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Jean-Pierre Melville.

por FJV, em 20.10.17

Ninguém se recorda hoje de Jean-Pierre Melville, não só por ser francês, mas também porque a sua obra nunca foi verdadeiramente popular, tirando talvez o caso de Cai a Noite Sobre a Cidade (de 1969), uma tradução livre para Un Flic (Um Chui), com Alan Delon e Catherine Deneuve. É uma história de maus e bons que amam a mesma mulher (o ‘mau’ é Richard Crenna, que mais tarde apareceria em Rambo ou em Noites Escaldantes, de Lawrence Kasdan). O mundo dos ‘maus’ aparece frequentemente em Melville, como em Ofício de Matar (Samurai, 1970), também com Delon, que é o primeiro rosto de O Círculo Vermelho, com Gian Maria Volonté e Yves Montand. Melville (o apelido verdadeiro é Grumbach, mas quis homenagear o autor de Moby Dick) é uma das estrelas do film noir, o policial francês. A sua dimensão literária é permanente (em 1949 realiza Le Silence de la mer, adaptando o romance de Vercors); melancólico, nostálgico, depressivo, o seu olhar capta a solidão de heróis perdidos e funestos. Passam hoje 100 anos sobre o seu nascimento e, tal como a própria melancolia, é um nome fora de moda.

[Da coluna do CM] 

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Uma história de fantasmas.

por FJV, em 20.10.17

Tristão da Cunha, primeiro vice-rei da Índia (e primo do seu sucessor, Afonso de Albuquerque), nunca pôs o pé na ilha de Tristão da Cunha, que descobriu em 1506, e que é hoje domínio inglês (aliás, cegou e não chegou a ocupar o cargo na Índia, acabando por ser ele o organizador da embaixada de D. Manuel ao papa Leão X). A mesma coisa aconteceu com Gonçalo Álvares, navegador de Vasco da Gama, que nunca pernoitou na ilha de Gonçalo Álvares, a 400 quilómetros. Nenhuma destas ilhas (6 no total), parte do arquipélago de Tristão da Cunha, tem aeroporto; é preciso apanhar um navio na África do Sul, mas sem carreira regular. A 2400 quilómetros fica Santa Helena (4 mil habitantes), a capital do território britânico de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha. Quem descobriu Santa Helena, onde Napoleão morreu no exílio? Um navegador ao serviço de Portugal, João da Nova, que também descobriu Ascensão (1501). O primeiro ocupante da ilha foi o soldado português Fernão Lopes, que aí viveu em completa solidão por 30 anos depois de ter sido desfigurado às ordens de Albuquerque por, em Goa, se ter passado para o inimigo e se ter convertido ao Islão. Resumo da história: no sábado passado foi inaugurado o aeroporto de Santa Helena. Digam lá se não dava um filme.

 [Da coluna do CM] 

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Stop the press! O PCP fez uma descoberta!

por FJV, em 18.10.17

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Segundo o Expresso: «Moção de censura é uma “manobra” com “objetivos partidários”, diz PCP.»

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Caras de pau.

por FJV, em 18.10.17

O Bloco de Esquerda, essa grande picareta que há anos pedia demissões aos gritos, dia sim, dia não, vem com ar compungido,  dizer que a demissão da MAI não resolve nada. Se a hipocrisia contasse, o BE tinha maioria absoluta entre os caras de pau.

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Ah, a dificuldade de governar.

por FJV, em 17.10.17

É um estado de guerra e de dor no país. 38 mortos. No domingo atravessei-o, entre colunas de fumo e de fogo; quem ouvisse as autoridades – pelo rádio do carro – dir-se-ia ser inevitável: trágico, terrível, não há nada a fazer, “vai ser pior”. Temi que tivessem endoidecido quando um tipo sensato como Jorge Gomes entrega as armas do Estado e diz que temos de nos autoproteger e não esperar ajuda dos bombeiros ou dos aviões. Ou seja, as mesmas autoridades que decidem que temos de comer mais arroz carolino do que quinoa falham depois na tarefa essencial de proteger aldeias, bens e pessoas – e uma ministra em estado de negação lembra que por ela até se demitia para ter as férias que lhe devemos. Ah, a dificuldade de governar. Ah, a ingratidão pela “maior reforma nas florestas desde D. Dinis”. Ah, a reforma da proteção civil. Desejam-se inquéritos para salvar a pele dos camaradas – mas não para esclarecer os governados e honrar os mortos e sobreviventes. E era difícil prever isto? Não. A meteorologia tinha-o escrito. A arrogância e o desprezo que têm pelo país está a fazer o resto. 

 [Da coluna do CM] 

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Conferência de imprensa.

por FJV, em 16.10.17

O primeiro-ministro compareceu hoje na conferência de imprensa sobre os incêndios para dizer que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. A cada pergunta colocada, o primeiro-ministro respondia que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. Quando alguém lhe perguntou se iria manter a ministra da Administração Interna, o primeiro-ministro respondeu que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. A propósito das falhas registadas durante este fim de semana, o primeiro-ministro lembrou que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. No caso das competições europeias de futebol desta semana, o primeiro-ministro lembrou que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil. Quando uma jornalista lhe perguntou se gostava mais de arroz carolino ou de quinoa, o primeiro-ministro recordou que o governo vai realizar um conselho de ministros extraordinário a fim de analisar o relatório que lhe foi entregue e avançar para a reforma das florestas e da protecção civil.

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Caligrafia.

por FJV, em 13.10.17

Houve um tempo em que a Finlândia era o modelo. Se na pátria de Sibelius as turmas de liceu tinham 17 alunos, nós expulsávamos o 18.º. Se na Finlândia tinham deixado de estudar sentados, em Portugal eliminavam as cadeiras. Se lá escreviam tudo em tablets, nós queimaríamos os cadernos. Lembro-me de um primeiro-ministro, orgulhoso de as crianças da primária passarem – como na Finlândia – a desenhar formas geométricas nas aulas, não com giz num quadro, mas com a ajuda de um computador. Ainda houve quem dissesse que desenhar um hexâmetro à mão era pedagogicamente mais indicado – mas para quê? Havia a Finlândia, onde, aliás, deixaria de se escrever à mão. Ora, a Finlândia é um país belíssimo, mas tem muitas coisas idiotas. O CM de anteontem comoveu-me com a imagem de Prakriti Malla, uma nepalesa de 14 anos que tem a mais bela caligrafia do mundo; a sua letra é maravilhosa, perfeita, pode ser lida por todos. Sou um fanático de “escrever à mão”: a letra manuscrita completa-nos, ajuda-nos a pensar melhor, a compreender melhor e cuidar da nossa língua. Vão lá à net ver a caligrafia de Malla.

[Da coluna do CM] 

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Milhões.

por FJV, em 12.10.17

A “Operação Marquês” vai arrastar-se pelos tribunais nos próximos dois anos – será pasto de “manobras judiciais”, discussões sobre provas, suspeitas e desmentidos, argumentos e barulheira. Mas é sobretudo um retrato do país e das oligarquias que se instalaram em redor do Estado e lançaram as suas redes por todo o lado – porque, também elas, têm horror ao vazio. É uma misturada: capital financeiro, negócios favorecidos pelo Estado e pelas grandes corporações, capacidade de influenciar e de destruir, de roubar e de tirar partido mas, sobretudo, de usar o poder em nome das suas famílias. No fundo, dois séculos de história. Pega-se num fio, e vamos dar aos arrivistas que chegam à política vindos da província e que querem enriquecer “como os outros”, que já são ricos e têm pé de meia. Pega-se noutro, e chegamos à perigosa endogamia da banca e dos negócios – gente que sabe pagar os seus serviços. Pega-se num outro e deparamos com serviçais que aprenderam a fazer empresas de papelão. Milhões. É um processo de milhões que se colam ao nome de gente poderosa para quem o país é um obstáculo. 

 [Da coluna do CM] 

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Mérito ou não.

por FJV, em 12.10.17

O Prémio Maria Isabel Barreno é atribuído a “mulheres criadoras de cultura” e não cabe aqui discutir o mérito de cada uma das premiadas (nas edições de 2013 e de 2016 – a lista foi anunciada ontem), segundo a avaliação da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e de um departamento do Ministério da Cultura. Pelo contrário: há quase unanimidade na apreciação desses nomes – e escolher Paula Rego ou Joana Carneiro, Elisabete Matos ou Bárbara Bulhosa, Joana Villaverde ou Cristina Paiva apenas entre 52% da população (ou mulheres portuguesas da “cultura portuguesa”) acaba por, injusta e involuntariamente, reduzir-lhes o mérito: elas distinguem-se entre os 100% de portugueses, homens e mulheres. Portanto, premiar mulheres distintas por serem mulheres não é valorizar o seu lugar. Na literatura como no cinema, na edição, nas artes plásticas, no jornalismo, na invenção da vida de todos os dias, as mulheres têm um papel cada vez mais importante, decisivo – e também maioritário. Lutar pela igualdade de género “nas artes” é ridículo. As mulheres estão lá por mérito e na primeira linha.

 [Da coluna do CM] 

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Gramática.

por FJV, em 10.10.17

São cada vez mais populares na Austrália, segundo o The Guardian (por isso não desconfiem já de mim), as aulas e cursos livres de gramática. Leram bem. Gramática. É uma ocupação de classe média e grupos tão diversos como advogados, editores, professores ou médicos e responsáveis da administração pública recorrem a esses cursos. E porquê este interesse por orações subordinadas, complementos diretos, verbos irregulares ou apenas pura ortografia e filologia? Porque, escreve Kate Jinx, escritora e realizadora, a gramática foi desvalorizada e eliminada dos currículos escolares a partir dos anos 70 – e surge, desvairada, a “síndrome do impostor”, ou seja, a sensação de que, independentemente do grau de sucesso da sua carreira profissional, há uma clara falta de bases lá atrás, e por culpa do sistema de ensino. Escrever corretamente, escrever em bom Português, apreciar as lições dos mestres, também deixou de ser uma preocupação geral; basta a “competência comunicativa”, uma coisa que permite que um cachorro estenda a pata à dona ou que saibamos onde é a casa de banho num hospital.

 [Da coluna do CM] 

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Um trapo fascista.

por FJV, em 10.10.17

Há uns tempos apareceu na baixa lisboeta um grafito que anunciava o seguinte: “Camões, o totó do imperialism [sic] colonial esclavagista.” A acompanhar a frase, uma suástica. Agora, vieram os protestos (organizados por uma associação intitulada Descolonizando) contra a colocação de uma estátua do padre António Vieira no Largo Trindade Coelho, também em Lisboa – por parte, diz a ficha, de “investigadores, professores, artistas e activistas de diversas nacionalidades”. Trata-se da tendência, importada – e sem tradução – dos EUA e de Inglaterra sobretudo, e que visa limpar o passado dos sinais do passado, sobretudo dos seus autores. É claro que, tanto no caso de Camões como no de Vieira (considerado estupidamente um “esclavagista  seletivo”) – como no de Diogo do Couto ou Fernão Mendes Pinto, para abreviar, mas a lista pode estender-se – não interessa aos justiceiros estudá-los ou situá-los no seu tempo, mas arrematar uma bandeira e colar-lhes o labéu de criminosos. Eça era um machista, Camilo um miguelista e, se não me engano, a Língua Portuguesa um trapo fascista. Vamos para bingo.

 [Da coluna do CM] 

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O PCP.

por FJV, em 09.10.17

Procedem-se atualmente a grandes reflexões acerca da derrota do PCP nas eleições autárquicas (sendo a do PSD muito mais fácil de explicar) – personagens graves, hirsutas, compenetradas, invocam as sibilas para tentarem perceber o que levaria tantos cidadãos e munícipes a negarem o seu voto ao PCP. O secretário-geral do partido recusa esse debate; não lhe interessa – mas, em vez de uma grande intervenção à maneira de Bertold Brecht (“dissolver o povo e eleger outro”) deixa o aviso: os apóstatas vão arrepender-se em breve, porque lhes vai faltar o braço do Partido e a áspera sapiência dos seus autarcas. As explicações são muito em surdina e assentam em vários ordenamentos sociológicos e ideológicos, como por exemplo a traição pesada que representa a aliança comunista com os socialistas, uma espécie de subserviência que os velhos militantes leninistas vituperam. Argumento sólido, sem dúvida. Mas, no meio disto, ninguém põe sequer a hipótese de os eleitores terem finalmente considerado que, cem anos depois da revolução soviética  do seu destino, já não querem votar no PCP.

[Da coluna do CM] 

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Clássicos do dia eleitoral.

por FJV, em 01.10.17

Portanto, em dia de futebol, a abstenção desceu.

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Sonho autárquico.

por FJV, em 30.09.17

Há muitos anos que alimento um sonho a propósito das eleições autárquicas: que as pessoas votem num candidato que se recuse a fazer promessas. Ou, então, em quem prometa não fazer grande coisa; nada de betão, “acessibilidades” desnecessárias, rotundas, requalificações, auditórios, alterações de arruamentos e do sentido do trânsito, centros interpretativos e parques de incubadoras empresariais construídos de raiz. Eu votaria em quem prometesse recolher o lixo, manter as rua, as escolas e as paredes dos bairros em boas condições, bem como os arvoredos, os jardins, as paragens de autocarros e o apoio social aos velhos – e se recusasse a fazer obras de vulto e a produzir lixo. Ao fim de um ano, a autarquia confirmaria, orgulhosa, que não tinha “feito nada”; que a água da rede pública era excelente, que a escola de música estava num edifício recuperado e que a biblioteca funciona num casarão antes abandonado; que os velhos (sim, os idosos) do concelho passaram a ter transportes todo o dia e apoio médico domiciliário. O resto são tretas de mau gosto que só nos têm custado dinheiro.

 [Da coluna do CM] 

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A indiferença.

por FJV, em 28.09.17

Em 1999, Alain Finkielkraut publicou um belo livro, L’Ingratitude (A Ingratidão); nele lamentava que, por vários motivos, o homem contemporâneo já não se considerava um “herdeiro” mas um ser superior que considerava o passado um lugar de exclusão, de crimes, de preconceitos e de inutilidades. De certa maneira, tratava-se do caminho da indiferença, que anda de braço dado com a ingratidão. A indiferença é o nosso mal-estar de hoje. Ela faz equivaler quase tudo: na vida política, mentira e verdade; na vida académica, o conhecimento e a fraude; na relação com os outros, o bem e o mal. Na vida portuguesa (as eleições são um exemplo), a indiferença tomou conta do eleitorado, ao ponto de ninguém desatar a rir de promessas mirabolantes e impossíveis, de candidatos estapafúrdios, ou da subtil deslocação do assunto das próprias eleições, que são autárquicas e dizem respeito ao chamado poder local. Daqui a alguns anos pagaremos – e bem – o preço dessa indiferença e do excessivo gosto pela superficialidade. O espírito do tempo tomou conta de nós todos, ignorando as lições do passado. 

  [Da coluna do CM] 

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Alemanha.

por FJV, em 26.09.17

Cem anos depois não podemos reagir às eleições alemãs como Kafka (a frase é de 1914) o fez nos seus diários, naquela doce indiferença que hoje nos faz rir: “A Alemanha declarou guerra à Rússia; à tarde, piscina.” A chegada súbita da AfD (Alternativa para a Alemanha) ao parlamento já era esperada – ou seríamos marcianos – mas enfrentar as suas consequências eé diferente. Acontece que o funcionamento do xadrez mental (e não apenas político) da Europa mudou amargamente, o que contraria aquela espécie de contentamento oficial que reina a partir de Bruxelas. Onde há uns anos se esperava que os europeus votassem em função do grau de prosperidade visível, das políticas fiscais, da baixa taxa de desemprego, assistimos hoje ao renascer de “questões identitárias” e da “raiva silenciosa” que mobilizaram o eleitorado alemão em torno da AfD revisionista e xenófoba e de outros partidos no limite do sistema. Merkel, como de costume, tem razão: é necessário ouvir esse rumor para melhor o diluir (porque o Mal nunca desaparece). Frauke Petry, a líder arrependida da AfD, vai ter outros seguidores.

 [Da coluna do CM] 

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Com um beijinho da CNE.

por FJV, em 25.09.17

Calhou este fim de semana ter tropeçado numa “arruada” eleitoral. Sentado numa esplanada, escondido entre a folhagem, contei ao todo 12 participantes entusiastas que fingiam estar possuídos por um espírito brincalhão e alcoolizado, saltando, pulando, avançando ou às arrecuas, expelindo o que me pareceram palavras de ordem. Atrás, ao lado, à frente e misturando-se com os 12 arruadeiros, entre os quais figurava uma alma discreta fazendo de candidato, seguiam exatos 14 jornalistas, gravando uma frase solta, captando uma imagem disparatada, o costume. Três minutos e meio durou a festança, após o que todos desmobilizaram. À noite, enquanto procurava um canal que me informasse sobre dado jogo de futebol (ai, se a CNE sabe...), tropecei de novo na mesmíssima arruada, mas já montada para televisão: uma multidão, um tropel, um sufoco de gente, uma jornalista já sem fôlego, nenhum espaço vazio – parecia uma praça cheia de gente a festejar o São João, engolindo a alma candidata. Tamanho esforço das televisões merece, certamente, o aplauso dos cinéfilos e – sem ofensa – um beijinho da CNE.

[Da coluna do CM]

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Diogo Pires Aurélio.

por FJV, em 24.09.17

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No dia 28, às 18, na Universidade Nova (FCSH) — a última aula de Diogo Pires Aurélio, «Imagens sem modelo. Figurações do povo na democracia representativa». E uma homenagem ao leitor de Maquiavel e Espinosa; e ao poeta na senda de Hölderlin.

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De Rosh Hashanah a Yom Kippur — com Patti Smith.

por FJV, em 24.09.17

And how did our rebbe close out the evening? By reading from the last page of her aptly titled Devotion:

“What is the dream? To write something fine, that would be better than I am, and that would justify my trials and indiscretions. To offer proof, through a scramble of words, that God exists.”

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Somos uma sociedade aberta – e incómoda.

por FJV, em 23.09.17

Passei parte inútil dos meus dois últimos dias em repartições públicas onde alguns dos meus semelhantes passaram também parte inútil dos seus dois últimos dias. Levei dois livros, dos quais li um (mau) e meio (bom) – e um telefone que usei para enviar sms e jogar ‘Pudding Pop’. Pelo meio ouvi talvez uma centena de conversas mantidas por pessoas que não receiam ser escutadas ao telemóvel. Questões familiares (desavenças, na maior parte); negócios (alguns fraudulentos) a fazer; apartamentos a vender ou a arrendar; arranjos de natureza íntima ou, vá lá, mesmo sexual, com dois adultérios às claras (as senhoras estão ousadas, felizmente); as aulas dos miúdos; receitas testadas ou a testar (tomei nota de um truque para fazer molho de tomate); uma jura de amor (pareceu-me falsa); uma senhora zangada que falava russo; várias tragédias familiares muito penosas; uma jovem que, tipo, se queixava de, tipo, uns pais, tipo, chatos – uma alegre convivência telefónica em alto e bom som. Somos uma sociedade aberta – e incómoda, muito incómoda. E que fala alto. Não se lhe pode baixar o som?

[Da coluna do CM]

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O pénis de Romelu Lukaku.

por FJV, em 22.09.17

Qual o verdadeiro tamanho do pénis de Romelu Lukaku, o futebolista belga contratado pelo Manchester United por 100 milhões de euros? Segundo um grupo de adeptos das bancadas de Old Trafford (quase todos branquelos, se me permitem o abuso), rondaria os 61 centímetros (ou seja, 24 polegadas, medida inglesa). Pelo menos é isso que garantem num cântico que celebra os sete golos que Lukaku marcou em sete jogos (se tirarmos o que marcou na seleção belga): “Ele tem um pénis de 61 centímetros [He’s got a 24inch penis]”, ouve-se a certa altura. Num verso, mesmo mau, é preciso ter em conta a métrica. No entanto, o grupo de luta anti-discriminação racial Kick It Out considera que o cântico dos fãs é ofensivo e discriminatório para Lukaku, uma vez que assenta no estereotipo racista de que os negros têm um pénis maior – e, além de preparar denúncias à polícia contra quem entoar o “cântico discriminatório”, pretende que o assunto seja discutido numa reunião do grupo com a federação de futebol e o Manchester United, a fim de interditar o verso racista e, quem sabe, aparar um pouco do próprio Lukaku. 

[Da coluna do CM]

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Um género de coisa.

por FJV, em 20.09.17

Ontem, o Parlamento discutiu leis sobre “identidade sexual”, o que prometia ser um não-debate sobre natureza e cultura – e sobre engenharia social. A ideia base é a de que “o género” é uma orientação que deriva da cultura e não da biologia (feministas como Camille Paglia e Germaine Greer contestam-na violentamente); trata-se de um “sentimento” de pertença, que até pode (como “sentimento”, portanto) mudar mais tarde e, creio eu, reverter depois, de acordo com a “sensação” dominante. Independentemente de qualquer apreciação médica (e da opinião dos “encarregados de educação”, que hão de ser processados pela rapaziada), mas com bênção política, os maiores de 16 anos – que não podem comprar cigarros nem álcool – podem, assim, escolher o seu “género” e, um dia (admirável mundo novo, como prometia Huxley), mesmo o seu não-sexo. Já em Espanha, o Podemos apresentou também ontem uma proposta para que se possa escolher o tal “género” aos 12 anos. A frase é de Martin Amis e diz o essencial: “Pessoas que querem mudar a natureza humana – é isso o totalitarismo.” A pouco e pouco chegamos lá.

[Da coluna do CM]

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Ben Lerner, o ódio à poesia.

por FJV, em 18.09.17

Pode-se odiar a poesia? Pode. Ben Lerner, um dos mais jovens poetas americanos (nasceu em 1979, no Kansas) escreveu um livro com esse título, Ódio à Poesia (Elsinore, magnífica tradução de Daniel Jonas); uma das ideias que sobrevoa o livro é a de que o “ataque à poesia” chega, grande parte das vezes, dos próprios poetas e dos críticos de poesia, como “uma lógica amarga” – a que muitos “críticos culturais” (uma amálgama heteróclita e palavrosa) emprestam o seu “contentamento macabro”. Ben Lerner inventaria algumas das “mais recentes e notáveis choradeiras”, geralmente embrulhadas na exigência de uma “poesia para os outros”, destinada “a ser comunicada” e “percebida”. Esse desejo de comunicação aniquila a poesia em si mesma, transformando-a em letrismo (por exemplo, na voga da slam poetry, uma das várias fraudes muito populares hoje em dia); Lerner advoga uma espécie de silêncio contra a “universalidade” da poesia e a influência da “cultura popular” – isso faz deste livro uma pérola. A poesia vale também pela sua resistência ao ruído. Pelo seu silêncio.

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Harry Dean Stanton Band.

por FJV, em 18.09.17

Quantos descobriram a ‘Canción Mixteca’ (de José López Alavez, no início do século XX) através da versão de Ry Cooder, em Paris, Texas (1984), o filme de Wim Wenders? Bastantes. E do rosto de Harry Dean Stanton, a estrela discreta e, em simultâneo, poderosa, interpretando aquele papel abandonado de Travis ? Quase todos. A sua carreira foi toda ela feita de papéis secundários – os grandes pilares do cinema, os coadjuvantes indispensáveis, as estrelas distantes sem as quais não brilham as outras. Mas Stanton nunca teve razões de queixa: ele era assim: secundário, coadjuvante, de poucas palavras, escolhido por realizadores como Coppola, Ridley Scott, John Carpenter, David Lynch, Sean Penn ou Scorsese. Não há rosto “americano” tão pouco “americano” no cinema. Recomendo que o vejam também num western improvável, Duelo no Missouri (de 1976), ao lado de Marlon Brando e Jack Nicholson – e escutem a Harry Dean Stanton Band, para perceber essa mistura de blues, rock e música texana. Morreu na sexta-feira aos 91 anos (nasceu em 1926), um fumador inveterado e um rosto como não há mais.

[Da coluna do CM]

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A fartura de votos que se deseja para a República em dia de futebol.

por FJV, em 15.09.17

A Comissão Nacional de Eleições zela por nós com um desvelo de jardim-escola, definindo o que devemos e não devemos fazer no dia das eleições. Nada de futebol nesse dia; nem sexo, nem carnes vermelhas, nem saltar ao eixo – só eleições. Qualquer outra atividade pode “potenciar a abstenção”. Como somos gente que se distrai por tudo e por nada, o governo prepara-se para “proibir espetáculos desportivos em dia de eleições” – o que se aceita desde que, no resto do ano, se proíbam políticos de se ameijoar na tribuna dos estádios a dar abracinhos aos dirigentes do futebol. Peço humildemente ao governo que na sua lei não se esqueça de mandar encerrar os cinemas e os teatros, bem como livrarias, cervejarias de bairro, restaurantes tailandeses e bares de strip-tease. Em caso de eleições durante o estio, vede-se o acesso às praias ou expulsem-se os banhistas a partir do meio-dia; durante a invernia, as autoridades podem perfeitamente proibir a chuva e os passeios à Serra da Estrela (para onde, já agora, serão desterrados os que faltarem a sessões no parlamento para ir ver jogos de futebol).

 

[Da coluna do CM]

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Le Carré, o regresso

por FJV, em 08.09.17

Passam 27 anos de ausência sobre George Smiley, o espião e prestidigitador criado pelo grande talento de John Le Carré – a sua última aparição foi em Peregrino Secreto, um livro de celebração da literatura de espionagem e dos seus heróis. Ontem, em Inglaterra, com A Legacy of Spies (no próximo ano em Portugal, pela mão da D. Quixote), George Smiley regressou ao convívio dos seus leitores. A expressão não dá conta da beleza do momento; Smiley não é apenas um equilibrista no mundo da espionagem britânica, um homem discreto e sábio, atormentado e vulnerável, que acreditava numa Europa capaz de justificar o confronto da Guerra Fria (e, pessoalmente, com Karla, o chefe do KGB) – ele é um personagem literário marcante. A trilogia composta por A Toupeira, O Colegial Ilustre e A Gente de Smiley é um legado maravilhoso – que começou em 1961, na sua primeira aparição em Chamada para o Morto – que aguardámos durante estes anos em que Le Carré, tal como nós, não conseguiu esquecer esse personagem tão poderoso. A sua biografia é um elogio à tremenda beleza da conspiração.

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O sonho americano.

por FJV, em 07.09.17

Em determinada passagem de O Fantasma de Harlot, um maravilhoso romance de Norman Mailer sobre a CIA, os Kennedy e os falhanços da América, há um encontro entre dois espiões – um russo e um americano (Harry Hubbard, o protagonista). O soviético está convencido de que a URSS é um tormento, mas não desertará para a América (ao contrário de Hubbard, que se refugiará em Moscovo) que, diz ele, profeticamente, já não é a casa do sonho, dos inventores, do barroco criativo, da arquitectura humanista. Ele quererá dizer que já não é a América de John Hay ou Henry Adams, por exemplo. Por isso, a decisão da administração Trump em acabar com a “lei dos sonhadores” (ou seja, os 800 mil jovens chegaram ao país indocumentados quando eram crianças) não é apenas o incumprimento da promessa de nacionalidade; é a perversão da “grande ética americana”. Os republicanos, esquecendo que foram eles a imaginar essa América, entregaram-se a um bando de ignorantes e a uma casta de obtusos. Ao assinar este decreto, o governo envergonha os republicanos de há um século e a América de sempre. Trump acabará mal. 

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O soviete de Petrogrado.

por FJV, em 05.09.17

Assim dá gosto. Jerónimo de Sousa não desilude quando é preciso pôr os pontos nos is. A ideia de que o líder comunista poderia, ai de nós, “suavizar” o discurso ou reconhecer alguns dos “excessos” estalinistas, é absurda. O grande mundo do socialismo não o abandona, como se vê pelo discurso na festa do Avante: dele participam os fantasmas reunidos antes do “degelo” de Krushev e depois da subida ao poder de Brejnev. É bom saber com o que contamos: Jerónimo de Sousa de braço dado com Lysenko e Beria, com Lenine e (ah, que sonho) Dzerjinsky, o fundador da Cheka, evocando a dinastia de heróis da Coreia do Norte ou no Camboja (Pol Pot e o regime Khmer merecem uma moldura), como um marxista-leninista tão ortodoxo como um pijama às riscas, dançando uma cumbia na Venezuela ou nadando no Yangtsé ao lado de Mao. Nada de graçolas: Jerónimo de Sousa não vê necessidade de encontrar exceções ou adversativas; isso é admirável na sua figura. Num mundo de falsos “modernos” e hipócritas, Jerónimo não é politicamente correto: ele sonha com o soviete de Petrogrado e com as purgas de Estaline.

[Da coluna do CM]

 

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Abrir a porta e dar um passo em frente.

por FJV, em 04.09.17

Há um fenómeno curioso na direita portuguesa – a sua cruel indigência inteletual. Vemos na televisão alguns dos “grandes comentadores” terçarem armas pela sua donzela e respetivos territórios: “a economia”, o défice, as exportações, as empresas, as operações financeiras, ocasionalmente a política. Matérias que nos interessam (há vinte anos que os telejornais são um prodigioso instrumento de manipulação através dos números). Negócios em primeiro lugar – e “colaboração” com o Estado, uma espécie de elefante da Índia que se maneja a espaços, e que é preciso defender com solenidade e sem asma, de tal maneira que conhecem bem a expressão “dormir com o inimigo”. Mas, tirando isso, os “senadores” ajeitam o nó da gravata e acham que tudo o resto são tropelias das quais estão defendidos e um terreno ao qual não querem “descer”. Acontece que “o mundo dos negócios” (leiam Balzac) dorme com quem lhe ajeita os lençóis e lhe promete tropelias. A liberdade, por exemplo, não é um assunto popular entre nós. A maior parte dos “senadores da democracia” atravessou o último século sem uma ideia na testa.

[Da coluna do CM]

 

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Coisas adoráveis.

por FJV, em 31.08.17

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coisas que acontecem à sexta-feira. Em duas linhas: Sara Carbonero publicou uma fotografia com peluches (animais!, animais!) na sua conta pessoal no Instagram. O resto é maravilhoso: leia e confira como dá vontade de rir.

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