trabalho numa zona tranquila de Sta. Cruz de Benfica, um bairro que nunca teve problemas de trânsito.

Em trinta anos recordo-me de três ‘toques’ entre automóveis; nenhum atropelamento; há gente que pedala pelas ruas e que passeia os canídeos; vejo peões a praticar jogging livremente; há empresas por ali, como aquela em que trabalho – têm lugares de estacionamento; restaurantes de bairro fazem o seu negócio; moradores vivem em silêncio, entre plátanos, acácias, araucárias e (é certo) canteiros que estão por tratar.

Entretanto, os lunáticos das obras – uma divisão camarária que ataca de surpresa, mandatada por inteligentes que desenham a cidade a régua e transferidor (por causa das curvas) – chegaram a este lugar tranquilo e vão instalar uma rotunda, alargar os passeios e torná-los irregulares de modo a diminuir drasticamente a faixa de trânsito (por onde circulam atualmente três linhas de autocarro), criar espaços de estacionamento para prejudicar os moradores, instaurar sentidos proibidos, reduzir o espaço para quem corre e passeia, multiplicar o fluxo de trânsito em ruas antes tranquilas e arborizadas (onde, imagine-se, ainda há duas semanas passeavam patos e pavões da Mata de Benfica, nossa vizinha), inviabilizando também o acesso à avenida mais próxima, e dificultando a vida a condutores e transeuntes. 

Aguarda-se – claro – a chegada da Emel e dos psiquiatras. Ou da polícia. Depressa.

 

Act.: Sim, já chegou a polícia, que toma nota – diligentemente – das matrículas dos carros que não se habituaram às novas regras de trânsito que de um momento para o outro alteram os hábitos de trinta anos de paz.

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Psicopedagogia.

por FJV, em 21.12.16

É muito mais difícil escutar os psicopedagogos sazonais do que descortinar as intenções ocultas de Marques Mendes nas suas homilias de domingo. Explico: ao ouvir Marques Mendes sabemos logo qual a sua agenda e qual o objetivo por detrás da cara de seriedade indignada ou do elogio flutuante. Já alguns psicopedagogos não percebo para que País falam. 
Ontem, por exemplo, li e ouvi dois (a rádio está cheia deles) a defender que os pais devem acompanhar os filhos durante estas duas semanas, caso contrário as crianças sofrerão bravamente o trauma durante as férias escolares e a quadra festiva. Não sei o que sentirão os pais cujas "férias de inverno" se limitam aos dois dias do próximo fim de semana e têm de trabalhar no resto do tempo – talvez sofram idêntico trauma. Tempos existiram em que havia um certo bom senso por parte das pessoas que falam para grandes públicos acerca de temas semelhantes (na política também) e em que o afeto verdadeiro entre pais e filhos, ou dos pais pelos filhos, não era avaliado por sábios cheios de opinião e desejosos de espalhar complexos de culpa.

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Ler Gramsci.

por FJV, em 20.12.16

O grande problema da escola pública (além da igualdade do acesso ao conhecimento e à cultura) não são os crucifixos na sala ou o debate sobre criacionismo. Tem a ver com a forma como as ideologias dominantes se apropriam dos programas de História, Português, Filosofia ou Educação Sexual, por exemplo. 
Num interessante debate que ouvi na rádio, um dos intervenientes defendia que a escola «esclarecesse» alunos do 5º ano sobre temas como o aborto, a contraceção ou as «alterssexualidades». Outro dos participantes protestou: há famílias que não concordam com a abordagem desses temas por crianças com 10 ou 11 anos. «Pena. Vá para um colégio privado» – até porque, lembrou, os professores têm uma certa autonomia. 
Ou seja, os novos donos da ideologia do ME ensinam uma nova religião – e quem não está contente, que se mude. O entrismo na política já deu lugar ao seu pensamento único. Não para esclarecer, mas para formar segundo o seu catecismo, independentemente da vontade das famílias. Este é o debate que interessa fazer sobre a escola pública. O resto são negócios.

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Bad sex.

por FJV, em 12.12.16

Tudo tem a ver com sexo – aprende-se isso com a vulgata mais popularucha dos “estudos psicanalíticos”. Uma vulgata tão desmiolada que até Freud se ria do assunto (“às vezes, um charuto é só um charuto”) e deixava Foucault, nos anos 70, indignado com a vaga contemporânea de discursos sobre “o desejo”, uma variante universitária do “desejo”, sim, mas de ver pornografia. Em Inglaterra acaba de ser atribuído o prémio Bad Sex, relativo a más cenas de sexo na literatura – calhou a vez ao italiano Eri de Luca. Não li, mas imagino: uma distração basta para que toda a gente comece a rir, ou, no caso da literatura portuguesa, a discorrer sobre as vantagens da impotência. Nem todos são Philip Roth, e mesmo assim o autor de O Complexo de Portnoy correu riscos abundantes – desculpa-se-lhe porque o tema passa de livro para livro como um pesadelo. A personagem mais injustiçada da literatura portuguesa, a Senhora Condessa de Gouvarinho, de Os Maias, por exemplo, foi destratada por Eça. O motivo? Ela queria sexo e aventura, implicava que queria passar uma noite em Santarém, a meio de uma viagem de comboio, ou que lhe apetecia apenas o picante do adultério; Carlos, apalermado, julgava que ela queria fugir do marido e asilar-se no Ramalhete. É o nosso prémio Bad Sex.

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. O penálti.

por FJV, em 11.12.16

Sim, foram dois penáltis. Um, vá lá — se descontarmos as dúvidas em relação ao gesto de Pizzi. Mas tenho na memória dois golos injustamente anulados a André Silva, mais cinco penáltis não assinalados a favor do FC Porto nos últimos tempos (incluindo aquela mão de Mitroglou no nosso estádio), mais meia dúzia de foras de jogo incorrectos, mais o esgar de Jorge Jesus a falar de «limpinho, limpinho» depois de um jogo sujo, sujo, e, portanto, o futebol (por mais virtudes que transporte) também faz de nós más pessoas, péssimas pessoas, de modo que.

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Uma alma.

por FJV, em 11.12.16

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Praia do Abano, hoje de tarde. Todos temos uma alma pirosa.

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Informalidade.

por FJV, em 11.12.16

Todos apreciamos a informalidade em determinadas circunstâncias. Mas falar de «feeling» a propósito de dados da macro-economia portuguesa não tem a ver com isso. É bem capaz de ser ligeireza, mesmo que o «feeling» venha a estar correcto. 

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Houellebecq.

por FJV, em 11.12.16

Leia a entrevista de Michel Houellebecq à Folha de São Paulo: a França muçulmana e a progressão da Frente Nacional (que é menor do que a da abstenção), em quem os católicos não votam.

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Frederico Lourenço: um prémio e tudo o mais

por FJV, em 11.12.16

A atribuição do Prémio Pessoa a Frederico Lourenço deixa-me feliz — não apenas por ser o autor da tradução da Bíblia que a Quetzal publica, mas porque é o reconhecimento do seu notável trabalho ao longo dos últimos vinte anos. E porque, através deste prémio (que me escuso a comentar mais, por pudor) ficam também homenageados os estudos clássicos, os resistentes que continuam a ensinar e a traduzir (e a estudar) grego e latim. 

Este prémio, além de distinguir o trabalho do Frederico, deve servir para alertar para a penúria em que se encontram os estudos clássicos: história, língua, cultura, cosmogonias – não para que os alunos se transformem em eruditos e tradutores de Horácio ou Tucídides, mas para que pelo menos a escola não perca a memória do nosso mundo nem da herança que o conhecimento humanístico transporta como uma luz de beleza, de experiência e de consolação diante do vazio de hoje.

Em 1995, havia 13 mil estudantes a estudar Latim; o número passou para para 114 (em 2014). 

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100 anos de Kirk.

por FJV, em 09.12.16

Wyatt Earp (o xerife verdadeiro, não o personagem imortalizado por Burt Lancaster) dizia que Doc Holliday era o atirador mais veloz e mais mortal que jamais conhecera – talvez por isso tenha sido interpretado por Kirk Douglas na versão de John Sturges. Espero que se lembrem de Douglas. No ano em que nasci, ele interpretava o papel de um cowboy (em Fuga sem Rumo, Lonely Are the Brave) cheio de intensidade, melancolia e dramatismo, ao lado de Gena Rowlands, uma das suas grandes companhias no cinema, ao lado de Barbra Stanwick ou da amiga Lauren Bacall. Western? Homem sem Rumo, de King Vidor – reparem no olhar: honra, perdição, um físico invejável. Policial? A História de um Detetive, de William Wyler: traição, drama, perda. Vejam-no em O Grande Ídolo (Champion), em Spartacus (de Kubrick), nos numerosos filmes de guerra – poucos atores sublinham em conjunto a força física, a originalidade, a inteligência e a sobriedade na interpretação como Kirk Douglas. Mais do que uma força da natureza – de quem hoje festejamos o seu centenário – é uma das memórias do próprio cinema. Um atirador veloz e letal.

[Da coluna do CM]

 

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Alunos felizes.

por FJV, em 09.12.16

Vai uma grande barulheira em redor dos resultados do inquérito PISA 2015. O essencial é isto: os resultados melhoraram para os estudantes portugueses; tamanha revelação deixa esquerda e direita a batalhar sobre quem tem mais responsabilidade nessa melhoria, e transforma a leitura dos dados numa encenação ideológica sobre o papel da escola, do ensino, dos exames e dos vários ministros que passaram pela Av. 5 de Outubro, onde está instalado o monstro. O monstro é o Ministério da Educação. A ninguém há de passar pela cabeça que melhores resultados se conseguem com menos trabalho, menos autonomia das escolas e dos professores, menos dedicação, menos exigência e menos desperdício no sistema educativo. O monstro – e o complexo de pedagogos, técnicos e pessoas que há muitos anos não põem o pé numa escola e escrevem textos ilegíveis – nunca aceitou como boas nem a experiência nem as recomendações de professores. Como resposta, prepara-se para manejar as estatísticas a fim de acabar com as retenções, em vez de insistir na preparação dos alunos para enfrentar o destino e escolherem o seu caminho.

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Benite.

por FJV, em 09.12.16

Passam quatro anos sobre a morte de Joaquim Benite (1943-2012), jornalista, crítico e encenador de teatro, fundador do Grupo de Campolide e, mais tarde, da Companhia de Teatro de Almada – e, como o recordo comovidamente, grande recriador de Shakespeare. A última das suas encenações foi justamente Timão de Atenas, que já tinha encenado em Mérida, em 2008 (dois anos antes de Troilo e Créssida) – e que foi estreada pela Companhia 16 dias depois da sua morte, a 20 de dezembro de 2012, uma homenagem maravilhosa a um homem encantador, uma grande voz (no sentido literal) do nosso teatro, um encenador corajoso de O’Neill, Gogol, Brecht, Raul Brandão ou Mozart (inesquecível, A Clemência de Tito), Marivaux e Molière, Pushkin e Gil Vicente ou António José da Silva, Saramago e Thomas Bernhard. A obra completa da Companhia de Teatro de Almada (as suas encenações, a dos convidados, a do seu grande Festival) continua hoje pela mão de Rodrigo Francisco, mas não cessa de evocar a presença tutelar de um homem generoso e sonhador, capaz de arriscar quase tudo pelo teatro. Com uma voz quase sobrenatural.

[Da coluna do CM]

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Empoderamento, aitem e genderificar.

por FJV, em 09.12.16

 

Em português, gentrificação é a palavra usada para significar gentrification, do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – significa a ocupação do centro das cidades por gente mais ou menos rica. O seu uso pode irritar-nos; é um pouco como se escrevêssemos roque em vez de rock. Na rádio, sobretudo, ouvem-se coisas desta novilíngua – mas admito que nos gabinetes da burocracia há ainda mais abundância de expressões, que convinha registar. Outro dia ouvi dizer que era preciso fazer um debate sobre a genderificação (do inglês gender, género), uma vez que há cargos que estão muito genderificados. Semanas antes escutei uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país de que já não me recordo da América Latina, e o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insiste na necessidade de empoderar os cidadãos do concelho. Depois, há os cidadãos e as cidadãs que dizem aitem em vez de item (um advérbio latino, igualmente) e que já evito corrigir, embora apeteça chicoteá-los. Pessoas que falam mal o português decidiram falar em portinglês. Mas pensam mal em ambas as línguas.

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Cinatti.

por FJV, em 09.12.16

Conheci Ruy Cinatti (1915-1986) num sábado de verão, em Lisboa – uma figura maravilhosa, palradora, exuberante e triste, com uma cruz ao peito, uma sacola de pano onde viviam papéis amarrotados e poemas que distribuía de vez em quando. A maior parte deles sobre Timor (estávamos já nos anos da ocupação indonésia). E Deus. Falámos de ambas as coisas. E de África, Portugal – e do mar. Mais tarde eu veria esse seu mar, em Baucau, Tutuala, Loré, Díli. Mas também o de São Tomé, outra da suas paixões. Encontrei-o mais vezes, a cruz ao peito, mais triste, e o resumo destas conversas era o título do seu primeiro livro, Nós Não Somos deste Mundo (de 1941). A sua poesia acaba de ser publicada (pela Assírio & Alvim) num livro volume com mais de mil páginas, organizadas pelo minucioso e apaixonado Luís Manuel Gaspar (com Joana Matos Frias e o Padre Peter Stilwell) – a poesia inédita e póstuma sairá depois num segundo volume. Cinatti recorda-nos todas as nossas heranças: cristã, oriental, africana, índica, atlântica, clara e escura, tempestuosa ou comovida, como a manhã imensa de que falam os seus poemas. Bem vindo sejas.

 

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Quaraouiynie, Fès el-Bali.

por FJV, em 06.12.16

Onde queria eu estar hoje? Em Fez, Marrocos – sob as cordilheiras que delimitam a planície. Mas hoje não venho falar de geografia e sim de recolhimento, em plena Fès el-Bali, a velha cidade fundada em 789 e onde se encontra a universidade Quaraouiynie, criada 70 anos depois, com a sua biblioteca – a mais antiga do mundo em atividade. Nunca foi devorada pelas chamas, como a de Alexandria; nunca foi destruída por religiosos suspicazes nem assaltada por fanáticos. Conserva manuscritos de uma beleza inestimável, de Ibn Khaldoun ao evangelho de Marcos na sua primeira tradução árabe ou aos estudos teológicos do avô de Averróis, o grande comentador de Aristóteles, sem falar dos tratados de astrologia ou geometria, da poesia do deserto, do Al-Andalus ou de al-Mutamid, o poeta de Beja, ou de Ibn Amar, o de Silves. A biblioteca de al-Quaraouiynie acaba de reabrir depois de meia década de restauro. E, coisa maravilhosa, foi fundada em 859 por uma mulher, Fatima el-Fihriya, filha de um mercador tunisino convertido aos negócios e ao céu tépido de Fez. Quem sabe, talvez tivesse visitado o Algarve.

[Da coluna do CM]

 

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