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Por uma frase se trai.

por FJV, em 12.05.16

No «debate» sobre educação, como sobre saúde, ou até sobre economia, há cada vez mais gente a revelar-se inimiga da «liberdade de escolha». Todos são, subitamente, amigos do Estado — pugnando (a palavra está certa) por «mais Estado» em todos os domínios, um Estado que seja dono de tudo, que dirija o ensino e a economia, os transportes públicos e as artes, o trânsito e a meteorologia, os contratos de trabalho e os «tempos livres dos cidadãos» (além de espreitar para os orgãos de comunicação, com a proposta de subsídios à imprensa, tão recentemente sugerida). Os neo-iliberais são mais perigosos do que se pensa — andam à solta e têm boas intenções.

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Longe de Manaus: na Sérvia.

por FJV, em 12.05.16

861890574.0.l.jpg Nas melhores livrarias de Belgrado.

 

Gosto muito da capa, que eu nunca arriscaria em Portugal. Mas arrisco outra coisa, que é agradecer esta edição sérvia a duas pessoas que me são muito caras: ao Paulo Ferreira, meu agente (da Bookoffice), que tem feito muito pelos meus livros e a quem devo muito, bastante, e é um tipo generoso como há poucos; e à Magda Barbeita, professora de português na Sérvia. A Magda é uma mulher extraordinária e uma leitora raríssima. Fez, há dois anos, uma tese sobre «as investigações do inspector Jaime Ramos», que eu nunca lhe agradeci o suficiente. Abraços para os dois.

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Cela.

por FJV, em 11.05.16

Ontem, por toda a Galiza, assinalou-se o centenário do nascimento de Camilo José Cela (1916-2002); em Espanha, menos. A Espanha atual, moderna e cheia de conveniências, acrílica, que discute o fim da sesta e das touradas, que se incomoda com o colesterol e o açúcar, que tem horror aos conhaques de antanho, ressentida como um abanico, já não tem muito a dizer sobre Cela, e detesta-o. Personagem pícaro e burlesco (polémico é dizer pouco), o autor de Mazurca para Dois Mortos não cabe nas margens de nenhuma correção política. Ele detestava o termo “tremendista”, que lhe aplicavam – mas Cela era tremendo, ex-franquista e censurado pelos franquistas, anarquista, erotómano, viajante (a pé, pela Espanha fora), Nobel em 1989, Príncipe das Astúrias em 1987, apaixonado pela língua, desbragado, maravilhoso narrador. A Mazurca é uma obra-prima (não há chuva como a do seu primeiro parágrafo), mas há também Família de Pascual Duarte, San Camilo e A Colmeia – e Essas nubes que pasan (não traduzido aqui, uma pena) e Vagabundo ao Serviço de Espanha, uma pérola de paixão pela terra. Um grande mau feitio, um génio como os de antigamente.

 

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Marão.

por FJV, em 02.05.16

Foto Ronda dos Cumes Sagrados

 

A abertura do gigantesco túnel do Marão deixa-me feliz porque os transmontanos ficam contentes, mas sobretudo porque haverá menos trânsito à superfície, o que fará da viagem um percurso bem mais agradável para quem quiser apreciar a beleza da serra de Teixeira de Pascoaes. A vontade irresistível de regressar às obras públicas prolonga um dos equívocos do interior do país: que com mais “vias rápidas” chega o dobro da riqueza. Errado: sai o dobro da gente. Uma pessoa sobe a um pico de Armamar, por exemplo, e vê – dos dois lados do rio – o traçado de estradas a rasgar a paisagem, deixando-a escalavrada e coberta de betão. Ficou a gente mais rica, nasceram mais indústrias? Não; mas, dizem-me, é uma rica imagem do progresso da nossa terra, o que contenta um dos povos que mais aprecia obras, retroescavadoras, argamassa e paisagens dizimadas. O túnel do Marão facilitará muito as viagens de fim de semana até Vila Real e Bragança (bom para o turismo rápido), mas o destino de Trás-os-Montes sairá mais beneficiado com a subida do meu GD Chaves à I Liga do que com o orgasmo de betão que deixa os políticos a salivar.

 

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Safe place.

por FJV, em 01.05.16

Tornou-se agora um hábito, nas universidades dominadas pelas esquerdas de várias procedências, a criação de “lugares a salvo” de agressões ideológicas. O objetivo, tonto e paternalista, é não agredir os pobres estudantes com “ideias incorretas”, como o racismo, o machismo, o sexismo e outras patifarias protegendo-os de tudo o que os ofende. Não se discutem as ideias: proíbem-se e retiram-se do espaço público. Em Nova Iorque, por exemplo, os estudantes multiculturais sentiram-se ofendidos por uma estátua de Henry Moore e a universidade foi obrigada a retirá-la. Em Oxford, foi cancelada uma conferência de Camille Paglia porque a comunidade LGBT se sentia ofendida pelas suas ideias sobre “género”. Uma estudante de arte da Universidade da Pensilvânia sentiu-se ofendida com a exibição de ‘La Maja Desnuda’, de Goya, e a Comissão de Ação Afirmativa das Mulheres considerou que o quadro de Goya instaurava um ambiente hostil e desconfortável para a mocinha, ou seja, de assédio. Nos anos 60 e 70, a luta era contra o paternalismo e pela discussão aberta. Hoje, as universidades são altares da vitimização e da ignorância.

 

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O Estado, o Estado.

por FJV, em 01.05.16

Portugal é um país liberal, mas nunca foi um país de liberais; ou seja, atrás da cortina existe, periódica ou permanentemente, a tentação de estabelecer pequenas ditaduras. A do sistema educativo é uma delas, herdeira do jacobinismo vintista (“Portugueses, não me obrigueis a libertar-vos pela força!”, ameaçava D. Pedro IV, antes da guerra civil), da República do PRP e de Afonso Costa, e do salazarismo. Para lá da discussão sobre os “contratos de associação” e o papel do ensino particular e cooperativo, a tentação de uniformizar e de pôr o Estado a dirigir todo o aparelho educativo é enorme. Manual escolar único, todo o poder à escola do Estado, conceber a escola não-estatal como um pecado social – esta trindade não é inocente e antecede o momento em que sovietes improvisados determinarão o que é correto ensinar-se em matéria de História, por exemplo, e em que os professores serão instrumentos da ação educativa e política do Estado (será a segunda fase, mas está no programa). Para esta nova geração de incumbentes, a escola é uma das divisões do aparelho ideológico do Estado. É gente bem intencionada e perigosa.

 

 
 

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Um elevador na China.

por FJV, em 01.05.16

A ideia de que os processos criativos são, muitas vezes, atitudes para sublimar a violência, ou de que há atitudes violentas que tresandam a criatividade, acaba de ganhar um novo adepto: este vosso colunista, extremamente relapso a ver vídeos classificados como (exultem!) “virais”. Desta vez, as imagens – divulgadas ontem pelo CM e captadas por câmaras de vigilância de um elevador, na China – mostram uma jovem a ser incomodada por um rapaz à ilharga que tanto a ronda com exuberância, como a toca sem cerimónia, mas sem autorização; ultrapassada esta barreira, a mulher, de aparência franzina (a elegância é bom engodo), golpeia-o com um decidido sopapo, primeiro, e conclui com dois exatíssimos pontapés na virilha. O macho afoito fica deitado no chão, aos olhos de toda a China (o vídeo foi divulgado pelo ‘Diário do Povo’, 6 milhões de leitores, e pela rede Sina Weibo, 250 milhões) – e ela sai, consultando seu telemóvel. Espero que não sejam imagens forjadas porque o momento é uma obra de arte sobre a qualidade das relações humanas e uma lição sobre assédio sexual nos elevadores chineses.

 

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Shakespeare, Cervantes e cerveja.

por FJV, em 01.05.16

Hoje sabemos que William Shakespeare e Miguel de Cervantes não morreram no mesmo dia, a 23 de abril de 1616. E que nenhum deles, aliás, morreu a 23 de abril (Cervantes a 22 de abril, o inglês a 3 de maio). Mas, em literatura, a verdade não pode atrapalhar uma boa história, e a boa história é imaginarmos que os dois maiores génios da literatura europeia deram o último suspiro no mesmo dia, à luz da mesma melancolia. Não foi assim. Mas é assim por nossa conveniência. Por isso continuaremos a comemorar o encontro destas duas almas no mesmo dia do nascimento de São Jorge da Capadócia (na atual Turquia, em Izmit, antiga Nicomedia), uma figura emblemática que se festeja na Catalunha com livros e rosas – e do desaparecimento de Inca Garcilaso de Vega, não o poeta espanhol, mas o historiador mestiço peruano, cujas obras se publicaram em Lisboa (e não em Espanha) na primeira década do século XVII. Tudo a 23 de abril, tal como a publicação, na Alemanha, mas 100 anos antes da morte de Cervantes e Shakespeare, de uma das mais belas leis da nossa civilização, a Lei da Pureza: dizia que a cerveja só podia fabricar-se com água, cevada, levedura e lúpulo. 

 

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O drama dos refugiados.

por FJV, em 01.05.16

A recente operação de sensibilização para os mais jovens acerca do ‘drama dos refugiados’ é um exemplo de como a fábrica de cidadania é ridícula. A ‘operação da mochila’ visava mostrar às crianças como era difícil ser refugiado; até o presidente da República metia lá dentro um livro em vez de um anoraque, e as “redes sociais” protestaram quando alguém preferia transportar coisas politicamente incorretas. O problema é que o ‘drama dos refugiados’ não é o de guardar apenas três ou quatro coisas numa mochila, como faziam os escuteiros do meu tempo antes de se aventurarem num fim de semana na serra: é o de abandonarem uma casa, um país, uma rua, uma escola – por causa de uma guerra que os doutrinadores de cidadania europeia se mostraram incapazes de deter, vencer ou evitar, quer por covardia, quer por ignorância ou preconceito. Estou à espera que, um destes dias, um dos nossos doutrinadores nos lembre o grande estadista que é Bashar al Assad, para não irmos mais longe, defendendo Khadafi (sim, já sei: era um homem convertido ao bem depois de uma carreira de assassino e lunático).

 

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Família.

por FJV, em 20.04.16

Na TVI, o jornalista refere-se a uma deputada como «a Mariana». «Ali a Mariana já referiu que...» «A Mariana há pouco dizia...» É entre pessoas de família, naturalmente.

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10 livros sobre África.

por FJV, em 20.04.16

No blog da LER, as listas: 10 livros sobre África moderna & contemporânea.

 

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Insulto e injúria.

por FJV, em 20.04.16

O artigo de Luís Aguiar-Conraria, muito bom como sempre: «É fácil de perceber porque se recorre aos fundos da Segurança Social em vez de recorrer ao Orçamento de Estado. Como explicou o ministro da tutela: “A ideia de que se está a gastar dinheiro e ele desaparece não é o que corresponde à verdade. O que poderá existir são mudanças das aplicações, elas continuarão a constar do balanço do Fundo e do seu património”. Trocando por miúdos, contabilisticamente, esta operação não é tratada como uma despesa, mas como uma mera recomposição de activos. É apenas mais uma estratégia de desorçamentação. Fazer isto, depauperando os recursos da Segurança Social, que enfrenta problemas gravíssimos de sustentabilidade, é juntar o insulto à injúria.»

 

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Ora vão-se mas é.

por FJV, em 18.04.16

«A Dilma não se conseguiu livrar do polvo do Lula, mas vai pra rua por pedalada fiscal, leia-se, desorçamentação, coisa que o Costa e o Passos, ó, tá aí, o Lula vai ser reeleito porque mesmo corrupto é santo, os outros partidos são tão corruptos ou mais do que o PT, ok, mais também não, viu, os favelados apoiam o PT porque lhes pôs dinheiro nos bolsos, os evangelistas sequestraram Deus, os militares arreganham a cremalheira e os taxistas dizem que fomos nós que levámos esta seita toda para lá. Ora vão-se mas é.» Do blog do Sr. Dalai Lima.

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Observações gourmet. TAP, 2. (Como comer uma sanduíche de 2,5X10cms a bordo da TAP.)

por FJV, em 16.04.16

Durante o voo Lisboa-Funchal, para o qual foi anunciada uma refeição (nem era preciso...), foi servida uma bebida na companhia de  uma sanduíche com exactos 2,5cmX10cm, caracterizada como «Pão malte peru alface manteiga». Cito os ingredientes:

Pão de malte (46%), farinha de trigo, água, flocos de trigo maltado (9,5%), farelo de trigo (2,7%), levedura, sal, farinha de cevada maltada, proteína de trigo, vinagre de vinho, emulsionantes (E471, E472e), óleos vegetais (colza, palma), gordura de palma, agente de tratamento de farinha (E300). Contém: OGM (óleo de colza), fiambre de peru em forno de lenha (35%) (carne de peito de peru) (76%), água, sal, vinho do Porto (sulfitos), gelificante (E407), emulsionante (E621), alface,  (12%), manteiga (8%) (nata pasteurizada, sal 1,2%), fermentos lácteos. PODE CONTER VESTÍGIOS DE CRUSTÁCEOS, OVO, PEIXE, AMENDOIM, SOJA, FRUTOS DE CASCA RIJA, AIPO, MOSTARDA, SEMENTES DE SÉSAMO, TREMOÇO, MOLUSCOS.

Tremoço, casca rija, moluscos, amendoim, E471, E472e, E621, E300, E407, crustáceos, peixe. Um mundo gourmet em 2,5X10cms.

 

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Overbooking, um bom negócio. TAP, 1.

por FJV, em 16.04.16

Como não fiz o check-in online do voo da TAP para o Funchal, recebi — às sete e meia da manhã — uma interessante proposta ao balcão da companhia: eu desistia desse voo, aceitava trocar para o das 16h00, e a TAP pagava-me €250. Segredos do overbooking. Mais tarde, já no Funchal, apercebi-me de que houve pessoas impedidas de voar às 16h00, porque este voo já estava com overbooking.

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Bibliografias essenciais, 26.

por FJV, em 10.04.16

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Bibliografias essenciais, 25.

por FJV, em 09.04.16

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Ler livros no metro, por exemplo. Um guia prático.

por FJV, em 09.04.16

 

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Bibliografias essenciais, 24.

por FJV, em 08.04.16

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Facebook, ou lá o que é.

por FJV, em 08.04.16

As “redes sociais” são um albergue onde se encontram quase todos os tolos e tolas ao lado de uma razoável percentagem de pessoas normais, mas com mais prerrogativas, mais atrevimento – e muita vontade de magoar o próximo e de insultar os outros. Essa é uma das razões porque qualquer responsável político se deve abster de estar sujeito a likes do Facebook, entrando em competição com o papa ou com uma sambista de Ovar (ocupações muito escrutinadas). Para comunicar, um político tem ao seu dispor o Diário da República (não é barato, eu sei), os microfones da imprensa e da rádio, as câmaras da televisão (raramente falham), já para não falar dos seus assessores de imprensa, que podem multiplicar-se e desdobrar-se. Há, naturalmente, outras coisas de que um político deve abster-se, se possível: andar nu pelos ministérios, conduzir pela esquerda nas estradas de dois sentidos, usar drogas em público, ou – não menos importante – ameaçar dar bofetadas a pessoas a quem, eventualmente, tem vontade de dar bofetadas. É aborrecido, reconheço, mas é uma regra da passagem pelo poder. Comer e calar. E nada de Facebook, ou lá o que é.

 

João Soares demitiu-se ao fim da manhã – não devia tê-lo feito. António Costa irá finalmente indigitar um daqueles que lhe garantiram que «a cultura está com António Costa», porque, lá está, ou são os proprietários da cultura, ou a cultura os informou da sua preferência, ou entre eles e a cultura não há diferenças essenciais. 

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Casablanca.

por FJV, em 08.04.16

 

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O Mar em Casablanca acabado de fotografar numa livraria de Bogotá — edição colombiana da Panamericana. Capa de Rui Rodrigues.

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Lições de moral, vêm aí.

por FJV, em 08.04.16

Há coisas que qualquer criança sabe em Portugal desde anteontem, e uma delas é que as ‘offshores’ são um esconderijo de bandidos inclementes – e que os paraísos fiscais não foram criados por democracias, uma vez que as democracias são boas e virtuosas e os ‘paraísos fiscais’ são maus e fazem mal à saúde das democracias, que são aqueles regimes onde ninguém recorre a ‘offshores’. Ontem fomos acordados pela exigência da esquerda portuguesa para que se coloque um fim ao ‘offshore’ da Madeira, uma medida que deixaria os outros ‘offshores’ muito agradecidos, além de embevecidos com os bons sentimentos das autoridades portuguesas. Houve, ao longo do dia de ontem, quem tivesse recordado a lista dos políticos que, ao longo da década, têm prometido o fim desses ‘infernos fiscais’ – e houve quem pedisse mais ética em matéria de impostos (ao jeito do ministro que pediu para não abastecer com gasolina espanhola), além de o secretário de Estado do fisco ter prometido espremer até ao último cêntimo quem tenha dinheiro no Panamá. Somos muito bons a providenciar virtudes para os outros e a dar – de graça – lições de moral.

 

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Bibliografias essenciais, 23.

por FJV, em 07.04.16

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Bibliografias essenciais, 22.

por FJV, em 06.04.16

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Bibliografias essenciais, 21.

por FJV, em 05.04.16

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Gregory Peck: 1916-2016.

por FJV, em 05.04.16

Em Na Sombra e no Silêncio (de Robert Mulligan, 1962), Gregory Peck interpreta o papel de Atticus Finch – o advogado branco que defende um homem negro acusado de violação. É a adaptação de Mataram a Cotovia (To Kill a Mockingbird), o livro de Harper Lee. O personagem colou-se à carreira de Gregory Peck e é hoje impossível imaginar o livro de Harper Lee (que morreu em fevereiro passado) sem o seu rosto. A minha adolescência viveu com a figura heróica do capitão Mallory em Os Canhões de Navarone (de 1961), com a figura do jogador de A Conquista do Oeste, mas também com Spellbound, de Hitchcock (1945), em que Peck interpreta o homem sem memória que contracena com Ingrid Bergman. A sua elegância (uma lenda para várias gerações) não se perde, nem quando interpreta o papel atormentado do capitão Ahab, no Moby Dick, de John Huston, quando faz dupla (e com que voz) com Ava Gardner em As Neves do Kilimanjaro (o livro de Hemingway nunca mais foi o mesmo) ou quando, já em 1989, aparece ao lado de Jane Fonda em Velho Gringo, adaptação do romance de Carlos Fuentes. Gregory Peck (1916-2003) completaria cem anos hoje.

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Bibliografias essenciais, 20.

por FJV, em 05.04.16

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Bibliografias essenciais, 19.

por FJV, em 04.04.16

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Mais silêncio.

por FJV, em 03.04.16

Em 1977, as cumplicidades da vida política portuguesa silenciaram as denúncias sobre o ‘27 de Maio’ porque não se podia atacar o regime de Agostinho Neto. O gulag angolano (e as suas vítimas) foi escondido debaixo do tapete em nome das conveniências, até porque o programa dos envolvidos no ‘golpe de Nito Alves’ levaria a um regime ainda mais duro, totalmente soviético. Mas nada disso explica que, no parlamento, 40 anos depois, dois partidos comprometidos com a democracia liberal (o PSD e o CDS) se tenham recusado a condenar a prisão dos jovens angolanos e a forma como decorreu todo o processo. Entende-se que um governo negoceie, manobre, mantenha canais diplomáticos, se guie pela ‘realpolitik’, seja prudente; mas que deputados eleitos pelo povo invoquem o princípio da “não ingerência” para se transformarem em cúmplices do autoritarismo, é vergonhoso – tanto como o PCP habituar-nos ao seu apoio a ditaduras e regimes autoritários. Defendem coisas patetas, os amigos de Luaty Beirão? É muito provável. Mas os deputados que se recusaram a votar o protesto foram ainda piores. Porque eram livres e escolheram o silêncio.

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Kertész.

por FJV, em 03.04.16

O Nobel de 2002 serviu para que, pelo nome do húngaro Imre Kertész (1929-2016), falecido anteontem, não esquecêssemos o terror nazi, os campos de concentração, nem a miséria em que a Europa se transformava há oitenta anos. Com o Nobel vieram os seus livros, infelizmente pouco divugados. Sem Destino, A Recusa’ e Aniquilação (todos publicados pela Presença) constituem uma abordagem da vida dos campos de concentração nazi sem a ideia de piedade sentida pela vítima. Durante a guerra, ainda adolescente, o judeu Kertész passou por Auschwitz-Birkenau e Buchenwald; ter sobrevivido trouxe-lhe um sentimento de culpa que o acompanhou durante toda a vida, mas, mesmo sendo tão doloroso, não se transformou numa obsessão. Em Kaddish para uma Criança Que não Vai Nascer as feridas são mais visíveis: valerá a pena viver num mundo que permitiu Auschwitz e que aplaudiu a liquidação em massa dos judeus? Parte essencial da obra de Kertész responde a essa pergunta, mesmo quando o tema se desvia para o totalitarismo enquanto horror – como o comunismo, sob o qual viveu. Às vezes, a recordação é apenas um encontro com o abismo.

 

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