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Roger Scruton sobre o Brexit

por FJV, em 15.07.16

 

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Férias.

por FJV, em 15.07.16

Uma das coisas que mais me diverte, ao ler os jornais, são as “descobertas” que as várias ciências decretam para a nossa vida. Com tudo isso, ainda não sei se o café está interdito a pessoas com problemas cardíacos ou se o colesterol aumenta de cada vez que como um ovo. Mas é no domínio das “ciências do comportamento” que a especulação me diverte realmente. Por exemplo: em setembro, teremos artigos sobre o stresse pré-escolar, tal como em Maio tivemos manifestos sobre os malefícios dos exames. Uma das “descobertas” mais recentes tem a ver com o planeamento das férias das crianças. Durante décadas fomos industriados a fazer planos rigorosos para a “ocupação de tempos livres”, o que sempre me pareceu absurdo – porque o tempo livre não me parece que sirva para ser ocupado, mas para ser livre. A nova tendência, segundo percebi, é a de deixar que as crianças “se aborreçam” um pouco durante as férias a fim de usarem a sua criatividade e não estarem sempre sujeitas a programas que cansam toda a gente. Era o que se fazia quando as férias eram férias e os profissionais da pedagogia não tinham via livre.

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Jogar à bola.

por FJV, em 12.07.16

Uma vitória no futebol não é a vitória do futebol – tal como o futebol não é apenas futebol, jogo de bola. O que ensina o futebol? Liderança e concentração; estratégia e sacrifício; gosto pelo talento e inteligência tática; observação e reclusão. Não é por acaso que os grandes livros atuais sobre futebol são usados como instrumentos de “políticas de liderança” (de Alex Ferguson a Jorge Valdano, para não irmos mais longe – Valdano, aliás, é um grande autor, o mais imitado hoje em dia), mais do que “lições sobre o sucesso” ou resumos de vitórias. Há no futebol, além disso, um certo gosto pela tragédia; uma parte do jogo de anteontem foi retirada a uma peça de Eurípedes sobre a necessidade de heróis e acerca deles. Nem faltou uma espécie de borboleta na face de Ronaldo, como uma predição da Úrsula de ‘Cem Anos de Solidão’. Nem uma ressurreição (duas, contando com a de Eder) e um combatente tão estóico e discreto como Patrício (por vezes, um futebolista é também um dramaturgo em ação). De certa maneira, Portugal foi como Prometeu, roubando a bola aos deuses – para jogar no meio do nosso bairro.

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John Le Carré.

por FJV, em 08.07.16

Estreou ontem Um Traidor dos Nossos, um filme de Susanna White a partir do notável livro de John Le Carré, com Ewan McGregor a fingir de inocente e Damian Lewis (um shakespeareano que chegou à série Homeland), Stellan Skarsgård no papel de mafioso russo, e uma Naomie Harris que a beleza nunca atraiçoa. Convido-vos a ver o filme, mesmo que as críticas cinéfilas sejam “adversativas” (sinceramente, é uma boa razão). A história de ‘Um Traidor dos Nossos’ é demasiado atual para a deixarmos escapar – trata de como a máfia russa e o seu Estado minam a City londrina e a própria democracia. O livro é um pequeno prodígio e faz parte da sequência de “livros pessismistas” de Le Carré (de O Fiel Jardineiro a Amigos Até ao Fim ou Uma Verdade Incómoda) – é ele próprio um guião cinematográfico que dispensaria algum ‘kitsch’ que o filme transporta. São assim os seus livros, para nosso deleite: argumentos de uma intensidade bravíssima, com personagens perturbadoras, sem medo de interpretarem histórias amargas ou heróis destinados a serem ignorados. Leiam o livro, não percam a magia no original.

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Raymond Chandler, já adulto.

por FJV, em 06.07.16

Amanhã chega às livrarias a reedição de um dos títulos mais emblemáticos da coleção Vampiro – mas, valha a verdade, trata-se de um livro sem o qual uma biblioteca da literatura policial fica incompleta. O Imenso Adeus, de Raymond Chandler, é o mais adulto (e o penúltimo) dos romances de Philip Marlowe, o detetive para quem “os problemas são a sua profissão”. Sem Marlowe (e as suas representações no cinema – Bogart, Mitchum, Montgomery, Gould – e na literatura) não seríamos quem somos. Ele inventou a melancolia na literatura policial. Dez anos antes Maigret era melancólico, sim – mas não sabia. Graças a Chandler e a livros como À Beira do Abismo, A Dama do Lago ou Perdeu-se uma Mulher, o policial deixou de ser um gueto e foi finalmente admitido no anfiteatro da literatura; mas é O Imenso Adeus que completa a revolução com uma história sobre a amizade e a confiança (entre Marlowe e Lennox), o amor (as passagens sobre Linda Loring devem ser sublinhadas a ouro), os escritores, o álcool, a honra, a vida perdida sem regresso. Sem Marlowe não seríamos como somos, tão imperfeitos.

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O biquíni, 70 anos, uma velharia.

por FJV, em 05.07.16

O que eu sei sobre Mary Quant sabia nesta página de jornal, e havia de bastar: escreveria que popularizou e institucionalizou a minissaia, libertando pelo menos vinte centímetros das pernas das senhoras; depois, contaria várias histórias que ocuparam o cinema, a literatura e o jornalismo da época. Outra data: vinte anos antes da minissaia vestida por Twiggy, a mãe do suíço Louis Réard, um engenheiro de máquinas, deixou-lhe em herança uma fábrica de lingerie feminina. O que há de comum entre o desenho industrial e os brocados, a seda ou o algodão sensuais? Quase tudo, daí em diante; tanto que, há exatamente 70 anos, a 5 de julho de 1946, um ano depois do fim da II Guerra, Réard apresentou ao mundo um dos grandes símbolos do otimismo filosófico e existencial da época: o biquíni, fato de banho de duas peças. Na altura, tratava-se de um “biquíni gola alta”, evidentemente, mas só nos anos sessenta (quando Mary Quant já exorbitava), e depois do seu segundo casamento, a devassa Jayne Mansfield desceu a gola dois centímetros abaixo do umbigo. Daí em diante até à ‘burqha’, foi o que se sabe.

 

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100 anos de beleza.

por FJV, em 01.07.16

É provável que Olivia De Havilland não desse uma boa Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) em E Tudo o Vento Levou; mas é uma maravilhosa Melanie Hamilton; o timbre da sua voz é terno, digno, amável, destinado ao drama (ao de Lágrimas de Mãe, por exemplo). E a sua beleza brilha alto em A Caminho de Santa Fé ao lado de Errol Flynn (com quem estaria também em Capitão Blood, Robin dos Bosques, A Carga da Brigada Ligeira, Isabel de Inglaterra, entre outros), e em quase todos os filmes de Michael Curtiz e Raoul Walsh – ou interpretando o papel feminino principal de Sonho de uma Noite de Verão, Hermia (ao lado de Cagney, Mickey Rooney ou Dick Powell), como recompensa do seu grande conhecimento de Shakespeare. Contracenou com todos os grandes atores do seu tempo, antes e depois dos Óscares que a premiaram; será sempre o lado bom nos filmes mais negros (como John Huston o previu em This is Our Life, com Bette Davis). Hoje, Olivia De Havilland festeja os 100 anos. Inglesa, nasceu em Tóquio a 1 de julho de 1916. Um século de beleza que se assinala hoje.

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Os velhos, todos nós.

por FJV, em 30.06.16

O parlamento português – que criminalizou o abandono de animais (6 meses de cadeia) – impediu a aprovação de uma lei que puniria o abandono de idosos, com o original argumento de que a medida atinge os mais pobres (o que não é rigorosamente verdade). Todos os anos mais de dois mil velhos franceses são abandonados no verão para morrerem enquanto as suas famílias estão de férias na praia. Anteontem, alguns militantes do Podemos, a agremiação espanhola dos amigos de Pablo Iglésias, anunciavam no Twitter que a esperança da esquerda espanhola era morrerem “todos os velhos que ainda votam”, ou “quando morrerem todos os velhos então falaremos de mudança”. Ontem, o dr. Durão Barroso (uma pessoa que já há muito tempo não está a ir para nova) acusou os velhos ingleses (retrógrados e sem educação) de serem maus eleitores, contra a opinião da “franja mais jovem, urbana e moderna”. O problema é que se tivessem vingado as ideias de Durão Barroso quando ele era jovem e maoista, provavelmente nunca chegaríamos a velhos e acabaríamos fuzilados na Revolução Cultural. Estamos a viver tempos interessantes.

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Ler, o silêncio dos livros.

por FJV, em 28.06.16

A minha primeira surpresa, quando cheguei à universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, foi o horário das bibliotecas: algumas delas estavam abertas 24 horas – e era possível (e em certos casos necessário) reservar lugar para a noitada de trabalho. Recordei a frase de Einstein sobre o assunto: “A única coisa que é absolutamente necessário saber é a localização de uma biblioteca.” Depois da revolução feliz que foi a criação da rede de bibliotecas públicas – e que mudou verdadeiramente o país – tenho trabalhado com o grupo das bibliotecas escolares portuguesas, um sonho tornado possível com Teresa Calçada – e a experiência é enternecedora, mostrando gente cheia de entusiasmo que sabe que, hoje, as bibliotecas não são depósitos de livros, mas também lugares de encontro, de estudo, de perturbação ou até isolamento. De vez em quando vou a uma dessas bibliotecas públicas perto de casa, aberta aos fins de semana. Oiço o silêncio dos livros, que murmuram sem cessar. Risos no jardim. A felicidade de estar perto de gente que lê e se perde a despropósito, sem razões nem método.

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O «cansaço digital».

por FJV, em 28.06.16

Enquanto as vendas de música e cinema registam uma subida crescente em plataformas e meios digitais, a edição americana está a registar um declínio nas vendas de e-books; o último balanço dá conta de uma queda de quase 15% desde 2014, números do passado mês de abril. Os especialistas atribuem a desvalorização do livro eletrónico a duas razões; ambas me deixam relativamente contente. Primeiro, porque os aparelhos de leitura são – como se advertia desde o início – concorrentes da própria leitura, ou seja, oferecem serviços que distraem da leitura e são cada vez menos usados para o fim para que foram criados (59% dos inquiridos declaram que, simplesmente, regressaram aos livros em papel, e apenas 22% dos utilizadores de tablets os usam para ler, sendo que são eles os responsáveis por 66% das compras totais de e-books). Depois – diz o inquérito realizado pelo Codex Group – por puro “cansaço digital”, um efeito que lentamente parece estar a dominar as comunidades mais eufóricas em relação aos novos meios tecnológicos. Fartinhos de gadgets, da net e do digital, leio eu. As coisas assentam, como é seu dever.

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Machado de Assis, eterno.

por FJV, em 26.06.16

Este mês, Machado de Assis cumpriria 177 anos (foi mesmo no início do verão, há três dias). Não é uma “data redonda”, mas na próxima semana vai ser publicada mais uma edição de Dom Casmurro (na coleção de clássicos da Guerra e Paz), um dos seus romances mais importantes – e vem sempre a propósito. Machado é um dos grandes monumentos da nossa língua e um autor que o preconceito português afastou da leitura durante anos. Havia a “concorrência” com Eça, o despeito pelo facto de ser mulato e a ideia de que do Brasil só vinha literatura de extração inferior ou mais ligeirinha. Com o tempo, os leitores descobriram esses dois livros maravilhosos, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro – sinais da modernidade do romance. E, mais do que isso, obras-primas do humor e da suspeita, respetivamente. O primeiro, moderníssimo, é uma explosão de riso e de ironia, um dos arranques mais maravilhosos para um romance. O segundo ainda hoje deixa o Brasil às voltas com a pergunta sobre a sua personagem principal: “Capitu traiu ou não traiu o marido?” É um génio da nossa língua, Machado de Assis.

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Emigração, diáspora, a pequena pátria.

por FJV, em 23.06.16

Vai uma grande azáfama no “debate esquerda-direita” sobre as declarações de António Costa acerca da possibilidade de os professores de português ganharem a vida lá fora – tal como houve escândalo (somos bons nisso) quando Passos Coelho lembrou as oportunidades da livre circulação de pessoas na UE. Há quem, de voz tonitruante, invoque a pátria, a família, o torrão natal, a sardinha assada, o almoço de domingo e até o “direito ao futuro” (uma invenção de duvidosa legitimidade) para protestar contra estes “apelos à emigração”. Na verdade, fomos sempre um povo de emigrantes – se há alguém a quem se empreste com certa justiça a designação de “diáspora” é aos portugueses, que se têm espalhado pelo mundo com certo sucesso (e supõe-se com grande gozo) desde há cinco séculos. Contradizendo o folclore apatetado das televisões que acompanhavam ao aeroporto cada português que partia para Londres com a promessa de um emprego bem pago, a verdade é que não há alma que não anseie as promessas do que sempre fizemos ao longo da nossa história: partir, aprender, melhorar, misturar-nos, às vezes voltar. O resto é a pequena pátria.

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Billy Wilder.

por FJV, em 22.06.16

Austríaco, foi para a América depois de o nazismo tomar conta da Europa. Oito nomeações para o Óscar de melhor realizador, oito nomeações para o de melhor argumento. Arrecadou cinco. A história de Billy Wilder (1906-2002) é a do prazer que nos concedeu a ver os seus melhores filmes (os piores também eram bons). Double Indmnity (1944) no topo, naturalmente, com Barbara Stanwyck. E Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, de 1959), o luxo de ter Marilyn ao lado de Tony Curtis e Jack Lemonn. A lista ficaria incompleta sem Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, de 1950), maravilhoso, incandescente, com William Holden e Gloria Swanson, o dramático Foreign Affairs (de 1948, nas ruínas da guerra, com Marlene Dietricht), o curioso A Vida Íntima de Sherlock Holmes, ou o cómico O Apartamento, de 1960, com Lemonn e Shirley MacLaine. Uma das grandes imagens de Marilyn Monroe deve-se a Billy Wilder, o homem que fazia filmes sérios como se estivesse a brincar com o próprio cinema. Nunca esqueceu o essencial: “Se queres dizer a verdade, sê divertido ou dão cabo de ti.” Faria hoje 110 anos.

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Brexit.

por FJV, em 21.06.16

Ao contrário da quase totalidade da imprensa portuguesa (totalmente parcial), tenho certa simpatia pelo Brexit – se fosse inglês, claro. A ninguém, de juízo mediano, passa pela cabeça imaginar Portugal fora dos benefícios e do controle da UE; mas se fosse inglês teria dúvidas, todas elas legítimas. E também pelas piores razões, a começar pela chantagem despropositada de Juncker, Merkel, Obama e do FMI. E pelo cartaz publicado há duas semanas pelos partidários da permanência na UE, representando três dos líderes do Brexit como fumadores ou bebedores – um crime público na Europa higienizada. Todas as campanhas em que se usa a ameaça do apocalipse são redundantes amostras de hipocrisia e de banditismo político. Vejam-se os anteriores referendos cujo resultado foi desfavorável à UE: repetiram-se até produzirem o “resultado certo”. Os ingleses, que criaram a democracia parlamentar e a defenderam com o sangue, têm dúvidas acerca de uma Europa dirigida por líderes não eleitos e tão incapazes. Diante da famosa frase de Juncker (“Não há referendos democráticos contra a UE.”), sim, tenho simpatia pelo Brexit.

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O Sino da Islândia.

por FJV, em 18.06.16

Agora, que todos falam da Islândia, aproveito para relembrar a existência de um livro maravilhoso, ‘O Sino da Islândia’, de Halldór Laxness (1902-1998), de que há uma tradução portuguesa, pela mão afinadíssima de João Reis (edição Cavalo de Ferro, em 2012). Os acontecimentos descritos no romance datam do final do século XVII, quando a Islândia era propriedade da coroa dinamarquesa – que decide enviar à ilha um emissário (que é assasinado) para desmantelar e levar para Copenhaga o sino de Thingvelir, nome do vale – a sul de Reiquejavique – onde se teria formado o primeiro parlamento europeu (no ano 930). Ao mesmo tempo, Arnas Arnæus, um bibliotecário dinamarquês (mas de nacionalidade islandesa), procura na terra dos seus pais os fragmentos perdidos do Edda, o poema épico escrito há cinco séculos, uma das joias da literatura universal. Essa busca (e a investigação sobre a morte do emissário real) é um grande momento para qualquer leitor. O livro é um dos mais belos que li. Foi um dos motivos que me levou à Islândia, muitos anos atrás, e abriu a porta para conhecer um país raro e amável. Leiam-no, se puderem.

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Mary Shelley, Frankenstein.

por FJV, em 15.06.16

Os hóspedes de Lord Byron, na sua casa nas margens do lago de Genebra, formavam uma lista de respeito: além do seu médico – e autor, John William Polidori –, estavam o poeta Percy Shelley, a sua jovem companheira Mary Godwin, e ainda Claire Clairmont, antiga namorada de Byron e meia-irmã de Mary. Foi a eles que, numa noite do periclitante verão de 1816, Byron propôs que cada um escrevesse uma história de terror – um desafio divertido que resultou num conto de Polidori onde pela primeira vez na história da literatura aparece um vampiro, que mais tarde inspiraria o irlandês Bram Stoker para o seu Drácula. Só uns dias depois Mary consegue escrever o seu, que iria transformar-se em livro em 1818, e no qual descreve o nascimento de um ser monstruoso: Frankenstein. Mary Shelley, cuja vida daria para muitas biografias (Frankenstein teve mais popularidade do que a sua criadora), publicou-o sem o seu nome no frontispício. Essa noite gloriosa em que nasceu Frankenstein (e, um pouco antes, a inspiração para Drácula) foi há exatamente 200 anos – que passarão esta noite, entre as 2 e a 3. Fiquem acordados.

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Optimismo.

por FJV, em 14.06.16

Tenho dúvidas substanciais sobre o discurso do Presidente da República no 10 de junho – não acerca do “povo” (uma designação hoje irrisória, confundida ora com os “eleitores”, ora com o “público”, e sempre considerada nas sondagens), mas acerca da autocrítica do Presidente quando critica as “elites” de que faz parte, como um entusiasta ocupado a valorizar as nossas qualidades, a apelar ao “otimismo”, a deixar um sorriso em todos nós (como acontece e também era preciso) – e, no fundo, a tratar o “povo” como fonte de todas as virtudes (idêntica tese sobre a “genialidade do povo” tinha Franco Nogueira) e que resistiu ao conde Andeiro e a Miguel de Vasconcelos, os “traidores” que a História arrumou no campo dos maus (a nobreza e o clero), para facilitar as coisas. Um Presidente populista? Não. Um Presidente que quer ser popular – ligado “às pessoas”, capaz de suscitar entusiasmo e euforia, mesmo quando exorbita e nos declara os melhores do mundo, do pastel de nata ao golo de trivela. Temo que o Presidente corra o risco de, a breve prazo, cansar mesmo os otimistas mais profissionais. Mas eu sou pessimista.

 

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Uma história de outros tempos, 1.

por FJV, em 11.06.16

Há duas formas de fazer política e nunca se espera que a mais “honesta” possa vencer. Em poucas linhas, toda a gente fala da transformação de Costa em líder carismático & desenvolto do partido. Costa fê-lo sem dificuldade, transformando a “geringonça” numa necessidade e fazendo do que “as pessoas querem ouvir” um programa quase absoluto. De repente, muitos começam a recordar a frase de Sampaio sobre a possibilidade de existência de “vida para além do défice” e a de vários magos avulsos acerca da “ditadura da economia” sobre as nossas vidas. É certo que, depois da frase de Sampaio, vieram outros tempos – com o próprio Sampaio a chamar a atenção, nos primeiros meses do governo de Sócrates (e a pedido deste), para a necessidade de lidar com “o monstro”. O “monstro” era o défice; tanto o de Barroso como o de Sócrates – mas quem se lembra? Não foi por acaso que, nos seus discursos, a única vez que Costa utilizou a palavra “imoral” foi a propósito de eventuais sanções por causa do “monstro”. Diante disto, com um verão inteiro pela frente, quem quer saber de economia? 

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Turgéniev defendido pelo Kremlin

por FJV, em 08.06.16

A Rússia está indignada com Ivan Turgéniev (1818-1883). Foi ele o criador do termo ‘niilista’, emprestado a uma das suas personagens, Ievgueni Bazárov (no romance Pais e Filhos), um homem que detestava “ambos os lados da contenda” (ou seja, os “modernizadores da Rússia”, tanto como os representantes da “velha Rússia”). Esta perspetiva não foi apenas a de Bazárov, antes marcou obras tão decisivas como as de Soljienitsine (os ocidentais e os comunistas), Pasternak ou Bulgakov. Desta vez, uma editora inglesa, a Penguin, decidiu usar uma frase de Turgéniev para publicitar a sua coleção de clássicos: “Aristocracia, liberalismo, progresso, princípios... palavras sem utilidade. A Rússia não precisa delas.” O Kremlin não gostou e atacou a utilização fora de contexto de Turgéniev pelos ‘ocidentais’. Bom, a verdade é que Turgéniev acabou por abandonar a Rússia e ir viver para França, onde morreu – e também é verdade que a Rússia de 2016 nunca deixou de ser a de 1862. Aliás, qual o mal de pensar como Bazárov?

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Padre Carreira.

por FJV, em 08.06.16

Existem largas suspeitas sobre o comportamento condescendente do papa Pio XII e da igreja Católica durante a II Guerra, ignorando o Holocausto. Nesse ciclo de horror – do qual o governo de Salazar foi também cúmplice –, os nomes portugueses de Sousa Mendes, Brito Mendes e Sampaio Garrido serão lembrados por terem contribuído para o auxílio aos judeus perseguidos. Mas há um nome desconhecido, o do padre Joaquim Carreira (1908-1981), reitor do Colégio Português de Roma durante a II Guerra, e que nessa qualidade concedeu proteção a centenas de perseguidos pelo nazismo e pelo fascismo. É essa a matéria do livro de António Marujo, A Lista do Padre Carreira (publicado pela Vogais), uma reconstituição da generosidade de monsenhor Carreira (falta algum material biográfico sobre os anos de depois da guerra, e sobre o fim do seu reitorado no Colégio – ninguém acredita que, nos anos 50, Carreira se tivesse retirado do Colégio Português para um exílio recatado, sem ter entrado em conflito com a igreja portuguesa). Mas a descoberta desta figura (que o museu Yad Vashem, em Jerusalém, inclui no número dos justos) é um trabalho notável de jornalismo: com um grande conhecimento de matéria teológica, Marujo recolhe documentos e testemunhos, ordena a história desses anos e escreve um livro apaixonante.

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Lagerback compreendeu o génio do teatro português.

por FJV, em 05.06.16

 

Informação gratuita: Lars Lagerbäck estudou ciência política e economia na universidade de Umeå, pacata cidade no golfo de Bótnia (entre a Finlândia e a Suécia), terra de várias estrelas do futebol feminino. Lagerbäck deixou a ciência política e é hoje treinador da Islândia. É dele uma das frases da semana, ao nomear Pepe e Ronaldo como especialistas em teatro. Para quem viu a final da Champions, Pepe merecia um Óscar para a pior cena de falso agredido, e Ronaldo uma menção para o melhor falso rasteirado. Ele tem razão, mas Pepe e Ronaldo são nossos, há que defendê-los; não é um tipo do golfo de Bótnia que vem dar-nos lições. No fundo, Umeå é apenas o berço da maior parte das bandas de rock sueco, uma irrelevância ao pé da nossa queda para o teatro. Queda, mesmo.

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«Motivos ideológicos.»

por FJV, em 04.06.16

Passos Coelho acha que as opções do governo na educação são tomadas por motivos ‘ideológicos’. A declaração não é inócua; durante quatro anos, a esquerda acusou o seu governo de tomar decisões por motivos ‘ideológicos’’ e, infelizmente, nenhuma luminária governamental apareceu a dizer, preto no branco, que isso era verdade em boa parte – como se as decisões fossem meramente ‘técnicas’ e, em vez de um ministro, pudesse estar outra coisa qualquer, desde que sem ‘ideologia’. Passos caiu no mesmo erro. É evidente que a esquerda toma as decisões por motivos ‘ideológicos’, tal como algumas decisões do governo anterior tiveram ‘motivos ideológicos’. Por exemplo: a ideia de uma escola única, transformada em instrumento ao serviço do Estado, do seu aparelho e dos dogmas reinantes, impedindo o nascimento de escolas alternativas, é uma questão ideológica, naturalmente.

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Marilyn.

por FJV, em 01.06.16

Como seria ela hoje? Os seus olhos. O seu riso. O busto, claro. As suas curvas. A leviandade maravilhosa. O fragmento de seda. Poderíamos continuar, eu poderia continuar, a enumerar qualidades e delírios sugeridos por Marilyn Monroe, que hoje festejaria 90 anos (morreu em 1962). «Tive um arrepio», disse Billy Wilder sobre o momento em que a conheceu: «Ela tinha qualquer coisa que eu não via desde o cinema mudo.» Todos nós – homens, mulheres – suspeitamos do que se trata: um choque, um espanto, uma surpresa diante de tudo aquilo. Não, não vale a pena desvalorizar a sua beleza, nem a sua falsa e comedida inocência, nem as várias tragédias que interpretou na sua vida privada, em tão forte contraste com a frivolidade dos papéis no cinema. Marilyn há de ser sempre uma das figuras centrais da nossa mitologia, a memória fotográfica de um século em desaparecimento constante. Há pouco revi Clash by Night, de Fritz Lang: já me tinha esquecido de como aquela inocência fora, mesmo, inocência. E antecâmara da tragédia. 90 anos, imaginem. Escusam de fingir que vos é indiferente.

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Raduan Nassar

por FJV, em 01.06.16

Densidade, clausura, minúcia, celebração, libertação – lembro-me disto a propósito de Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar, e da impressão que o livro me deixou na altura, contando a história de um homem que recusa o fechamento da vida rural. Um Copo de Cólera (também na Relógio d’Água), que Nassar publica dois anos depois, em 1978 (aos 43 anos), mostra a outra face da sua escrita, a busca de uma modernidade ousada e libertária, numa história de desamor conturbada – e que continua nos cinco contos de Menina a Caminho (Cotovia), o terceiro e derradeiro livro, de 1994. Há outros sinais que me comovem: a herança da contemplação e de uma certa “melancolia libanesa” (é filho de emigrantes libaneses), as leituras do Corão e da Bíblia, o desprendimento da língua que procura uma espécie de pureza e de simplicidade, de contenção, de procura do essencial. E não, não concordo com a ideia de que os seus livros são de “intervenção política”, como ontem se disse e estranhamente o Ministério da Cultura repetiu. Tudo é, tudo pode ser essa intervenção, mas não é isso que marca a grande beleza dos seus livros: é a beleza, propriamente dita.

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A desilusão da esquerda na Venezuela, 2.

por FJV, em 28.05.16

A mesma esquerda que fica transida de indignação com o processo de impedimento da presidente brasileira (ignorando que, nos últimos 30 anos, o PT de Lula patrocinou 40 pedidos de impeachment por razões bem mais ridículas do que as que levaram ao afastamento de Dilma), marcha para apoiar Nicolas Maduro e o regime venezuelano – o mesmo que destruiu um país produtor de petróleo, multiplicando os pobres, destruindo o sistema de ensino, malbaratando dinheiros públicos, prendendo opositores sem acusação nem razão, esvaziando supermercados, fechando jornais e televisões, exportando a ‘revolução bolivariana’ (pagando o Podemos espanhol, por exemplo), adiantando e atrasando os relógios meia hora, anunciando que Hugo Chávez se transformou em “passarito” – a lista é infindável (chegando ao cúmulo de a Venezuela não ter dinheiro para imprimir papel moeda...). Agora, Nicolás Maduro decretou o ‘estado de emergência económica’ e mandou prender os industriais que não produzam o suficiente (mesmo com a falta recorrente de matérias-primas) e parem as suas fábricas. Em breve quererá liquidar os que não usem bigode. Haverá sempre patetas a apoiá-lo.

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A desilusão da esquerda na Venezuela.

por FJV, em 27.05.16

Podem googlar à vontade que hão de aparecer-vos as vastas e definitivas opiniões de Paul Krugman e Joseph Stiglitz – os preferidos das pessoas que gostam de citar Prémios Nobel da Economia – a aplaudir a Venezuela pelas suas políticas. Sobre o Bloco de Esquerda, o Podemos espanhol e o Syriza, nem vale a pena pesquisar. Aconselhado por luminárias europeias e por magos da altermundialização (sociólogos brasileiros que afundaram o país, universitários pagos a peso – e Boaventura de Sousa Santos), Hugo Chávez conseguiu destruir o país enquanto exportava a “revolução bolivariana” e o “socialismo do século XXI” para outros países da América e fechava jornais e televisões (Mário Soares achava bem, pois tratava-se de gente “impertinente”). Totalmente destruído? Não. O que sobrou está a ser varrido por Nicolás Maduro, um desequilibrado que ameaça encerrar o parlamento e dizimar quem se lhe oponha antes de deixar a Venezuela a ferro e fogo. No meio deste espectáculo cheio de penúria, ilegalidade e repressão, falta aparecer Noam Chomsky a celebrar uma digna cerimónia em nome do fantasma de Chávez.

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Versões para jovens adultos.

por FJV, em 26.05.16

Dan Brown vai publicar uma versão do Código Da Vinci para adolescentes (em Inglaterra young adults); sinceramente, não compreendo a razão. Fazer uma versão do Quixote ou de Os Lusíadas, entende-se, mas o Código Da Vinci já é uma leitura adolescente, sem densidade gramatical e com uma complexidade muito inferior à Guerra dos Tronos, que qualquer adolescente acha um figo. Mas as livrarias inglesas esperam – para este Natal – uma edição das Aventuras de Os Cinco para crescido’. A ideia é fazer uma paródia simpática às personagens criadas por Enid Blyton; mas, apesar da brincadeira, há quem vá levá-los a sério, como as pessoas que se ofendem com matérias de politicamente correto. Entre os novos títulos (nada de Os Cinco e o Circo, ou Na Ilha Encantada) contam-se Os Cinco Largam a Copofonia, Os Cinco Atiram-se ao Farnel sem Glúten ou Os Cinco Aprendem a Parentalidade. Evidentemente que se trata de gozo puro, mas há alguma curiosidade sobre a identidade de género da Zé e o estatuto legal de Tim como animal de companhia.

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Espiões.

por FJV, em 23.05.16

Perdi a conta aos livros de espionagem que passaram pela minha mesa de cabeceira. Passam-se em vários cenários. Antes e depois da queda do Muro de Berlim. Antes e depois da morte de Mao. Antes e depois da II Guerra. nos EUA, em Inglaterra ou na antiga URSS (sim, eu gostava de Julian Samyonov, o autor de A Tass Está Autorizada a Anunciar e de Dezassete Instantes de uma Primavera). Antes e depois da emergência do fundamentalismo islâmico. Na Islândia ou na Austrália, em Marrocos ou em Lisboa. Escritos por Graham Greene ou por John Le Carré. Com bons e maus, homens e mulheres, heróis e fantasmas. Sobre os espiões portugueses pouco se escreveu – não que eles não existam, apesar dos sucessivos esforços em “queimá-los”, como está a acontecer atualmente – de novo. A notícia de ontem, no entanto, animou-me: um espião português foi preso quando se encontrou, em Roma, como um agente do SVR, o antigo KGB. De repente, o mundo (que sempre foi perigoso) voltou a ter uma ordem e um sentido. E Portugal, o país dos espiões traídos, voltou a ter alguma importância. Não é por acaso que a maior parte da nossa espionagem, até ao século XIX, se produziu na Rússia e em Roma.

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Por uma frase se trai.

por FJV, em 12.05.16

No «debate» sobre educação, como sobre saúde, ou até sobre economia, há cada vez mais gente a revelar-se inimiga da «liberdade de escolha». Todos são, subitamente, amigos do Estado — pugnando (a palavra está certa) por «mais Estado» em todos os domínios, um Estado que seja dono de tudo, que dirija o ensino e a economia, os transportes públicos e as artes, o trânsito e a meteorologia, os contratos de trabalho e os «tempos livres dos cidadãos» (além de espreitar para os orgãos de comunicação, com a proposta de subsídios à imprensa, tão recentemente sugerida). Os neo-iliberais são mais perigosos do que se pensa — andam à solta e têm boas intenções.

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Longe de Manaus: na Sérvia.

por FJV, em 12.05.16

861890574.0.l.jpg Nas melhores livrarias de Belgrado.

 

Gosto muito da capa, que eu nunca arriscaria em Portugal. Mas arrisco outra coisa, que é agradecer esta edição sérvia a duas pessoas que me são muito caras: ao Paulo Ferreira, meu agente (da Bookoffice), que tem feito muito pelos meus livros e a quem devo muito, bastante, e é um tipo generoso como há poucos; e à Magda Barbeita, professora de português na Sérvia. A Magda é uma mulher extraordinária e uma leitora raríssima. Fez, há dois anos, uma tese sobre «as investigações do inspector Jaime Ramos», que eu nunca lhe agradeci o suficiente. Abraços para os dois.

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